Communard

Políticas, economias e ideologias

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Réplica do Fernando, ainda sobre o stalinismo

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Reproduzo adiante o comentário completo de Fernando em resposta da minha última postagem Stalinismo em debate: em resposta ao Fernando.

“Companheiro Communard, primeiramente gostaria de agradecer-lhe a resposta, e me desculpar pela demora em respondê-la. Como o blog estava abandonado, não tinha certeza se receberia uma resposta, então não me dediquei muito a verificar. Vamos, então, a minhas considerações:

A dialética pertence ao campo da lógica, é uma maneira de traduzir a realidade na mente. Sua aplicação às questões históricas/sociológicas é o materialismo-histórico, e foi precisamente aqui que o questionei. Se a dialética, em si, nada tem que ver com as classes sociais, sua aplicação à interpretação da realidade social, o materialismo-histórico, por sua vez, tem tudo a ver com elas. Caso os bolcheviques reduzissem o método sociológico a um mecanicismo, considerariam a contradição entre o camponês e o operário como absoluta e, dessa forma, insolúvel, como se obrigatoriamente um anulasse o outro. Porém, na dialética, não se trata de as forças opostas se liquidarem mutuamente, mas formarem uma determinada síntese, uma totalidade específica.

Na análise da realidade russa, interessava compreender que síntese era aquela que se podia formar. Naquela situação concreta, a oposição entre aqueles dois atores sociais (camponês e operário) era atenuada por outras pressões materiais, permitindo uma composição revolucionária. Os bolcheviques tinham conhecimento de que a visão de mundo do camponês e do operário se opunham, almejando cada um certo tipo de sociedade. Porém, naquele momento concreto, seus interesses imediatos os aproximava.

Você admitiu, no ponto 2, que o conceito de Estado operário-camponês é uma fórmula política. Ela não se pretende conceito sociológico absoluto do “marxismo” (também desgosto do termo, prefiro “socialismo científico”), pois que depende de condições históricas concretas. Mas é um conceito “marxista” por excelência, no momento em que aplica a uma realidade concreta, uma fórmula funcional para as condições existentes naquele momento! Logo, a definição de “fraude política e sociológica” não se aplica. É um evidente exagero. Mas claro, não nos esqueçamos: a URSS buscou a todo custo exportar essa fórmula, negando seu aspecto relativo e tratando-o como verdadeiro dogma do marxismo (aliás, como com outros tantos conceitos…).

Nessa fórmula política, construída para viabilizar a revolução respeitando-se as condições existentes e ao mesmo tempo torná-la um caminho ao socialismo, a liderança dos operários está incluída. Posso publicar em outra ocasião trechos de Lênin e Trotsky que indicam isto claramente. Mas do que se trata esta liderança? Ora, garantir que nas instituições de representação e decisão, haja domínio da representação operária sobre a camponesa. Concretamente: que haja uma maioria de delegados, deputados, e etc. representando os interesses dos operários.

A fórmula bolchevique se manifestou com mais clareza na NEP. Como você bem disse, a reforma agrária é uma medida capitalista. Seu significado econômico é o desenvolvimento das forças produtivas no campo. Na situação concreta da Rússia, fazia-se necessário esse desenvolvimento, para que pudessem existir condições materiais para a passagem ao socialismo. Nesse contexto, a NEP significou em parte uma concessão aos camponeses, para manterem seu apoio ao novo Estado, e ao mesmo tempo, uma política de desenvolvimento econômico necessário para a passagem ao socialismo, o que dava a ela justamente seu caráter socialista e de política operária. Todo essa política era controlada por um Estado de maioria operária na representação, garantindo que o desenvolvimento econômico estivesse em função da passagem ao socialismo. Lênin fala, abertamente, que se estava a caminhar para o “capitalismo de Estado”, que para ele era uma etapa imediatamente anterior ao socialismo. Anterior, note-se, naquela situação, não para qualquer capitalismo de Estado. Pois ali, diferentemente de outros países, o Estado estava sob domínio operário.

Aludi brevemente ao ressentimento do camponês quanto ao Estado soviético não para resumir a contradição camponês-operário a uma questão psicológica. Apenas quis demonstrar que, ao fim e ao cabo, o Estado soviético seguiu uma política operária, resolvendo a contradição latente na aliança revolucionária em favor dos operários e contra os camponeses, o que só poderia ter sido feito através do domínio da representação operária no Estado. Não podemos esquecer que a Rússia era um país agrário e de maioria camponesa. É, inegavelmente, um feito político e tanto, que por si só valida a fórmula bolchevique para aquela realidade. Eu não ignoro, é claro, os defeitos da política soviética para os próprios trabalhadores, que culminará mais tarde na queda desse regime.

De resto, Marx nunca foi contra a composição de classes, contanto que se levasse em consideração as limitações e contradições dessas alianças. Com efeito, lemos no Manifesto: “Entre os poloneses, os comunistas apoiam o partido que vê numa revolução agrária a condição da libertação nacional, o partido que desencadeou a insurreição de Cracóvia em 1846. Na Alemanha, o partido comunista luta junto com a burguesia sempre que ela assume uma posição revolucionária, contra a monarquia absoluta, a propriedade fundiária e a pequena-burguesia.”

Para concluir, gostaria de comentar algumas observações suas muito pertinentes:

“Utilizei isso no argumento porque um elemento dominante do bolchevismo é o dogmatismo do tipo: a palavra de Marx é a verdade apenas por ser a palavra de Marx. Claro que considero Marx o maior intelectual da causa da emancipação proletária, mas obviamente rejeito esse dogmatismo, o valor da obra de Marx está no valor de sua contribuição, e não na autoria.”

