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Occupy World: liberalismo e democracia em contradição

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O liberalismo norte-americano com seu mantra do “Estado mínimo” tinha na gordura do “Wellfare State” keynesiano o seu fôlego, queimada essa gordura que culminara na crise financeira e na hiper-concentração de renda, na cada vez mais explícita e obscena dominação do capital financeiro sobre toda a sociedade, provocara uma onda de protestos inéditos nos EUA que pela primeira vez questiona declaradamente o capitalismo, movimento nascido no Occupy Wall Street.

Nem no ápice de 1929 ou nos rebeles anos 60 o capitalismo havia sido tão atacado pelos próprios norte-americanos. Ironicamente, só seria possível isso com a vitória dos EUA na Guerra Fria, já que em outra situação qualquer crítica ao capitalismo seria acusada de comunista pró-soviética, ainda que ainda os acusem de anti-americanos. Agora, quando o maior país comunista da atualidade (China) se tornara o maior centro de atração de capital no mundo, essa chantagem falira.

A crise, a desigualdade, a dominação cada vez mais exposta do sistema político pelo poder econômico (sobretudo o capital financeiro), levaram a essa situação, e os movimentos de ocupação contra o “poder econômico” nascidos na pátria do capitalismo já se espalharam por todo o mundo. É um movimento cuja a vitória estará centrada unicamente na sua capacidade de sobrevivência e resistência ao longo do tempo, isto é, o seu fôlego.

Ironicamente também, foi da Primavera Árabe, numa região do mundo sobretaxada de ditatorial por natureza segundo o discurso neoliberal, uma revolução pacífica e democrática nascida em uma ditadura alinhada aos EUA serve de modelo ideal ao ‘ocupistas’.

O que os une é o que se opõem, porém são uma massa mista formada de liberais, socialistas, anarquistas, desenvolvimentistas (keynesianos), etc. Não há como dizer ou definir que se essa mobilização continuar se expandindo e resistindo, vá culminar em algo comunista oficialmente, mas se tomarmos a Comuna de Paris como referência, sua essência comunista é muito mais autêntica do que qualquer experiência vivida no século XX ou hoj. Na raiz mais autêntica do comunismo soviético, ainda que depois esmagado pela máquina stalinista, estavam os soviets, uma organização popular espontânea de democracia direta. É justamente o que estamos vendo nas ocupações e nas suas reinvindicações de ‘democracia real’. Não muito diferente da democracia direta empregada pela Comuna de Paris.

Para muito além das especulações ideológicas do movimento, o ponto mais nevrálgico já foi obtido, que foi a crítica explícita e irrevogável pelo movimento do sistema capitalista cujos EUA são o modelo. É esse ponto de partida essencial que dá a esse movimento uma amplitude revolucionária muito maior do que um mero reformismo ao estilo New Deal ou pacifismo aos estilo anti-war (como foram na década de 60 os protestos contra a Guerra do Vietnã). O New Deal foi revolucionário em seus termos, mas institucionalizado, não rompera nem com o regime econômico, nem com o regime político, por mais sindicalista e estatizante que tenha sido, algo que de partida os ocupistas já romperam.

A face glamurosa que o capitalismo se travestiu com a vitória na Guerra Fria, como uma democracia liberal plena de direitos humanos e liberdade de imprensa, caira como uma máscara de papel com a própria auto-destruição de seu semi-socialista Wellfare State, ruiu em seu próprio ninho. Hoje está mais nas mãos dos Republicanos do que dos Democratas levar essa contradição adiante, emplodindo os últimos elos imaginários entre a democracia e o liberalismo através do acentuamento de política liberalizantes que levaram ao caos atual e que portanto, irão maximizar as mazelas vigentes. Hoje a liberdade de imprensa é desmascarada pelos ocupistas como ‘propaganda política do poder econômico’, hoje a o liberalismo é desmascarado como ‘assalto a democracia’, etc. No entanto, é a hegemonia política do neoliberalismo que empurrarão a mídia e os Republicanos como um carro sem freio para um colapso da pátria do capital. Não podem nem conseguem frear ou ceder, os que lhes custariam alto ideológica e politicamente, só podem acelerar cada vez mais. Mesmo que tenham consciência de que se aproximam do muro inevitável da contradição entre democracia e liberalismo, além desse muro não sobrarão mais ilusões sobre o capital, e a luta de classes se tornará tão transparente quanto se tornara hoje a ditadura do capital financeiro.

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Written by ocommunard

23 de outubro de 2011 às 13:17

Publicado em Sem categoria

Uma resposta

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  1. Depois da queda dos países comunistas no início da década de 90, essa pseudo política “sem esquerdas ou direitas” (ou seja, pós-ideológica) foi absorvida pela ideologia e reproduzida como uma expressão da vitória do capitalismo.

    É com que, em contraposição à Fukuyama, essas revoltas continuem e o capitalismo caia em alguns países.

    Vinicius

    23 de outubro de 2011 at 14:47


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