Communard

Políticas, economias e ideologias

Stalinismo em debate: em resposta ao Ícaro e Lúcio Jr

with 3 comments

Um dos leitores desse modesto blog realizou uma “carta aberta aos editores de O Communard”, em reposta a uma outra carta aberta minha, “Carta aberta: contra o stalinismo no Portal Vermelho”. Tentarei responder a altura…

Aqui só buscarei citar passagens onde as respostas em questão exijam esse recurso, já que terei por hipótese de que o autor da carta aberta conhece bem a bibliografia de Marx. Mas estou disposto a responder por elas se for adiante questionado.

1. A questão do conceito de stalinismo

O Ícaro problematiza o termo “stalinista” que ele afirma ser “mais utilizado por seus detratores do que por seus seguidores”, e vai além: “pode-se dizer que ela é uma palavra inventada por Trotsky”. Caro Ícaro, poder-se-ia dizer qualquer em hipóteses, mas o fato é que mesmo se Trotsky a tivesse inaugurado, você deve saber que a prática de associar uma corrente ideológica a um líder ou autor não é nenhum ato tipicamente de “detratores trotiskistas”, pois o próprio trotskismo é isso, tal como marxismo, leninismo e outros ismos. Mas vamos problematizar ainda mais, desculpe minha ignorância, você conhece alguma outra corrente política ou ideológica que é formada por um “casal” de autores? Um engels-marxismo, um proudhon-bakunismo, etc, etc. Mas vou mais adiante, sabe porque Marx afirmou “eu marx, não sou marxista” (Trotsky chegou a afirmar algo parecido). Porque o termo sugere uma postura sectária. O que significa dizer que autoridade dos argumentos permanece no autor (fulano disse isso, sicrano disse aquilo) e não no valor científico de suas teses (para você aceitar a teoria da relatividade você não precisa ser einsteinista).

Para finalizar, renego por completo reduzir a luta de classes do século XX a uma luta de egos entre as seitas trotskystas e stalinistas, por mais nobres que sejam uma ou outra. Porque admitir isso, é recuar a uma concepção oriental de liderança semi-divinizada. Isso só demonstra a nódua da cultura oriental do “modo de produção asiático” que reinara na Rússia por tanto tempo. Mas vou parar por aqui, para não ir além da resposta. Concluindo, o stalinismo não é uma pecha ou qualquer outra coisa, é apenas a referência usual de associar o autor a uma escola de pensamento que ele defende, o que essencialmente significa aqui, em termos teóricos, a teoria do “socialismo de um país só”.

Aliás, não é um tanto contraditório logo os “marxistas-leninistas” se sentirem ofendidos ao serem classificados como stalinistas? Acho que é o único agrupamento que declara apoio ao um líder cujo sentem repulsa ao serem identificado por eles. Mas tudo bem, sigamos…

2. O legado stalinista

Afirmar, por qualquer razão que queira, que “o stalinismo só pode ser entendido como referências elogiosas, ou, a admissão de algo positivo no legado político de Stalin” é uma confissão de sectarismo, caro Ícaro, lamento informar. O único meio de transformar em mérito político o “esforço industrializante de Stalin” seria coroar o capitalismo como a maior realização humana da história, pois como afirma Marx, o capitalismo é o modo de produção que mais revolucionou o avanço das força produtivas (condições essas que tornam objetivamente possível o comunismo moderno). O mesmo mérito que coroaria Stalin, coroaria Hitler (que arrancou a Alemanha da crise), ou Getúlio (que entregou Olga aos nazistas) ou mesmo o império americano, o campeão mundial de industrialização.

3. Marx e a Rússia

Ícaro refuta como contrário ao “materialismo histórico dialético” a afirmação que citei de Marx de que a Rússia seria um trampolim para uma revolução comunista européia, e só através dela e por provocá-la, é que a Rússia poderia alcançar o comunismo. Para argumentar contra essa afirmação, alega que Marx morrera em 1883 e que a revolução só ocorrera anos depois (1917). E que nesse entrevero houve algo como uma revolução industrializante na Rússia.

Será que Stalin não foi demasiado “trotskista” por não reconhecer o “esforço industrializante” daqueles czaristas/burgueses nos anos entre a morte de Marx e a revolução russa? Um esforço muito maior já que em apenas algumas décadas conseguiu arrancar um país imenso do feudalismo para o capitalismo hiper-concentrado! A modernização russas eram ilhas industriais em um oceano de feudalismo, completamente servente do capitalismo internacional (sobretudo, o Inglês). Até aí estamos no terreno sem controvérsias. Agora, a concentração industrial não é uma medida de “grau de desenvolvimento das força produtivas”, em um capitalismo retardatário representa, pelo contrário, o seu atraso, já que não passou por uma fase onde houve grande pluralidade de pequenas indústrias, etc, etc.

