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Globalização, o mundo chinês…

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Podemos identificar claramente três modelos geopolíticos no capitalismo: colonialismo, imperialismo e globalismo. O colonialismo era um regime cujo um país-metrópole colonizava regiões não ocupada por europeus, geralmente usando mão de obra escrava, para extrair riquezas e garantir reserva de mercado.

O regime imperialista nasce com a Inglaterra, que por sua vez, também aplicara o colonialismo. Ele toma sua forma pura com o império norte-americano. A colonização agora é de caráter econômico, pois mantém o caráter exportador primário e importador secundário das ‘neocolônias’, mas permite a “independência formal” do regime desde que se submeta aos interesses do império, que caso contrário realiza intervenções econômicas, diplomáticas e militares que vai desde financiar partidos servis até a treinar torturadores. Esse modelo vigora ainda hoje nos EUA.

Com a globalização a colônia perde cada vez mais seu sentido porque o capital se transnacionaliza. A exploração se dissipa de um Estado-nação e passa a ser gerenciado diretamente pelos conglomerados capitalistas que controlam as democracias ocidentais através de seu poder econômico, financiando partidos, mídias e lobbys a favor de seus interesses.

A globalismo seria um golpe perfeito senão fosse o fracasso de seu projeto geral, o neoliberalismo. A abertura comercial irrestrita não favoreceu as economias privatizadas, desreguladas e destributarizadas, mas pelo contrário, favoreceu a China comunista e todos os países que se afastaram mais ou menos do Consenso de Washington.

Muitos buscam minimizar o progresso chinês o reduzindo a um produto da “mão de obra barata”. Se assim fosse, a África toda seria uma potência emergente. Há mão de obra barata, mas também organização fabril, infraestrutura, investimento público, transferência tecnológica, estratégia governamental, educação e muito especialmente o câmbio. Em um artigo do NY Times a Apple justificava seu abandono do Made in USA citando um caso em que os operários chineses foram acordados de madrugadas para uma mudança emergencial no IPhone. Como o jornalista do NY Times caiu em tão fraca falácia? Eles não investiriam na China se os chineses fossem 100x mais workaholics se no final o custo de produção fosse maior do que nos EUA. A questão para o capital é a mais-valia, sempre foi e sempre será.

A China teve a sapiência de enxergar isso e conquistar uma gama de investimentos extrangeiros para financiar seu socialismo de mercado. Se no século XX o capitalismo e o comunismo vivia sob a sombra de uma terceira guerra nuclear, no século XXI eles cooperam. Apesar da forte interdependência das elites econômicas e políticas norte-americanas com a China, a ascensão chinesa começa a incomodar, sobretudo, geopoliticamente. E os EUA abertamente começam a sabotá-la, atigindo seus parceiros comerciais (Irã, por exemplo) e o cercando com bases militares em países fronteiriços.

O governo Obama abusa da pressão diplomática internacional para deter a ascensão chinesa, combatendo o que eles chamam de “manipulação cambial”, um recurso retórico contra uma prática que não só é comum a qualquer país, como o próprio EUA aplicam com seu “quatitative easing” ao mesmo tempo em que criticam a China. Mas isso será o maior tiro no pé do último império ocidental. A China se comprometera a valorizar o seu câmbio e redirecionar sua produção ao mercado interno, ainda que torne mais complexo o controle inflacionário, esse remanejo provocará uma ascensão social tão colossal quanto hoje é o crescimento econômico, despojando os EUA da condição de chantageador-mor da UE ao tornar a China, muito provavelmente, o maior importador europeu através de seu mercado interno crescente.

O soft-power chinês vai ganhando adesão nas instituições multilaterais com sua postura sempre consensual, dialogada. A China naturalmente irá representar, cada vez mais, nas relações internacionais, o multilateralismo inerente a fase da globalização, atraindo simpatia das nações exauridas com o unitalteralismo americano. Mas uma hegemonia não se conquista tão suavemente. Sem os escombros deixados pela Segunda Guerra Mundial no antigo império britânico, os EUA não teria assumido o seu lugar. É necessário uma ruptura, um choque, uma prova de fogo.

Acredito em duas hipóteses em que esse choque pode ocorrer em benefício chinês. A primeira hipótese seria uma recaída da crise americana, que segundo economistas, não foi ainda sanada nas suas causas geradoras. Se uma nova crise disparar, o EUA hiperindividado não terá recursos para mais uma vez socializar as perdas ou financiar políticas anti-cíclias fiscas, gerando um efeito dominó sem condições de ser detido. Isso irá radicalmente antecipar a superação do PIB chinês sobre os EUA.

A segunda hipótese seria em uma situação de desespero fiscal, os EUA derem um calote exclusivamente na China alegando reparação das tais “manipulações cambiais”. A resposta lógica e mais leve da China seria a expropriação acionária das empresas americanas sediadas para compensar o dano dos EUA, zerando o jogo. Mas essa resposta chinesa poderia inflamar os brios militares norte-americanos, que podem sempre recoerrer aos “incidentes provocados” para incendiar a opinião pública americana para uma declaração de guerra. E como sabemos, uma guerra contra um páis com mais de 1 bilhão de habitantes, e ainda provaco por um país debilitado fiscalmente, é morte certa sim, mas do agressor.

Com tal choque, o século chinês, propriamente dito, então se iniciaria. Antes disso podemos falar apenas de uma potência econômica, mas jamais de uma potência hegemônica, ainda que multilateralista. De qualquer forma, ninguém há de duvidar que a globalização foi uma dádiva para o socialismo de mercado e um golpe fatal ao capitalismo de livre mercado, por mais irônico que seja.

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Written by ocommunard

19 de fevereiro de 2012 às 5:30

Publicado em Sem categoria

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