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Políticas, economias e ideologias

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A democracia brasileira a um passo do precipício…

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Bem, os neoudenistas da imprensa já deixaram cair a máscara, agora querem o golpe. Sobre a cínica fachada de que são contra a Intervenção Militar, o que os tucanos dizem com pouco disfarce é que o único golpe que lhes interessa será aquele que os coloque no poder. Dizer que os tucanos tem qualquer prurido democrático é fechar os olhos as declarações de Serra no Clube Militar em 2010, ou achar que são coincidências as frases lacerdianas repetidas por Aécio como “mar de lama” e “organização criminosa no poder”.

Obviamente, o que está em marcha, como bem analisou Paulo Henrique Amorim, não é um golpe militar, mas um golpe judicial, isto é, o “golpe paraguaio” que derrubou o presidente Fernando Lugo. Tudo, para forçar o mínimo de efeitos colaterais que um golpe clássico poderia sucitar, seja internamente, seja externamente. O golpe paraguaio é o modelo perfeito de modo a perpetrar uma ilegalidade através da autoridade legal. Nesse exato momento, Gilmar Mendes, o ministro do STF escolhido por FHC e que atua abertamente como militante tucano, está para despachar, sem sombras de dúvidas, a negação das contas do PT, mesmo tendo cumprido todo o trâmite legal. Não importa, está feito.

O mais grave é como o setor mais radical do petismo, os blogueiros, se apega a uma ilusão chamada de ley de medios, responsabilizando a covardia do PT em enfrentar os meios de comunicação capitalistas. Obviamente, o PT tem muitas falhas, mas se o PT de fato detém a presidência da república desde 2002, em nenhum momento conquistou o governo federal, o governo federal é a soma da base de aliados, e isso significa boa parte do PMDB conservador e outros partidos. Isso é um fato e um fardo, o PT poderia ceder o poder ao PSDB, alegando que não teria uma correlação de forças necessária para fazer reformas (como de fato nunca teve), ou teria que ficar nesse atracamento diário para poder avançar o máximo que puder. Diante dessas opções e considerando os avanços sociais, eles estavam errados?

E o que tem que ser dito que a ley de medios ou lei alguma vai ter peso no resultado, o PT tomou atitudes dúbias e fracassou totalmente em criar qualquer alternativa de comunicação em resposta a camarilha midiática tucana, mas a questão é muito mais profunda do que um mero debate sobre monopólios e acovardamento do PT. O erro do PT e de sua ala radical é simplesmente declarar como inexistente a luta de classes, como se não fosse exclusivamente ela a orientação e a motivação de toda essa mobilização anti-petista. Ao censurar a luta de classes, abriram caminho para que a direita pautasse a sociedade sem sucitar disconfiança, porque afinal, todas as classes querem o mesmo bem para o Brasil, não tem interesses conflitantes. Parece, que o neoudenismo e o neotrabalhismo estão irmanados em repetir a história.

O PT se tornou uma solução neotrabalhista para o século XXI, o problema é que a conciliação de classes exige sempre dos trabalhadores a obrigação de ceder para conquistar a conciliação, transformando o poder no Brasil em um alvo fácil de chantagens da direita. Agora vivemos essa armadilha, deverá o PT abaixar a cabeça e torcer para que o golpe fracasse? Ou deverá radicalizar e ser responsabilizado pela situação? Adimitamos, não existe resposta fáceis para a situação. Todos os erros políticos do PT já ocorreram, não adianta chorar o leite derramado, a questão é: como responder a escalada golpista? Radicalizar ou apaziguar? Em outras palavras, ir para uma luta de classes aberta ou escamotear ainda mais a luta de classes? A opção que o PT assumiu, mais uma vez, foi apaziguar.

Vi um vídeo de análise do Ruy Costa Pimenta do PCO que considerei bem coerente [1], e ele foi lacônico, ele afirma que a política da direita sempre foi o golpe. E olhando retrospectivamente, de fato, em nenhum momento podemos falar que eles aceitaram em nome da democracia perder alguma grama de poder, que seja. A democracia foi nas mãos da direta sempre e sempre desgastada (antipolítica) ou sabotada (proconsult, debate lula-color, domínio do fato, etc). Afirmou também o conceito de Trotsky de que a democracia é uma ilusão e que a posição lúcida seria a defesa da ditadura do proletariado.

A democracia como conhecemos, regada a financiamento de empresas, assediada por lobbies empresariais e pautada pela imprensa capitalista, realmente, não pode ser outra coisa do que uma democracia de mentira. O problema que hoje, nem mesmo como uma democracia disfuncional podemos reconhecê-la quando era dito que a social-democracia/keynesianismo cooptavam os trabalhadores através de melhores padrões de vida, hoje, sob o neoliberalismo, não há mais cooptação além da propaganda, e como ela está sozinha nesse papel, se radicalizou e se corrompeu de tal modo que não é mais um jornalismo tendencioso apenas, é propaganda mesmo.

A questão que surge é: o que fazer? O PT/Dilma está simplesmente cedendo poder para acalmar os financiadores dos golpistas (mercados), considerando que basta Dilma terminar o governo que a eleição de Lula é quase certa, ao mesmo tempo que toma atitude de avestruz, deduzindo que ficar calada seria uma forma de “desescalar” o conflito. Claro, a maior parte dessas descisões passa por ter que gerenciar sua base, que é a parte mais problemática da coisa. Por outro lado, sair a rua para defender Levy, Kátia Abreu, arrocho fiscal?

Mas há um ponto que une todos, mesmo os antipetistas que recharçam o golpe: a democracia. A sociedade deve se mobilizar, não pelo governo, ou pelo PT, ou por Dilma, pois tudo indica que será um governo ainda mais acuado do que o anterior, mas para dizer em alto e bom som que nenhum golpe será tolerado, que a soberania das urnas será cumprida, e que a única via aceitável de tomada de poder deve ser através da maioria. E a grande vitória dessa mobilização será embargar de uma vez por todas as vias golpistas em andamento. Se isso não for feito, então o golpe paraguaio está consumado, comecemos a contagem regressiva…

Era uma vez uma democracia…

[1] https://www.youtube.com/watch?v=n5rIy17Ls8Y&list=UUEaXaeR0DL62WwRlR2EMxEQ

Written by ocommunard

9 de dezembro de 2014 at 15:30

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Alguns comentários a mais sobre ideologias

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Caro Fernando, aqui vai apenas alguns comentários sobre seu último comentário que publiquei no blog, que no geral, concordo, mas em termos.

Você afirma que a dialética pertence ao campo da lógica (de acordo) e que portanto, se relacionaria a interpretação (parcialmente de acordo, pois a lógica tem de reproduzir conexões reais), e que se os bolcheviques reduzissem as contradições operário-camponesas a um método sociológico seria um mecanicismo. Dizer que o homem sente fome se ficar muito tempo sem comer ou que engorda se ficar muito sedentário, poderia ser chamado de “absoluto” ou “mecanicista” baseado nesses termos. Mas o que entendo por “mecanicismo” se aplicaria a essas frases:

“Porém, na dialética, não se trata de as forças opostas se liquidarem mutuamente, mas formarem uma determinada síntese, uma totalidade específica.”

“Na análise da realidade russa, interessava compreender que síntese era aquela que se podia formar.”