Concluindo, Marx declara como postulado científico de que a revolução comunista é resultado das contradições entre as forças produtivas modernas e as relações de produção capitalistas, se você retirar esse postulado de Marx, você está o acusando de socialista utópico. Então não há nos textos de Marx nenhuma hesitação ou dubiedade na afirmação de que apenas os países mais industrializados, o capitalismo mais avançado, é de onde o comunismo não só viria, mas se tornaria possível. Se quiser discutir isso, você tem que analisar bem sem você é realmente adepto do marxismo, ou realmente está de acordo com o materialismo histórico dialético.

4. Sobre o programa Duas Táticas do marxista-leninista

O Ícaro afirma que na obra “Duas Táticas da Socialdemocracia na Revolução Democrática” de 1905, Lênin afirmaria que “o triunfo da revolução democrática na Rússia era possível com uma aliança entre o proletariado dirigente e os camponeses dirigidos por esses. Que essa revolução deveria conquistar a república e por fim ao sistema de semi-servidão na agricultura e que conquistado isso instituir-se-ia um governo de ditadura democrática revolucionária dos operários e camponeses que deveria levar gradualmente ao socialismo a medida que impulsiona-se a revolução do proletariado na Europa.”

Essa citação confirma ipsis leteris a minha afirmação, a de que sim, os bolcheviques no começo apostavam, tal como Marx, de que a revolução na Rússia liberaria a “revolução do proletariado na Europa”, e que só a partir dessa a Rússia atrasada teria acesso ao socialismo/comunismo. Portanto, e por isso, o objetivo imediato era “por fim ao sistema de semi-servidão na agricultura”.

Mas, nem concordando os bolcheviques se salvam: explique o que poderia ser um “governo de ditadura democrática revolucionária dos operários e camponeses”? Esse termo é um conjunto de fraudes sociológicas. Primeiro, como pode haver uma ditadura se é uma democracia? E pior, como o governo poder ser operário (revolucionário) se é unido aos camponeses (Marx afirma em 18 de Brumário que os camponeses, por sua própria condição de vida, são na maioria reacionários). O fato que política e socialmente é um fraude total… na acepção de Marx, a ditadura é uma ditadura de classe, portanto, não há espaço para nenhuma outra classe, o que por conseguinte, exclui os camponeses (o que não significa dizer que os camponeses não fossem beneficiados por uma ditadura proletária).

Sobre sua afirmação ao texto “Sobre a Palavra de Ordem dos Estados Unidos da Europa”, primeiro, que os “Estados Unidos da Europa” já existe, seu nome é União Européia. Segundo, se trata de um conjunto de especulações, imagine alguém afirmar que a “luta de classes não só é possível como é mesmo inevitável”, ora, ou ele é inevitável, portanto, possível, ou sendo apenas possível, não pode ser inevitável (já que a possibilidade exclui qualquer inevitabilidade). É apenas lógica, simples e razoável, mas não cabe nesse argumento de Lênin. E acredite, afirmar peremptoriamente algo como “possível” e “inevitável” não o torna possível e inevitável, apenas por ter sido dito, mesmo quando dito por Lênin.

Existe uma confusão incrível nas teses bolcheviques sobre o que é capitalismo, liberalismo, socialismo e comunismo, mas não entrarei ainda nessa questão.

5. Partido de Vanguarda, Blanquismo e Auto-Emancipação

Li o tal texto de Lênin, que não conhecia, o que me confirmou a reiterada impressão de que como teórico da revolução Lênin é um excelente panfletário, escreve bem, mas pensa mal. O que você chama de fundamentação de Marx é apenas a afirmação de Lênin de que, segundo ele, Marx havia dito que uma “insurreição é uma arte”. Nunca li tal passagem, apesar de ter lido quase tudo de Marx (incluíndo as correspondências). Mas admitindo que Marx afirmara isso, seja qual for o contexto, não nega o fato de que para Marx uma revolução é o resultado das contradições entre forças produtivas e relações de produção (e não, nada disso tem a ver com economicismo, adiante posso provar isso). Veja nas próprias palavras de Lênin como ele resume o seu libelo:

“Colocando a questão assim, concentrando toda a fracção nas fábricas e nos quartéis, calcularemos correctamente o momento para o começo da insurreição.”