Lênin era um homem bastante crítico, e com plena capacidade de alterar seus conceitos quando a realidade o exigia. Exemplo disso são as mudanças que vai aplicar à sua concepção de Estado, publicadas em “O Estado e a Revolução”. As ideias expressadas nesse texto serão renovadas, aprofundadas, modificadas ou adaptadas em diversos textos subsequentes, de após a revolução, quando Lênin se depara com a situação concreta de construir um novo Estado. Os leninistas, por outro lado, não fazem jus ao gênio crítico do revolucionário russo. Estes sim, são dogmáticos e nada dialéticos.

Estou inteiramente de acordo com o espírito anti-dogmático expressado não apenas neste trecho que selecionei, como naqueles em que questiona o stalinismo. Um grande mal do movimento socialista tem sido esse dogmatismo, em que as palavras de um autor possuem um valor maior do que a realidade concreta. Parece que a autoridade de Marx está dentro dele, e não na correspondência de suas ideias com a realidade. Tal situação gera o velho debate infrutífero sobre o “verdadeiro Marx”, onde se disputa o que Marx disse exatamente, e não a correspondência do que foi dito com o mundo que nos cerca! Surgem blocos de esquerda ou partidos incapazes de se associarem um com o outro, formarem uma frente combativa, pois discordam neste ou naquele ponto. Cada um ostentando sua fórmula mágica, a única que libertará o Brasil. Desnecessário citar, neste ponto, os stalinistas que, com meia-dúzia de autores, se apresentam como os defensores da verdade absoluta. Não sentem vergonha em deturpar a História, valendo-se de fontes as mais indignas. Sem falar na maneira como atacam Trotsky, a mais abjeta possível.

Deve-se tratar o “marxismo” como ciência, onde a primazia pertence não a determinados autores, mas ao próprio movimento do real. Nem Lênin, nem tampouco Marx, são inquestionáveis. Por isso, o espírito crítico que você demonstra, e a disponibilidade para o debate, são inspiradores. Agradeço novamente a presteza com que me respondeu.”

Written by ocommunard

25 de novembro de 2014 at 14:56

Publicado em Ideologia, Sem categoria

"Por mais alto que um tucano voe, nunca alcançará uma estrela"

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Por Communard,

Os tucanos, raça de seres esnobes sem escrúpulos que tentaram todo o tipo de trapaça possível e inimaginável nessas eleições para tentar ganhar essas eleições, onde o cúmulo foi a “tomografia da fita crepe”. Só que na sua sede insaciável de poder, entre o desejo e o prazer da dominação, existia algo, o povo. O povo que não se deixou enganar, que não deu crédito as baixarias, que não se iludiou com o total aparalhemento tucano das grandes mídias. O povo que, a despeito das próprias falhas de comunicação da campanha petista, resitiu em seu voto progressista, lucidamente, enxergando sempre muito além dos outdoos.

Ultimamente, a presunçosa carta aberta de FHC endereçada ao Lula, foi respondida magistralmente por um amigo do próprio FHC, mas que não suportou tanta sordidez e cinismo nas falsidades levantadas pela carta aberta. O professor Theotonio dos Santos, da Universidade Federal Fluminense, desmistificou todas as falácias que rodeiam o discurso tucano e que domina por todos os poros da Globo, Veja e Folha.

O primeiro mito é do fim da Inflação, afirma ele que “todas as economias do mundo apresentaram queda da inflação para menos de 10%”, e em comparação com o resto do mundo o Brasil tucano teve “UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES”. Sobre o mito “da moeda forte”, ironiza “uma moeda que se desvaloriza 4 vezes em 8 anos pode ser considerada uma moeda forte?”. Sobre a falácia da “responsabilidade fiscal”, ele responde “um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade”.

Acusa a brutal dominação tucana das grandes mídias (Globo e Veja) afirmando “e por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido a suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo”.

Segue criticando a “brutal concentração de renda” que se agravara. Ao criticar o discurso de FHC de que a responsabilidade do ameaça que Lula representava, ele refuta afirmando que a economia da Era tucana tinha os “mais altos índices de risco do mundo”, “endividamento interno colossal”, os “juros mais altos do mundo”. E conclui: “um fracaço econômico rotundo. (…) Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos”.

Adiante, ele ressalva que “apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês (e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil”.

Written by ocommunard

29 de outubro de 2010 at 16:19

Publicado em Ideologia, Política

Resposta à Carta Aberta de FHC ao Lula

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FHC lançou carta aberta ao Lula. Aqui, na condição de cidadão brasileiro, faço a resposta dessa carta aberta respondendo na palavra daqueles que foram afetados pelas políticas de ambos os partidos.

FHC inicia sua diatribe contra Lula acusando que ele “sugere que se a oposição ganhar será o caos”. Foi exatamente isso que sugeria Serra nas eleições de 2002 que, por tal razão, ganhou o lema: “a esperança venceu o medo”. E ainda nessas eleições Serra pratica abertamente tal “sugestão”, quando afirma categoricamente que a vitória de Dilma ameaça a economia, a democracia e até, pasmem, a ecologia.

