Communard

Políticas, economias e ideologias

Réplica do Fernando, ainda sobre o stalinismo

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Reproduzo adiante o comentário completo de Fernando em resposta da minha última postagem Stalinismo em debate: em resposta ao Fernando.

“Companheiro Communard, primeiramente gostaria de agradecer-lhe a resposta, e me desculpar pela demora em respondê-la. Como o blog estava abandonado, não tinha certeza se receberia uma resposta, então não me dediquei muito a verificar. Vamos, então, a minhas considerações:

A dialética pertence ao campo da lógica, é uma maneira de traduzir a realidade na mente. Sua aplicação às questões históricas/sociológicas é o materialismo-histórico, e foi precisamente aqui que o questionei. Se a dialética, em si, nada tem que ver com as classes sociais, sua aplicação à interpretação da realidade social, o materialismo-histórico, por sua vez, tem tudo a ver com elas. Caso os bolcheviques reduzissem o método sociológico a um mecanicismo, considerariam a contradição entre o camponês e o operário como absoluta e, dessa forma, insolúvel, como se obrigatoriamente um anulasse o outro. Porém, na dialética, não se trata de as forças opostas se liquidarem mutuamente, mas formarem uma determinada síntese, uma totalidade específica.

Na análise da realidade russa, interessava compreender que síntese era aquela que se podia formar. Naquela situação concreta, a oposição entre aqueles dois atores sociais (camponês e operário) era atenuada por outras pressões materiais, permitindo uma composição revolucionária. Os bolcheviques tinham conhecimento de que a visão de mundo do camponês e do operário se opunham, almejando cada um certo tipo de sociedade. Porém, naquele momento concreto, seus interesses imediatos os aproximava.

Você admitiu, no ponto 2, que o conceito de Estado operário-camponês é uma fórmula política. Ela não se pretende conceito sociológico absoluto do “marxismo” (também desgosto do termo, prefiro “socialismo científico”), pois que depende de condições históricas concretas. Mas é um conceito “marxista” por excelência, no momento em que aplica a uma realidade concreta, uma fórmula funcional para as condições existentes naquele momento! Logo, a definição de “fraude política e sociológica” não se aplica. É um evidente exagero. Mas claro, não nos esqueçamos: a URSS buscou a todo custo exportar essa fórmula, negando seu aspecto relativo e tratando-o como verdadeiro dogma do marxismo (aliás, como com outros tantos conceitos…).

Nessa fórmula política, construída para viabilizar a revolução respeitando-se as condições existentes e ao mesmo tempo torná-la um caminho ao socialismo, a liderança dos operários está incluída. Posso publicar em outra ocasião trechos de Lênin e Trotsky que indicam isto claramente. Mas do que se trata esta liderança? Ora, garantir que nas instituições de representação e decisão, haja domínio da representação operária sobre a camponesa. Concretamente: que haja uma maioria de delegados, deputados, e etc. representando os interesses dos operários.

A fórmula bolchevique se manifestou com mais clareza na NEP. Como você bem disse, a reforma agrária é uma medida capitalista. Seu significado econômico é o desenvolvimento das forças produtivas no campo. Na situação concreta da Rússia, fazia-se necessário esse desenvolvimento, para que pudessem existir condições materiais para a passagem ao socialismo. Nesse contexto, a NEP significou em parte uma concessão aos camponeses, para manterem seu apoio ao novo Estado, e ao mesmo tempo, uma política de desenvolvimento econômico necessário para a passagem ao socialismo, o que dava a ela justamente seu caráter socialista e de política operária. Todo essa política era controlada por um Estado de maioria operária na representação, garantindo que o desenvolvimento econômico estivesse em função da passagem ao socialismo. Lênin fala, abertamente, que se estava a caminhar para o “capitalismo de Estado”, que para ele era uma etapa imediatamente anterior ao socialismo. Anterior, note-se, naquela situação, não para qualquer capitalismo de Estado. Pois ali, diferentemente de outros países, o Estado estava sob domínio operário.