Isso é uma afirmação de Lênin, agora, porque, como e com que lógica seria possível “calcular corretamente o momento” apenas por estar “concentrando toda a fração nas fábricas e quartéis”, e qual conexão isso tem a ver com o marxismo, mesmo admitindo que Marx trate a “insurreição como uma arte”, acho humanamente impossível saber e esse texto nada nos indica.

6. O anti-estatismo de Marx no Estado e a Revolução

Ícaro afirma que estou equivocado sobre minha crítica marxista anti-estatista sobre Lênine e que a prova do meu equívoco é a obra “Estado e a Revolução” de Lênin. Vejamos como Lênin trata a Comuna de Paris, mesmo citando Marx, e como realiza as suas exegeses surpreendentes para manter o que Marx chamava de “mistificação do Estado”.

Primeiro, vamos para a citação literal que Lênin faz de Marx:

“Reli o último capítulo do meu 18 de Brumário. Afirmo que a revolução em França deve tentar, antes de tudo, não passar para outras mãos a máquina burocrática e militar – como se tem feito até aqui – mas quebrá-la (zerbrechen: a palavra é grifada por Marx no original). Eis a condição preliminar para qualquer revolução popular do continente. Eis também o que tentaram os nossos heróicos camaradas de Paris (Neue Zeit, XX, 1, 19011902, p. 709)(6)”.

Depois de concordar euforicamente com Marx, ele alerta que Marx “torna extensiva a sua conclusão apenas ao continente”. Convenhamos, caro Ícaro, afirmar que Marx citara explicitamente o “continente” é uma coisa, mas concluir daí que ele havia restringido essa afirmação ao “continente” é algo muito além do que Marx disse. Serviu apenas para Lênin afirmar adiante que “mesmo a revolução popular, parecia possível, e o era, sem a destruição prévia da ‘máquina do Estado'”. Percebeu aí a artimanha? Mas claro, logo adiante, reconhece que Marx não fez mais, nos textos seguintes, a tal restrição que ele deduziu de não sei onde.

Depois Lênin se centra na expressão que a destruição do Estado é a “condição prévia de qualquer revolução verdadeiramente popular”. Ele problematiza o termo “popular” apenas para atingir Plekanov o acusando de não saber diferenciar uma revolução burguesa de uma revolução proletária, mas segundo essa tese (burgues ou popular), ou a revolução francesa é impossível, porque popular e burguesa ela com certeza foi. O fato dela ter desencadeado o desenvolvimento do capitalismo, mesmo com tanta adesão popular, só confirma a leitura materialista e dialética da história.

O esforço para Lênin transformar a citação de Marx que defende “a quebra do Estado” em um outro Estado começa no segundo capítulo, ao fazer a pergunta “Que espécie de Estado começou a Comuna a criar?”. Essa pergunta, para mim, encerra a leitura desse texto. Se Marx afirmou com todas as letras de que a Comuna de Paris realizou a quebra do Estado (não um Estado especificamente, mas do Estado), como pode alguém levantar a questão de qual Estado começou a Comuna criar?

7. Economicismo, relações de produção, “consciência”…

Ícaro afirma que tratar a revolução como fruto das contradições entre as forças produtivas e as relações de produção, apesar de ser uma afirmação de Marx, é uma “análie economicista”, e que esta foi a causadora da degenerescência dos Partidos Socialistas da Segunda Internacional. Sob uma análise materialista e dialética da história é igualmente impossível admitir que a Segunda Internacional tenha submergido pela degeneração da idéia do economicismo, a não ser que voltemos para o hegelianismo (coisa muito comuns entre os marxistas-leninistas Losurdo e Zizek).

Caro Ícaro, observar as relações de produção como “economicismo” é olhar um trabalhador com um cifrão nos olhos, quando se fala em relações de produção, está se definindo um termo sociológico, é como cada classe social se posiciona em relação a produção. Forças produtivas é o que? As forças produtivas é aquelas que aumentam o poder do trabalho. Se você observar além do senso comum burguês, o centro de tudo isso é o trabalhador, é por isso que Marx afirma com completa precisão que quem transforma o mundo é o trabalho. Desalienar o trabalho, é portanto, o desafio ou o resultado da revolução comunista.