FHC diz que o Lula posa como Luis XIV o associando a frase “o Estado sou eu” sem apresentar argumentos. Porém, a exclamação o “estado sou eu” encontra perfeita correspondência em Alckmin que responde as críticas a seu governo como sendo críticas ao estado de São Paulo. Quantas vezes não ouvimos ele dizendo nos debates “eles vem falar mal de São Paulo” em cada crítica que recebia? Aparentemente, o problema de FHC não é contra o absolutismo, mas contra o absolutismo dos outros.

Acusa ainda que a “estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal”. Mas como exaltar as conquistas do governo Lula seja “desconstruir o inimigo”? Agora, o que o Serra faz caluniando e difamando a Dilma como ligada ao narcotráfico, ao aborto, ser atéia (acusação que o próprio FHC sofreu), poste, corrupta e incompetente, entre outras? O que é isso, debater política ou “desconstruir o inimigo principal”?

Continua FHC: “Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido”. O que exatamente foi herdado? Vejamos o que ele alega:

1.”estabilidade da moeda” – O Plano Real foi do governo Itamar, não do FHC. Não entendo como pode chamar de estabilidade monetária um governo que deixou o país com 12% de inflação, com dívidas estouradas e carga tributária crescente.

2. “lei de responsabilidade fiscal” – essa lei tem sua insignificância comprovada na sua total irrelevância em conferir melhor controle da inflação, endividamento, crescimento, salários, empregos, etc. Todos esses dados são inferiores ao do governo petista.

3. “recuperação do BNDES” – Carlos Lessa, que assumiu o BNDES no governo Lula e declarou voto em Serra nesse ano. afirmara que o BNDES na era tucana havia abandonando seu papel desenvolvimentista e se transformado em uma financiador das privatizações (http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Lessa). É isso que FHC chama de “recuperação”?

4. “programa Avança Brasil” – A irrelevância desse programa que FHC afirma ter sido mais eficaz que o PAC está patente nos indicadores de crescimento econômico em seu governo. Se quer comprovar, poderia comparar, ao invés de apenas declarar.

5. “privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares”. A privatização da telefonia foi do serviço, e é um dos serviços campeões de reclamações no PROCOM (confirme no site do PROCOM). O que o serviço da Oi ou TIM tem a ver com celulares barateados da LG e Samsung produzidos na Coréia do Sul? (tem mais a ver com o Real valorizado e a abertura econômica, não com as privatizações). E sobre a Internet, porque ele não comprova sua tese comparando o crescimento da banda larga entre o governo tucano e o governo petista?

6.”Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal”. A motivação, então, foi arrecadatória? O Brasil perdeu uma das maiores mineradoras do mundo que poderiam estar sendo articuladas com as políticas industriais em proveito econômico de todo o país, e não apensa ao lucro privado ou arrecadação pública. A venda da Vale, escandalosamente barata, custou apenas o correspondente a meros 3 meses (ou menos) de faturamento da empresa, e o dinheiro não veio dos compradores, foi paga com o empréstimo do BNDES! Por essa razão, acusava Brizola que os tucanos não venderam o país, eles entregaram. Porque o dinheiro da privatização foi paga pelo próprio povo brasileiro.

FHC acusa o Lula afirmando que “o país pagou um custo alto por anos de ‘bravata’ do PT e dele próprio [Lula]”. Qual custo e qual bravata, podemos saber? Por outro lado, sabemos bem o custo alto que pagamos por eleger um tucano presidente: o país quebrou 3 vezes, aumento do desemprego, da carga tributária e da dívida publica, entre outros legados.

Segundo FHC, a “herança maldita” é culpa do próprio herdeiro Lula, pois este “esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI”. Deveria ter combinado com a campanha de Serra que aterrorizava o país com a possibilidade de vitória petista como modo de alcançar vantagem eleitoral, estratégia esta que está usando neste exato momento na campanha difamatória contra a Dilma.

FHC acusa o PT de fazer bravatas, exceto quando o elogiam, como quando cita José Dutra, uma citação um tanto tendenciosa no conteúdo e no fato de não representar o pensamento do partido. Esquizofrenicamente os tucanos celebram as privatizações ao mesmo tempo que se indignam contra o rótulo de privatizantes, ora, se foi bom porque não privatizar mais? Se não foi bom, porque celebrar?

FHC alega a sensibilidade social dos tucanos ao Plano Real, o que preocupa já que a maior política social do governo tucano não foi obra do governo tucano.

FHC exala sua sabedorial eleitoral ao categoricamente afirmar como o eleitor vota. Aula essa que parece que Serra e muitos outros tucanos derrotados faltaram. FHC apela, como faz todos os tucanos, para que evitemos o “retrovisor”, apela pela ignorância histórica, para que não cobremos nada do que eles não fizeram ou destruíram. O povo brasileiro, tantas vezes acusados de não ter memória, tem agora que assitir a pregação da alienação, a pregação da auto-amnésia política. Os tucanos que sempre se vendem como biografias “imaginárias” marketeirizadas, odeiam ver suas peças publicitárias desmascaradas com as contradições de seus governos reais.

Mas o povo brasileiro já aprendeu uma sabedoria universal, um povo sem passado é um povo sem futuro. Isso é algo que faz parte do nosso presente, como prova todo o fracasso da campanha goebeliana serrista.

Lamento muito que, apesar de declarações politicamente irresponsáveis do FHC como a do “subperonismo popular”, lamento muito que todo o fardo do fracassado governo tucano recaia sobre uma só pessoa, FHC. Lamento mais ainda que o PT, por equívoco ou ingenuidade, reforce essa fulanização que leva ao Serra a tão somente esconder FHC como forma de se esquivar desse fardo. O mal maior dessa fulanização é o escamoteamento do verdadeiro debate, do verdadeiro alvo, as políticas neoliberais. E isso pesa sobretudo no processo político para nós brasileiros, pois faz com que as transformações sociais sejam politicamente prejudicadas ao se concentrar em pessoas e comportamentos, não em partidos e políticas.

