Communard

Políticas, economias e ideologias

Debate: pro-stalinismo vs anti-stalinismo, a segunda resposta ao ÍCaro

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Adiante a minha resposta a segunda carta aberta de Ícaro sobre questões relacionadas a crítica do stalinismo, sua segunda carta aberta pode ser encontrada aqui Segunda Carta Aberta de Ícaro ao Communard.

Vamos direto ao debate…

Quando afirmo que pode-se dizer que a palavra stalinismo foi inventada por Trotsky para detratar Stalin isso não tem por base qualquer abstração. Trotsky estava interessado em fazer parecer que Stalin era um usurpado, que não dispunha dos atributos necessários para substituir Lenin na direção do Partido Comunista, que o havia traído e, que ele era, por outro lado, o mais capacitado para isso e o legitimo herdeiro do líder morto. Trotsky usava o termo stalinismo para tentar criar uma fenda entre o Partido Comunista de Stalin e o Partido Comunista de Lenin, que ele denomina como bolchevismo. Escreve um texto chamado stalinismo e bolchevismo onde apresenta essa ideia.

Camarada, Trotsky nunca o considerou um usurpador, mas um traidor – uma diferença que não é nada retórica. Trotsky estava tão naturalmente na linha de sucessão que Zinoviev, Kamenev e Stalin se uniram contra ele. Depois de eliminado Trotsky, logo foi a vez de Zinoviev e Kamenev entrarem na lista negra, e que só por acaso, claro (estou sendo irônico!), acabou dando a Stalin o monopólio absoluto do poder.

O que separa Trotsky de Stalin, e mesmo esse de Lênin, não são os tais “crimes”, mas a escala desses, os crimes de Stalin alcança uma grandeza genocida. Isso não quer dizer que boa parte dos declarados crimes não seja propaganda anti-comunista, tão pouco pode legimitimar um stalinista (marxista-leninista) a declarar qualquer crítica a Stalin como anti-comunismo.

Estou plenamente ciente que a tendência a associar um líder ou autor à determinada corrente política é comum. Porém, a questão é saber se esse autor, ou líder especificamente deva ter a seu nome anexado o “ismo”. Para deixar claro, você afirma o “stalinismo não é uma pecha ou qualquer outra coisa, é apenas a referência usual de associar o autor a uma escola de pensamento que ele defende, o que essencialmente significa aqui, em termos teóricos, a teoria do ‘socialismo de um país só’.” O problema é exatamente que é Lênin e não Stalin quem inaugura essa teoria no campo do marxismo. Devemos chama-la, portanto, de Leninismo. Mas a frente, já nas tantas do texto, vocês afirmam que isso é absurdo. Mas deixemos a questão de provar se Lênin de fato foi o inaugurador dessa teoria mais para frente.

A tese do “socialismo de um país só” foi literamelmente inaugurada pr Stalin, quem buscou provar que esse conceito é leninista foi o próprio Stalin, quem a utilizou politicamente contra Trotsky foi Stalin, então é impressionante perceber sua resistência de dar os méritos da tese a ele, a não ser por relutância em não cometer alguma heresia. Se um stalinista prefere ser identificado como marxista-leninista porque era assim que Stalin se definia ou definia assim a ideologia oficial da URSS de então, isso o torna não menos, mas um stalinista absoluto, que não permite nem mesmo se desviar das terminologias, por mais que a terminologia herege em questão em nada danifique as conclusões conceituais. Poder-se-ia dizer, para também me divertir com hipóteses, que a adesão manifesta e inquestionável ao termo marxismo-leninismo é a graduação máxima na seita stalinista, já que ritualiza até a nomenclatura dos conceitos.

Quanto ao legado de Stalin, a referência a industrialização foi escolhida mais pelo fato de outras correntes políticas serem capazes de reconhecer um caráter positivo nesse feito do que em outro motivo. Mas também citei a vitória do exército vermelho sobre a Alemanha nazista durante a Grande Guerra Patriótica (1941-1945). Tudo que quis dizer é que, no geral, se não se pode denominar nenhuma corrente política especifica como stalinismo, essa denominação só poderia estar ligada ao reconhecimento de qualquer mérito do período de Stalin. Então, seria isso o stalinismo?

E mais. É completamente falso afirmar que o reconhecimento da industrialização de Stalin como um legado positivo do seu regime seja o mesmo de reconhecer o caráter positivo do capitalismo. Ou, para ser mais justo. É bom lembra que Marx reconhece o papel positivo que a burguesia joga como classe revolucionária num primeiro momento de sua acessão. É bom lembrar que no seu programa de dez pontos no final da sessão dois do manifesto comunista Marx apresenta no ponto sete e oito a ideia da industrialização. Também para ele o governo revolucionário deveria estar comprometido com o desenvolvimento das forças produtivas inclusive organizando exércitos industriais de trabalho.

A industrialização não pode ser usada como mérito a Stalin, pela mesma razão com que você cita Marx ao reconhecer a burguesia como “classe revolucionária” no seu papel industrializador, por se tratar de uma conquista essencialmente “burguesa”, o que corrobora plenamente com o conceito de “acumulação primitiva”, como também corrobora o ato falho do conceito trotiskista de “acumulação primitiva socialista”. Marx afirmou que o governo revolucionário não só “deveria estar comprometido”, como afirmou muito mais: que só o governo revolucionário proletário libertaria plenamente as forças produtivas das restrições da propriedade capitalista dos meios de produção.

Transformar em vitória de Stalin a derrota do nazismo, mesmo sabendo que coube a ele o pacto de não-agressão que fez com que a URSS baixasse a guarda criando o maior holocausto da Segunda Guerra! (bem maior que o holocausto hollywoodiano dos judeus). A vitória sobre os nazistas caberia a Stalin unicamente se coubesse a ele apertar o gatilho, comandar as tropas ou algum ato administrativo que tenha contribuído para a vitória, sua única contribuição nessa vitória foi o vergonho pacto de não-agressão. Segundo sua ótica, quem construiu as pirâmides foram os faraós…

Se excetuarmos o mérito do bravo povo russo, cujo a quem dou todo o mérito, a única liderança política que realmente se destacou na vitória da Segunda Guerra foi justamente quem? Nikita Krushev. O “maldito” que com “mentiras” difamou Stalin. Ele liderou a ofensiva de stalingrado que levou a vitória russa. Isso inclusive alavancou sua carreira política com óbvia aproxima de Stalin até leva-lo ao cume do poder soviético.

Porque o aparecimento da indústria e sua rápida concentração gera a formação do proletariado moderno. A concentração industrial na Rússia, em alto nível, da vazão a criação do proletariado moderno, que é, segundo Marx, a força social motriz da revolução socialista.

Não é a “concentração”, mas a expansão do modo de produção capitalista que “gera a formação do proletariado moderno”, por isso que ironiza Marx que os capitalistas produzem os seus coveiros.

(…)Bem entendido, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção é o que possibilita as rupturas sociais que engendram a transformação das relações de produção, mas essas rupturas e transformações são tarefas que competem aos homens, partidos e classes sociais executarem. A negação desse papel que compete ao agente político em todas as suas instancias (coletivas e individuais) é a base do economicismo não a teoria das forças produtivas de Marx.

Num dos prefácios de Engels a edições posteriores do manifesto comunista – que vocês acusam Lênin de ignorar – ele relembra a imensa importância política que Marx atribuía ao papel da consciência política e por isso mesmo ao desenvolvimento intelectual dos trabalhadores através de suas experiências políticas. Ele não era, portanto, de maneira nenhuma um espontaneísta.

Reduzi essa citação porque a parte final resume a questão. O que quis demonstrar é que observar a contradição entre as forças produtivas e relações de produção como “economicismo” é o verdadeiro “economicismo”. Relações de produção e forças produtivas são fenômenos da vida do proletariado, ele não só está imerso nessas forças, como tais forças são elas próprias o proletariado mobilizado produtivamente, quem o vê como um fenômeno reificado economicista assume uma perspectiva burguesa que o bonapartismo stalinista parece gostar de assumir, sempre.

