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NEOCON OU NEOCOM?

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A assombrosa arte de trair a si mesmo

Por favor não venham as viúvas stalinistas aqui levantar a bandeira da vitória afirmando que desde os primórdios já previam a “essência” neocon do trotskismo, os ex-trotskistas não são exceção, mas a regra onde ex-comunistas saem da extrema esquerda para a extrema direita, até como uma necessidade imperiosa de provar sua nova condição, tão pouco perderei tempo com filosofetas geométricas que afirmam que os extremos se atraem, geralmente são ex-comunistas que adoram afirmar que os extremos (fascismo e comunismo) são iguais. É mais do que curioso a assiduidade de ex-esquerdistas brasileiros se transformarem nos mais furiosos, cretinos e implacáveis anti-esquerdistas.

No caso do Brasil isso toma uma dimensão quase apocalíptica, temos uma longa linhagem de trairagem dentro das forças progressistas que vem desde Silvério dos Reis, passando por Lacerda, Filinto Müller, chegando a Serra, e tudo sua trupe midiática (Miriam Leitão, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes, Cantanhede, etc). Por favor, os que não citei, não se sintam entristecidos, é porque a lista é tão longa quanto óbvia.

O que surpreende hoje é o número de ex-esquerdistas que mudaram de lado, antes bastava um grande canalha a bradar o udenismo moralista, hoje a lista é proporcional a derrocada eleitoral da direita. Gabeira em um de seus últimos artigos, sobre a denúncia sem provas contra o PCdoB no Ministérios dos Esportes, não teve nenhum constrangimento em repetir o mesmo anti-comunismo que foi usado por aqueles que torturaram, mataram, perseguiram e sabotaram a democracia por duas décadas, e cujo ele próprio foi uma das vítimas. A moral da história é que a esquerda brasileira deveria aprender a ser muito mais rigorosa e seletiva na hora de escolher seus militantes, pois o custo político que ex-esquerdistas tem provocado aos trabalhadores é algo que vai muito além de uma análise moral sobre a lealdade.

A Hipótese NEOCON em sua origem

NEOCON é um movimento que nasceu nos EUA por parte da migração ideológica realizada majoritariamente por ex-trotkistas norte-americanos. Eu levanto três hipóteses causais. É importante ressaltar que aqui busco analisar apenas o fenômeno NEOCON dos EUA, que por sua vez se alastrou para o nosso país mas recebe contorno diferente, muitas vezes opostos.

Hipótese 1: desilusão pós-stalinista. Teria sido o anti-stalinismo de Krushev que não teve a esperada ‘revolução política’ defendida por Trotsky que apartaria do regime socialista a casta burocrática. Esse anti-stalinismo nascido dentro da própria ‘casta burocrática’ e a defesa do stalinismo pela recém comunista China, poderia ter levado os trotskistas a perceberem que o antagonismo ao stalinismo não tomariam a via trotskista e tão pouco seria bandeira das novas revoluções comunistas, essa decepção teria sido a raiz do abandono ao comunismo.

Hipótese 2: reconversão pós-soviética. Ex-trotskistas neocon podem realmente ter sendido na queda da ex-URSS e a abertura ao capitalismo na China a confirmação da vitória do capitalismo sobre o comunismo, e assim, assumirem convicta e efusivamente o capitalismo como uma vitória indubitável. Essa reconversão tem um caráter mais radical, porque não compartilha as ilusões idealistas dos liberais (a esquerda americana), nem mesmo o misticismo tradicionalista dos conservadores. Eles sabem a face cruel do capital, sabem detalhadamente que o seu poder nada tem a ver com liberdade ou ordem, mas sabe que faz parte de seus recursos a própria ideologia mistificadora que mascara a máquina brutal de exploração social e dominação internacional. E dessa forma, levam conscientemente esses valores ao extremo, sem escrúpulos pequeno-burgueses ou mistificações tradicionalistas.

Hipótese 3: entrismo conspirativo. Essa seria a hipótese mais exagerada. O entrismo foi uma tática de correntes trotskistas (que eram geralmente pouco numerosas) para que entrassem nos partidos social-democratas e socialistas na Europa e formando correntes dentro dela, tomassem seus comandos e desse uma viragem revolucionária a esses grandes partidos de massa. Porém, nos EUA o Partido Democrata era tão anti-comunista quanto o Partido Republicano, com a dificuldade de ainda receber um excessivo patrulhamento por conta dos conservadores e da própria sociedade americana por serem “de esquerda”, acabavam por ter que praticar mais ferozmente o anti-comunismo para demonstrar aquilo que os Republicanos não precisavam provar por seu próprio direitismo. Assim, conhecendo todos os fios ideológicos do discurso conservador e sabendo o esgotamento fiscal que o belicismo provocou em muitos impérios, o supremacismo neocon pode ter sido uma tática engenhosa de emplodir império e elevar os antagonismos ao máximo ao romper com as políticas sociais do keynesianismo que haviam diminuído a desigualdade, sabedores que são de que todos os impérios na história ruíram por dentro e de que a desigualdade é o tempero das crises e do antagonismos de classe, fizeram um excelente trabalho em 8 anos de governo Bush, jogando o país na segunda maior crise do capitalismo e provocando movimentos como Occupy Wall Street que pela primeira vez questionavam abertamente o capitalismo.