Apesar dos pesares, FHC está a anos-luz em superioridade moral ao José Serra, que foi equivocadamente preferido pelo PT do passado como canal de diálogo com o PSDB, achando que este estaria mais a esquerda. Serra se mostrou um truculento megalomaníaco que não respeita nenhuma instituição, escrúpulo ou pessoa que seja obstáculo a sua sede insaciável de poder. Como prova o obscurantismo do uso eleitoral da fé e do aborto, assim como até a tomografia da bolinha de papel.

FHC, quer debater política? Comece convencendo o candidato a presidência de seu partido a fazer isso.

Written by ocommunard

23 de outubro de 2010 at 23:56

Publicado em Ideologia

China, socialismo de mercado e Karl Marx

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Motivado pela sugestão de Luiz Monteiro de Barros, que em dos comentários me pediu a análise desse texto, não resisti nem a leitura, nem a análise. Referência: ttp://www.odiario.info/?p=1706

Domenico Losurdo e a Socialismo de Mercado

A questão levantanda no texto de Domenico Losurdo, é um certo mal estar entre o “socialismo de mercado” aplicado pelo Partido Comunista Chinês e a ‘esquerda ocidental’ (mas correto seria chamar de esquerda européia). Ele acusa que essa ‘esquerda ocidental’ de levantar certos preconceitos ao afirmar que o ‘socialismo de mercado’ chinês é um retorno ao capitalismo, sobre a denúncia aos baixos salários, sobre o avanço do capitalismo ao permitir a entrada de empresas privadas, sobre o suposto stalinismo chinês, ou o regime fechado chinês, etc. É claro que a ‘esquerda ocidental’ está traumatizada com suas frustrações com o stalinismo e Gorbatchev, não quer mais errar.

Domenico Losurdo responde a isso afirmando que mesmo nas empresas privadas são reguladas publicamente, e que pelo menos 1/3 da economia é totalmente estatal. De que o chinês tem uma cultura de profunda auto-crítica, se afastando assim do culto a personalidade e auto-promoção do stalinismo. Fala ainda que foram extintos ocupações vitalícias de cargos políticos e com ações permanentes de combate a corrupção.

Um outra crítica “preconceituosa” identificada por Losurdo seria a crítica das “três representações” aonde até os empresários são aceitos no partido, os chineses respondem que são numericamente inexpressíveis, no entanto tomam posições e cargos importantes no Estado. Mas muito permanente é a queixa sobre os “ideáis socialistas” em contradição com o avanço do capitalismo, mesmo que regulado, e seus ideais acumulativos. Aqui termino o resumo sobre a dissertação de Losurdo. Losurdo enfatiza que para os chineses o socialismo de mercado é uma fase inicial.

Eu e o socialismo de mercado

Tentarei ser enxuto, já que a questão se relaciona desde a teoria de Karl Marx, passando por suas mutações na Social Democracia Operária Alemã, depois pelo bolchevismo, depois pelo próprio maioismo. Indo ao ponto, acho que todas as interpretações estão equivocadas do ponto de vista marxista. O grande barco furado do bolchevismo foi apostar que seria possível uma transição para o capitalismo em uma país pré-capitalista. O que foi o bolchevismo senão aquilo que Engels denominou de “capitalismo coletivo” em Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico? Uma doutrina com tal constraste com a realidade só podia ser mantida ditatorialmente, é por isso que o bolchevismo necessariamente culminaria no stalinismo ou em sua queda. E o stalinismo é a contra-revolução conservadora, de cúpula.

Do que estou falando? Para Marx, somente aonde no capitalismo avançado, aonde o avanço das forças produtivas alcançassem seu ponto de saturação, aonde as forças de produção entrarem em contradição com as relações de produção, isto é, uma crise de superprodução, uma abundância material que extrapole os meios de apropriação capitalista, só aí haveria as condições materiais para o capitalismo. Para Marx, em toda a obra O Capital, a transição para o comunismo (Marx diferencia socialismo de comunismo, vide Manifesto) se dá através do desenvolvimento das forças produtivas, e as contradições provocadas quando esse desenvolvimento alcançar seu ápice. Isto é, em um processo dialético.

Assim, mesmo se estivéssemos falando em uma China 100% capitalista governada pelo partido comunista, estaremos ainda tratando de um regime potencialmente coerente com o marxismo. Porque para Marx, a despeito do bolchevismo, jamais um país atrasado pode almejar pular a etapa do capitalismo para alcançar o comunismo. O único papel que cabe ao partido em um país atrasado é garantir altas taxas de desenvolvimento das forças produtivas para acelerar o processo social, o resto é expressão política autêntica e específica de cada povo.

Há aí uma contradição social imanente, como o fato de um partido comunista ter capitalistas em suas fileiras. Há, mas aí a contradição reside na contradição real, numa tensão real, sublimada pelas altas taxas de crescimento que garantem uma possibilidade de distribuir ganhos a todos. Outra contradição é que uma representação tipicamente nacional-capitalista não só não serve, como não serviu, como foi a experiência do Kuomitang. Um governo burguês desenvolvimentista não oferece condições progressistas a não ser através do velho receituário politicamente repressivo e economicamente recessivo (arroxo salarial).

