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Políticas, economias e ideologias

De Frente com Pondé: a vã vacuidade do politicamente incorreto

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Assistir de Frente com Gabi com a entrevista do “filósofo” Pondé é uma experiência sensacional de desmascaramento, não o digo isso para meramente me opor ou contrastar as minhas opiniões esquerdistas com as opiniões anti-esquerdistas dele, como ele provavelmente me acusaria, não, não é isso. Um debate é sempre entre opostos, mas para ver o quanto é constrangedoramente vazio sua dita filosofia, porque eu realmente esperava um pouco mais de densidade.

Tão pouco o repudio ou ofenderia, como provavelmente ele faria comigo, pois acho interessante alguém disposto a em última análise colocar tudo em questão, a “dúvida é o preço da pureza” já disse um filósofo. Quero declarar antes de mais nada que ele, para mim, é o que há de melhor em qualidade intelectual entre os bajuladores apadrinhados pela elite brasileira, por isso me dou o trabalho de refutá-lo.

Politicamente, Pondé se insere numa linha desesperadoramente órfã das classes dominantes do Brasil atual, um Nelson Rodrigues, uma espécie de Marquês de Sade que a soldo das elites possa esgrimar seu talento para desmoralizar a esquerda através da apologia da escatologia. Pondé é “rodriguiano” par excellence, e seu modesto brilhantismo não perde feio para seu alter-ego em coleção de frases de efeito. Há outros “jornalistas” que buscam desesperadoramente essa posição de “neo-rodrigues”, de “reacionário” constrangedoramente genial, mas falharam tão fragarosamente que terminaram como coroinhas do marcatismo vulgar: Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Mainardi, Lobão, etc.

Pondé está acima destes, sem a menor dúvida, há nele uma formação intelectual mais paupável (ainda que restritiva como se verá), sua formação ideológica pode ser extraída dos flancos abertos pela “esquerda radical” do pós-estruturalismo ou pós-modernismo, que rompeu completamente com as bases do racionalismo, esse recurso pre-discursivo, essa meta-narração anti-meta-narrativa é a raiz do discurso neo-rodriguiano de Pondé, seu argumento é sempre desarmar qualquer discurso questionando seus fundamentos, e como um deus ex-machina, fazer brotar do chão o seu monólogo iluminista-inglês.

O interessante é que a entrevistadora é uma admiradora passional do entrevistado, isso transforma o desnudamento em algo ainda mais belamente melancólico. Vamos aos fragmentos…

O que é o politicamente correto para ele? Segundo ele, a ascensão social de negros impedia as piadas preconceituosas nos EUA, mas ele diz que a partir de um dado momento esse “impedimento” virou uma “censura”. Não pode censurar o “preconceito”, palavra que some do argumento, porque, para ele, eliminaria o “risco” do pensamento, vira um “higienização do pensamento”. Veja como ele contraditoriamente usa o termo nazista “higienização” para combater a censura da prática nazista. Politicamente correto é bom, porque civiliza, mas é ruim, porque censura “a partir de um certo ponto”, que ponto é este filosoficamente falando? …

Segundo ele o “eu amo o outro”, uma expressão tão obviamente garimpada do milenar altruísmo cristão, é uma contribuição do “politicamente correto” que ele odeia. E que para ele o outro “que nos importa é aquele que nos irrita”. Por fim, conclue, o “politicamente incorreto é uma forma contemporânea do mau caráter”. Cadê a lógica? Porque alguém se importa com aquele que te irrita, e qual a ligação disso com a conclusão? Lógica para um “filósofo”, pelo amor de deus.

Ele que acusa uma expressão cristã, agora apela ao tão cristão pecado original para associar a uma natureza inata suja, repulsiva, má, em outras palavras, pecaminosa. É bem verdade, emprestada dos seus amados anglo-iluministas. Isso faz parte da natureza? Quando essa natureza má enfrenta o constrangimento de naturalização da corrupção política, ele apela ao Cândido de Voltaire e o seu “melhor possível”, ah, mas ele é contra um “Mundo melhor”.

Contradições, contradições, contradições…

Diz o filósofo: “Mais importante do que o povo pensar, se é que o povo pensa. Quando uso a categoria povo digo no sentido de massa, massa amorfa”. Não se irrite, é apenas uma vazia tentativa de frase de efeito. Ele continua o discurso condenando a política e a democracia em um processo de marketing, isso é um dado real e até mesmo óbvio, nada profundo para um filósofo tão genial. Mas logo ele se desculpa com o marketing, não com a democracia, apesar de ser ela que está sofrendo os efeitos da mercantilização (marketing = comercialização), de “políticos que lê os desejos ao invés que criar consciência social, eu não sei se é possível criar consciência social”. Resumindo, o mal vem da marketing da política, mas a culpa não é do marketing. E claro, racionalizar desejos, só sendo filósofo ou político?

Depois de toda essa meta-narrativa, ele volta para o convencional quando se “trata de verba pública”, a tal santidade burguesa do dinheiro, seja público ou privado, é tal, que todo o castelo ideológico desaba momentaneamente para passar com pompa o velho moralismo udenista.

Mas retorna, “a natureza humana é assim, quando você tem chance de ter poder, de esconder” vai lá e rouba. Que isso contradiz a diferenciação quando entra “verba pública”, ou porque há essa diferenciação, tudo bem, o entrevistado e a entrevistada apenas vão para a próxima pergunta.

