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Políticas, economias e ideologias

Ocidente, o geopoliticamente incorreto

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Pepe Escobar, para mim, é um dos melhores analistas geopolíticos da atualidade, com uma impressionante riqueza de informações e uma capacidade crítica singular. Em um dos seus últimos artigos ele nos revela que a Síria é o prelúdio da guerra ao Irã, porém, nos mostra que a aposta dos “falcões” de que as tensões contra o Irã não provocaria aumento no petróleo, não só falhou, como já provocou danos na popularidade de Obama. Daí o esfriamento das tensões contra o Irã nas mídias afiliadas ao império. Enquanto isso continuam patrocinando economia verde para o terceiro mundo não pressionar tanto a demanda pelo petróleo finito e caro. Enquanto eles próprios continuam, sem nenhuma crise de consciênciam, na economia marrom.

Síria volta ao alvo imperialista, não mais para enfraquer militarmente o Irã, já que agora está blindado com o medo americano da petro-inflação, mas para impor uma derrota política aniquilando seu maior aliado.

É preciso dar uma olhada mais ampla para as tranformações recentes no mundo para entender melhor esse enredo. A Organização de Cooperação de Xangai, a OTAN da Ásia liderada pela China e Rússia, busca atrair para membro pleno os membros observadores Irã e Paquistão, além da Índia como outro gigante ainda membro observador. Ao mesmo tempo que os BRICS já somam 1/4 do PIB do planeta. As calotas polares da geopolítica americana, como espólios da guerra fria, estão em derretimento acelerado.

Pepe Escobar nos faz mirar esse cenário para nos oferecer mais lucidez para ações aparentemente tresloucadas dos EUA, é possível perceber até o cheiro de medo dos EUA de que a OCX comece a ganhar terreno no Oriente Médio, oferencendo melhores favores econômicos que os parceiros “ocidentais” em crise (leia-se UE-EUA). Aí percebemos como o discurso histérico de Hillary começa a se encaixar com a gravidade da situação.

O aumento do petróleo derrubando Obama, afastou os milicos, mas não o Bibi isralense que repousa na confortável evidência de que iniciada a guerra, a UE e os EUA viriam de bandeija. Obama busca ganhar tempo até as eleições, argumento estúpido para um ultra-direitista que adoraria favorecer a eleição de um republicano nos EUA. É a Síria, como argumento militar, que detém Netaniahu, mas ele não perderá a oportunidade de provocar o ataque em pleno ano eleitoral, sabendo que nessas condições não só teria Obama em suas mãos, como favoreceria seus parceiros ideológicos nos EUA.

O algoritmo é o de sempre, Israel antes de atacar levantaria a bandeira branca para ter a vantagem inicial de atirar pelas costas. Em documentos militares norte-americanos, citados pelo Pepe Escobar, avaliam que o poderio iraniano não é suficiente para um confronto direito, e que Irã atacaria Israel assimetricamente através do Hamas e Hezbollah. A ação imediata do Irã seria o fechamento do estreiro de Hormuz, por onde circula boa parte do petróleo exportado no mundo, essa ameaça não é trivial, porque mesmo que magicamente em poucas horas a OTAN desbloqueasse o estreito, a disparada do petróleo seria multiplicada e acelerada sob a gasolina dos capitais especulativos justamente dos países que seriam mais atingidos pela petro-inflação.

Esse cenário seria um terror muito maior do que muitas Torres Gêmeas caindo aos pedaços, em plena crise fiscal os EUA tombando em uma estagflação com duas vias drásticas: ou amputaria toda sua máquina militar para evitar a disparada da dívida, ou dispararia a sua dívida gerando um ciclo vicioso de rebaixamento de rating e aumento de juros que asfixiariam ainda mais a economia ameircana. A crise do petróleo de 1973 nos serve de um aperitivo do que seria essa crise.

Mas um país que se arroga o papel de paladino das leis internacionais que ignora, direitos humanos que não cumpre e democracia que já ajudou derubar em muitos países, não me parece ter escrúpulo em impor aos seus credores, numa disparada da dívida, o maior calote da história do capitalismo, como já fizeram com o rompimento unilateral do padrão ouro-dólar. Mas fazer isso agora, no cenário atual, não seria idolor. Os EUA se sustentam por apenas três colunas cada vez mais frágeis: mídias, exército e UE. As mídias estão ruindo frente a Internet, o exército está ruindo frente a dívida americana e a UE está ruindo frente a ortodoxia neoliberal.