Essa organização social de frente única de várias classes em busca do desenvolvimento, se representa melhor no trabalhismo do que no comunismo propriamente dito. Marx, ao levantar sua tese, não imaginava que o liberalismo clássico esgotaria sua força progressista, por outro lado, o liberalismo clássico já havia sido renegado pela burguesia através do esfacelamento financeirista do liberalismo neoclássico, e depois pelo neoliberalismo. Um outro ponto de distenção do pensamento de Marx, foi a sublimação da grande crise paradigmática para Marx, a crise de sobreprodução, que havia sido superada com políticas keynesianas (que se esgotaram na sua fragilidade fiscal).

Assim, o paradigma do “capitalismo coletivo”, esse que já em Bismarck é o motor de desenvolvimento da Alemanha do II Reich, assim como o Japão e todos os outros capitalismos retardatários, ainda que em última análise o capitalismo nascente, através do mercantilismo absolutista, dependendiam profundamente do Estado, ou como Marx denomina: a fase de Acumulação Primitiva Capitalista.

Em suma, China está no caminho do comunismo, porque está no caminho da acelaração crescente do desenvolvimento das forças produtivas. Esse é o fundamento central de Marx para a garantia científica da transição ao comunismo. A questão que se coloca é saber quando esse capitalismo se plenificar, se o partido comunista vai se dissolver em um partido do capital, ou se irá se reorganizar para assumir o segundo passo. O socialismo de mercado tem o mérito de ser uma experiência anti-dogmática, totalmente empírica. O governo experimenta várias formas de propriedade, e na medida que elas alcancem os resultados produtivos, elas se estabelecem. É fundamentalmente uma economia mista, uma herdeira de um certo keynesianismo deixado órfão no ocidente com a ascenção do neoliberalismo.

Seu comunismo é garantir que em nenhum momento deixe estancar o acelerado desenvolvimento das forças produtivas, são elas que operarão as transformações sociais imanentes para uma sociedade comunista. O regime político, mesmo reconhecendo seus atrasos, ao garantir mover sob seus pés essa vertigionosa transformação, se transformará por dentro, mesmo que mantenha a aparência, isso porque as novas gerações de filiados serão fruto de uma nova sociedade provocada pelas grandes transformações socio-econômicas.

Estatizar e “ideais de igualdade”, podem até ser socialistas, mas nada tem a ver com o comunismo de Marx. Quando se fala em igualdade em Marx, se fala em sociedade sem classes, e não em distribuição de renda. Quando se fala em comunismo em Marx se fala em desenvolvimento das forças produtivas, não em estatização. Aliás, a crítica a essa visão de “socialismo de Estado” Marx e Engels fizeram em Crítica ao Programa de Gotha e Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, entre outros.

Written by ocommunard

7 de setembro de 2010 at 6:24

Publicado em Ideologia

Prévias: Uma Carta Aberta Para as Esquerdas

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Colocar o futuro do país nas mãos de uma sucessão criada por indicação pessoal do presidente e que nunca concorreu a nenhuma eleição? Isso é brincar com o futuro dos trabalhadores. Não temos contra a Dilma qualquer reserva, ainda que tenhamos todas as reservas contra Ciro Gomes, que chegou a se mostrar mais inclinado a ser vice de Aécio do que da Dilma, e que não pensa duas vezes em desmoralizar a esquerda com seus apoios incondicionais ao decadente tucano Tasso Jereissati. Como confiar em alguém que coloca uma relação pessoal acima do futuro políticos dos trabalhadores brasileiros?

O movimento do PT hoje envergonha suas bases sociais e históricas, está mais interessado em estender o horário eleitoral se acasalando incondicionalmente ao PMDB e a reforçar o individualismo apostando no “culto a personalidade” de Lula; do que aproveitar a melhor oportunidade histórica de fazer de 2010 uma grande vitória do campo da esquerda, rompendo com os limites que um governo sem maioria parlamentar provocou ao governo Lula. Nas últimas eleições os trabalhadores brasileiros deixaram claramente sua tendência a esquerda, sua conscientização política, sua adesão as teses socialistas. No entanto, os partidos de esquerdas, sobretudo o PT, ao invés de reforçarem sua ousadia, aprofundarem seu compromisso, se fortalecerem socialmente, se afastam em um processo cada vez mais escancarado de traição política.

A prévia seria a única ferramenta de se conquistar todas as potencialidades do momento que vivemos. Primeiramente, ela serviria para reaproximar e rearticular em um congresso pluripartidário, todo o espectro da esquerda, que vai da esquerda do PMDB(Requião) até a extrema esquerda do PSTU. A função do congresso interpartidário é formar um programa de reforma social e testar com total democracia todos os pretendentes a candidatos. Esse teste é fundamental para por a prova as condições pessoais da representação do bloco de esquerda, para não termos surpresas. A conferência interpartidária da esquerda deve ser claramente um elemento catalizador de um programa e de um candidato.

Seja qual for o pré-candidato que vença as prévias, sairá mais forte. Pois terá a adesão de todos os partidos de esquerda, haverá o reanimamento da militância, haverá o resgate do enraizamento social da esquerda, haverá um programa claro. Não só fortalecerá o combate eleitoral, por ser o candidato mais preparado para o debate; mas sobretudo, oferecerá aos trabalhadores uma proposta concreta de avanços sociais.