Perceba que uma tensão histórica concreta é “interpretada” como uma “compreensão” de “forças opostas” em busca de uma “síntese”. As críticas de Marx aos “ideólogos”, sobretudo, os neo-hegelianos, vai em ironizar esse tipo de abordagem, que repito, foi recauchutada pelos “marxistas” como Zizek. Para Zizek, por exemplo, o que vivemos hoje é apenas uma “agonização” de “estruturas ideológicas podres”, nada a ver com greves na Grécia, desemprego na Espanha, partidos, sindicatos, lideranças, movimentos, realidades. Apenas, “ideias” se contorcendo em busca de uma “síntese”? E ele se diz um “marxista ortodoxo”. Vou lhe dar um bom exemplo de uma “interpretação marxista” frente a um texto de Marx. Agora cito Marx:

“A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica.”(Teses sobre Feuerbach, II. Marx)

Práxis em Aristóteles, cujo Marx era um grande conhecedor e admirador, inclusive era fluente em grego, significa “atividade humana”. Mas para Gramsci, um dos mais renomados “marxistas”, isso era pouco, então ele criou a “filosofia da práxis”. Citarei aqui o site Acessa.com apenas como ilustração da definição:

“Concluindo, a filosofia da práxis é, para Gramsci, construção de vontades coletivas correspondentes às necessidades que emergem das forças produtivas objetivadas ou em processo de objetivação, bem como da contradição entre estas forças e o grau de cultura e de civilização expresso pelas relações sociais.” (http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=642)

Veja o quanto de mistificação um “marxista” nos oferece, mas se entendemos a práxis apenas como “atividade humana”, podemos entender que Marx relaciona a “realidade de um pensamento” ao critério da “atividade humana”, um passo adiante ao “empirismo”, pois nos dá uma noção dinâmica e viva do conceito e elimina todas as especulações inúteis de provar a objetividade/verdade de uma teoria através de outra teoria. É real? É objetivo? A atividade humana é o critério, a práxis é o critério. E que tipo de ciência trata da atividade humana? A história.

Tudo que você defendeu como “fórmula política funcional” se aplica a um lema de Lênin muito conhecido que afirma que “não existe revolução sem teoria revolucionária”. Primeiro, isto não só é equivocado, é paradoxalmente oposto as bases mais básicas do método “materialista-histórico-dialético”. Uma teoria revolucionária é forjada em condições revolucionárias. O jacobinismo foi produto e não produtor ou co-autor da revolução francesa, os bolcheviques sequer existiriam, foi resultado da cisão do Partido Social Democrata Operário Russo, que não cindiu siplesmente por que quis, se cendiu provocado pelas circustâncias dramáticas que dinamitou a unidade do partido.

Será que os bolcheviques existiriam se a primeira e segunda revolução russa tivessem cumprido suas promessas básicas? Outra contradição flagrante de ler a revolução russa através de textos bolchevistas e sem rigor historiográfico é a própria revolução, a Revolução Russa foi a mais flagrante negação do leninismo/bolchevismo. Senão vejamos:

1. Partido de Vanguarda
Lênin defendia no seu conceito de Partido de Vanguarda que os trabalhadores por si só não iriam além do sindicalismo/reformismo (provavelmente, uma leitura superficial da Alemanha da época), que caberia a um auto-intitulado partido de vanguarda introduzir “por fora” o socialismo. Primeiro, isso contraria o conceito de “auto-emancipação” defendido por Marx, Marx afirmava que a tarefa de emancipação dos trabalhadores é tarefa dos trabalhadores. Segundo, os russos criaram os soviets, não só não se resumiram ao sindicalismo, como foram os soviets que organizaram a revolução de Outubro. Qual a palavra de ordem da revolução que o próprio Lênin bradava? “Todo poder aos soviets!”. E quem fez o soviets? O partido de vanguarda ou espotaneamente os proletários russos?

2. NEP/PERESTROIKA/SOCIALISMO DE MERCADO
NEP sucedeu ao comunismo de guerra, o que precisa ser dito, e que o próprio Lênin admite, é que simplesmente se tratava de uma economia de sítio (como ainda sofre Cuba com o bloqueio estadunidense). NEP ou o “comunismo de guerra” não tem nenhum significado a não ser do que um grande programa de experimentações para sobreviver o cerco econômico que vivia a Rússia de então. Essa é uma constatação factual, qualquer querela sobre se a NEP foi uma concessão capitalista ou camponesa, ou se o “comunismo de guerra” era comunismo ou racionamento é “escolástica”. A questão fundamental é que a influência bolchevista foi resultado do poder que eles conquistaram, da mesma forma Gramsci só virou uma grande influência em razão da força que um dia teve o partido comunista italiano, considerado então o maior partido comunista do ocidente.

O problema desse debate é essa inversão, talvez a psicologia explique: o que a história poderia nos ensinar é apropriada por algum “sábio” proferindo fórmulas, como se o sucesso da revolução russa fosse resultado das boas teorias bolchevistas, que como visto no ítem anterior, foi justamente o oposto. E Marx mais uma vez é aqui um pensador perspicaz a sempre nos ressaltar o que é realmente relevante e a desmoralizar esse tipo de abordagem.

Porque ressalto isso, porque essa mistificaçã é que faz com que a classe trabalhadora sem aprender praticamente nada do seu passado, sem acumular experiência nenhuma. Está sempre partindo do ponto zero em cada país. Claro, que há muitos autores, mesmo “marxistas”(Perry Anderson, Hobbsbawn, David Harvey, etc) e não-marxistas (Chomsky) que nos oferece o direito de aprendermos com a nossa própria história, mas essa “peste” é um desafio mais difícil do que nos livrarmos de outra peste, muito pior, o stalinismo.

COMENTÁRIOS FINAIS – SOBRE O DOGMATISMO
Expresso total acordo com suas palavras sobre o dogmatismo, ainda que discorde de sua interpretação das incoerências de Lênin como “adaptações”, “mudanças”, etc. Precisamos chegar a um acordo de que Lênin foi um grande líder e ponto. Que seus conceitos e seus livros foram panfletos e não ofereceram nenhuma contribuição, e que sua tese principal, de que uma economia pré-capitalista poderia ousar uma revolução comunista, fracassou. E quem defendia o oposto a isso era o próprio Marx, nada mais.

Só que, para que fique claro, a revolução russa alcançou essa via, tal como a chinesa e a cubana, não porque seus líderes fossem lunáticos idiotas sem conhecimento da necessidade de um capitalismo avançado para construir o comunismo modeno, houve 2 revoluções com aliança de classes na Rússia, e a burguesia russa traiu implacavelmente os trabalhadores. Na China ídem, houve uma revolução burguesa que imediatamente se voltou contra os trabalhadores. Em Cuba, a primeira fase da revolução foi nacionalista, mas logo assumiu um caráter comunista dado a reação estadunidense. Todas essas três revoluções clássicas comunistas do século XX foram impostas pelas circunstâncias, não pela teoria nem pelo voluntarismo. A lição que tiramos dela é que elas souberam se voltar para suas realidades locais e cada uma dela, a seu modo, rompeu noções pre-concebidas e não importaram fórmulas, mas, infelizmente, quiseram exportá-las, com a URSS exportando o leninismo/partido de vanguarda, a China exportando o maoísmo/revolução camponesa e Cuba exportando o guevarismo/foquismo. Mas não sei se são responsáveis pela exportação, ou se, de fato, os importadores são os responsáveis. (No Manifesto Comunista tem uma crítica em relação a importar literatura socialista ignorando a realidade local).

