Communard

Políticas, economias e ideologias

Archive for novembro 2014

Alguns comentários a mais sobre ideologias

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Caro Fernando, aqui vai apenas alguns comentários sobre seu último comentário que publiquei no blog, que no geral, concordo, mas em termos.

Você afirma que a dialética pertence ao campo da lógica (de acordo) e que portanto, se relacionaria a interpretação (parcialmente de acordo, pois a lógica tem de reproduzir conexões reais), e que se os bolcheviques reduzissem as contradições operário-camponesas a um método sociológico seria um mecanicismo. Dizer que o homem sente fome se ficar muito tempo sem comer ou que engorda se ficar muito sedentário, poderia ser chamado de “absoluto” ou “mecanicista” baseado nesses termos. Mas o que entendo por “mecanicismo” se aplicaria a essas frases:

“Porém, na dialética, não se trata de as forças opostas se liquidarem mutuamente, mas formarem uma determinada síntese, uma totalidade específica.”

“Na análise da realidade russa, interessava compreender que síntese era aquela que se podia formar.”

Perceba que uma tensão histórica concreta é “interpretada” como uma “compreensão” de “forças opostas” em busca de uma “síntese”. As críticas de Marx aos “ideólogos”, sobretudo, os neo-hegelianos, vai em ironizar esse tipo de abordagem, que repito, foi recauchutada pelos “marxistas” como Zizek. Para Zizek, por exemplo, o que vivemos hoje é apenas uma “agonização” de “estruturas ideológicas podres”, nada a ver com greves na Grécia, desemprego na Espanha, partidos, sindicatos, lideranças, movimentos, realidades. Apenas, “ideias” se contorcendo em busca de uma “síntese”? E ele se diz um “marxista ortodoxo”. Vou lhe dar um bom exemplo de uma “interpretação marxista” frente a um texto de Marx. Agora cito Marx:

“A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica.”(Teses sobre Feuerbach, II. Marx)

Práxis em Aristóteles, cujo Marx era um grande conhecedor e admirador, inclusive era fluente em grego, significa “atividade humana”. Mas para Gramsci, um dos mais renomados “marxistas”, isso era pouco, então ele criou a “filosofia da práxis”. Citarei aqui o site Acessa.com apenas como ilustração da definição:

“Concluindo, a filosofia da práxis é, para Gramsci, construção de vontades coletivas correspondentes às necessidades que emergem das forças produtivas objetivadas ou em processo de objetivação, bem como da contradição entre estas forças e o grau de cultura e de civilização expresso pelas relações sociais.” (http://www.acessa.com/gramsci/?page=visualizar&id=642)

Veja o quanto de mistificação um “marxista” nos oferece, mas se entendemos a práxis apenas como “atividade humana”, podemos entender que Marx relaciona a “realidade de um pensamento” ao critério da “atividade humana”, um passo adiante ao “empirismo”, pois nos dá uma noção dinâmica e viva do conceito e elimina todas as especulações inúteis de provar a objetividade/verdade de uma teoria através de outra teoria. É real? É objetivo? A atividade humana é o critério, a práxis é o critério. E que tipo de ciência trata da atividade humana? A história.

Tudo que você defendeu como “fórmula política funcional” se aplica a um lema de Lênin muito conhecido que afirma que “não existe revolução sem teoria revolucionária”. Primeiro, isto não só é equivocado, é paradoxalmente oposto as bases mais básicas do método “materialista-histórico-dialético”. Uma teoria revolucionária é forjada em condições revolucionárias. O jacobinismo foi produto e não produtor ou co-autor da revolução francesa, os bolcheviques sequer existiriam, foi resultado da cisão do Partido Social Democrata Operário Russo, que não cindiu siplesmente por que quis, se cendiu provocado pelas circustâncias dramáticas que dinamitou a unidade do partido.

Será que os bolcheviques existiriam se a primeira e segunda revolução russa tivessem cumprido suas promessas básicas? Outra contradição flagrante de ler a revolução russa através de textos bolchevistas e sem rigor historiográfico é a própria revolução, a Revolução Russa foi a mais flagrante negação do leninismo/bolchevismo. Senão vejamos:

1. Partido de Vanguarda
Lênin defendia no seu conceito de Partido de Vanguarda que os trabalhadores por si só não iriam além do sindicalismo/reformismo (provavelmente, uma leitura superficial da Alemanha da época), que caberia a um auto-intitulado partido de vanguarda introduzir “por fora” o socialismo. Primeiro, isso contraria o conceito de “auto-emancipação” defendido por Marx, Marx afirmava que a tarefa de emancipação dos trabalhadores é tarefa dos trabalhadores. Segundo, os russos criaram os soviets, não só não se resumiram ao sindicalismo, como foram os soviets que organizaram a revolução de Outubro. Qual a palavra de ordem da revolução que o próprio Lênin bradava? “Todo poder aos soviets!”. E quem fez o soviets? O partido de vanguarda ou espotaneamente os proletários russos?