Sobre essa visão iluminista que tanto Lênin defende ao falar do “elemento portador da doutrina revolucionária” (e obviamente, se alguém define uma revolução como produto de uma doutrina, esse alguém não pode ser marxista, e muito menos científico), só tenho algo a responder:

” doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade (por exemplo, em Robert Owen).” (Terceira Tese sobre Feuerbach, Marx)

“A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis”. (Oitava Tese sobre Feuerbach, Marx).

Eu grifaria duas coisas, “o educador tem ele próprio de ser educado”, “Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana”. Você quer saber a maior refutação da teoria do partido de vanguarda? Ela existe, seu autor foi o proletariado russo, e sua obra foi os sovietes. Quem fez a Revolução de Outubro foram os Sovietes que Lênin resistiu em apoiar justamente porque rivalizavam com a auto-autoridade do partido da vanguarda (bolchevique). Foi por essa razão que os bolcheviques eram tão mal representados nos sovietes. Mas ganhou simpatia quando os bolcheviques passaram a defender “todo poder aos sovietes”, ao invés da ditadura do partido da vanguarda. Claro, tudo isso foi apenas retórica, o poder era para “vanguarda do proletariado”. A vanguarda do proletariado já havia sido definida por Marx, e não é um partido ou uma elite intelectual, e ela é o operariado. E sim, Marx defense a auto-emancipação proletária, a Comuna confirmou essa tese.

8. Acumulação Primitiva ou Socialismo

Afirmo que a revolução russa realizou uma acumulação primitiva, nos moldes conhecidos e descritos por Marx em O Capital – Volume 1 Tomo 2 (estatismo, violência, nacionalismo, etc). O fato de haver ilhas de capitalismo avançado não transformava magicamente 80% do território russo em capitalismo industrializado.

9. Estatização, capital público e socialismo

Ícaro usa a dialética do quantitativo para o qualitativo (pelo jeito, os stalinistas vai realmente migrar todos para o hegelianismo) para afirmar que houve socialismo. Contra essa tese eu apenas sugiro que ele leia Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico aonde Engels denomina de “capitalismo coletivo” toda a fantansia socialista-estatista de Lassalle.

10. Pluralismo político proletário ou partido único proletário

Ícaro considera descabido afirmar que Marx defendera o pluralismo político. Mas comete um equívoco que deixei ocorrer. Ele afirma que essa minha conclusão segue como resultado da crítica a vários socialismos, mas não, por isso citarei diretamente para que fique claro:

“Os comunistas diferenciam-se dos demais partidos proletários apenas pelo facto de que, por um lado, nas diversas lutas nacionais dos proletários eles acentuam e fazem valer os interesses comuns, independentes da nacionalidade, do proletariado todo, e pelo facto de que, por outro lado, nos diversos estádios de desenvolvimento por que a luta entre o proletariado e a burguesia passa, representam sempre o interesse do movimento total.” (Proletários e Comunistas, Manifesto do Partido Comunista).

Afirmar que o partido comunista, frente aos outros partidos proletários, se diferencia apenas pela sua radicalidade e internacionalismo, é afirmar claramente que ele não busca “moldar o movimento proletário”. Que espaço há para uma ditadura de partido único coerente com o marxismo que diz que os “comunistas são, pois, na prática [praktisch], o sector mais decidido, sempre impulsionador, dos partidos operários de todos os países”. Isto é, o comunistas trabalham com todos os outros partidos proletários, como força impulsionadora. Claro, Marx pode estar equivocado, claro que sim… mas cabe aos defensores do regime de partido único argumentarem com fatos a superioridade de sua tese frente a essa tese “cooperadora” que o partido comunista defendido com Marx tem que ter com todos os outros partidos proletários (inclusive, os reformistas). Sem perder o seu papel de ser radical e internacional, porque é isso que o faz “comunista”.

11. Social-Democracia ou Bolchevismo

É certo que Marx teve atritos com a social-democracia, é certo que Marx já percebia uma tendência reformista no partido. Mas afirmo que a social-democracia é mais marxista e proletária, pelo simples fato de ela ser mais coerente com o marxismo (em termos teóricos), e ter uma base mais proletária do que qualquer outro partido bolchevique (a maioria dos partidos bolcheviques pelo mundo são majoritariamente compostos por uma pequena-burguesia revolucionária, formanda por altos funcionários públicos, profissionais liberais e movimento universitário).