Karl Marx continua a ser um autor que mais contribuições oferecem, isso é algo ruim, pois significa que ficamos ainda carente de autores de dois séculos atrás. Marx nos oferece sobretudo uma capacidade de leitura dinâmica dos acontecimentos, entendendo suas causas, suas conexões, sua dinâmica (luta de classes), compreendendo o movimento em conjunto e centrando no ponto fulcral: “abolir a propriedade privada capitalista”. Esse é o ponto que separa todas os outros “partidos trabalhistas”, mesmos os revolucionários, do partido comunista. Ou em outras palavras, “a abolição da exploração do homem pelo homem”. E qual o meio para alcançar isso? Para Marx esse meio é a emancipação, tarefa da própria classe trabalhadora. Revolução e reforma são causados pelas condições objetivas e o nível de consciência crítica é também resultante das crises.

Condições objetivas não é algo “mecânico”, porque tudo é práxis, tudo é atividade humana, uma nota de dólar não é um pedaço de papel místico com propriedade inatas de valor, é um pedaço de trabalho humano reificado, é feito concretamente, sem romanceamento ou frases bombásticas, de sangue, suor e lágrimas de milhões de trabalhadores explorados, massacradas e reprimidos, que o diga a América Latina. A práxis (história) é o critério epistemológico que prova essa verdade, principalmente, nas ditaduras anti-comunistas do século XX.

P.s.: a partir dessa postagem continuaremos nossa conversa apenas através das caixas de comentários, ficará mais dinâmico.

Written by ocommunard

25 de novembro de 2014 at 16:39

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Réplica do Fernando, ainda sobre o stalinismo

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Reproduzo adiante o comentário completo de Fernando em resposta da minha última postagem Stalinismo em debate: em resposta ao Fernando.

“Companheiro Communard, primeiramente gostaria de agradecer-lhe a resposta, e me desculpar pela demora em respondê-la. Como o blog estava abandonado, não tinha certeza se receberia uma resposta, então não me dediquei muito a verificar. Vamos, então, a minhas considerações:

A dialética pertence ao campo da lógica, é uma maneira de traduzir a realidade na mente. Sua aplicação às questões históricas/sociológicas é o materialismo-histórico, e foi precisamente aqui que o questionei. Se a dialética, em si, nada tem que ver com as classes sociais, sua aplicação à interpretação da realidade social, o materialismo-histórico, por sua vez, tem tudo a ver com elas. Caso os bolcheviques reduzissem o método sociológico a um mecanicismo, considerariam a contradição entre o camponês e o operário como absoluta e, dessa forma, insolúvel, como se obrigatoriamente um anulasse o outro. Porém, na dialética, não se trata de as forças opostas se liquidarem mutuamente, mas formarem uma determinada síntese, uma totalidade específica.

Na análise da realidade russa, interessava compreender que síntese era aquela que se podia formar. Naquela situação concreta, a oposição entre aqueles dois atores sociais (camponês e operário) era atenuada por outras pressões materiais, permitindo uma composição revolucionária. Os bolcheviques tinham conhecimento de que a visão de mundo do camponês e do operário se opunham, almejando cada um certo tipo de sociedade. Porém, naquele momento concreto, seus interesses imediatos os aproximava.

Você admitiu, no ponto 2, que o conceito de Estado operário-camponês é uma fórmula política. Ela não se pretende conceito sociológico absoluto do “marxismo” (também desgosto do termo, prefiro “socialismo científico”), pois que depende de condições históricas concretas. Mas é um conceito “marxista” por excelência, no momento em que aplica a uma realidade concreta, uma fórmula funcional para as condições existentes naquele momento! Logo, a definição de “fraude política e sociológica” não se aplica. É um evidente exagero. Mas claro, não nos esqueçamos: a URSS buscou a todo custo exportar essa fórmula, negando seu aspecto relativo e tratando-o como verdadeiro dogma do marxismo (aliás, como com outros tantos conceitos…).

Nessa fórmula política, construída para viabilizar a revolução respeitando-se as condições existentes e ao mesmo tempo torná-la um caminho ao socialismo, a liderança dos operários está incluída. Posso publicar em outra ocasião trechos de Lênin e Trotsky que indicam isto claramente. Mas do que se trata esta liderança? Ora, garantir que nas instituições de representação e decisão, haja domínio da representação operária sobre a camponesa. Concretamente: que haja uma maioria de delegados, deputados, e etc. representando os interesses dos operários.

A fórmula bolchevique se manifestou com mais clareza na NEP. Como você bem disse, a reforma agrária é uma medida capitalista. Seu significado econômico é o desenvolvimento das forças produtivas no campo. Na situação concreta da Rússia, fazia-se necessário esse desenvolvimento, para que pudessem existir condições materiais para a passagem ao socialismo. Nesse contexto, a NEP significou em parte uma concessão aos camponeses, para manterem seu apoio ao novo Estado, e ao mesmo tempo, uma política de desenvolvimento econômico necessário para a passagem ao socialismo, o que dava a ela justamente seu caráter socialista e de política operária. Todo essa política era controlada por um Estado de maioria operária na representação, garantindo que o desenvolvimento econômico estivesse em função da passagem ao socialismo. Lênin fala, abertamente, que se estava a caminhar para o “capitalismo de Estado”, que para ele era uma etapa imediatamente anterior ao socialismo. Anterior, note-se, naquela situação, não para qualquer capitalismo de Estado. Pois ali, diferentemente de outros países, o Estado estava sob domínio operário.

Aludi brevemente ao ressentimento do camponês quanto ao Estado soviético não para resumir a contradição camponês-operário a uma questão psicológica. Apenas quis demonstrar que, ao fim e ao cabo, o Estado soviético seguiu uma política operária, resolvendo a contradição latente na aliança revolucionária em favor dos operários e contra os camponeses, o que só poderia ter sido feito através do domínio da representação operária no Estado. Não podemos esquecer que a Rússia era um país agrário e de maioria camponesa. É, inegavelmente, um feito político e tanto, que por si só valida a fórmula bolchevique para aquela realidade. Eu não ignoro, é claro, os defeitos da política soviética para os próprios trabalhadores, que culminará mais tarde na queda desse regime.

De resto, Marx nunca foi contra a composição de classes, contanto que se levasse em consideração as limitações e contradições dessas alianças. Com efeito, lemos no Manifesto: “Entre os poloneses, os comunistas apoiam o partido que vê numa revolução agrária a condição da libertação nacional, o partido que desencadeou a insurreição de Cracóvia em 1846. Na Alemanha, o partido comunista luta junto com a burguesia sempre que ela assume uma posição revolucionária, contra a monarquia absoluta, a propriedade fundiária e a pequena-burguesia.”

Para concluir, gostaria de comentar algumas observações suas muito pertinentes:

“Utilizei isso no argumento porque um elemento dominante do bolchevismo é o dogmatismo do tipo: a palavra de Marx é a verdade apenas por ser a palavra de Marx. Claro que considero Marx o maior intelectual da causa da emancipação proletária, mas obviamente rejeito esse dogmatismo, o valor da obra de Marx está no valor de sua contribuição, e não na autoria.”

Lênin era um homem bastante crítico, e com plena capacidade de alterar seus conceitos quando a realidade o exigia. Exemplo disso são as mudanças que vai aplicar à sua concepção de Estado, publicadas em “O Estado e a Revolução”. As ideias expressadas nesse texto serão renovadas, aprofundadas, modificadas ou adaptadas em diversos textos subsequentes, de após a revolução, quando Lênin se depara com a situação concreta de construir um novo Estado. Os leninistas, por outro lado, não fazem jus ao gênio crítico do revolucionário russo. Estes sim, são dogmáticos e nada dialéticos.