Ele disse que democracia não é somente ter eleições, faz mais uma bajulação as elites chamando Chavez de tonto (Bush deve ter sido para ele um problema da natureza humana). Para ele é preciso dos “pesos e contra-pesos” (de novo o iluminismo inglês?) que ele traduz como “muitos conflitos”. Nunca vi uma democracia sem eleições, mas já vi muitas ditaduras com vários conflitos, inclusive “entre lobys”. Para ele democracia é a “institucionalização do conflito” para “que não vire quebradeira”, que depende (mais bajulação) de uma “imprensa livre” que não seja cerceada em nome do quê? “do cidadão”. Isso, mesmo. Cerceada por patrões, pode. Cerceada por pressões econômicas, pode. Cerceada pelo medo de perder o emprego se não bajular seu patrão, pode. Cerceada por intimidações físicas, pode. Mas pelo cidadão, não pode!

Vamos agora para a chave ponderiama para o “problema” do “maior consumo de bobagens”, para ele é culpa da “democratização dos meios de comunicação”, enquanto “mais gente tem mais acesso aos meios de comunicação, significa mais banalidade mais banal da maioria de nós”. Porque a banalidade de nós sofre esse empuxo quantitativo, não merece explicação para o nosso “filósofo”. Porquê a democracia nos leva a isso? “O cara quer ver bobagem, porque nós somos bobos”.

Me responda, oh “filósofo”, o que ocupa o espaço nesse vácuo não democrático que existiu e continua existindo, e que o processo de democratização está ocupando? Que nome dar a isso? Ditadura? Oligarquia? Plutocracia? Aristocracia? O que exatamente a democratização está devastando? Não saberemos. Talvez ele nos devesse dizer para que podéssemos preservar, mas não nos diz. Apenas aplica o chavão de falar algo supreendente e tentar dar ares inteligíveis, apenas a forma, sem conteúdo, me parece que ele fracassa na segunda parte. Mas é com certeza o melhor que a elite brasileira conseguiu produzir de lacaio intelectual desde o seu adorado Nelson Rodrigues.

Bem acertadamente ele faz apologia do preconceito, ou afirma “todos somos preconceitusos”, citando filosoficamente ele afirma que o preconceito é uma “reação moral instantânea”, mas nem toda reação moral instantânea é necessariamente preconceituosa, esqueceu ele de dizer essa segunda. Logo ele conclui que é o capitalismo que combate o preconceito, ao afirmar que ele não é bom para os negócios. Veja bem, ele começou defendendo o preconceito criticando a “censura do politicamente correto”, depois afirma que ele é natural, depois agora defende que o capitalismo (que para ele é o mesmo que modernização) combate o preconceito. Em suma, ou o capitalismo é ruim porque promove a censura do politicamente correto, ou o capitalismo é maravilhoso por fazer isso, o que agiria contra toda a escatologia do politicamente incorreto, tão defendia pelo Pondé.

Para ele é ancestral os preconceitos relacionado aos nordestinos, mulheres, gays e negros. Seria uma violência questioná-los ou, como ele diz, nos civilizarmos. Que ancestralidade é essa, datada de quando? Se perseguirmos as abordagens de Pondé veremos sempre o nascimento do mundo no século XVII com John Locke, Hume, etc. Pois aonde nem existiam nordestinos, ou anterior a escravidão negra da “modernização”, ou quando muito “acestralmente” a sociedade era matriarcal, ou mesmo em sociedades aonde o homosexualismo era tolerado na antiguidade (Alexandre Magno, por exemplo, era homosexual), o “filósofo” está pura e simplesmente errado.

Mas tudo bem, já chega por aqui.

Eu poderia terminar essa reflexão afirmando que “Pondé, você é mais do que isso”. Mas não seria realmente verdade. Está aí um provocador, polêmico, bajulador, contraditório, brilhante e vazio. Nada mais. A contradição não é um problema quando ela é trabalhadpa dialeticamente pelo pensamento, isto é, compreendida intelectualmente, no caso contrário, como em Pondé, ela se desvia do texto e explode na lógica, jogando a mensagem na lama da vulgaridade tão supostamente atacada.

Mas parabéns ao programa, foi uma excelente entrevista, e espero que vá outros intelectuais, se não for pedir demais, alguns que pensem realmente diferente, fora da linha escatológico(politicamente incorreto)-udenista(moralismo de duas medidas). Que tal o Marco Aurélio Garcia? Ou o grande jurista Fabio Konder Comparato? Ou eles estão censurados no seu programa? Sim, eles estão.

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Written by ocommunard

26 de março de 2012 às 3:33

Publicado em Sem categoria

Uma resposta

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  1. Finalmente alguém comentando a mediocridade de Pondé. Não sei o que as pessoas veem nele.

    Outro dia dei uma olhada no Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. Apenas uma coleção de frases de efeito com pretensões de serem provocativas e afirmações ideológicas arbitrárias, sem nenhum esforço de se justificar. Suas ideias são tão fracas, que mal ele começa um assunto, ele o abandona, como nas partes em que ele afirma que a ditadura militar nos salvou de uma ditadura comunista (sem explicar como essa ditadura seria estabelecida) e que a grande massa é “sustentada” por uns poucos excepcionais, no entanto sem explicar como exatamente essa pequena “elite” sustenta as pessoas comuns.

    Saito

    31 de julho de 2012 at 21:09


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