O que Marx nos revela é que os homens são produtos das circunstancias, mas as circunstancias são produtos dos homens. Esse é o conceito marxista de liberdade, uma liberdade dialética, nem é a liberdade voluntarista(bolchevique) do idealismo comum, nem a não-liberdade do determinismo mecânico do materialismo não-dialético (que você denomina de economicismo). Os agentes políticos (proletariado) já estão atuando enquanto forças produtivas e relações de produção, e só se revolucionam quando essas forças se contradizem, não existe um outro, a não ser admitindo a hetero-emancipação com um messiânico partido de vanguarda que age “por fora” do proletariado (oposto a idéia de Marx de auto-emancipação do proletariado). Resumindo, Marx não era um espontaneísta  para ser bem claro, era um historicista de abordagem materialista-dialética.

Quanto a ditadura democrática revolucionária dos operários e camponeses. Primeiro é bom salientar que se os bolcheviques ainda se baseavam no lugar comum da socialdemocracia internacional da impossibilidade do socialismo na Rússia antes da vitória da revolução europeia, Lenin com a teoria citada já lançara as bases de sua superação. A ideia da impossibilidade do socialismo na Rússia atrasada, que é o ponto chave da teoria da revolução permanente tem a seguinte lógica. Ela pressupõe que a revolução socialista contrapõe o proletariado à totalidade da nação. E que, portanto o proletariado (entendido como operário industrial) só pode se lançar a revolução socialista quando for a maioria absoluta da população. Dai decorreria, no mínimo, que o marxismo não é a teoria da revolução. Já que está explicito em Marx e em sua lei da composição orgânica do capital que as economias capitalistas mais desenvolvidas tendem a reduzir a sua força de trabalho industrial em proveito da máquina. A teoria da revolução permanente, também se baseia na ideia de que os camponeses representam sempre um bloco contrarrevolucionário que se opõe ao proletariado. A teoria leninista da ditadura democrática revolucionária dos operários e camponeses (que gosto de chamar de teoria da revolução ininterrupta) é nesse sentido uma inovação no corpo teórico do marxismo vigente na Segunda Internacional, mas não em absoluto no marxismo.

Quando você afirma que os bolcheviques “ainda se baseavam no lugar comum…” você admite que as teses de Lênin se contradizem, como afirmei, a obra de Marx, você deve reconhecer, tem um todo coerente a partir da Ideologia Alemã, mesmo nas novidades entre uma obra e outra é sempre um aprofundamento dos mesmos fundamentos, o que demonstra a perícia científica de suas teorias. A maior mudança Marx admite em Comuna de Paris, é a mudança estratégica de tomar o Estado para o proletariado (como transição para abolição do Estado), em favor da abolição do Estado como condição indispensável para o poder proletário.

Primeiro, a “revolução permanente” é um conceito de Marx que Trotsky retoma e dá uma nova forma. Em Marx, “revolução permanente” é defendida numa situação onde há aliança de classes com a burguesia progressista, em dado momento, afirma Marx, a burguesia busca encerrar a revolução depois de conquistar seus objetivos de classe. Marx defende que o proletariado esteja preparado para esperar dessa aliaça essa traição, entender porque ela ocorre, e manter viva a revolução, para que ela vá além dos objetivos burgueses.

Em Trotsky a “revolução permanente” significa a “ditadura do proletariado” e a “internacionalização da revolução”. Marx defende a ditadura do proletariado nos países onde o proletariado é minoritário, por isso que naquele famoso texto ele afirma que o proletariado poderia alcançar o poder através da democracia nos EUA e na Inglaterra (estamos falando estritamente em tomar o poder). Como classe minoritária a ditadura do proletariado é uma necessidade indispensável, como país sem capitalismo avançado a intelecionalização é do mesmo modo necessário. Erro de Trotsky aqui é trivial, não poderia definir sua estratégia como “revolução permanente”, mas como simplesmente “comunismo moderno”, isto é, comunismo na acepção de Marx. Porque o que ele defendeu são apenas os fundamentos mais básicos de Marx.

A lei da composição orgânica do capital não chega a conclusão de que a força de trabalho industrial diminui socialmente por casusa da máquina, apenas que o peso da transferência de valor ao produto é menor. Esse fenômeno de redução do trabalho industrial sequer existira na época de Marx cujo observou um grande aumento do operariado. O fenômeno pós-industrial é relativamente recente e não foi contemporâneo de Marx, ele é muito complexo, podemos debater sobre ele em outros artigos.

Por fim, quem afirma que os camponeses são “contra-revolucionários” é Marx em 18 de Brumário, Trotsky se baseia nisso. A prova de que o conceito incrível de “ditadura democrática” é uma inovação em Marx está no fato de que ele simplesmente não só não existe em nenhuma obra de Marx, como contradiz ao conceito de Marx de ditadura de classe ou mesmo na possibilidade de tomar o poder por via democracia (aonde o proletariado for socialmente majoritário).

[explicando o conceito de ditadura democrática segundo Ícaro] (…)A palavra ditadura na formula decorre de uma conclusão do próprio Marx de que o governo nascido de uma revolução só pode ser uma ditadura e uma ditadura enérgica. E a palavra democrática faz aqui muito mais referência as tarefas burguesas que ele tem de cumprir (convocação da constituinte, reforma agrária) do que a forma de governo.

Em nenhuma parte Marx define que a ditadura é uma necessidade por ser nascida de uma revolução, como escrevi antes, ele admite a possibilidade de tomada do poder por eleições, é bom sempre frisar que o conceito se trata de uma ditadura de classe, é portanto indiferente a constituição política do Estado. A prova disso está na obra Lutas de Classe na França, quando ele define que em uma dada conjuntura política em plena democracia francesa, havia se formado uma “ditadura burguesa”. Isto é, todo o poder de fato naquele momento representava os interesses da burguesia em geral(a industrial, a financeira e latifundiária , mesmo com pluripartidarismo, eleições, “suposta” liberdade de expressão, república, etc. Então, as formas políticas são plenamente indiferentes, o que interessa é a que classe o poder se submete. Se ele se submete a apenas uma classe, se trata de uma ditadura dessa classe (com ou sem eleições, com ou sem muitos partidos, etc).

Democracia, portanto, como qualquer outra forma política, não tem qualquer relação com qualquer classe social, é uma superestrutura, muito menos a “fase burguesa”. A democracia comum que conhecemos não foi obra da burguesia (isto é, sufrágio universal ao invés de sufrágio censitário, por exemplo), foi arrancada em lutas populares (sobretudo, pela pequena burguesia e proletariado). A grande burguesia prefere regime ditatoriais, aonde o seu poder é mais direto. Mas, obviamente, o poder de fato está em quem financia eleições, faz lobbys, controla os meios de comunicação, assim, o sufrágio universal fica dentro das rédeas burguesas, mas há brechas, o bolivarianismo é prova disso.

Logo em seguida você se questiona “(…)como o governo poder ser operário (revolucionário) se é unido aos camponeses (…)” ? Segundo diz, Marx afirma que os camponeses são em sua maioria reacionários. O que Marx afirma é que os camponeses foram à base do golpe de Estado na França no inicio dos anos 1850. E devido a sua condição de isolamento e o atraso em que vivem não podem propor uma alternativa de poder, devendo apoiar esse ou aquele poder existente e que se originam no capitalismo em grandes centros urbanos. Afirma também que o motivo maior da derrota da revolução na França daquele período foi o massacre do proletariado parisiense entre junho e julho de 1848 e as hesitações políticas da pequena burguesia social-democrática das cidades. Numa leitura mais atenta de 18 de Brumário fica claro que os resultados daquela convulsão social seriam bem outras se o proletariado tivesse conseguido conquistar os camponeses e isolar Luís Bonaparte.

Além disso, é o próprio Marx quem apresenta pela primeira vez essa ideia. Em uma carta a Engels, datada de 14 de abril de 1856, quatro anos após escrever seu 18 de Brumário, Marx indica que; “A coisa toda na Alemanha dependerá da possibilidade a apoiar a revolução proletária com uma espécie de segunda edição da guerra camponesa. Então a coisa será óptima.”.

Como tudo que ficou tido é claro que a teoria de um governo de ditadura democrática revolucionária dos operários e camponeses, a teoria leninista da revolução, apoia-se no próprio marxismo e não está em contradição com este.