2. NEP/PERESTROIKA/SOCIALISMO DE MERCADO
NEP sucedeu ao comunismo de guerra, o que precisa ser dito, e que o próprio Lênin admite, é que simplesmente se tratava de uma economia de sítio (como ainda sofre Cuba com o bloqueio estadunidense). NEP ou o “comunismo de guerra” não tem nenhum significado a não ser do que um grande programa de experimentações para sobreviver o cerco econômico que vivia a Rússia de então. Essa é uma constatação factual, qualquer querela sobre se a NEP foi uma concessão capitalista ou camponesa, ou se o “comunismo de guerra” era comunismo ou racionamento é “escolástica”. A questão fundamental é que a influência bolchevista foi resultado do poder que eles conquistaram, da mesma forma Gramsci só virou uma grande influência em razão da força que um dia teve o partido comunista italiano, considerado então o maior partido comunista do ocidente.

O problema desse debate é essa inversão, talvez a psicologia explique: o que a história poderia nos ensinar é apropriada por algum “sábio” proferindo fórmulas, como se o sucesso da revolução russa fosse resultado das boas teorias bolchevistas, que como visto no ítem anterior, foi justamente o oposto. E Marx mais uma vez é aqui um pensador perspicaz a sempre nos ressaltar o que é realmente relevante e a desmoralizar esse tipo de abordagem.

Porque ressalto isso, porque essa mistificaçã é que faz com que a classe trabalhadora sem aprender praticamente nada do seu passado, sem acumular experiência nenhuma. Está sempre partindo do ponto zero em cada país. Claro, que há muitos autores, mesmo “marxistas”(Perry Anderson, Hobbsbawn, David Harvey, etc) e não-marxistas (Chomsky) que nos oferece o direito de aprendermos com a nossa própria história, mas essa “peste” é um desafio mais difícil do que nos livrarmos de outra peste, muito pior, o stalinismo.

COMENTÁRIOS FINAIS – SOBRE O DOGMATISMO
Expresso total acordo com suas palavras sobre o dogmatismo, ainda que discorde de sua interpretação das incoerências de Lênin como “adaptações”, “mudanças”, etc. Precisamos chegar a um acordo de que Lênin foi um grande líder e ponto. Que seus conceitos e seus livros foram panfletos e não ofereceram nenhuma contribuição, e que sua tese principal, de que uma economia pré-capitalista poderia ousar uma revolução comunista, fracassou. E quem defendia o oposto a isso era o próprio Marx, nada mais.

Só que, para que fique claro, a revolução russa alcançou essa via, tal como a chinesa e a cubana, não porque seus líderes fossem lunáticos idiotas sem conhecimento da necessidade de um capitalismo avançado para construir o comunismo modeno, houve 2 revoluções com aliança de classes na Rússia, e a burguesia russa traiu implacavelmente os trabalhadores. Na China ídem, houve uma revolução burguesa que imediatamente se voltou contra os trabalhadores. Em Cuba, a primeira fase da revolução foi nacionalista, mas logo assumiu um caráter comunista dado a reação estadunidense. Todas essas três revoluções clássicas comunistas do século XX foram impostas pelas circunstâncias, não pela teoria nem pelo voluntarismo. A lição que tiramos dela é que elas souberam se voltar para suas realidades locais e cada uma dela, a seu modo, rompeu noções pre-concebidas e não importaram fórmulas, mas, infelizmente, quiseram exportá-las, com a URSS exportando o leninismo/partido de vanguarda, a China exportando o maoísmo/revolução camponesa e Cuba exportando o guevarismo/foquismo. Mas não sei se são responsáveis pela exportação, ou se, de fato, os importadores são os responsáveis. (No Manifesto Comunista tem uma crítica em relação a importar literatura socialista ignorando a realidade local).