As prévias com a participação de todos os partidos de esquerda, além de todos os movimentos sociais, de todas as organizações civis representativas dos trabalhadores manuais, intelectuais, agrários, urbanos, civis, públicos, etc. Toda essa grande representatividade dará ao candidato já um fato político de extrema reelevância ao resultado eleitoral. Seja qual for o candidato, que vencerá por ser o melhor preparado para o debate, para representar o programa de esquerda eleito, por ser o mais representativo das forças sociais, ele já entrará em campanha com toda a legitimidade de uma aclamação de todas as forças sociais progressistas.

Espero realmente que essa carta aberta desse modesto blog possa encontrar alguma ressonância e assim, contribuir para que 2010 não seja um retrocesso, mas uma grande vitória histórica, uma grande revolução democrática social.

Written by ocommunard

1 de janeiro de 2010 at 16:38

Publicado em Ideologia, Política

As eleições de 2010 no Brasil : avançar ou recuar

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A democracia e a luta de classes

Marx afirmava, para surpressa dos leninistas, que o sufrágio universal(democracia), colocava em marcha a luta de classes. E o que seria a democracia senão a luta de classes e facções de classes, através de partidos, pelo poder? Alguns criticam a fragilidade partidária brasileira desconhecendo a nossa inexperiência democrática, que poucas vezes, como agora, saboreamos. Essa inexperiência democrática de nossa história, como talvez também da América Latina, consolidou meios de comunicação conservadores e um insignificante expressão comunicativa dos setores ligados aos trabalhadores. Aliás, é realmente revoltante que os mesmos meios de comunicação que apoiaram abertamente o golpe de 64 – cujo proclamaram de ‘revolução democrática’, venham hoje acusar os governos esquerdistas eleitos democraticamente de não serem democráticos.

Para elite restou o seu absolutismo midiático onde ataca agressivamente com a leviandade mais torpe e permanente o governo de esquerda. Se de um lado mostra a debilidade do governo de esquerda em criar meios de comunicação que representem os trabalhadores, por outro lado os abusos da mídia reacionária nos serve como suicídio de sua própria credibilidade. Imprensa é partidária, nasceu dos partidos, mas no Brasil o monopólio da elite se reveste de uma falsa neutralidade para retirar qualquer limites a seus abusos ideológicos, ao seu antijornalismo, que vai desde ignorar a versao da outra parte(jornalismo elementar), até chegando a injúria pura e simples. Basta lembrarmos que a principal arma do fascismo não era a repressão, era a imprensa, era Goebels.

O último lamaçal da mídia conservadora foi repercutir que Lula seria um estuprador, veja a que nível chegou a injúria!  A denúncia vinha de um ex-petista e ex-psol(partido de oposição ao PT), colunista de um jornal conservador, que com certeza ficou rico por publicar a injúria. O caluniador só lembrou agora da estória que teria ocorrido na década de 70. É coincidência que estamos um ano antes da eleição? E os jornais publicaram mesmo tendo todas as outras testemunhas desmintido o ‘caluniaísta’.

A grande batalha em 2010

Tudo isso dito é apenas para frisarmos o fundamental: 2010 é a inflexão máxima de nossa crescente luta de classes. Infelizmente mais uma vez a esquerda subestima a elite, suas permanentes investidas de desmoralização do governo, ignora sua total articulação em prol do candidato opositor, ignora que toda a grande mídia brasileira é um partido de oposição e que não tem mais nenhum escrúpulo em se apresentar assim. Responder uma articulação dessa magnitude apenas com: aliança com PMDB, fé na transferência de votos de Lula e comparação de mandatos, é brincar com o futuro do país. Será que é o PT que precisa do PMDB ou o contrário? Será que um tempo maior, que por exemplo o PMDB tinha em 89, garantiria alguma coisa? Aprender com a história!

Lula sem dúvida foi uma transição, ele desconstruiu a fábula tucana, tanto no preconceito tecnocrata, pois fez um governo mil vezes mais eficiente provando que política se faz com decisão política, e não com decisão técnica; quanto no preconceito neoliberal, porque provou que o “intervencionismo econômico”, e não o “liberalismo econômico”, que é a estratégia fundamental de desenvolvimento social e econômico – apesar de que China já seria exemplo suficiente. E provou também que assistencialismo social(bolsa família) provoca desenvolvimento econômico(mercado interno).

A candidatura Dilma será uma reedição da polarização de 1989, essa é a perspectiva fundamental, com o envolvimento social que só víamos naquela ocasião. Do lado da direita isso ocorre descaradamente, mas a esquerda permanece se neutralizando. É urgente a reaproximação com os movimentos sociais, os artistas, os desportistas, a extrema-esquerda, as universidades, intelectuais, lideranças, etc. Não aceitemos em nenhuma hipótese subestimar esse grande momento de aprofundamento ou retrocesso de um grande projeto social efetivo. Pois a batalha não é eleger Dilma, é eleger um projeto, e isso depende de um parlamento hegemonicamente de esquerda. Todos os desgastes e frustrações do governo Lula adveio da falta de base parlamentar e a necessidade de se compor com setores de centro e direita. Essa campanha tem de assumir um viés político-ideológico, e não um viés pessoal. Só assim, se garantirá não só que o projeto continue, mas sobretudo, que se aprofunde.