Ora, falar em internacionalismo defendendo o stalinismo (marxismo-leninismo), aquele que se colocou contra a revolução permanente que nada mais defendia do que exportar a revolução (e monopolizar o poder com os operários), é um pouco contraditório. Stalin deu as costas para os comunistas na Guerra Civil espanhola apenas pelo medo de que uma tendência trotiskista tomasse o poder. E sim, Stalin apagou registros de Trotsky da história russa, expurgou todos os revolucionários de 1917, mandou matar Trotsky com uma machadinha, fez um pacto de não-agressão com um regimeque matava comunistas das formas mais absurdas… e sua desastrada vitória a custa de seu desastroso pacto de não-agressão custou ao proletariado russo 30 milhões de vidas.

12. Erro de digitação

Realmente, faltou o ponto oito… erro de digitação.

13. Usurpação técnica

O poder soviético foi usurpado e a revolta dos marinheiros de Krondistat é a prova disso, foram reprimidos por Trotsky que eles tinham como herói. Os comitês de fábrica eram a primeira instância dos sovietes, eram de lá que os delegados dos operários eram enviados aos sovietes locais. A regulação defendida por Marx, explícita sem nenhuma dubiedade em Guerra Civil em França, baseado em um experimento histórico, é o que ele definiu como uma “confederação de cooperativas”. Isso, portanto, supõe a existência de “autogestão”, em outras palavras, nada mais do que “autogoverno dos produtores associados”. Obviamente, a figura do “Estado” lhe parece quase uma força da natureza.

Se admitirmos as melhores hipóteses numa perpectiva de um comunismo moderno. A de que a revolução era socialista, a de que havia um capitalismo avançado, a de que a ditadura fora uma ditadura proletária na acepção de Marx, o último elemento da tese cairia. Porque, para Marx, a ditadura proletariado é uma mera transição para o fim das classes, e com esta, o fim do Estado (pois o Estado, para Marx, é apenas uma arma de dominação de classes, dispensável quando as classes deixarem de existir). Mais nem isso, já que depois da Comuna de Paris, Marx reconhece que o Estado deve ser quebrado imediatamente na forma de politicamente como “comunas democráticas”, economicamente como “confederação de cooperativas” e militarmente como “povo em armas” (ou guardas vermelhas, se preferir).

14. Socialismo de mercado em Gotha City

Fiz uma livre associação entre nacional-socialismo e socialismo de um país só, pela simples razão de que um socialismo de um país só só pode ser um socialismo nacional. E também para frisar o caráter anti-internacionalista da vitória de Stalin sobre a tese da revolução permanente (que também não era grande coisa, mas era bem menos equivocada). O Ícaro não entendeu, e tentou definir dentro do senso comum, tudo bem. Mas afirmar que a tese do “socialismo de um país só” é de Lênin é um pouco forçado. Diga, para ser mais exato, de que Stalin argumentou que sua tese era coerente com o pensamento de Lênin. O que não quer dizer nada, já que Lênin se contradisse mais entre suas obras do que qualquer outro ser humano na face da terra. Apresentei nesse texto a tal capacidade intelectual de Lênin.

Ícaro afirma que na Crítica do Programa de Gotha, Marx apresentaria “a teoria da ditadura revolucionária do proletariado”. Está equivocado, camarada. A Crítica do Programa de Gotha é, antes de mais nada, a crítica do programa do partido social-democrata realizado em Gotha sob forte influência dos lassaleanos (ou se preferir, socialistas de Estado como você). O que há nele que pode se destacar é uma teoria orçamentária de como organizar inicialmente a produção e circulação na transição para o comunismo. Mas não há referências de nenhum tipo sobre o regime ser ditatorial ou democrático, essa parte do texto é estritamente administrativo.

O que ele afirma é que inicialmente, como ainda haveria uma consciência ainda muito impreguinada dos valores da sociedade passada, se deveria impregar ainda um modelo baseado no princípio “a cada um segundo o seu trabalho”, mas sempre visando uma transição. Mas ele não fala em salário, explicitamente ele fala em bonos, que obviamente, pelo menos para o próprio Marx, significaria um híbrido entre o trabalho assalarial e o trabalho comunal propriamente dito. Portanto, nada disso aufere sua afirmação de que exista sim salário, moeda, mercado, numa sociedade socialista. E obviamente, o texto não se refere a uma sociedade socialista, mas um sociedade de transição ao comunismo.