Os NEOCONs tupiniquins

Por favor, não confudirem a gênese NEOCON norte-americana com os nossos NEOCON. Boa parte dos comunistas que hoje migraram para o udenismo se atraíam pelo comunismo por um instinto muito mais elitista (a hierarquia do Partido de Vanguarda) e colonialista (o macaquiamento da rebelião de jovens no Maio de 68 na França e Hyppies nos EUA), do que por amor a causa da emancipação proletária ou por defesa da soberania nacional contar o imperialismo. Isso obviamente se comprovou justamente naqueles ex-esquerdistas que sentem urticárias com um operário no poder (que chamam apedeuta) ou com as ações não alinhadas aos potências americanas ou européias em matéria de política internacional (que chamam de megalômanas). São os mesmos que outrora lutavam pelo “poder operário e camponês” sem a casta burocrática? Os mesmos que lutavam contra o imperialismo?

Outro traço que expoem as víceras de nossos NEOCON contra os NEOCON americanos, é que os yanques são abertamente populistas, enquanto os nossos tratam o populismo como a principal motivação anti-esquerdista, eles usam e abusam dessa ‘ameaça populista’ para assustar a elite brasileira a favor do financiamento eleitoral dos candidatos da direita. Porque são mais elitistas do que colonialistas, porque são colonialistas por um instito elitista. Assim, a perda do ‘elitismo político’ é visto como a maior das ameaças aos nossos NEOCONs e sua maior bandeira.

Outro fator importante é que se por um lado é o puro elitismo desses ex-comunistas que alimentam essa importação cultural seletiva dos NEOCONs americanos, por outro lado essa seletividade nada mais é do que a comprovação da linhagem conservadora brasileira que herda nossos neocons, dessa forma ele se assemelham mais a arquicons, pois se destaca não por tentar dar um novo contorno ao conservadorismo, mas por uma tentativa brutal e permanente de não só resgatar todo o conservadorismo brasileiro (udenismo), como até por reconstruir os cenários (Serra visitando os pró-golpistas do Clube Militar, se aproximando do TFP que havia organizando a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, usando as FARCs e Cuba para atacar o PT).

NEOCON: Seria uma conspiração trotskista?

Analisemos a hipótese ‘mais exagerada’, de que os NECONs nada mais são do que o resultado de um ‘entrismo conspirativo’ por parte dos trotskistas para jogar os EUA em uma crise socio-fiscal (a crise atual), vejamos suas condições e seu potencial de viabilidade. Primeiramente, é necessário admitir que as outras hipóteses são razoavelmente plausíveis, mas como meio trotskista que sou, admitirei a hipótese de que um trotskista é alguem ricamente bem informado em dois temas: história, economia, Marx e Lenin.

O primeiro ponto é que jamais um trotskista ignoraria o fato de que um expansionismo bélico poderia não só provocar a uma crise fiscal ou qualquer outra de natureza econômica, mas a uma ameaça real ao fim do próprio império por diversas razões: 1) a ação unilateral empregada pelos neocons de Bush rompeu a máscara de Ocidente ao romper com a ONU na invasão do Iraque; 2) a agressão militar iria acirrar o anti-americanismo colocando os árabes que são os principais fornecedores de petróleo contra os norte-americanos; 3) a própria exportação das instituições democráticas e da instalação de multinacionais, exportariam e imporiam uma organização em uma sociedade de classes nessas regiões ainda há ainda uma organização fortemente tribalizada, expandindo assim os antagonismos capitalistas a essas regiões.

O traço neoliberal dos neocons, isto é, seria grande responsável por um acirramento do antagonismo social nos EUA, elemento que todo trotskista sabe ser elemento cruscial de impulso revolucionário. O grande obstáculo era a grande regime de seguridade social que era combatido desde sempre pelos hayekianos e friedmanianos. Os trotskistas sempre foram contrário a essa forma de “amenizar as contradições”, o neoliberalismo teria sido a porta de entrada para uma nova fase cujo Marx sempre identificadava como resultado do capitalismo (isto é, sem nenhuma regulação). Será por acaso de que o grande beneficiário da globalização tenha sido nada menos do que a China (nem mesmo o Japão ou a Rússia neo-capitalista)? A desregulação rompeu as câmaras de amortecimento das crises capitalistas, a diminuição dos impostos retirou as amenizações sociais da desigualdade capitalista, a dominação midiática conservadora expôs abertamente para o debate das massas a face capitalista desses órgãos, pela primeira vez a chantagem da ‘liberdade de expressão’ não mascarava mais as mídias como aparelhos ideológicos da burguesia (que os americanos estão chamando de ‘poder econômico’).

Há ainda alguns outros elementos, como a tática gramsciana, a visão de contradição entre as forças produtivas e relações de produção, a própria referência ao colapso da ex-URSS. A muito, muita realmente, referências bibliográficas que dariam substância a essa hipótese e que qualquer trotskista saberia de cór e salteado. Mas me alongaria muito mais do que o proposto nessa reflexão.

O fato objetivo é que se confirmando ou não essa hipótese, sem dúvida os NEOCONs terão feito mais pelo comunismo do que qualquer outra ação tem realizado até hoje desde o New Deal. Mesmo que seja a segunda hipótese, a de uma reconversão histérica ao capitalismo, não mudaria o fato de os neocons estejam na raiz das grandes transformações, pela mesma razão de ter permitido as contradições e antagonismos em uma sociedade capitalista alcançar o seu ápice.

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Written by ocommunard

3 de novembro de 2011 às 15:32

Publicado em Sem categoria

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