Caro Ícaro, você não fez sequer uma leitura, quanto menos uma leitura mais atenta. Primeiramente, Marx é explícito em declarar que as condições de vida dos camponeses em geral os transformava em conservadores/reacionários (sem ele excluir que há sim camponeses revolucionários). Em nenhum momento Marx afirma que ele não “poderiam propor uma alternativa de poder”, porque eles tinham a sua alternativa, era o próprio Luís Bonaparte. Discordo sobre o massacre e vacilações, para Marx, já no começo, a tal “confraternização universal” de todas as classes eram uma farsa que penalizaria o proletariado, sobretudo. As vacilações pequeno-burguesas, para Marx, eram completamente necessárias dado o caráter ambíguo dessa classe (conviverem em condições semi-burguesas e semi-proletárias). A derrota não nasceu por erros de estratégias, para Marx, Luís Bonaparte foi o resultado necessário do fato de que o proletariado francês não estava ainda em condições de assumir sozinho o poder, nem a burguesia de permanecer no poder. Qualquer outra conclusão é no mínimo uma especulação, para não dizer uma falsificação do que foi dito por Marx.

A sua citação sobre a “revolução proletária com uma segunda edição da guerra camponesa” em nada confirma a ideia de que Marx defende um governo “proletário e camponês”, nem mesmo faz qualquer possibilidade de alusão a isso. Logo não só não fica mais claro, como fica ainda menos possível afirmar o que você afirma, a de que Marx defende uma “ditadura democrática” de “operários e camponeses”. É tão contraditório um governo “operário e camponês” quanto uma “ditadura democrática”.

Ao tratar com o problema da insurreição você se questiona como é possível tratar a insurreição como um arte, tal como afirma Lenin. E dá a entender que Lenin não fornece nenhum indicativo para isso. Ao afirmar que a insurreição deve ser tratada como uma arte Lenin não diz nenhuma novidade. Ele simplesmente diz que a insurreição é uma operação militar, ainda que não convencional, e, como tal, é uma arte. A arte militar consiste tão somente no calculo de forças em combate, na boa disposição dos efetivos em luta, no seu posicionamento em pontos estratégicos. Vide que no inicio do texto Lenin lista uma serie de ponto que compõe a arte insurrecional com base na concepção política do marxismo; “Para ter êxito, a insurreição deve apoiar-se não numa conjura, não num partido, mas na classe avançada. Isto em primeiro lugar. A insurreição deve apoiar-se no ascenso revolucionário do povo. Isto em segundo lugar. A insurreição deve apoiar-se naquele ponto de viragem na história da revolução em crescimento em que a atividade das fileiras avançadas do povo seja maior, em que sejam mais fortes as vacilações nas fileiras dos inimigos e nas fileiras dos amigos fracos, hesitantes e indecisos da revolução.” Logo em seguida faz uma comparação entre a situação de 3-4 de julho de 1917 e a de setembro do mesmo anos, tendo por base esses três pontos. Essa é a arte da insurreição.

O que afirmei é que Lênin tratava a expressão “insurreição como arte” como sendo uma afirmação de Marx, e que não encontrei em nenhum texto de Marx com essa afirmação (pode até ser que exista). Veja como sem querer você ilustrou um exemplo explícito de idealismo/voluntarismo no pensamento de Lênin:

“A insurreição deve apoiar-se naquele ponto de viragem na história da revolução em crescimento em que a atividade das fileiras avançadas do povo seja maior, em que sejam mais fortes as vacilações nas fileiras dos inimigos e nas fileiras dos amigos fracos, hesitantes e indecisos da revolução.”

Como de praxe, Lênin dispara um de seus decretos messiânicos: diz ele, a inssureição deve se apoiar na “classe avançada” e no “ascenso revolucionário do povo”. Porquê? Qual o papel da “classe avançada” que a torna parte relevante nesse apoio, porque o “ascenso revolucionário” é do povo ao invés da própria “classe avançada”, porque não seria “povo avançado” e “ascenso revolucionário da classe”. Para mim é algo simplesmente panfletário, isto é, estridente, vazio e voluntarista. Qualquer explicação para essas questões vai depender da cabeça dos iniciados em leitura telepática, pois o texto em si é completamente opaco quanto a isso.

