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Assim falara Pérsio Arida, o Zaratustra Tucano

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Pérsio Arida não tem problema com prestígio inusitado na grande mídia brasileira, quase toda tão tucana quanto conservadora, mas tem um problema sério com os fatos. Sua entrevista é tão flagrantemente sintomática que se transforma no maior panfleto antiliberal desde quando um determinado presidente pedira que esquecessem tudo que escrevera da sua produção intelectual de toda uma vida.

Pérsio Arida, o brilhante economista da equipe econômica do governo FHC (ou seria governo Pérsio Arida?), aquele do maravilhoso governo que quebrara o país 3 vezes, aumentara a carga tributária, dilapidara o patrimônio público, jogara o país em 8 meses de racionamento de energia e sob taxas de juros acima de 40% ao ano, multiplicara a dívida pública brasileira que saltara de 60 bilhões para 245 bilhões. Se não bastasse todo esse brilhante, liberal e moderno fracasso, a corrupção rolara solta nas privatizações com a lavagem de dinheiro fartamente documentada no best-seller recente: A Privataria Tucana.

O modo como Pérsio Arida defende detalhadamente cada uma das medidas que levaram o governo ao completo fiasco, chega a nos comover de pena por FHC, pois parece que o Jacques Necker do Príncipe dos Sociólogos usurpara o trono enquanto o FHC, o Vaidoso, se afogava enebriado por sua imagem refletida nas telas de tv, revistas e jornais chapa-branca.

Como um típico austero neoliberal, Pérsio Arida defende que o “desaquecimento foi necessário” no último ano no Brasil, declama ele a  lei natural: mais que 3,5% a 4% no Brasil gera inflação. Mesmo se ignorássemos que em 2010 o  Brasil crescera a 7,5% com baixa inflação e admitindo que os tais gargalos infraestruturais impedissem crescimento maior sem inflação alta, a lógica pediria mais investimentos em infraestrutura e não mais juros. Mas aí a austeridade fiscal é violada e a austeridade é uma regra moral para toda a nação, exceto aos bancos laureados com recordes de lucro como os auferidos nos anos austeros de Pérsio Arida no poder.

O apóstolo das privatização não titubeia em defender a estatização dos bancos, pois para ele, é melhor estatizar bancos  “do que deixar os bancos quebrarem”. Quer dizer, para a teologia dos mercados, a falência faz parte do jogo da concorrência, menos para os bancos, que devem ser privados até que estejam ameaçados de falência, aí vem o Estado mínimo fazer a austeridade fiscal de engolir a dívida privada  para não deixar “os bancos quebrarem”.

Mas se essa austeridade está cortando o “dinheiro da saúde e da educação”, Pérsio só tem a dizer que acha que o sistema de saúde “socializado” da Inglaterra “funciona surpreendentemente bem”, apesar disso ele deve ser racionalizado. Qual o exemplo que ele nos dá? “Não permite o tratamento de fertilidade em mulheres obesas”. Racionalizar segundo o Pérsio, restringir direitos sociais.

Claro que alguém tão austero como Pérsio não pode ser contra “cortes de gastos público e reduzir a renda”, mas teme que o exagero gere “crise no tecido social”, sua dica é receitar o veneno em doses homeopáticas. No entanto, aparentemente citando inversamente Naomi Klen, defende a crise facilita a disposição popular ao “ajuste fiscal”. Pérsio Arida declama, só há dois caminhos para a salvação aridiana do crescimento: contração fiscal (estado mínimo) e expansão monetária (banco máximo).

Pérsio Arido acha que “não se deve aumentar salário”, simples assim e ponto final. Para ele só o sagrado mercado, esse que falhou tanto ultimamente, deve regular o “preço” do trabalho. Mas ele não gosta que o salário aumente em ciclos de expansão, mas sofra “resistências” para cair em ciclos de contração. Apesar de não desgostar quando ocorre nos outros casos como quando caem os impostos que não se repassam nos preços, ou quando cai a Selic e não se repassa nos juros ao consumidor. Como vemos, o problema dele é com o salário. Aquecer a economia com o salário “não é preciso”, segundo Pérsio, aquecer a economia só com “política monetária”.