A direita sabe que se Dilma vencer não pesará mais sobre ela o preconceito social que estavam sempre a se aproveitar contra o Lula. Sabe que ela governará agora com recursos do pré-sal, com os programas sociais e desenvolvimentistas todos avançandos, com uma possível grande base parlamentar que dizimará o neoliberalismo do país. Isso significa que Dilma é ao menos 8 anos de governo de esquerda, que se o Lula conseguiu um êxito admirável herdando um país em crise econômica e social, e entregando um dos países mais admirados e bem sucedidos do mundo. Quanto mais a Dilma! E mais, a Dilma tem um diferencial com relação ao Lula, o que o próprio Lula reconheceu, ela tem mais firmeza ideológica que ele. Isso significa que ela não hesitará, como Lula fez várias vezes, nas transformações sociais e em enfrentar os grandes desafios do país.

Mais uma vez é fundamental frisar, Dilma tem todos os méritos para a candidatura, mas a candidatura da esquerda tem de ser conquistada mediante prévias internas, onde ela pode ou não ser confirmada. Se a própria Dilma exigir isso, não só já entrará na disputa com grande apoio em razão de suas atitude, somado ao já relevante apoio de Lula, como ainda agregará ainda mais a sua imagem a sua fidelidade a democracia – o que seria uma arma poderosa nos debates contra a oposição com seu cinismo pseudo-democrático. Indiretamente desmoralizando as outras candidaturas não-democráticas que não tiveram prévias. Sobretudo a do PSDB que provavelmente será determinada na tapetão e no tratoramento, através dos caciques tucanos.

A questão crucial é que temos que testar a candidatura em palanque, em debates, em situações reais de campanha, antes de lançá-la candidata do projeto. Cada partido com sua prévia, e por fim, uma prévia entre interpartidária da coligação. As prévias, além de oferecer uma candidatura mais consistente – pois foi testada, garantiria ainda a unidade do bloco. Dessa forma, a “questão Ciro” se resolveria, daria ele uma “saída à francesa”, e poderia se acalmar setores afoitos do PMDB que querem candidaturas próprias. A grande questão não é qual o candidato da coligação, mas a vitória da coligação. É assim que deve se mover o debate caso a coligação de centro-esquerda tiver de fato algum compromisso com a nação, e não meros interesses eleitorais.

A varíavel Ciro?

Ciro é a variável pessoal com maior impacto nesse jogo político. Vejamos… Se Ciro se candidatar ao governo de Estado de São Paulo, forçará Serra a abandonar o pleito federal, pois não trocaria o certo pelo duvidoso. Pois Ciro é a única pessoa do país que conseguiria derrotar a hegemonia paulista do PSDB. Tanto porque tem um excelente trânsito no tucanato por ser um ex-tucano e ter também bom trânsito com o DEM, quanto por ter o discurso mais bem articulado para desconstruir a farsa tucana de bom gestor. Além disso, ele teria do seu lado setores tucanos federais, pois o Aécio não seria seu opositor, dessa forma enfraquecendo a oposição tucana em São Paulo. Por outro lado, condensaria ainda o apoio de toda a esquerda unida no plano federal. Sem falar que o PSB apoiaria o PDSB caso Ciro não saísse eleito. Poderia aínda se articular com o PPS por ser também um ex-PPS. Em suma, Ciro em São Paulo seria uma real chance de derrota do ninho tucano, além de um fortalecimento dele próprio com a articulação de sua candidatura com o pleito federal. Ele fortaleceria a esquerda, enfraqueceria a direita e ainda governaria o maior Estado do país no melhor momento do país.

Vejamos o cenário oposto. Ele sai candidato a presidência, o que levaria Serra ao pleito federal. Com certeza quando começasse a crescer renasceria a espectro do “novo Collor”, que sempre o derrotou. Não conseguiria atrair os setores esquerdistas, pois esse prefeririam a Dilma por seu histórico de ex-guerrilheira, quanto também não atrairia os setores conservadores, que já elegeram Serra. Assim, permaneceria dentro de setores desarticulados que só veriam nele a oratória. O máximo que ele poderia oferecer é um consistente ataque a candidatura tucana, em favor da candidatura petista, que não se revestiria em seu favor. Mas no entanto, veria, mais cedo ou mais tarde, que teria que concorrer com a candidatura de Dilma pois estaria disputando os mesmos votos. Assim, acabaria por enfraquecer o próprio campo de que faz parte. Sua candidatura federal racharia a esquerda em todos os estados, até mesmo no Ceará onde o PT  se desligaria da sucessão do PSB  com uma ditadura própria.

Mas cada dia parece fica mais claro que Ciro está caindo na infantil provocação de Serra de que ele “só faz o que o Lula quer”. Mas o que quer o Lula? Que ele saia candidato a governado de São Paulo. Com isso Serra quer constranger ao Ciro a assumir sua candidatura presidencial, já dando a mensagem que o chamará de “pau mandado” caso aceite ser governador de São Paulo. Ou será que Serra está realmente interessado que Ciro seja independente e saia candidato à presidência, para que Ciro ganhe dele? Toda a direita está temerosa de Ciro sair em São Paulo, porque seja qual for o resultado, irá desarticular a direita. Mais uma vez repito, porque Serra faz questão de que Ciro seja candidato à presidente? Cabe ao Ciro pensar se fazendo o que seu adversário quer, estaria em verdade ajudando a sucessão da esquerda e a sua própria candidatura.