15. Concluindo

Se as acusações de Krushev, que foram tiradas de uma reunião secreta, não conseguiu encontrar em nenhum outro dirigente de então qualquer refutação, se todos os camaradas, logo após a morte desse grande ser humano, concordaram em uníssono com o processo de desestalinização, então o poder de um líder soviético desafia a mente humana e põe em check tudo o que Marx escreveu, porque é um poder inacreditável… não posso me dar o trabalho de acreditar que historiadores stalinistas sejam o meu critério de honestidade intelectual sobre a inexistência dos crimes de Stalin, o túmulo dos revolucionários de 1917 falam por si. Ou você acha mais razoável crê que todos os revolucionários da Revolução de Outubro se tornaram em agentes da contra-revolução, incluindo Trotsky?

Ao fim dessa longa jornada, agredeço sua leitura e sua carta aberta, busquei o máximo de exatidão e clareza nos pontos em que defendo, sem deixar ameaçado a boa e velha camaradagem.

Saudações comunistas

 

p.s. nao esqueci o Grover Furr, tratarei dele em um outro artigo

Anúncios

Written by ocommunard

22 de janeiro de 2013 às 3:50

Publicado em Sem categoria

3 Respostas

Subscribe to comments with RSS.

  1. Ícaro Leal Alves

    22 de janeiro de 2013 at 23:57

  2. Considero os stalinistas um pessoal desprezível e anti-científico. Felizmente são uma nulidade política e vivem apenas de ilusões baratas, acreditando encarnarem uma “vanguarda” (pseudo)revolucionária. Mas não possuem inserção entre as massas e nada representam nos movimentos políticos.

    Porém, devo dizer que a sua resposta a esta corja contém certos erros, especialmente na análise das teses de Lênin. Vou comentar uma passagem sua:

    “Mas, nem concordando os bolcheviques se salvam: explique o que poderia ser um “governo de ditadura democrática revolucionária dos operários e camponeses”? Esse termo é um conjunto de fraudes sociológicas. Primeiro, como pode haver uma ditadura se é uma democracia? E pior, como o governo poder ser operário (revolucionário) se é unido aos camponeses (Marx afirma em 18 de Brumário que os camponeses, por sua própria condição de vida, são na maioria reacionários). O fato que política e socialmente é um fraude total… na acepção de Marx, a ditadura é uma ditadura de classe, portanto, não há espaço para nenhuma outra classe, o que por conseguinte, exclui os camponeses (o que não significa dizer que os camponeses não fossem beneficiados por uma ditadura proletária).”

    Você inicialmente questiona o termo “ditadura democrática” para, logo em seguida, afirmar que para Marx (como para Lênin) “ditadura” diz respeito ao domínio de classe sobre o Estado. Ora, se você compreende isso, então compreende que não há nenhuma contradição entre o conceito de “ditadura” (utilizado no sentido que você mesmo descreve) e “democracia” (dizendo respeito à forma de um regime político, isto é, um tipo de superestrutura política e jurídica). De fato, utilizado nesse sentido, não há qualquer contradição entre os termos. Um Estado pode ser democrático em seu caráter superestrutural e ao mesmo tempo encerrar um domínio de classe. É assim nas democracias burguesas, que ao mesmo tempo são ditaduras do capital, isto é, formas sociais em que há domínio de uma classe sobre outra.

    Na questão da aliança operário-camponesa, que você critica como fraude política e sociológica, não há mais que a aplicação dialética (e não mecanicista) do materialismo-histórico, a uma realidade histórica concreta. Analisou-se a composição de classes que imperava na Rússia czarista e quais as forças sociais que carregavam os germes da mudança. Citar a opinião de Marx sobre os camponeses de uma determinada realidade histórica e achar que se aplica a todas as realidades históricas não é mais que mecanicismo. Na Rússia da época da Revolução a demanda dos camponeses por reforma agrária era progressista e podia compor-se às demandas dos trabalhadores urbanos no processo de contestação do regime semi-feudal. Apesar desta aliança, que obviamente carregava contradições para o futuro, os bolcheviques sempre pregaram a liderança dos operários e seu domínio político sobre o Estado. Ainda que tivessem de abrir algumas concessões aos camponeses, a liderança política caberia incontestavelmente aos operários.

    Tanto que é sabido o ressentimento do campesinato quanto às políticas industrializantes de que o Estado soviético se serviria mais tarde.

    Fernando

    13 de novembro de 2014 at 13:30

    • Farei uma postagem em resposta.

      ocommunard

      13 de novembro de 2014 at 14:57


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: