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Políticas, economias e ideologias

Elio Gaspari e a questão do declínio norte-americano

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Elio Gaspari escreveu um artigo que já virou uma unanimidade entre gregos e troianos, eu também gostei, mas na condição de Grego, de quem está tentando derrubar os muros neoliberais de Tróia, basicamente nesse artigo sintetiza uma série de eventos aonde o declínio norte-americano era tido como favas contadas, e então, no final das contas, os EUA dava a volta por cima. Sua análise tem qualidade ao identificar essas conturbações, que nossa imprensa chama de baderna quando ocorre em seu quintal, nada mais do que um saudável e autêntica demonstranção de virilidade democrática. E assim, conclui, essa crise como as outras será apenas mais um dos muitos desafios superados pela madura democracia americana.

Elio Gaspari, um colunista que gosto mesmo quando discordo, só desconsidera que muito das esperanças de declínio sobre o império norte-americano se deu no auge da polarizada Guerra Fria, que no Brasil os EUA representava as forças aliadas a nossa ditadura. É humanamente natural que houvesse uma torcida contra os amigos da ditadura. Mas o seu grande erro é assumir essa mesma perpectiva ‘sentimental’.

A questão dos EUA é tão somente a crise de um Estado altamente endividado emparadado entre excesso de gastos militares e escassez de tributação sobre a riqueza. Se ele tentasse nos convencer que há condições para mais impostos sobre os ricos e menos gastos militares, eu aceitaria que seria tão evidente a recuperação norte-americana. O grande argumento a favor da recuperação norte-americana não são as crises anteriores do próprio EUA, mas todas as outras crises de todos os outros países, a maioria do que depois se tornariam potências emergiram de graves crises econômicas: Alemanha, Coréia do Sul, Japão, China, Brasil e o próprio EUA (1929).

Não acredito em “eterno retorno”, acho que a história é muito mais discontínua do que cíclica, mas acho, tal como Elio Gaspari, muito revelador a prática das analogias históricas, essa prática não nos dá o poder da previsão, mas o poder da desilusão(no sentido saudável de retirar ilusões). Vejamos as similaridades, por exemplo, entre a França pré-revolucionária e os EUA atual. O absolutismo francês havia caído em uma grave crise fiscal(alto endividamento) por seus gastos militares (financiou a Independência Americana, além da Guerra dos 6 dias, etc), além de uma crise agrícola que espalhou miséria acentuado pela concentração da riqueza. Semelhanças? Coincidências?

A ‘representação legislativa’ francesa era dividida em três estamentos ou estados: clero(0,5%), nobreza(1,5%) e o resto (98%). Como o ministro da finanças não conseguiu conquistar o voto do clero e da nobreza para que pagassem mais impostos(alguma coincidência?), ele apelou para os Estados Gerais, este foi o elemento catalizador que provocou a Revolução Francesa. Se chamarmos nobreza a WallStreet e clero a mídia conservadora, e seus lobbys um poder legislativo próprio, a analogia se encaixa com perfeição, até mesmo na proporção social. A Revolução Francesa, que nos deu a Idade Contemporânea, jamais teria existido se o WallStreet do absolutismo francês tivesse admitido mais impostos sobre os ricos e o monarca não-eleito tivesse admitido menos gastos militares, alguma semelhança?

Enquanto Elio Gaspari não nos provar que há ou haverá em tempo hábil condições políticas para corte de gastos militares (sozinho os EUA detêm mais de 41% dos gastos militares no mundo) ou aumento de impostos sobre os ricos no cenário político dos EUA, ou mesmo vislumbrar se haverá algum tipo de ‘Estados Gerais’ que catalize o descontentamento da maioria dos norte-americanos que não tem como pagar lobbys, seu artigo permanecerá como uma pálida bajulação a um império em crise saudada por colonistas que frequentemente o ataca por não militar com mais empenho no Tea Party tupiniquim. É isso, ou troque de chapéu…

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Written by ocommunard

5 de agosto de 2011 às 14:18

Publicado em Sem categoria

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