Karl Marx continua a ser um autor que mais contribuições oferecem, isso é algo ruim, pois significa que ficamos ainda carente de autores de dois séculos atrás. Marx nos oferece sobretudo uma capacidade de leitura dinâmica dos acontecimentos, entendendo suas causas, suas conexões, sua dinâmica (luta de classes), compreendendo o movimento em conjunto e centrando no ponto fulcral: “abolir a propriedade privada capitalista”. Esse é o ponto que separa todas os outros “partidos trabalhistas”, mesmos os revolucionários, do partido comunista. Ou em outras palavras, “a abolição da exploração do homem pelo homem”. E qual o meio para alcançar isso? Para Marx esse meio é a emancipação, tarefa da própria classe trabalhadora. Revolução e reforma são causados pelas condições objetivas e o nível de consciência crítica é também resultante das crises.

Condições objetivas não é algo “mecânico”, porque tudo é práxis, tudo é atividade humana, uma nota de dólar não é um pedaço de papel místico com propriedade inatas de valor, é um pedaço de trabalho humano reificado, é feito concretamente, sem romanceamento ou frases bombásticas, de sangue, suor e lágrimas de milhões de trabalhadores explorados, massacradas e reprimidos, que o diga a América Latina. A práxis (história) é o critério epistemológico que prova essa verdade, principalmente, nas ditaduras anti-comunistas do século XX.

P.s.: a partir dessa postagem continuaremos nossa conversa apenas através das caixas de comentários, ficará mais dinâmico.

Written by ocommunard

25 de novembro de 2014 at 16:39

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Réplica do Fernando, ainda sobre o stalinismo

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Reproduzo adiante o comentário completo de Fernando em resposta da minha última postagem Stalinismo em debate: em resposta ao Fernando.

“Companheiro Communard, primeiramente gostaria de agradecer-lhe a resposta, e me desculpar pela demora em respondê-la. Como o blog estava abandonado, não tinha certeza se receberia uma resposta, então não me dediquei muito a verificar. Vamos, então, a minhas considerações:

A dialética pertence ao campo da lógica, é uma maneira de traduzir a realidade na mente. Sua aplicação às questões históricas/sociológicas é o materialismo-histórico, e foi precisamente aqui que o questionei. Se a dialética, em si, nada tem que ver com as classes sociais, sua aplicação à interpretação da realidade social, o materialismo-histórico, por sua vez, tem tudo a ver com elas. Caso os bolcheviques reduzissem o método sociológico a um mecanicismo, considerariam a contradição entre o camponês e o operário como absoluta e, dessa forma, insolúvel, como se obrigatoriamente um anulasse o outro. Porém, na dialética, não se trata de as forças opostas se liquidarem mutuamente, mas formarem uma determinada síntese, uma totalidade específica.

Na análise da realidade russa, interessava compreender que síntese era aquela que se podia formar. Naquela situação concreta, a oposição entre aqueles dois atores sociais (camponês e operário) era atenuada por outras pressões materiais, permitindo uma composição revolucionária. Os bolcheviques tinham conhecimento de que a visão de mundo do camponês e do operário se opunham, almejando cada um certo tipo de sociedade. Porém, naquele momento concreto, seus interesses imediatos os aproximava.

Você admitiu, no ponto 2, que o conceito de Estado operário-camponês é uma fórmula política. Ela não se pretende conceito sociológico absoluto do “marxismo” (também desgosto do termo, prefiro “socialismo científico”), pois que depende de condições históricas concretas. Mas é um conceito “marxista” por excelência, no momento em que aplica a uma realidade concreta, uma fórmula funcional para as condições existentes naquele momento! Logo, a definição de “fraude política e sociológica” não se aplica. É um evidente exagero. Mas claro, não nos esqueçamos: a URSS buscou a todo custo exportar essa fórmula, negando seu aspecto relativo e tratando-o como verdadeiro dogma do marxismo (aliás, como com outros tantos conceitos…).

Nessa fórmula política, construída para viabilizar a revolução respeitando-se as condições existentes e ao mesmo tempo torná-la um caminho ao socialismo, a liderança dos operários está incluída. Posso publicar em outra ocasião trechos de Lênin e Trotsky que indicam isto claramente. Mas do que se trata esta liderança? Ora, garantir que nas instituições de representação e decisão, haja domínio da representação operária sobre a camponesa. Concretamente: que haja uma maioria de delegados, deputados, e etc. representando os interesses dos operários.