Pérsio não se incomoda em reconhecer que a crise dos bancos foi o que mais mais violou a “austeridade fiscal” das “dívidas soberanas”, mas ele responde a isso simplesmente proclamando que  o drama da Grande Depressão de 29  não fora a quebra da bolsa ou o suicídio de banqueiro, já que o desemprego maciço sequer merecera o desprezo de Arida, claro, para ele só poderia ser a “quebra dos bancos”. Se esses bancos foram quebrados por irresponsabilidade dos banqueiros pouco importa, ele devem ser salvos de si mesmo em nome da racionalidade e da modernização.

Mas o Pérsio teme a expressão “socialização das perdas”, ela é “perigosa” para ele, pois para ele ou a sociedade cobre o rombo dos bancos através da “farra fiscal” (isto é, profanando a austeridade fiscal), ou a sociedade vai perder os depósitos que os mesmos bancos quebrados não podem suprir. E porque os bancos não são regulados para evitar isso? Porque os Pérsios Aridas são contra a regulação financeira. E porque ao invés de salvar o banco, simplesmente os depositários são indenizados pelo Estado?

Mas então um sacramento do capital é desvirginado: a moral do risco, o capitalismo não ficaria sem riscos quando uma “coisa dá errada e o governo vai lá e ajuda?”. Para o Pérsio o capitalismo tem risco, mas evita o assunto apelando ao ufanismo de nossa “avançada” legislação que pune dirigentes e acionistas pelas perdas, porém, ao mesmo tempo cita a oposta legislação americana que segundo ele privilegia a “solidez financeira”. Quer dizer, nós temos uma legislação mais avançada mas que é oposta a uma legislação mais sólida, que por sua vez, minimiza os riscos, que por sua vez, é inerente ao capitalismo? Pérsio, Pérsio, o que seria do tucanismo financeiro se não fosse a Cosa Nostra das famílias Marino, Civitas, Frias, etc para dourar seus escárnios como se fossem leis da natureza.

As contradições cada vez mais esquizofrênicas de Pérsio chegam ao cúmulo, quando acusa o “sistema financeiro globalizado” de clichê, ao mesmo tempo em que afirma em seguida que há globalização financeira, comercial e que a globalização até hoje beneficiara os “mais pobres”. Como alguém tem coragem de declarar uma patifaria dessa em público? Ele teme o protecionismo, que para ele é apenas o “lobby empresarial contra outro lobby empresarial”, ele realmente não gosta muito dos lobbies de empresários, mas nada fala dos lobbies dos banqueiros, talvez porque ele seja um deles.

Pérsio Arida acha que é sem sentido afirmar que acha um governo Goldman Sachs na Europa apenas porque a maioria dos governos ou ministérios ligados a economia são controlado por ex-funcionários do banco. Não importa muito para ele se a operação dessas “pessoas talentosas” que vieram da Goldman Sachs apenas porque ela “pagava mais”, tenham continuamente privilegiado e beneficiado seus antigos patrões. Para ele é apenas uma demonstração de “talento”.

As medidas de Dilma para a indústria brasileiras são atacadas por Pérsio por “proteger um grupo de multinacionais contra outro grupo de multinacionais”, e o que isso tem a ver com a exigência de nacionalização dos componentes produzidos? Das duas uma, ou ele quer que nacionalizemos as multinacionais, ou que voltemos para a “substituição de importação”. Obviamente, tudo que ele nos disse até aqui, não nos deixa enganar que o seu problema é menos com a medida e mais com os beneficiados por ela, já que ele deixa claro que seu mundo das idéias é povoado pela sua clientela de banqueiros.

Aumentar gasto público, nem pensar para o nosso Pérsio, todo gasto público será castigado exceto o “superávit primário”, que para ele é um bom gasto público, imparcialmente, é claro, já que o superávit primário é por onde os governos economizam para pagar os bancos que serão remunerados pelos juros mais altos do mundo. Investimento público? Apenas com a metafísica tucana da eficiência, da gestão, da moral (vide a Privataria Tucana), que por si só realizará a mágica de transformar uma receita menor, por conta de menos impostos, em uma taxa de investimento público maior.

Se Pérsio acha que o “salário não deve aumentar”, imagine o que ele acha sobre o “aumento do salário mínimo”. Para ele é um desastre, danoso para o orçamento, previdências, governos e municípios. Só faltou falar “para sobrevivência da espécie humana”. Vejam bem, não é danoso para ele os maiores juros do mundo, nem superávits primários generosos, nem a “farra fiscal” dos bancos falidos estatizados, nem a crise financeira mundial provocada pela desregulamentação financeira patrocinada pelos bancos. Para ele, tudo o que dá errado nesse país que cresce distribuindo renda é o aumento do salário mínimo. Se é verdade que o salário mínimo não distribui renda e gera inflação, então como havia desigualdade maior com salário mínimo menor na época na eral liberal de Pérsio Arida? Porque os fatos teimam em desrespeitar as leis científicas dos tucanos?

Mas como dinamizar a economia? Pérsio Arida cita o Tea Party: menos juros*, menos impostos, menos estado. Nenhum candidato republicano nas prévias até agora, por mais fanático que seja, chegou a tal grau de fundamentalismo. Mais quando ele fala em “menos juros”, ele exige menos gastos público (estado mínimo, privatizações, menos impostos, etc).

Pérsio Arida não quer juros subsidiados, quer que seus bancos se alimentem da maior taxa de juros do mundo com um dos maiores spreads bancários, permitir exceção para ele não passa de lobbies empresariais, e óbvio, lobby só se for o dele, o lobby da banca. Para o Pérsio, o juros subsidiados não existem por conta da Selic alta, mas a Selic alta existe por conta dos juros subsidiados, pois ‘desequilibraria os juros’. Para ele tanto faz o fato do subsidio de juros ter sido criado justamente para financiar a produção a juros baixos, e tão pouco para ele importa que se a lógica fosse essa seria mais fácil ao governo ter apenas uma cotação de  juros baixa, do que várias.

Depois de ter provado que tudo que beneficie direitos sociais, trabalhistas e salariais é danoso, desastroso e maléfico. E ter provado que tudo que beneficie os bancos, mesmo profanando a moral do risco, a austeridade fiscal e outras leis sagradas do mercado, é bom. Agora ele conclui que esse modelo vigente, é um “pacto antiliberal entre estado, empresas e elites”. Um governo que segundo o próprio Persio Arida, aumenta o salário de modo “desastroso” é um governo elitista? O que é pior, ele afirma que fala em “liberal no sentido norte-americano”, que para ele está assentado na NÃO intervenção estatal e das liberdades civis. Qualquer um que tenha ouvido falar em política americana sabe que os liberais nos EUA representam a esquerda naquele país e desde Franklin D. Rosevelt defende maior intervenção na economia, ao contrário dos conservadores republicanos.

Quando questionado se a “taxa de juros que transfere riqueza aos mais ricos faz parte do pacto antiliberal”, ele recua, agora entramos na clientela do Pérsio. Primeiro ele ameniza a crítica afirmando que “os antiliberais” não “fazem maldades”. Mas mesmo reconhecendo que a “taxa de juros” concentre renda, ela, para ele, não pertence a “mentalidade antiliberal”.

E como diminuir esses juros concentradores? Para Pérsio ele apela para o clichê ortodoxo do Estado mínimo que ele denomina de “consolidação fiscal”, sem menos gastos públicos, para ele, nada de juros menores. Exceto se esses gastos públicos forem para o superávit primário ou para estatizar bancos falidos.

Quando questionado sobre o “Privataria Tucana”, o indiciamento na Satiagraha e o Daniel Dantas, o Pérsio simplesmente responde: “Não quero falar sobre isso”. Essa foi sua mais eloquente resposta em toda a entrevista.

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Written by ocommunard

19 de janeiro de 2012 às 19:32

Publicado em Sem categoria

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