Estou inteiramente de acordo com o espírito anti-dogmático expressado não apenas neste trecho que selecionei, como naqueles em que questiona o stalinismo. Um grande mal do movimento socialista tem sido esse dogmatismo, em que as palavras de um autor possuem um valor maior do que a realidade concreta. Parece que a autoridade de Marx está dentro dele, e não na correspondência de suas ideias com a realidade. Tal situação gera o velho debate infrutífero sobre o “verdadeiro Marx”, onde se disputa o que Marx disse exatamente, e não a correspondência do que foi dito com o mundo que nos cerca! Surgem blocos de esquerda ou partidos incapazes de se associarem um com o outro, formarem uma frente combativa, pois discordam neste ou naquele ponto. Cada um ostentando sua fórmula mágica, a única que libertará o Brasil. Desnecessário citar, neste ponto, os stalinistas que, com meia-dúzia de autores, se apresentam como os defensores da verdade absoluta. Não sentem vergonha em deturpar a História, valendo-se de fontes as mais indignas. Sem falar na maneira como atacam Trotsky, a mais abjeta possível.

Deve-se tratar o “marxismo” como ciência, onde a primazia pertence não a determinados autores, mas ao próprio movimento do real. Nem Lênin, nem tampouco Marx, são inquestionáveis. Por isso, o espírito crítico que você demonstra, e a disponibilidade para o debate, são inspiradores. Agradeço novamente a presteza com que me respondeu.”

Written by ocommunard

25 de novembro de 2014 at 14:56

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Stalinismo em debate: em resposta ao Fernando

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Fernando levantou uma questão sobre um dos debates contra os stalinistas. Já havia me aposentado desse blog, mas volto a ele para responder, com muito prazer. Segue a íntegra do comentário.

“Na questão da aliança operário-camponesa, que você critica como fraude política e sociológica, não há mais que a aplicação dialética (e não mecanicista) do materialismo-histórico, a uma realidade histórica concreta. Analisou-se a composição de classes que imperava na Rússia czarista e quais as forças sociais que carregavam os germes da mudança. Citar a opinião de Marx sobre os camponeses de uma determinada realidade histórica e achar que se aplica a todas as realidades históricas não é mais que mecanicismo. Na Rússia da época da Revolução a demanda dos camponeses por reforma agrária era progressista e podia compor-se às demandas dos trabalhadores urbanos no processo de contestação do regime semi-feudal. Apesar desta aliança, que obviamente carregava contradições para o futuro, os bolcheviques sempre pregaram a liderança dos operários e seu domínio político sobre o Estado. Ainda que tivessem de abrir algumas concessões aos camponeses, a liderança política caberia incontestavelmente aos operários.

Tanto que é sabido o ressentimento do campesinato quanto às políticas industrializantes de que o Estado soviético se serviria mais tarde.”

Farei uma resposta rápida, sem citar referências, podendo haver alguma imprecisão aqui ou alí, mas bucando o cerne. Posso destacar alguns pontos da argumentação do Fernando:

1. O equívoco do meu argumento está na “aplicação mecanicista” ao invés de “dialética do materialismo-histórico. Para você, essa aplicação dialética significa levar em conta as realidades históricas.

2. De que a viabilidade dessa aliança está na demanda progressista da reforma agráfia. De que os bolcheviques sempre pregaram a liderança operária nessa aliança operário-camponesa.

3. Que admite, ao menos em parte a contradição, no ressentimento do campesinato contra a industrialização que se seguiu na ex-URSS.

Respondendo, prolixa e rapidamente…

1. Sobre o materialismo-histórico-dialético

Essa vai ser a resposta mais alongada. É importante ressaltar que essa epistemologia hoje está tão difundida no senso comum e nas ciências sociais (exceto economia), que talvez seja pouco relevante destacar. As ciências sociais de hoje são materialistas (não acreditam que a realidade social é plasmada por espíritos ou ideias, mas no estudo empírico), são históricas (não deduzem teses naturalistas-especulativas, o direito natural é piada, o contrato social é um mito, etc). E temos a dialética, acho que mesmo o pensamento dialético não estranharia o senso comum, acho que qualquer um admitiria hoje o que Marx disse que a liberdade não é uma utopia do faça o que quiser (sim, eu sei, é uma simplificação, mas serve como ilustração), mas depende das condições legadas, objetivas e contextuais. É algo bem intuitivo, a meu ver, pelo menos para um “proletário” como eu.

Ao defender uma leitura “social” ou “sociológica” estou priorizando justamente a realidade específica, eu utilizo a afirmação de Marx sobre o campesinato reacionário que votou em Luís Bonaparte, mas também Marx ressalta que há também o campesinato revolucionário. Utilizei isso no argumento porque um elemento dominante do bolchevismo é o dogmatismo do tipo: a palavra de Marx é a verdade apenas por ser a palavra de Marx. Claro que considero Marx o maior intelectual da causa da emancipação proletária, mas obviamente rejeito esse dogmatismo, o valor da obra de Marx está no valor de sua contribuição, e não na autoria.

Portanto, aplicar a dialética não significa transpor uma realidade para outra, isso seria mais exatamente aplicar o historicismo ou materialismo, não a dialética, a dialética significa compreender a relação ao mesmo tempo oposta e recíproca entre as condições objetivas e subjetivas (infraestrutura x superestrutura), economia x política, etc. A dialética de Marx nada tem a ver com as diferenças das classes sociais, ainda que a luta de classe seja uma relação dialética, mas talvez esteja certo se estiver considerando uma luta de classes entre operários e camponeses, mas essa tensão não foi omitida, pelo contrário, eu a destaquei a primeiro plano ao questionar o “operário-camponês” de Lênin.

2. Aliança/Liderança da Ditadura/Democracia do Operário/Camponês

Se o operariado iria liderar uma aliança, ainda que liderar seja uma palavra muito vaga que pode significar tanto dominar quanto apenas inspirar, não podemos falar certamente de uma aliança que supõe repartição do poder. Se os bolcheviques defendessem essa liderança, ele teria de dizer com todas as letras: ditadura do proletariado. Mas sim, é claro, isso teria custos políticos para o apoio do campesinato, e sim, as condições objetivas/socais da Rússia estava a léguas não só da viabilidade da ditadura do proletariado, quanto da viabilidade de qualquer outra dominação. O erro leninista é tentar misturar água com vinho, uma coisa é a velha conciliação de classes, uma “frente popular”, outra coisa é querer enquadrar isso com um conceito “adaptado” de ditadura do proletariado. Lênin era um líder, um político, um agitador, um panfletário, não era e nem precisava ser um pensador/intelectual. Mas os leninistas acham que Lênin, para ter reconhecimento sobre sua contribuição na revolução, precisa ser considerado um guru infalível sobejamente sábio.