Como disse Dirceu, o principal argumento que sustentava legitimamente a candidatura presidencial de Ciro, era ele estar a frente de Dilma. No último CNT/Sensus, esse argumento caiu. A prova de que ele cedo ou tarde passaria a desestabilizar a candidatura de Dilma está no próprio comentário dessa pesquisa, que fez questão de desqualificar – mesmo sabendo que a desqualificação dessa pesquisa apenas beneficiaria Serra, que havia caído substancialmente na pesquisa. Se Ciro for realmente um político inteligente e engajado na luta política do campo da esquerda, um efetivo representante das transformações que vivemos, não poderá tomar outra decisão senão a candidatura paulista. Mas se for apenas um oportunista irresponsável e ególatra, persistirá na sua campanha presidencial.

Em 2010 perceberemos de que material é feito o sr. Ciro Gomes, de grandeza ou de baixeza. Infelizmente os fatos recentes, como nas eleições para prefeitura em Fortaleza, depõem contra ele. Mas ele agora tem mais uma vez a chance de se redimir… veremos como se sairá.

Written by ocommunard

29 de novembro de 2009 at 16:13

Publicado em Ideologia, Política

O que é esse neosocialismo?

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Se o socialismo do século XIX não ia além da utopia, nostalgia ou filantropia(vide Manifesto Comunista); e a do século XX se deteu na luta pelo poder, o socialismo do século XXI surge com alguns elementos fundamentais. Primeiramente, seu fundamento democrático. Não se trata apenas do respeito a democracia, mas de como a democracia se apresenta como uma permanente pedagogia política, a forma política da luta de classes. A pressão que os governos de esquerda sofrem das classes dominantes, através dos grandes meios de comunicação capitalistas, assediando constantemente o exército e os trabalhadores, colocou o regime de partido único como uma lei de sobrevivência no século XX.

No entanto, a tese que afirma que o desenvolvimento das forças produtivas levam ao socialismo se confirma com a revolução comunicativa da internet. A ciranda midiática que prenunciava os golpes militares agora é permanentemente rompida com a livre comunicação da internet. A calúnia é desarmada antes de explodir ou de causar grandes estragos. Assim, a democracia permanece sem a tirania da burguesia, que não mais monopoliza os meios de comunicação. Antes, os governos proletários tinham duas opções, ou acabavam com a liberdade de imprensa(monopolizada pela burguesia) ou sofriam golpes militares(incintada pela imprensa burguesa). É nisso que se resume o século XX. Com a internet e o contexto internacional hegemonicamente democrático, as tentativas de escalada golpista frequentemente morrem na práia.

Assim, o neosocialismo não só é democrático, mas como é cada vez mais democrático, é a democracia radical. Isso se vê com a tendência aos avanços da democracia direta, as organizações de bairro, no orçamento participativo, os conselhos civis… tudo leva a crer que a democracia representativa se aprofunda em democracia apresentativa, direta. O cínico discurso burguês pseudo-democrático apenas aprofunda e incentiva essa radicalização da democracia. A democracia que é forma, assume seu conteúdo autêntico no socialismo, essa tendência era rompida com golpes militares sazonais. E a contradição que detinha a democracia nas rédeas da burguesia, o monopólio dos meios de comunicação, agora se diluem com a revolução da web. A web não só é uma ferramenta de desmascaramento deste meio de comunicação burguês, mas demole seus fundamentos econômicos com a concorrência com notícias gratuitas além do jornalismo informal dos blogs, sites, redes sociais, etc. Demole política e economicamente, e dessa forma desmascara política e economicamente a anatomia política e econômica dessa mídia.

O neosocialismo assim caminha com a democracia, a internet e o desenvolvimento. O terceiro ponto foi descoberto com os efeitos sentidos das políticas sociais, como o bolsa família. Eles criaram um mercado interno, que provocou uma círculo virtuoso de crescimento, distribuição e emprego. O neosocialismo rompe com a lógica colonialista de uma economia voltada para exportação, que nada mais é do que a herança colonial de uma economia de matéria-prima voltada para suprir a metrópole. Essa nova política, ao se centralizar no mercado interno através da distribuição de renda e seus efeitos, promove uma concreta emancipação nacional que ao mesmo tempo que melhora as condições sociais da nação promove o seu modelo para o resto do mundo em razão de seu sucesso, rompendo com as relações de dependência externa e auto-insignificância política. Dessa forma, corta a relação de dominação internacional que predomina nas relações das economias desenvolvidas como parasitárias das economias subdesenvolvidas, na mesma lógica do pacto colonial, comprando matéria-prima e revendendo produto manufaturado.

Nesse aspecto o neosocialismo vem ainda cumprir a nossa devedora independência nacional, o nacionalismo real (não meramente político). E não se trata de se fechar. A internacionalização econômica segue dois paradigmas: a globalização e a integração. A primeira consiste em uma política subserviente ao capital financeiro internacional marcado pelos movimentos especulativos das bolsas de valores. A segunda consiste em uma política de integração internacional, os blocos(UE, Mercosul, etc). Essa segunda é respaudada pela democracia, pelo interesse e progresso comum dos povos.

Em suma, neosocialismo se baseia em democracia popular, social, desenvolvimentista e internacionalista. Ela sobretudo é fruto de uma nova era chamada simplesmente de sociedade da informação, aonde os níveis de escolaridade e comunicação não permite mais a burguesia livremente manipular os trabalhadores a seu bel prazer.

Mas seu ponto de choque ainda não chegou ao clímax, o tema central de uma sociedade culta e crítica: a socialização e democratização dos meios de comunicação. Mas isso talvez seja uma revolução que veremos acontecer muito em breve na Confecom – tudo leva a crer que sim.

Written by ocommunard

26 de novembro de 2009 at 1:57

Publicado em Cultura, Ideologia