Aludi brevemente ao ressentimento do camponês quanto ao Estado soviético não para resumir a contradição camponês-operário a uma questão psicológica. Apenas quis demonstrar que, ao fim e ao cabo, o Estado soviético seguiu uma política operária, resolvendo a contradição latente na aliança revolucionária em favor dos operários e contra os camponeses, o que só poderia ter sido feito através do domínio da representação operária no Estado. Não podemos esquecer que a Rússia era um país agrário e de maioria camponesa. É, inegavelmente, um feito político e tanto, que por si só valida a fórmula bolchevique para aquela realidade. Eu não ignoro, é claro, os defeitos da política soviética para os próprios trabalhadores, que culminará mais tarde na queda desse regime.

De resto, Marx nunca foi contra a composição de classes, contanto que se levasse em consideração as limitações e contradições dessas alianças. Com efeito, lemos no Manifesto: “Entre os poloneses, os comunistas apoiam o partido que vê numa revolução agrária a condição da libertação nacional, o partido que desencadeou a insurreição de Cracóvia em 1846. Na Alemanha, o partido comunista luta junto com a burguesia sempre que ela assume uma posição revolucionária, contra a monarquia absoluta, a propriedade fundiária e a pequena-burguesia.”

Para concluir, gostaria de comentar algumas observações suas muito pertinentes:

“Utilizei isso no argumento porque um elemento dominante do bolchevismo é o dogmatismo do tipo: a palavra de Marx é a verdade apenas por ser a palavra de Marx. Claro que considero Marx o maior intelectual da causa da emancipação proletária, mas obviamente rejeito esse dogmatismo, o valor da obra de Marx está no valor de sua contribuição, e não na autoria.”

Lênin era um homem bastante crítico, e com plena capacidade de alterar seus conceitos quando a realidade o exigia. Exemplo disso são as mudanças que vai aplicar à sua concepção de Estado, publicadas em “O Estado e a Revolução”. As ideias expressadas nesse texto serão renovadas, aprofundadas, modificadas ou adaptadas em diversos textos subsequentes, de após a revolução, quando Lênin se depara com a situação concreta de construir um novo Estado. Os leninistas, por outro lado, não fazem jus ao gênio crítico do revolucionário russo. Estes sim, são dogmáticos e nada dialéticos.

Estou inteiramente de acordo com o espírito anti-dogmático expressado não apenas neste trecho que selecionei, como naqueles em que questiona o stalinismo. Um grande mal do movimento socialista tem sido esse dogmatismo, em que as palavras de um autor possuem um valor maior do que a realidade concreta. Parece que a autoridade de Marx está dentro dele, e não na correspondência de suas ideias com a realidade. Tal situação gera o velho debate infrutífero sobre o “verdadeiro Marx”, onde se disputa o que Marx disse exatamente, e não a correspondência do que foi dito com o mundo que nos cerca! Surgem blocos de esquerda ou partidos incapazes de se associarem um com o outro, formarem uma frente combativa, pois discordam neste ou naquele ponto. Cada um ostentando sua fórmula mágica, a única que libertará o Brasil. Desnecessário citar, neste ponto, os stalinistas que, com meia-dúzia de autores, se apresentam como os defensores da verdade absoluta. Não sentem vergonha em deturpar a História, valendo-se de fontes as mais indignas. Sem falar na maneira como atacam Trotsky, a mais abjeta possível.

Deve-se tratar o “marxismo” como ciência, onde a primazia pertence não a determinados autores, mas ao próprio movimento do real. Nem Lênin, nem tampouco Marx, são inquestionáveis. Por isso, o espírito crítico que você demonstra, e a disponibilidade para o debate, são inspiradores. Agradeço novamente a presteza com que me respondeu.”

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Written by ocommunard

25 de novembro de 2014 às 14:56

Publicado em Ideologia, Sem categoria

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