3. O ressentimento anti-industrial camponês

Qualificar essa tensão como um problema psicológico de ressentimento é, isso sim, rejeitar o materialismo histórico dialético, a tensão está objetivamente dada pela forma como cada classe social se organiza e posiciona socialmente. O próprio Lênin ou Trotsky, não tenho a fonte aqui mas posso pesquisar depois, afirma que a aspiração de um camponês é se tornar um pequeno proprietário, essa é ambição da reforma agrária, que é uma reforma capitalista! Essa não é uma contradição ideológica, é uma contradição real, concreta, dos limites e possibilidades de uma revolução social naquela Rússia destroçada pela guerra inserida na economia capitalista internacional naquele contexto dado. Reduzir isso a princípios, valores, ideias, voluntarismo, projetos é o que chamam “marxismo”, que a meu ver é a total deturpação das contribuições de um certo Karl Marx (ele próprio rejeitou e denunciou o termo ). A revolução é um fato social dialético, causado por fatos sociais históricos, explicado por fatos sociais materiais (não-ideológicos), não um programa político. Isso tudo está fartamente documentado nas obras de Marx e Engels, o problema que essa contradição é milagrosamente invisível para o que é considerado marxismo, isto é, tudo que foi produzido por Lênin, Trotsky, Luckacs, Gramsci, Althuser, Zizek. Que nada mais é do que uma espécie de transfiguração idealista das formulações rigorosamente materialistas de Marx.

A questão que sobra é, então Marx tem sempre razão? Claro que não é essa a questão. A questão é qual desses autores tem concepções minimamente coerentes com Marx apesar de se denominarem marxistas, o que me faz crer que marxismo e Karl Marx são coisas antagônicas. O segundo ponto é, qual desses muitos autores nos oferece melhor compreensão dos fatos históricos que se desenrolam na época em que vivemos. Se Lênin defende a ditadura/democracia do operário/camponês, há dois problemas, o primeiro é a contradição interna de defender isso como algo coerente com o que escreveu Karl Marx, o segundo é colocar a prova histórica o conceito de Karl Marx sobre ditadura do proletariado e o conceito de Lênin sobre ditadura democrática do operário-camponês (e mesmo o conceito de Lênin sobre ditadura do proletariado, que para ele é o mesmo que ditadura do partido comunista).

Não quero cair na argumentação superficial do “Marx foi traído”, porque isso cairá na armadilha dogmática. O que quero destacar é que a contribuição de Marx nos permite uma compreensão racional de tudo que ocorreu na Rússia, não só porque a revolução foi lá, como porque ela fracassou. Já as teses de Lênin não sobrevivem nem entre as obras de Lênin e culminou no que vemos. Cito Lênin, porque ele é o pai de todos os marxismos, apesar de achar que em Trotsky se salva alguma contribuição, como a teoria do desenvolvimento desigual e combinado e a revolução permanente, que são declaradamente apenas um aprofundamento de contribuições de Karl Marx sobre a distribuição internacional do trabalho e sobre uma reflexão sobre a posição dos comunistas sobre a aliança de classes em um período revolucionário.

p.s.: como estou no trabalho agora, aproveitando o horário de almoço para fazer essa postagem, portanto, sem muito tempo, posso editar depois adicionando as referências e links, caso se mostre necessário.

Written by ocommunard

13 de novembro de 2014 at 15:05

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Dilma, a hora da verdade…

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O ano de 2013 é um grande desafio, já que as forças contra-reformistas só tem no fracasso do governo alguma chance de respirar. O governo, no entanto, tem de observar atentamente, com o máximo de autocrítica, o que o fez perder em sua meta de crescimento e o que fez manter seu êxito social (peça essencial para a reeleição).

Ao sacrificar 50 bilhões para o culto neoliberal do corte de gasto, prejudicou gravemente a demanda agregada, o que fez desarticular progressivamente as espectativas do capital, que foi encolhendo seus investimentos. Por outro lado, ao derrubar os juros e derrubar o custo de energia para a indústria, atinge em gargalos importantes para garantir o crescimento nesse ano.

Marx estabeleceu como critério de desenvolvimento civilizatório as forças produtivas, esse é o fato fundamental que condiciona os outros como demanda, investimento, etc. Antes de mais nada deve se destacar a grande vitória da economia nacional com a conquista de juros baixos (uma revolução na área), seus bons efeitos em parte só serão sentidos nesse ano e em parte depende de outras iniciativas.

I – POLÍTICAS

1. Política de Demanda

A boa autocrítica é puro autoconhecimento, o grande êxito desenvolvimentista de Lula foi respaldado nas políticas sociais e nos gastos públicos (quando o governo, contra a crise, assegurou maiores gastos para reanimar a economia, no ano seguinte a economia cresceu 7%), isto é, estimular demanda por desoneração não só é equivocada, como pode ser contraproducente, pois se é equivocado por apenas aumentar a margem de lucro sem crescimento orgânico, enfraquece a receita pública que poderia ser canalizada nos investimentos infraestruturais.

O autoconhecimento, nesse caso, é perceber como as políticas sociais operam como um instrumento de estímulo de demanda anti-inflacionário ou ao menos pouco inflacionário comparado aos outros meios. As camadas mais baixas, quando aumentam o seu poder aquisitivo, continuam consumindo com o máximo de parcimônia (não estimulam a inflação de demanda), enquanto as camadas médias apenas migram seu padrão de consumo (do básico para o luxo) ou relaxam na pesquisa de preços. O incremento de renda das camadas médias geralmente, também, expatria seu consumo (o excedente de renda o estimula aos importados), o que não ocorre nas camadas mais baixas que partem do primeiro nível de consumo.

O governo, portanto, tem de erradicar imediatamente todas as suas políticas de incentivos ao consumo não focado na distribuição de renda (classes baixas), que deve ser considerado como desperdício  focando no combate a miséria, distribuição de renda, etc. Estamos falando de uma iniciativa que já deu certo no próprio governo do PT.

Uma sugestão seria evoluir “bolsa família” para um modelo sofisticado de “renda básica de cidadania”, contra argumentando a provável campanha contrária da direita, a origem norte-americana da ideia deve ser o carro chefe da campanha. O “renda básica de cidadania”, associada a um incentivo ainda maior a educação, condicionando seus pagamentos a vida escolar, a formação técnica e a pesquisa em universidade.

2. Política de investimento

O grande erro da renúncia fiscal da linha branca e automóveis é que significa simplesmente em ampliar as vendas sem aumentar os estoques (isto é, sem crescimento orgânico), portanto, o foco deve se transferir da desoneração fiscal para uma espécie de desoneração de investimento, de modo que as empresas privadas sejam estimuladas a investir. Os riscos de sobre-investimento (sobreprodução) é vantajosamente compensados pelas políticas de demanda (sobretudo, as de inclusão social e distribuição de renda), assim, as políticas de demandas agem como política anti-cíclicas não recessivas.

O governo pode ainda estabelecer, via Embrapi (Emprapa da indústria), uma espécie de selo que autentique o bom uso gerencial dos investimentos, habilitando tecnicamente o acesso aos incentivos fiscais no investimento. Isto é, significaria mais e melhor investimento privado.

Por exemplo, uma das formas de desonerar o investimento é desonerar a importação de capital fixo, investimento em capital humano (pesquisa e desenvolvimento), etc. Com isso, se criará um círculo virtuoso com a renúncia fiscal e o investimento que promoverá com mais eficiência o desenvolvimento das forças de produção.

O governo deve ainda reorganizar o CNPq para que possa ser mais eficiente em prover a sociedade soluções para os desafios de governo, como a educação, tecnologia, desenvolvimento, integração, etc. Tem que desburocratizar essas pesquisas e exigir dela um efetivo legado ao sociedade. Os temas mais teóricos/científicos/acadêmicos devem ficar restrito a pós-graduação (mestrado, doutorado, etc).

