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Políticas, economias e ideologias

Pondé e a miséria da filosofia (neoudenista)

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O “artigo” do “filósofo” Pondé, “Lincon, Obama e Bono Vox”, estabeleceu um novo subnível reluzente do grau de decadência intelectual da direita brasileira. Se o seu êxito estiver em chocar por sua vacuidade, ele é um sucesso cósmico e kármico. A tese do seu artigo é pregar histericamente que “Obama não tem nada a ver com Lincoln”. Quais argumentos? Tampe vossos narizes, lá vai…

Pondé declara que Obama quer se vender como Lincoln negro, mas para ele existe um impedimento: “festivo demais para sê-lo”. Algo que ele justifica afirmando simplesmente que Obama é “um Carter que tem a sorte de ser negro”.  É realmente lamentável e vergonhoso essas tentativas frustradas de Pondé criar frases de efeito, imitando estilo de Nelson Rodrigues.

Citar Pondé é impossível, onde fica o argumento em seus decretos berrantes, ela não demonstra, ele prega, talvez nem isso. O incrível é um artigo recheados de ataques vazios, com frases sem brilhos e plagiando estilos, fica muito óbvio o interesse de que, na rasteira do sucesso da cinebiografia, seu palavrório mine qualquer admiração ao “primeiro presidente negro” como efeito do cinema.

No texto ele chega a sugerir que ser negro em um país de passado racista é “sorte”, como se a cor negra lhe desse vantagens, como se o fato dele ser o primeiro negro presidente não demonstrasse justamente o oposto. Ele está muito irritado também com Bono Vox, porque consciência social para ele é algo muito chato, independente do que isso possa significar para as tais crianças famélicas africanas que ele esnoba e debocha.

Então começa a tecer alguma coisa parecida com uma “hipótese” com cara de “tese”, pelo menos para ele próprio assim lhe parece. Ao afirmar que o que estava em jogo  “não era a escravidão acima de tudo, era o Sul querer sair da União”, ele crê disparar um tiro mortal contra as similaridades político-ideológicas entre Obama e Lincoln, e sobretudo, os riscos destas semelhanças em promover Obama (eis a real questão que  o incomoda).

A historiografia ( e a atual cinebiografia) deixa explícito que já na reeleição de Lincoln a vitória do Norte estava garantida, e  vai além ao apresentar o interesse de Lincoln de alongar a guerra civil (evitando o acordo com os confederados) para usar o fim da guerra como pretexto para aprovar a abolição. A única contradição encontrada entre a cinebiografia e a historiografia foi centrar em dois personagens toda a luta abolicionista americana.

Lincoln não só alongou a guerra civil para garantir 13a emenda (como um conservador antipetista, 13 deve lhe dar calafrios), como inclusive subornou e comprou votos para que ela passasse (imagine aí para os mensalo-historiógrafos admitirem que compra de votos pode ser legítima em nome de uma grande causa como o fim da escravidão, ou para sermos mais recentes, o fim da miséria). Como declara um dos personagens do filme, Lincoln já entraria para a história se tivesse meramente se acomodado com a vitória da guerra de secessão, mas ele não se acomodou com isso.

Outra invencionice ponderiana é a de querer destruir a imagem de um “Lincoln liberal”, pois para ele “ser abolicionista, na época, não era ser liberal, pois Joaquim Nabuco” era “conservador”. Essa falácia infantil que simplesmente busca ocultar para os preguiçosos de que o Joaquim Nabuco era conservador, não porque fosse abolicionista, mas porque era monarquista. Obviamente, até etmologicamente fica claro que conservar a escravidão seria algo conservador, e não o oposto.

O irônico é que a caricatura de liberal americano que o Pondé descreve (sujeito culto, superior, adorador de canapés, pomposo, bem alinhado e festivo) é justamente encarnado pelos opositores democratas (liberais) da escravatura. E se a personalidade valesse como argumento, Obama seria um não-Lincoln pela razão oposta, por ser Lincoln absolutamente mais progressista que o liberal Obama. Lincoln, tanto o real como o representado, era uma figura simples, que gostava de contar ‘causos’, que não tinha estudos, que sofria preconceito por não ser culto (algo remete a Lula, nesse ponto Pondé já deve estar espumando de ódio), em outras palavras, um caipira. Um caipira abolicionista venceu os aristocratas do sul e se transformou no maior líder político da mais poderosa nação do mundo, e o que é pior, tem semelhanças extremas com Lula! Que verdade dolorosa para um “pre-moderno” Pondé anti-lulista.

Inclusive, o próprio Karl Marx enviou um carta ao Lincoln saudando a vitória da União como sendo a vitória de todos os trabalhadores. Na perspectiva de Marx, Lincoln era muito mais do que um mero “liberal”, mais ainda que um “progressista” (ainda que para Pondé sejam sinônimos).

No fundo, no fundo, afastar Obama de Lincoln é apenas a fachada para afastar o presidente operário mais popular da história do Brasil com o presidente camponês mais popular da história americana. É isso, ou então o Pondé é um mero débil mental e pronto.