A fórmula bolchevique se manifestou com mais clareza na NEP. Como você bem disse, a reforma agrária é uma medida capitalista. Seu significado econômico é o desenvolvimento das forças produtivas no campo. Na situação concreta da Rússia, fazia-se necessário esse desenvolvimento, para que pudessem existir condições materiais para a passagem ao socialismo. Nesse contexto, a NEP significou em parte uma concessão aos camponeses, para manterem seu apoio ao novo Estado, e ao mesmo tempo, uma política de desenvolvimento econômico necessário para a passagem ao socialismo, o que dava a ela justamente seu caráter socialista e de política operária. Todo essa política era controlada por um Estado de maioria operária na representação, garantindo que o desenvolvimento econômico estivesse em função da passagem ao socialismo. Lênin fala, abertamente, que se estava a caminhar para o “capitalismo de Estado”, que para ele era uma etapa imediatamente anterior ao socialismo. Anterior, note-se, naquela situação, não para qualquer capitalismo de Estado. Pois ali, diferentemente de outros países, o Estado estava sob domínio operário.

Aludi brevemente ao ressentimento do camponês quanto ao Estado soviético não para resumir a contradição camponês-operário a uma questão psicológica. Apenas quis demonstrar que, ao fim e ao cabo, o Estado soviético seguiu uma política operária, resolvendo a contradição latente na aliança revolucionária em favor dos operários e contra os camponeses, o que só poderia ter sido feito através do domínio da representação operária no Estado. Não podemos esquecer que a Rússia era um país agrário e de maioria camponesa. É, inegavelmente, um feito político e tanto, que por si só valida a fórmula bolchevique para aquela realidade. Eu não ignoro, é claro, os defeitos da política soviética para os próprios trabalhadores, que culminará mais tarde na queda desse regime.

De resto, Marx nunca foi contra a composição de classes, contanto que se levasse em consideração as limitações e contradições dessas alianças. Com efeito, lemos no Manifesto: “Entre os poloneses, os comunistas apoiam o partido que vê numa revolução agrária a condição da libertação nacional, o partido que desencadeou a insurreição de Cracóvia em 1846. Na Alemanha, o partido comunista luta junto com a burguesia sempre que ela assume uma posição revolucionária, contra a monarquia absoluta, a propriedade fundiária e a pequena-burguesia.”

Para concluir, gostaria de comentar algumas observações suas muito pertinentes:

“Utilizei isso no argumento porque um elemento dominante do bolchevismo é o dogmatismo do tipo: a palavra de Marx é a verdade apenas por ser a palavra de Marx. Claro que considero Marx o maior intelectual da causa da emancipação proletária, mas obviamente rejeito esse dogmatismo, o valor da obra de Marx está no valor de sua contribuição, e não na autoria.”

Lênin era um homem bastante crítico, e com plena capacidade de alterar seus conceitos quando a realidade o exigia. Exemplo disso são as mudanças que vai aplicar à sua concepção de Estado, publicadas em “O Estado e a Revolução”. As ideias expressadas nesse texto serão renovadas, aprofundadas, modificadas ou adaptadas em diversos textos subsequentes, de após a revolução, quando Lênin se depara com a situação concreta de construir um novo Estado. Os leninistas, por outro lado, não fazem jus ao gênio crítico do revolucionário russo. Estes sim, são dogmáticos e nada dialéticos.

Estou inteiramente de acordo com o espírito anti-dogmático expressado não apenas neste trecho que selecionei, como naqueles em que questiona o stalinismo. Um grande mal do movimento socialista tem sido esse dogmatismo, em que as palavras de um autor possuem um valor maior do que a realidade concreta. Parece que a autoridade de Marx está dentro dele, e não na correspondência de suas ideias com a realidade. Tal situação gera o velho debate infrutífero sobre o “verdadeiro Marx”, onde se disputa o que Marx disse exatamente, e não a correspondência do que foi dito com o mundo que nos cerca! Surgem blocos de esquerda ou partidos incapazes de se associarem um com o outro, formarem uma frente combativa, pois discordam neste ou naquele ponto. Cada um ostentando sua fórmula mágica, a única que libertará o Brasil. Desnecessário citar, neste ponto, os stalinistas que, com meia-dúzia de autores, se apresentam como os defensores da verdade absoluta. Não sentem vergonha em deturpar a História, valendo-se de fontes as mais indignas. Sem falar na maneira como atacam Trotsky, a mais abjeta possível.

Deve-se tratar o “marxismo” como ciência, onde a primazia pertence não a determinados autores, mas ao próprio movimento do real. Nem Lênin, nem tampouco Marx, são inquestionáveis. Por isso, o espírito crítico que você demonstra, e a disponibilidade para o debate, são inspiradores. Agradeço novamente a presteza com que me respondeu.”