3. Política de poupança

Se de um lado o governo deve incentivar o consumo das camadas mais baixas (por ser pouco inflacionário, pouco importável, etc), por outro lado, o governo deve estimular a poupança das camadas médias e altas. No caso da camada média, consumo e poupança devem ser estimulados de modo equilibrado, nas camadas altas a poupança deve ser explicitamente estimulada.

O governo está se embrenhando pela mesma lógica do reagnomics ao incentivar o crédito ao consumo ilimitado, foi o meio dos neoliberais estimularem a demanda sem apreciação salarial, nos EUA resultado disso foi uma endividamento colossal. O que compensou,no caso brasileiro, foi ter mantido o salário sempre acima da inflação e as políticas de distribuição de renda.

Portanto, o crédito ao consumo deve ter uma tendência restritiva (como política macro-prudencial) , mantendo na proa das políticas de demanda a distribuição de renda (por ter o melhor perfil), dessa forma, canalizando o crédito para outras áreas que não o consumo.

Assim, restaria a esse crédito excedente a produção e a especulação, a segunda deve também ser combatida. Um dos meios viria com ações mais enérgicas como o IOF cambial (para conter a especulação cambial) entre outras discutidas na minha sugestão de reforma tributária. Fechando as torneiras do crédito ao consumo e a especulação, a produção/pesquisa teria crédito barato em excesso para se financiar.

II – REFORMAS

O governo é heterogêneo,  isso significa que deve ficar claro que para o governo não há reforma ideal, há reforma possível, mas dentro do campo da possibilidade o governo pode alcançar grandes avanços que impacte em fortalecimento produtivo. As microreformas sugeridas aqui são reformas cirúrgicas com alto retorno e pouco custo político.

1. Reforma Tributária e Política Econômica

Garantir uma reforma tributária eficiente e possível exige a separação completa entre a questão da arrecadação com a modelagem. A arrecadação, por enquanto, não pode ser tocada para não provocar debates inúteis sobre novos pactos federativos. Tem de se deixar claro que a distribuição da arrecadação não será alterada (pelo menos, por enquanto). Assim, a reforma tributária deve se focar numa melhor qualidade do sistema tributário, migrando a desoneração da produção (para estimular o capital produtivo) pela oneração das finanças (para desestimular o capital especulativo) e do consumo (para desestimular o endividamento pessoal).

O governo pode dar ainda um passo a frente, estabelecendo mecanismos tributários para substituir a desastrosa política monetarista neoliberal. A política tributária seria estabelecida separando a cotação das taxas tributárias (como responsabilidade do executivo) e o teto tributário (definido pelo parlamento). O governo regularia as taxas livremente, mas dentro das margens de carga tributária definida no parlamento. O teto tributário teria o seu piso na lei do orçamento (que já é votado pelo parlamento) e uma margem mínima desvinculada(algo como 5%). O parlamento autorizaria ou não, em casos especiais (desastres, tragédias, etc), o aumento de tributação além da carga tributária estipulada.

Com isso o governo pode trabalhar com todo o sistema tributário, tal como agiu com o IOF cambial, como um meio não oneroso fiscalmente para estimular a economia. As política monetárias (neoliberais) e fiscais (keynesianas) frequentemente promovem contradição entre estímulo e saúde fiscal. A política tributária, por incidir sempre como arrecadação, superaria essa contradição. Essa remodelagem seria uma revolução macroeconômica notável, que poderia ser a base para estabelecer uma política macroeconômica comum na Celac ou no Mercosul.

2. Reforma Agrária e estabilidade monetária

A reforma agrária, enfim, deve ser compreendida como um imenso ativo econômico e não apenas um passivo social. Para tal, a atual reforma agrária deve passar por uma colossal autocrítica. Isso significa compreender um maior orçamento (pelo menos triplicar), focar em soluções e/ou experimentos focados na produtividade e viabilidade econômica, se basear no modelo tantas vezes defendido e ignorado de agrovilas com agroindustrias (o assentamento familiar é um ato de suicídio da reforma agrária), viabilizar toda a logística de escoamento produtivo, etc.

Em poucas palavras, a reforma agrária deve significar não só uma colossal justiça social, mas como um meio concreto de aumentar a produção agrícola, expermentar via Embrapa grandes experimentos de cultivo científico e com uma monumental política monetária, que ao aumentar a oferta de alimentos, regule para baixo um dos preços mais críticos da economia nacional. A refoma agrária deve ser entendida como uma oportunidade de aliar crescimento econômica via produção agrícola com política monetária estruturante, de longo prazo, além de aproveitaro imenso potencial agrícola inexplorado. Temos terras em abundância (somos uma das maiores extensões agriculturáveis do mundo), temos mão de obras querendo trabalhar (os sem-terra), temos expertize agrícola (Emprapa), só falta a iniciativa pública para tal, a coragem para gastar o que deve ser gasto para que a reforma agrária seja bem sucedida.

Written by ocommunard

1 de fevereiro de 2013 at 19:31

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Pondé e a miséria da filosofia (neoudenista)

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O “artigo” do “filósofo” Pondé, “Lincon, Obama e Bono Vox”, estabeleceu um novo subnível reluzente do grau de decadência intelectual da direita brasileira. Se o seu êxito estiver em chocar por sua vacuidade, ele é um sucesso cósmico e kármico. A tese do seu artigo é pregar histericamente que “Obama não tem nada a ver com Lincoln”. Quais argumentos? Tampe vossos narizes, lá vai…

Pondé declara que Obama quer se vender como Lincoln negro, mas para ele existe um impedimento: “festivo demais para sê-lo”. Algo que ele justifica afirmando simplesmente que Obama é “um Carter que tem a sorte de ser negro”.  É realmente lamentável e vergonhoso essas tentativas frustradas de Pondé criar frases de efeito, imitando estilo de Nelson Rodrigues.

Citar Pondé é impossível, onde fica o argumento em seus decretos berrantes, ela não demonstra, ele prega, talvez nem isso. O incrível é um artigo recheados de ataques vazios, com frases sem brilhos e plagiando estilos, fica muito óbvio o interesse de que, na rasteira do sucesso da cinebiografia, seu palavrório mine qualquer admiração ao “primeiro presidente negro” como efeito do cinema.

No texto ele chega a sugerir que ser negro em um país de passado racista é “sorte”, como se a cor negra lhe desse vantagens, como se o fato dele ser o primeiro negro presidente não demonstrasse justamente o oposto. Ele está muito irritado também com Bono Vox, porque consciência social para ele é algo muito chato, independente do que isso possa significar para as tais crianças famélicas africanas que ele esnoba e debocha.

Então começa a tecer alguma coisa parecida com uma “hipótese” com cara de “tese”, pelo menos para ele próprio assim lhe parece. Ao afirmar que o que estava em jogo  “não era a escravidão acima de tudo, era o Sul querer sair da União”, ele crê disparar um tiro mortal contra as similaridades político-ideológicas entre Obama e Lincoln, e sobretudo, os riscos destas semelhanças em promover Obama (eis a real questão que  o incomoda).

A historiografia ( e a atual cinebiografia) deixa explícito que já na reeleição de Lincoln a vitória do Norte estava garantida, e  vai além ao apresentar o interesse de Lincoln de alongar a guerra civil (evitando o acordo com os confederados) para usar o fim da guerra como pretexto para aprovar a abolição. A única contradição encontrada entre a cinebiografia e a historiografia foi centrar em dois personagens toda a luta abolicionista americana.