(…) Engels afirma “(…) em tal altura (do aparecimento da revolução social na Europa), terá de se ouvir a voz de um homem (Marx) cuja teoria toda é o resultado do estudo, durante uma vida inteira, da história económica e da situação da Inglaterra, e a quem esse estudo levou à conclusão de que, pelo menos na Europa, a Inglaterra é o único país onde a inevitável revolução social pode ser efetuada inteiramente por meios pacíficos e legais.”

a citação completa é:

“Em tal momento, deveria certamente ser ouvida a voz de um homem cuja teoria é, toda ela, o resultado de uma vida inteira de estudos da história e da situação econômica da Inglaterra, levando-o à conclusão de que, ao menos na Europa, a Inglaterra é o único país onde a inevitável revolução social poderia realizar-se inteiramente por meios pacíficos e legais. Certamente ele nunca se esqueceu de acrescentar que não esperava que as classes dominantes da Inglaterra se submetessem a essa revolução pacífica e legal sem tentar uma proslavery rebellion.”

Primeiramente, a tomada pacífica significa duas coisas, que não há necessidade da revolução/ditadura, e de que a tese bolchevique de que qualquer forma de tomada de poder por meios parlamentares/democrático não representa o verdadeiro comunismo revolucionário de Marx é falsa. Segundo, mesmo afirmando que esta se revelaria por meios pacíficos, Marx afirma que não significaria que as classes dominantes inglesas não tentassem uma “rebelião pro-escravista”, isto é, quem apelaria para a ditadura/insurreição seria a própria burguesia, mas para derrubar o poder legalmente conquistado pelo proletariado.

Mas vamos para a questão essencial, porque essa afirmação não confirma a tese de que a abolição do Estado só compreende ao “continente europeu”? Primeiro, porque o próprio Lênin admite no parágrafo seguinte do livro em questão que Marx em outros textos não restringe mais ao “continente”. Segundo, como foi visto no final da citação, a tomada legalista do poder não evitaria a contra-revolução golpista. Terceiro, a passagem não trata da abolição do Estado, mas da tomada legal-democrática ou ilegal-revolucionária do poder, em nenhum momento ele afirma que a abolição do Estado pode ser postergada por ter sido alcançado legalmente. Em suma, ele não refuta sua própria tese exposta na Comuna, da necessidade de realizar tal quebra do Estado.

Logo em seguida você comete mais um engano com a obra de Lenin, afirmando que ele “problematiza o termo ‘popular’ apenas para atingir Plekanov o acusando de não saber diferenciar uma revolução burguesa de uma revolução proletária (…)” Mas o que Lenin faz é exatamente o contrário condena Plekhanov e seus pares por não enxergarem nada além dessa antítese e ainda assim de uma forma morta. “(…) os adeptos de Plekhanov na Rússia, assim como os mencheviques, esses discípulos de Struve, desejosos de passar por marxistas, poderiam tomá-la por um ‘engano’. Reduziram o marxismo a uma doutrina tão mesquinhamente liberal que, afora a antítese – revolução burguesa e revolução proletária – nada existe para eles, e, ainda assim, só concebem essa antítese como uma coisa já morta.” São as palavras do próprio Lenin. “(…) segundo essa tese (burgues ou popular), ou a revolução francesa é impossível, porque popular e burguesa ela com certeza foi.” Você afirma no mesmo paragrafo. Essa impossibilidade da revolução francesa só existiria, talvez, de acordo com as suas teses de revolução. “Em compensação, a revolução burguesa na Rússia em 1905-1907, sem ter tido os ‘brilhantes’ resultados da portuguesa e da turca, foi, sem contestação, uma revolução ‘verdadeiramente popular’”. São as palavras de Lenin no mesmo texto, que de maneira nenhuma vê incompatibilidade entre a revolução “burguesa” e “popular”. Segundo ele a revolução russa era, em 1905, burguesa, mas, o seu resultado deveria ser, como já vimos, um governo de ditadura democrática revolucionária dos operários e camponeses (ou, um governo popular). Como fica claro você fez uma enorme confusão na obra de Lenin.

