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Socialismos ou nacionalismos? Uma análise sobre China e Brasil

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O obscurantismo stalinista, já pinçado nos equívocos bolchevistas, deformou a contribuição de Karl Marx sobre os meios de emancipação de países periféricos ao capitalismo, ou genericamente, semi-capitalistas ou colônias capitalistas, o que nos ajudaria muito na América Latina atual. O cúmulo chegou ao ponto de substituir o “capitalismo avançado” pelo “elo mais fraco” como fonte de gênese comunista.

O equívoco não é arbitrário, reflete confusões entre anti-capitalismo e anti-imperialismo, que por sua vez reflete a contradição entre a necessidade estagiária do protagonismo de uma burguesia nacionalista (anti-imperialista), e as relações servis da frágil burguesia nacional em colônias ou semicolônias capitalistas, somado aos arcaicos latifundiários semifeudais. Assim, as forças populares, traduzido* sob a literatura emancipatória da moda: o socialismo europeu ou soviético assume o papel da frágil burguesia nacional.

Marx já realizara no Manifesto do Partido Comunista, ao tratar da literatura socialista, a crítica de importar uma “literatura” política sem importar as condições sociais dela, gerando o tão criticado e ironizado “verdadeiro socialismo” alemão.

A chave para entender a América Latina, a China e a ex-URSS está documentada no capítulo sobre a acumulação primitiva em O Capital. A experiência de acumulação primitiva, seja na Inglaterra, na França ou nos EUA, a despeito da “superestrutura gramsciana”, teve como característica a maciça intervenção econômica, social e política do Estado. O bolchevismo saltou o materialismo marxista, sob o pretexto que as “condições objetivas já estão maduras”, para cair no idealismo escrachado a ponto de tratar de “ideologia proletária”, ou em Gramsci, o símbolo máximo da decadência idealista do marxista, operar uma necropsia da superestrutura em Marx.

Todo esforço de Marx de combater o debate ideológico em favor de análises objetivas caiu por terra, seja pela escolástica ocidental (Sartre, Althusser, Foucault, etc.), como bem analisa Perry Anderson, seja pela dogmática (esquemática) do russo-comunismo oriental, em comum o esforço de ignorar o materialismo, seja jogando superestrutura em Marx, seja ignorando o materialismo como um fato consumado que não necessita mais interesse.

Como já disse aqui, nomeavam suas revisões bolchevistas de “atualizações” e as “atualizações” socialdemocratas de revisões (revisionismo). Atualizar o material empírico é uma coisa, e como materialista é inevitavelmente necessário, mas alterar as categorias epistemológicas cujo se opera a análise do material empírico é algo muito diferente. Se este foi feito só poderia ser proposto como refutação e defendidos como tal, em relação à contribuição do comunismo de Marx.

Em longo prazo essas iniciativas abriram as brechas para romper com o materialismo hegemonizado pela maciça superioridade e acuidade intelectual que Marx havia conquistado.

Compreender a China como um processo de revolução nacionalista (ao modelo Francês) com a mesma dinâmica política entre girondinos (moderados) e jacobinos (maoístas) em uma colossal experiência de acumulação primitiva regulada, nos livraria de uma série de controvérsias inúteis sobre a natureza do socialismo e do capitalismo que nada mais são do que parte da poluição intelectual do stalinismo, e mesmo do bolchevismo.

Qualquer país colonial ou semicolonial, sob a análise coerente do comunismo de Marx, tem como medidas imediatas de sua emancipação a luta pela emancipação nacional. No século XX se chamava luta pela independência com caráter puramente político (formal), já que a dependência econômica, que era a base do modelo colonial (reserva de mercado, economia agroexportadora, produção para exportação, etc.) era mantida ou apenas transferida ao império hegemônico de então. No século XX, mesmo sob a neblina stalinista, essa luta assumiu caráter anti-imperialista, quando as relações internacionais de dominação foram se centralizando nos EUA na condição de metrópole das metrópoles do capital.

A acumulação primitiva é um processo aonde se desenrola a “revolução nacionalista”, não se trata de um “gradualismo” puro e simples tal como Marx refutou aos poloneses que tiveram uma leitura fundamentalista de O Capital [1], pois ele pode ter tratamentos diferenciados, porém, diferente da tese bolchevista, Marx jamais defendeu a tese de um socialismo que pularia a fase capitalista.

No entanto, o próprio exemplo da organização trabalhadora nos países desenvolvidos e seus partidos socialistas, que são forças de influência sobre os países subdesenvolvidos, e tal como o avanço das condições capitalistas, exigem em países de capitalismo “atrasado” uma legislação trabalhista avançada até mesmo para preservar vegetativamente a mão de obra como força explorada. Isso torna as conquistas “socialistas” e a luta nacionalista em questões paralelas e reforçam a problemática.

A ameaça de socialização das transnacionais norte-americanas explorando países periféricos está cada vez perdendo espaço na agenda imperial para a luta nacionalista puramente desenvolvimentista, que está rompendo a condição de subordinação econômica primário-exportadora e secundário-importadora, é a emancipação econômica das economias emergentes que está erodindo o poder econômico e geopolítico dos EUA e UE, fortalecendo a resistência militar, econômica e política desses países frente às pressões norte-americanas. Com o quebra do protecionismo via globalização, os capitais das economias desenvolvidas terceirizaram sua produção aos países com custos de produção menores, cuja China é imbatível.

Se a ameaça de socializações na periferia das transnacionais atinge a classe dominante do império dominante, reforçando suas ingerências políticas nos países para evitar que partidos socialistas e comunistas cheguem ao poder, o avanço do nacionalismo econômico atrai essas classes dominantes para os mercados emergentes, é essa interdependência que blinda a China contra qualquer agressão americana, que caso contrário dizimaria boa margem de lucros de suas maiores empresas, além de provocar inflação de custos com o repatriamento dessa produção, além de perder competitividade com os concorrentes hightechs da Ásia (LG, Samsung, Sony, etc.). Em suma, os EUA são sino-dependentes.

Está ficando cada vez mais nítido para o mundo, com a tomada de poder geopolíticos dos países de economia emergente, sobretudo da China, que é o velho conceito marxista do “desenvolvimento das forças produtivas” que está em jogo, o poder está nas forças produtivas que controla. O capitalismo se tornou cosmopolita efetivamente por conta da globalização, isso significa que o estágio de lutas e também de análises das relações de produção, da luta de classes e da correlação de forças migrou para o cenário geopolítico.

A insustentabilidade do capital nas metrópoles com o rompimento da condição colonial dessas economias (emancipação econômica), fez com que a tese de Marx de que o comunismo eclodiria no capitalismo avançado não só está agora plenamente demonstrado, como está cada vez mais eminente. Não há demonstração mais lúcida do que um movimento como o Occupy Wall Street, mesmo com a crise americana não alcançar uma situação drástica, ter se tornado o primeiro movimento de massas americanas, desde muito tempo, de crítica ao capitalismo.

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Written by ocommunard

17 de março de 2012 às 20:52

Publicado em Sem categoria

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