Lincoln não só alongou a guerra civil para garantir 13a emenda (como um conservador antipetista, 13 deve lhe dar calafrios), como inclusive subornou e comprou votos para que ela passasse (imagine aí para os mensalo-historiógrafos admitirem que compra de votos pode ser legítima em nome de uma grande causa como o fim da escravidão, ou para sermos mais recentes, o fim da miséria). Como declara um dos personagens do filme, Lincoln já entraria para a história se tivesse meramente se acomodado com a vitória da guerra de secessão, mas ele não se acomodou com isso.

Outra invencionice ponderiana é a de querer destruir a imagem de um “Lincoln liberal”, pois para ele “ser abolicionista, na época, não era ser liberal, pois Joaquim Nabuco” era “conservador”. Essa falácia infantil que simplesmente busca ocultar para os preguiçosos de que o Joaquim Nabuco era conservador, não porque fosse abolicionista, mas porque era monarquista. Obviamente, até etmologicamente fica claro que conservar a escravidão seria algo conservador, e não o oposto.

O irônico é que a caricatura de liberal americano que o Pondé descreve (sujeito culto, superior, adorador de canapés, pomposo, bem alinhado e festivo) é justamente encarnado pelos opositores democratas (liberais) da escravatura. E se a personalidade valesse como argumento, Obama seria um não-Lincoln pela razão oposta, por ser Lincoln absolutamente mais progressista que o liberal Obama. Lincoln, tanto o real como o representado, era uma figura simples, que gostava de contar ‘causos’, que não tinha estudos, que sofria preconceito por não ser culto (algo remete a Lula, nesse ponto Pondé já deve estar espumando de ódio), em outras palavras, um caipira. Um caipira abolicionista venceu os aristocratas do sul e se transformou no maior líder político da mais poderosa nação do mundo, e o que é pior, tem semelhanças extremas com Lula! Que verdade dolorosa para um “pre-moderno” Pondé anti-lulista.

Inclusive, o próprio Karl Marx enviou um carta ao Lincoln saudando a vitória da União como sendo a vitória de todos os trabalhadores. Na perspectiva de Marx, Lincoln era muito mais do que um mero “liberal”, mais ainda que um “progressista” (ainda que para Pondé sejam sinônimos).

No fundo, no fundo, afastar Obama de Lincoln é apenas a fachada para afastar o presidente operário mais popular da história do Brasil com o presidente camponês mais popular da história americana. É isso, ou então o Pondé é um mero débil mental e pronto.

Ao metamorfosear “Lincoln” em Netanyahu, claro, nada tem a ver o fato de Pondé ser conservador e querer assemelhar Lincoln a um político ultra-conservador, até para os mais incautos fica evidente  a  propaganda ideológica do texto. E mais, para Pondé, Lincoln seria ainda pior que o Bibi, porque não “invadiria os territórios”, “os anexaria”. Tratar uma guerra de secessão como uma guerra anexionista é não ter medo do ridículo. O sul não queria independência, queria a secessão de um território, o sul não era colônia do norte. Se o sul fosse tão heroico e  o Pondé menos ilógico, caberia ao conservador Pondé lançar loas a “esquerdistas”  separatistas como o ETA. Mas não, ela não se incomoda de se contradizer a cada nova frase, desde que difame quem não é conservador e estúpido como ele.

Se tudo até aqui no texto de Pondé beira ao delírio, conhecemos o cúmulo quando Pondé iguala a vitória da União contra os separatistas com o colonialismo europeu sobre a América Latina, uma elite que se apoia em um total débil mental como este já está se declarando morta. Sua tese é muito profunda, Obama é mole-festivo e “Lincoln era um cabra macho” que massacrara o Sul  e pronto! Americanos matando americanos sempre espantou os americanos durante toda a guerra civil (e a cinebiografia também apresenta esse dado), mas não para o filme de Pondé, onde qualquer sentimento de humanidade, ombridade e dignidade é apenas uma chatice “politicamente correta” e simplesmente deve ser ignorada frente a sua ficção ideológica.

Ele cria uma imagem de um Lincoln brutal, inescrupuloso e expansionista, ele cria, portanto, um Lincoln-Pondé-Bibi. Isso não é simplesmente tudo o que Lincoln não foi, mas exatamente o oposto, sua cinebiografia revela que ele agiu como um moderado entre abolicionistas radicais e os anti-abolicionistas extremistas, em suma, ele era um pragmático como o Obama, e como tal, sem escrúpulos como o Obama. Acima de qualquer coisa, acima dos escrúpulos morais (comprar votos) ou dos princípios morais (o igualitarismo pleno que a 13a emenda ainda não garantia), Lincoln ressalta o resultado (fim da secessão e fim da escravidão).

Criar essa imagem de um Obama pacifista está mais para um obamista do que para os fatos (ou mesmo para a ficção neocon), em nenhum momento do governo de Obama ele fez por merecer um prêmio Nobel da paz. Manteve praticamente os mesmos neocons bushistas nos postos chaves das forças armadas. Praticou os mesmos crimes de Bush, agora sob o nome de “guerras humanitárias” ou “luta contra a tirania) (geralmente liderando com a fachada da OTAN) ao invés da “luta global contra o terrorismo” com os EUA na proa. Tanto seguiu o corolário dos “falcões” que sua agressividade militar não foi questionada pelos republicanos na sua reeleição. Sua retórica é eleitoreiramente pacifista, mas seu governo não é.

A briga ideológica de Pondé contra os fatos chega ao ridículo de declarar que “Lincoln não era liberal” porque “não queria que os EUA perdessem território e grana”. Entendeu, bem? Ser conservador para Pondé (o pudim da burguesia) é “não querer perder território e grana”, o liberal quer o contrário. Para o Pudim, para que fique bem claro, liberal é aquele que quer que seu país “perca território e grana”. Oh, profundidade! Que filósofo! Pondé é o nosso Platão! Pondé é o nosso rei- filósofo!

Depois, vai adiante em sua propaganda neoliberal dizendo que “os EUA são o que são porque nunca foram centralizadores”. A vitória da União foi justamente a vitória da “federação” contra a “confederação” (por isso, confederados). Portanto, a vitória de Lincoln foi uma vitória pela centralização. Basta isso, fora ignorar toda a histografia recente, passando pelo “centralizador” new deal, e pela hegemonia keynesiana (Nixon afirmou: “todos somos keynesianos), etc.

Vender um liberal-americano como um pacifista, não é só puro obamismo (porque é assim que Obama quer se vender, e o Pudim compra euforicamente), como completa ignorância histórica. Quem iniciou a guerra do Vietnã? quem decidiu entrar na Segunda Guerra? Sob que governo houve a invasão da Bahia dos Porcos? E os Balcáns, e a Síria, e a Líbia? E os Drones no Paquistão… todos presidentes liberais (Democratas). O que difere, nos EUA, um liberal de um conservador em termos militares é que o primeiro é mais belicista na prática e mais pacifista na teoria, o outro é tão belicista na prática quanto na teoria.

E o que é o Pudim? Ele é o mais importante registro histórico da debilidade da direita brasileira, as gerações vindouras terão em Pondé o panorama geral da estupidez que alcançara as elites tupiniquins de nossos dias.

Thank you, Pondé.

Written by ocommunard

29 de janeiro de 2013 at 0:17

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O epitáfio de um debate: como stalinitas debatem com comunistas

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Esse o link com o texto original que responderei a seguir.
http://republicasocialista.blogspot.com.br/2013/01/resposta-ao-connard.html

Em meus últimos artigos tentei travar um debate franco com o Ícaro do blog República Socialista. Porém, em sua última resposta (injúria) publicada em seu blog eu sequer fui informado. Não só não fui informado, como o meu comentário lamentando o comportamento sequer foi liberado no blog. O autor da resposta é o tal Lúcio Jr, um fiel seguidor do método histérico-dialético (bem típico dessa pequena-burguesia de partido de vanguarda). Até então acreditava que o Ícaro estivesse nesse debate com a mesma franqueza com que eu estava, ao publicar essa “Resposta”, ele foi finalmente honesto. Vamos aos tais argumentos lapidares do tal Lúcio Jr, o coveiro desse debate.

Questionei, outro dia, um tal “communard” por desejar que não se falasse sobre Stálin no Portal O Vermelho, do PC do B. Ele me chamou de “stalinista” e depois cortou minha resposta, o “connard” (bobão, em francês).

É tão nonsense essa acusação de que “não se falasse sobre Stalin” que o tema do próprio artigo é justamente o próprio Stalin! O que eu debati foi a leitura que eles fazem do mesmo. Depois vem duas acusações ainda piores, a de que o “chamei” de stalinista e de que cortei sua resposta. A primeira, só poderia ser um insulto para um anti-stalinista (como eu), mas tratei detidamente sobre o uso esse termo duas vezes nas últimas respostas (obviamente, o tal de Lúcio Jr sequer mencionou isso).

E por último me acusa de ter cortado a resposta dele. Os próprios leitores e ainda o próprio Ícaro, lendo os comentários e os artigos, verão que ocorrera certamente o oposto, e o último comentário dele ficou em aberto, pois pedi para que ele argumentasse contra o meu artigo (coisa que não fez e coisa que o Ícaro também acabou de desistir de fazer). Cheguei inclusive a publicar a carta aberta de Ícaro (camaradagem que não foi mútua). E para alcançar o cúmulo, a prova que ele apresenta no link sobre tais acusações é justamente o próprio artigo do Ícaro publicado no blog!

Stalin está na história e em boa parte na origem do PC do B, que podemos dizer que se formou ideologicamente em 62. Ele, que se diz sociald-democrata, já me etiquetou de stalinista logo de saída. O texto dele está aqui:

Ele afirma que eu me declarei “social-democrata”. Eu, social-democrata!? Se eu fosse um porque criaria um blog chamado “O Communard”? Só posso chegar a conclusão é de que se eu cito Marx para demonstrar que a maioria dos teóricos bolchevistas (sobretudo, os stalinistas) são não só são diferentes, mas defende teses opostas a Marx… ah, claro, isso me faz um “social-democrata”.

Eu decidi não perder tempo com tantos argumentos de um social-democrata. Para ele, a revolução de 17 não deveria ter acontecido, assim como, embora ele poupe Trotsky, ele insiste na tal da revolução permanente ( teoria de Trotsky!!!). Ele é contra Lenin, Stalin e “Trotsky caiu com a URSS”, mas se diz comunista. E ainda pontifica que não se deveria falar em Stálin. Por que não largar o PC do B e ir para um partido social-democrata, meu chapa???

Uma vez decretado que eu sou um social-democrata (claro, para que provar isso ou qualquer outra coisa), ele chega a nível máximo da psicose, afirma que para mim a “revolução de 17 não deveria ter acontecido”. Primeiro, se afirmei (baseado em Marx) que as revoluções são fruto das contradições entre as relações de produção e forças produtivas, logo a revolução de 17 não depende de querer ou não querer (não é um arroubo voluntarista-burguês). Porém, o que afirmo é que as teses bolchevistas sobre tal revolução são completamente anti-marxistas, isso eu demonstrei com as palavras do próprio Marx. E de que, portanto, a tal revolução não foi e nem poderia ter sido comunista nos termos de Marx.

Realmente impressiona que para ele, ser contra o bolchevismo ou mesmo não ser bolchevista é algo completamente impossível para um comunista, que seria totalmente ilógico alguém ser comunista sem ser bolchevista, o que me leva a crer que o próprio Marx e Engels não existiram para ele. O meu comunismo se baseia no trabalho científico de Marx e Engels, se no bolchevismo houvesse alguma coerência com esse trabalho teórico-prático, não teria nenhuma restrição em apoiar (pelo contrário). Mas fundir a Revolução de Outubro (Marx deixa claro que quem faz revolução é o povo!) com a adoração acrítica ao que declarou Stalin é algo de um fundamentalismo religioso histrionicamente burguês.

O que se pode dizer para alguém assim? Por que há tantos social-democratas, ou seja, liberais reformistas, em partidos comunistas no Brasil? E o pior, para ele, “estatismo” é algo ruim, que o Marx que ele cria só para si (Marx é ele) rejeitava. Mas um social-democrata de verdade é a favor do estado empresário, do estado de bem-estar social.

A confusão mental de Lúcio Jr nessa passagem faz ou não faz crer que esse texto foi escrito em algum hospício? Não, porque afirmar que sou social-democrata e ainda declarar que isto é o mesmo que um liberal reformista, a não ser que não tenha a menor ideia do que seja um e outro. Ele disse que para mim o “estatismo é algo ruim”, nunca disse nem diria isso, afirmei que para Marx o “socialismo de Estado” é um uma doutrina lassaleana completamente equivocada. Sou completamente favorável as conquistas dos trabalhadores arrancadas nesse tal de “estado de bem-estar social”, como sufrágio universal, seguro-desemprego, salário mínimo e redução da jornada. Alias, a grande bandeira da Primeira Internacional foi justamente a redução da jornada de trabalho para 8 horas (você é contra isso?).

O que há é que esse “reformismo” tem um limite que é o próprio capital (um limite variável, pois as potências podem exportar para as colônias a face mais cruel da exploração, como afirma Marx), e na crise atual (a atual crise fiscal euro-americana) o Estado social está em oposição crítica com o capital, não é mais compatível com o capital, ou se amputa a seguridade social (cortando gastos sociais, direitos trabalhistas, etc) ou se amputa o capital (tributando os mais ricos). Essa contradição entre o capital e o trabalho, que alguns ideólogos burgueses se apressaram em afirmar superada (o tal do fim da história), apenas empurraram com a barriga e cada vez mais se aproxima do limite.

Ou seja: o bobo “connard”), é um neoliberal fraudador, expert em sofistarias, se escondendo atrás do nome de Marx.

Vejam a que ponto chegamos: as pessoas estão num partido comunista, mas são na verdade neoliberais governistas. E ainda se permitem cobrar dos outros o que pode e o que não pode.

Essas últimas palavras demonstram bem quem é Communard e quem é o Conard em questão. Pelo menos, hoje, vemos um avanço civilizatório nos stalinistas, enquanto antes o stalinismo punia com a morte ou com trabalhos forçados os heréticos, vemos que hoje os stalinistas-micaretas punem a heresia apenas com difamações infantis do tipo: neoliberal fraudador, Expert em sofistarias e bla, bla, bla… não há mais dano físico, apenas mental, e o que é melhor, o dano mental atinge o próprio carrasco. Assim, me despeço desse debate impossível. Se esse debate deixou algum ensinamento  foi o de nos ensinar como se comporta essa seita em pleno século XXI e o de confirmar minha crítica radical a esse bonapartismo anacrônico.

Saudações comunistas

Written by ocommunard

26 de janeiro de 2013 at 14:09

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