Ao metamorfosear “Lincoln” em Netanyahu, claro, nada tem a ver o fato de Pondé ser conservador e querer assemelhar Lincoln a um político ultra-conservador, até para os mais incautos fica evidente  a  propaganda ideológica do texto. E mais, para Pondé, Lincoln seria ainda pior que o Bibi, porque não “invadiria os territórios”, “os anexaria”. Tratar uma guerra de secessão como uma guerra anexionista é não ter medo do ridículo. O sul não queria independência, queria a secessão de um território, o sul não era colônia do norte. Se o sul fosse tão heroico e  o Pondé menos ilógico, caberia ao conservador Pondé lançar loas a “esquerdistas”  separatistas como o ETA. Mas não, ela não se incomoda de se contradizer a cada nova frase, desde que difame quem não é conservador e estúpido como ele.

Se tudo até aqui no texto de Pondé beira ao delírio, conhecemos o cúmulo quando Pondé iguala a vitória da União contra os separatistas com o colonialismo europeu sobre a América Latina, uma elite que se apoia em um total débil mental como este já está se declarando morta. Sua tese é muito profunda, Obama é mole-festivo e “Lincoln era um cabra macho” que massacrara o Sul  e pronto! Americanos matando americanos sempre espantou os americanos durante toda a guerra civil (e a cinebiografia também apresenta esse dado), mas não para o filme de Pondé, onde qualquer sentimento de humanidade, ombridade e dignidade é apenas uma chatice “politicamente correta” e simplesmente deve ser ignorada frente a sua ficção ideológica.

Ele cria uma imagem de um Lincoln brutal, inescrupuloso e expansionista, ele cria, portanto, um Lincoln-Pondé-Bibi. Isso não é simplesmente tudo o que Lincoln não foi, mas exatamente o oposto, sua cinebiografia revela que ele agiu como um moderado entre abolicionistas radicais e os anti-abolicionistas extremistas, em suma, ele era um pragmático como o Obama, e como tal, sem escrúpulos como o Obama. Acima de qualquer coisa, acima dos escrúpulos morais (comprar votos) ou dos princípios morais (o igualitarismo pleno que a 13a emenda ainda não garantia), Lincoln ressalta o resultado (fim da secessão e fim da escravidão).

Criar essa imagem de um Obama pacifista está mais para um obamista do que para os fatos (ou mesmo para a ficção neocon), em nenhum momento do governo de Obama ele fez por merecer um prêmio Nobel da paz. Manteve praticamente os mesmos neocons bushistas nos postos chaves das forças armadas. Praticou os mesmos crimes de Bush, agora sob o nome de “guerras humanitárias” ou “luta contra a tirania) (geralmente liderando com a fachada da OTAN) ao invés da “luta global contra o terrorismo” com os EUA na proa. Tanto seguiu o corolário dos “falcões” que sua agressividade militar não foi questionada pelos republicanos na sua reeleição. Sua retórica é eleitoreiramente pacifista, mas seu governo não é.

A briga ideológica de Pondé contra os fatos chega ao ridículo de declarar que “Lincoln não era liberal” porque “não queria que os EUA perdessem território e grana”. Entendeu, bem? Ser conservador para Pondé (o pudim da burguesia) é “não querer perder território e grana”, o liberal quer o contrário. Para o Pudim, para que fique bem claro, liberal é aquele que quer que seu país “perca território e grana”. Oh, profundidade! Que filósofo! Pondé é o nosso Platão! Pondé é o nosso rei- filósofo!

Depois, vai adiante em sua propaganda neoliberal dizendo que “os EUA são o que são porque nunca foram centralizadores”. A vitória da União foi justamente a vitória da “federação” contra a “confederação” (por isso, confederados). Portanto, a vitória de Lincoln foi uma vitória pela centralização. Basta isso, fora ignorar toda a histografia recente, passando pelo “centralizador” new deal, e pela hegemonia keynesiana (Nixon afirmou: “todos somos keynesianos), etc.

Vender um liberal-americano como um pacifista, não é só puro obamismo (porque é assim que Obama quer se vender, e o Pudim compra euforicamente), como completa ignorância histórica. Quem iniciou a guerra do Vietnã? quem decidiu entrar na Segunda Guerra? Sob que governo houve a invasão da Bahia dos Porcos? E os Balcáns, e a Síria, e a Líbia? E os Drones no Paquistão… todos presidentes liberais (Democratas). O que difere, nos EUA, um liberal de um conservador em termos militares é que o primeiro é mais belicista na prática e mais pacifista na teoria, o outro é tão belicista na prática quanto na teoria.

E o que é o Pudim? Ele é o mais importante registro histórico da debilidade da direita brasileira, as gerações vindouras terão em Pondé o panorama geral da estupidez que alcançara as elites tupiniquins de nossos dias.

Thank you, Pondé.

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Written by ocommunard

29 de janeiro de 2013 às 0:17

Publicado em Sem categoria

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