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Políticas, economias e ideologias

O charuto de Lênin

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Em uma edição recente pairava numa capa da prestigiada The Economist, com forte tons vermelhos, um Lênin vitorioso fumando um charuto com um singelo cifrão, e em letras garrafais a revista não escondia o panfletarismo: “The rise of state capitalism”. A insistência e abrangência do Brasil na matéria, apesar da China ir muitíssimo mais longe do que nossos humildes state capitalists, desmascara a pomposa pretensão de tentar nos recolonizar, ao menos, ideologicamente.

O artigo de Antonio Lassance [1] aborda bem essas questões, demonstrando como o conceito de “capitalismo de Estado” foi apropriado pela revista de um modo confuso e míope, já que este é um conceito bolchevique (capitalismo monopolista de Estado) para atacar o keynesianismo capitalista. Outros autores usaram o conceito de “capitalismo de Estado” contra os bolcheviques justamente para refutar qualquer pretensão anti-capitalista em seu regime. Agora, pela primeira vez na história, a The Economist utiliza o capitalismo de Estado como uma ameaça ao capitalismo.

O que está em questão, obviamente, não é o capitalismo de Estado, pois como lembra o artigo o capitalismo sempre dependeu e muito do Estado, mas o capitalismo de Estado mínimo (liberalismo econômico) que sempre se esbarrou nas crises que provoca, como as grandes crises de 1847, 1929 e 2008 que ainda persiste na casa do The Economist. The Economist lamenta e ataca os BRICS por terem a ousadia de terem sucesso com tal receituário, ainda que seja muito parecido com o keynesianismo deles no século XX, seu jornalismo econômico se politiza, a The Economist se torna The Politics.

Mas há algo sintomático interessante. O ponto em comum entre o capitalismo de Estado, socialismo de mercado e o keynesianismo é que, a despeito de suas inclinações políticas divergentes, convergem em um receituário muito parecido e muito bem sucedido que, segundo a própria The Economist, se comprova nos BRICS. A consternação da matéria, que não por acaso surge logo depois do ‘Brazil’ ter ultrapassado o Reino Unido em PIB, não chega a constituir uma crítica propriamente, está mais para uma lamúria.

Mas observando geopoliticamente, a matéria anti-BRICS da The Economist é uma boa notícia. Se na pior das hipóteses a The Economist estiver 100% certa, o que significaria que o capitalismo de Estado está levando o BRICS a superar as economias de “capitalismo de Estado mínimo”, a fidelidade das potências declinantes ao seu receituário fracassado é uma excelente notícia não só para a hegemonia dos BRICS, mas para o próprio “capitalismo de Estado” defenestrado pela The Politics(ou seria The Economist?). E de certa forma nós, que estamos nos BRICS, deveríamos comemorar a persistência desse dogma catastrófico entre os nossos mais fortes concorrentes.

Estamos falando da The Economist, uma revista séria, não um panfleto descarado como o The WallStreet Journal. Por isso é ainda mais emblemático toda essa discussão. Sem muito esforço se pode ler nas entrelinhas que o The Economist, no modo coerente com seus dogmas, apenas saudou o novo mundo do “capitalismo de Estado” encabeçado pela China, a escolha da imagem de Lênin triunfante estampando a capa fala por si. Aliás, bem no topo da capa, tem uma chamada para uma matéria também emblemática: “How to tax 1%”.

E para os que agora estão psico-analisando as questões fálicas subjacentes a matéria da The Economista, sejamos tolerantes, como uma vez disse Freud, “as vezes um charuto é apenas um charuto”.

[1] http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5420

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Written by ocommunard

28 de janeiro de 2012 às 12:14

Publicado em Sem categoria

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