Written by ocommunard

25 de novembro de 2014 at 14:56

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Stalinismo em debate: em resposta ao Fernando

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Fernando levantou uma questão sobre um dos debates contra os stalinistas. Já havia me aposentado desse blog, mas volto a ele para responder, com muito prazer. Segue a íntegra do comentário.

“Na questão da aliança operário-camponesa, que você critica como fraude política e sociológica, não há mais que a aplicação dialética (e não mecanicista) do materialismo-histórico, a uma realidade histórica concreta. Analisou-se a composição de classes que imperava na Rússia czarista e quais as forças sociais que carregavam os germes da mudança. Citar a opinião de Marx sobre os camponeses de uma determinada realidade histórica e achar que se aplica a todas as realidades históricas não é mais que mecanicismo. Na Rússia da época da Revolução a demanda dos camponeses por reforma agrária era progressista e podia compor-se às demandas dos trabalhadores urbanos no processo de contestação do regime semi-feudal. Apesar desta aliança, que obviamente carregava contradições para o futuro, os bolcheviques sempre pregaram a liderança dos operários e seu domínio político sobre o Estado. Ainda que tivessem de abrir algumas concessões aos camponeses, a liderança política caberia incontestavelmente aos operários.

Tanto que é sabido o ressentimento do campesinato quanto às políticas industrializantes de que o Estado soviético se serviria mais tarde.”

Farei uma resposta rápida, sem citar referências, podendo haver alguma imprecisão aqui ou alí, mas bucando o cerne. Posso destacar alguns pontos da argumentação do Fernando:

1. O equívoco do meu argumento está na “aplicação mecanicista” ao invés de “dialética do materialismo-histórico. Para você, essa aplicação dialética significa levar em conta as realidades históricas.

2. De que a viabilidade dessa aliança está na demanda progressista da reforma agráfia. De que os bolcheviques sempre pregaram a liderança operária nessa aliança operário-camponesa.

3. Que admite, ao menos em parte a contradição, no ressentimento do campesinato contra a industrialização que se seguiu na ex-URSS.

Respondendo, prolixa e rapidamente…

1. Sobre o materialismo-histórico-dialético

Essa vai ser a resposta mais alongada. É importante ressaltar que essa epistemologia hoje está tão difundida no senso comum e nas ciências sociais (exceto economia), que talvez seja pouco relevante destacar. As ciências sociais de hoje são materialistas (não acreditam que a realidade social é plasmada por espíritos ou ideias, mas no estudo empírico), são históricas (não deduzem teses naturalistas-especulativas, o direito natural é piada, o contrato social é um mito, etc). E temos a dialética, acho que mesmo o pensamento dialético não estranharia o senso comum, acho que qualquer um admitiria hoje o que Marx disse que a liberdade não é uma utopia do faça o que quiser (sim, eu sei, é uma simplificação, mas serve como ilustração), mas depende das condições legadas, objetivas e contextuais. É algo bem intuitivo, a meu ver, pelo menos para um “proletário” como eu.

Ao defender uma leitura “social” ou “sociológica” estou priorizando justamente a realidade específica, eu utilizo a afirmação de Marx sobre o campesinato reacionário que votou em Luís Bonaparte, mas também Marx ressalta que há também o campesinato revolucionário. Utilizei isso no argumento porque um elemento dominante do bolchevismo é o dogmatismo do tipo: a palavra de Marx é a verdade apenas por ser a palavra de Marx. Claro que considero Marx o maior intelectual da causa da emancipação proletária, mas obviamente rejeito esse dogmatismo, o valor da obra de Marx está no valor de sua contribuição, e não na autoria.

Portanto, aplicar a dialética não significa transpor uma realidade para outra, isso seria mais exatamente aplicar o historicismo ou materialismo, não a dialética, a dialética significa compreender a relação ao mesmo tempo oposta e recíproca entre as condições objetivas e subjetivas (infraestrutura x superestrutura), economia x política, etc. A dialética de Marx nada tem a ver com as diferenças das classes sociais, ainda que a luta de classe seja uma relação dialética, mas talvez esteja certo se estiver considerando uma luta de classes entre operários e camponeses, mas essa tensão não foi omitida, pelo contrário, eu a destaquei a primeiro plano ao questionar o “operário-camponês” de Lênin.

2. Aliança/Liderança da Ditadura/Democracia do Operário/Camponês

Se o operariado iria liderar uma aliança, ainda que liderar seja uma palavra muito vaga que pode significar tanto dominar quanto apenas inspirar, não podemos falar certamente de uma aliança que supõe repartição do poder. Se os bolcheviques defendessem essa liderança, ele teria de dizer com todas as letras: ditadura do proletariado. Mas sim, é claro, isso teria custos políticos para o apoio do campesinato, e sim, as condições objetivas/socais da Rússia estava a léguas não só da viabilidade da ditadura do proletariado, quanto da viabilidade de qualquer outra dominação. O erro leninista é tentar misturar água com vinho, uma coisa é a velha conciliação de classes, uma “frente popular”, outra coisa é querer enquadrar isso com um conceito “adaptado” de ditadura do proletariado. Lênin era um líder, um político, um agitador, um panfletário, não era e nem precisava ser um pensador/intelectual. Mas os leninistas acham que Lênin, para ter reconhecimento sobre sua contribuição na revolução, precisa ser considerado um guru infalível sobejamente sábio.

3. O ressentimento anti-industrial camponês

Qualificar essa tensão como um problema psicológico de ressentimento é, isso sim, rejeitar o materialismo histórico dialético, a tensão está objetivamente dada pela forma como cada classe social se organiza e posiciona socialmente. O próprio Lênin ou Trotsky, não tenho a fonte aqui mas posso pesquisar depois, afirma que a aspiração de um camponês é se tornar um pequeno proprietário, essa é ambição da reforma agrária, que é uma reforma capitalista! Essa não é uma contradição ideológica, é uma contradição real, concreta, dos limites e possibilidades de uma revolução social naquela Rússia destroçada pela guerra inserida na economia capitalista internacional naquele contexto dado. Reduzir isso a princípios, valores, ideias, voluntarismo, projetos é o que chamam “marxismo”, que a meu ver é a total deturpação das contribuições de um certo Karl Marx (ele próprio rejeitou e denunciou o termo ). A revolução é um fato social dialético, causado por fatos sociais históricos, explicado por fatos sociais materiais (não-ideológicos), não um programa político. Isso tudo está fartamente documentado nas obras de Marx e Engels, o problema que essa contradição é milagrosamente invisível para o que é considerado marxismo, isto é, tudo que foi produzido por Lênin, Trotsky, Luckacs, Gramsci, Althuser, Zizek. Que nada mais é do que uma espécie de transfiguração idealista das formulações rigorosamente materialistas de Marx.

A questão que sobra é, então Marx tem sempre razão? Claro que não é essa a questão. A questão é qual desses autores tem concepções minimamente coerentes com Marx apesar de se denominarem marxistas, o que me faz crer que marxismo e Karl Marx são coisas antagônicas. O segundo ponto é, qual desses muitos autores nos oferece melhor compreensão dos fatos históricos que se desenrolam na época em que vivemos. Se Lênin defende a ditadura/democracia do operário/camponês, há dois problemas, o primeiro é a contradição interna de defender isso como algo coerente com o que escreveu Karl Marx, o segundo é colocar a prova histórica o conceito de Karl Marx sobre ditadura do proletariado e o conceito de Lênin sobre ditadura democrática do operário-camponês (e mesmo o conceito de Lênin sobre ditadura do proletariado, que para ele é o mesmo que ditadura do partido comunista).

Não quero cair na argumentação superficial do “Marx foi traído”, porque isso cairá na armadilha dogmática. O que quero destacar é que a contribuição de Marx nos permite uma compreensão racional de tudo que ocorreu na Rússia, não só porque a revolução foi lá, como porque ela fracassou. Já as teses de Lênin não sobrevivem nem entre as obras de Lênin e culminou no que vemos. Cito Lênin, porque ele é o pai de todos os marxismos, apesar de achar que em Trotsky se salva alguma contribuição, como a teoria do desenvolvimento desigual e combinado e a revolução permanente, que são declaradamente apenas um aprofundamento de contribuições de Karl Marx sobre a distribuição internacional do trabalho e sobre uma reflexão sobre a posição dos comunistas sobre a aliança de classes em um período revolucionário.

p.s.: como estou no trabalho agora, aproveitando o horário de almoço para fazer essa postagem, portanto, sem muito tempo, posso editar depois adicionando as referências e links, caso se mostre necessário.

Written by ocommunard

13 de novembro de 2014 at 15:05

Publicado em Sem categoria