A economia americana é uma grande bolha monetária prestes a estourar mantida pela propaganda e pela guerra. Não por acaso as hostilidades aos Irã se iniciaram quando ele se propôs a abandonar o dólar nas transações de seu petróleo para seus próximos contratos com a China, algo semelhante havia proposto Saddam Hussein pouco antes de ter seu país invadido.

Os EUA estão sentados sobre um barril de pólvoras. Os descontentamentos do governo afegão contra os EUA são a muito tempo explícitos, o afastamento mútuo entre Paquistão e EUA, o Iraque se aproxima cada vez mais do Irã, os regimes aliados no Oriente Médio, liderados pela Arábia Saudita, são os piores possíveis sob qualquer critério. Egito, mesmo ainda sob tutela militar, já iniciou aproximações com palestinos e iranianos. Na América Latina está quase que completamente na esquerda ou na centro-esquerda. A UE, que é o parceiro mais forte, está em crise. Cuba passa por um transição que pode colocá-lo em um ritmo de crescimento vietnamita que iria emplodir o bloqueio. A China está avançando rapidamente em parcerias na América Latina, África, Oriente Médio, Ásia e ensaiou algumas parcerias com Grécia e Portugal. Boa parte dessa parceria tem caráter puramente comercial, mas os EUA sabe que a parceria política é um mero segundo passo.

O servilismo da UE é realmente chocante, a UE vive um ciclo conservador, na maioria dos casos são refluxos de governos de centro-esquerda que fracassaram ao cederem ao neoliberalismo(new labor, etc). Portanto, esse refluxo pós-centro-esquerda-tíbia agora que se iniciou em Espanha, Portugal e Inglaterra, mas já está se encerrando na França e possivelmente pode se encerrar na Alemanha, dependendo dos humores econômicos. Essa outra centro-esquerda, que nasce da crítica da austeridade fiscal, do fracasso neoliberal, dos estragos dos livre-mercados, poderá se revigorar frente a centro-esquerda anterior que surgia sob a vergonha dos escombros do muro de Berlim e da ex-URSS. Hollande será o primeiro representante dessa nova leva, veremos se realmente essa nova esquerda européia estará a altura das circunstâncias, suas declarações até agora foram dúbias sobre se ele será da geração decadente do “liberalismo social” ou de um revigorado “socialismo democrático”.

Dentro dos EUA, por outro lado, opera uma grande ironia. Depois de fazerem incessante lavagem cerebral sobre a superioridade do capitalismo, do livre mercado, dos baixos impostos, do estado mínimo, etc. O governo americano está completamente paralisado. Não pode avançar a não ser na direção do mais do mesmo, o que é justamente o que prega a oposição conservadora, radicalizar o governo Bush. Criaram um monstro cujo perderam o controle, e nem mesmo um mega-capitalista com crise de consciência, como Warren Buffet, pregando a luta de classes dos pobres contra a classe dele, consegue despertar o povo americano depois de décadas de despolitização, em alguns casos de imbecilização explícita

Nada mais sintomático dessa barbárie que no mesmo dia em que soldados americanos trucidam mulheres e crianças a queima roupa no Afeganistão, a secretária de Estado americana tenta convencer ao mundo que o Assad ao promover eleições parlamentares livres estava agindo com “cinismo brutal”. Afegãos que testemunhuram e  desmintiram que o massacre tenha sido realizada por um só soldado, perguntavam porque se ele estava “fora de si” não atirou nos próprios colegas que estavam ao lado? Nem Freud, nem qualquer outro psicólogo responderia essa questão a não ser desmascarando o “cinismo brutal” americano.

Se esses fatos nos trouxesse alguma lição, ela seria: “nos preparemos para tudo”, um império agonizante não é algo muito agradável de se ver.

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Written by ocommunard

14 de março de 2012 às 2:50

Publicado em Sem categoria

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