Reconheço o engano no que concerne a questão da antítese revolução popular e burguesa, em razão da leitura rápida acabei me confundindo no sentido, mas de resto reafirmo outras alegações. Ainda no que concerne a essa questão, Lênin declara apenas uma coleção de platitudes do tipo “o movimento é popular se englobar proletariado e camponeses”, é óbvio que o movimento só é popular se englobar as classes oprimidas. E afirma ainda que camponeses e proletários são “solidários”, é algo que revela completa ignorância histórica e teórica, só em raras vezes camponeses (não confunda com sem-terras) se aliaram aos proletários (como na revolução chinesa), e apenas em condições de crise sistêmica. Na própria revolução russa, como bem apresenta o livro de John Redd, o grande desafio para os bolcheviques foi conquistar o apoio dos camponeses (muitos deles representados pelos Socialistas Revolucionários). Há outros erros, mas esses são os mais flagrantes.

Encerrado esse tópico você se questiona como a Comuna, que realizou a quebra do Estado, poderia criar outro Estado. Bem, você diz que encerra a leitura do texto de Lenin com o titulo do subitem 2 do capitulo III. Deveria ter continuado a leitura que é muito esclarecedora. Nesse item Lenin nos traz também uma citação direta de Marx; “A Comuna foi a forma determinada de república que devia eliminar não apenas a forma monárquica da dominação de classe mas a própria dominação de classe (…)”. Como se vê Marx ainda compreende a Comuna como Estado e o trata em termos de forma de Estado, “república”. Um Estado de um tipo novo e especial, pois a realização de sua tarefa definitiva leva ao desaparecimento do Estado. Disso Lenin conclui que o Estado Comuna é um novo tipo de Estado, que não é mais Estado no sentido próprio do termo.

Caro Ícaro, quando Marx denomina a Comuna como República, ele é rigorosamente explícito, não deixa lacunas na acepção que ele quer imprimir, ele declara que não entende o termo apenas como em oposição a “forma monárquica de dominação de classe” (esse é o conceito jurídico-burguês de república), mas em oposição a “própria dominação de classe”. E o que é o Estado para Marx? Isso mesmo  é literalmente um instrumento de dominação de classe. E veja que bela demonstração de lógica leninista você apresentou: a Comuna é um Estado que já não é um Estado no sentido próprio do termo. E o que é um Estado no sentido próprio e no sentido impróprio do termo? Isso é tão místico e inalcançável que só indo a um centro espírita para evocar Lênin para nos esclarecer.

(…)Como explicar por essa lógica a adesão da Checoslováquia, país já industrial antes da adesão ao bloco soviético, também eles realizaram sua acumulação primitiva. Fora isso, ainda resta o inconveniente do planejamento central, do fim da acumulação privada, entre outros elementos que não se coadunam com essa tese. A própria ideia de que a crítica que Engels direciona a Lassalle possa ser transpassada dessa forma tão abrupta as experiências do socialismo real ignora que Lassalle fora adepto da emancipação dos trabalhadores alemães pelo Estado prussiano enquanto a experiências do socialismo real nasce da ruptura com esse.

Primeiramente, cabe você explicar como essa lógica não se aplica a Checoslováquia, porque nos mesmos termos a Rússia para você já era plenamente industrial. Em termos estritos, nem mesmo o Brasil hoje já é plenamente industrializado (basta observar o fato de ser uma economia ainda primário-exportadora, a ter uma concentração fundiária quase feudal, etc, etc). Segundo, não sei o que você quis dizer sobre o “socialismo real” ter sido uma “ruptura” com o “Estado prussiano”, considerando que este já não existia na época. E por fim, o socialismo de Estado lassaleano nada dizia sobre o fato da emancipação tenha de ser estrito ao Estado prussiano. Portanto, a resposta é a mesma, o argumento que refuta a ideia de que o comunismo marxista se baseia no socialismo de Estado está explícito detalhadamente no livro “Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico”.

Saudações

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Written by ocommunard

23 de janeiro de 2013 às 22:59

Publicado em Sem categoria

2 Respostas

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  1. sua “segunda resposta” uma repetição de velhos lugares comuns meu amigo.
    assim que possivel responderei

    Ícaro Leal Alves

    24 de janeiro de 2013 at 7:14

    • Caro Ícaro, não estou convencido que meus argumentos são “lugares comuns”, mas os seus não me parecer ser “lugares incomuns”…

      ocommunard

      24 de janeiro de 2013 at 11:34


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