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Políticas, economias e ideologias

A irresistível fé neoliberal de Kanitz

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Em solicitação de Luiz Monteiro, que me pediu para comentar dois artigos: “Culpem Keynes, Não a Ganância” e “Destruindo a Economia Americana“, buscarei fazer uma análise adiantando que se trata apenas de uma rápida resposta de uma breve leitura. Salvo engano, Kanitz se trata de um neoliberal (anti-keynesiano) que detém duas interpretações sobre a crise econômica norte-americana:

1) em “Destruindo a Economia Americana”, afirma que todos os problemas nasceram do subprime, que o problema deve se reduzir a sua análise, concluindo que o governo deveria aumentar o incentivo fiscais para a compra de casa para os ricos

2) em “Culpem Keynes, não a ganância”, afirma que o problema não é o ‘animal spirit’ da ganância, mas políticas mal pensadas de incentivos fiscais.

Esse resumo não faz jus ao volume de argumentos dos artigos, mas serve apenas para adiantar parte dos argumentos de Kanitz que criticarei em seguida. O sintoma mais visível da fé neoliberal, como toda religião, é que a incapacidade de respostas de sua igreja vem sempre acompanhada de uma condenação de insuficiente dosagem de fé.

Kanitz: “Destruindo a Economia Americana”

Inicia sua tese afirmando que “Se o problema inicial foi o mercado imobiliário, todo médico iria se concentrar nele”, portanto, a ‘doença’ que gerou os sintomas de toda a crise econômica americana se reduziria e se resolveria apenas no “mercado imobiliário”, que segundo ele, está piorando.

Kanitz discorda de todos os diagnósticos do mundo (Google) de que a bactéria seja o SubPrime, pois segundo ele o SubPrime se dedica aos 20% mais pobres que deteriam 10% da renda (nacional?), e apenas metades desses compram casas. E conclui, 10% de 10% é 1% e 1% não derruba ninguém (isto é, não adoece a economia). Por outro lado, afirma ele, os ricos consumem casas que são 10x mais caras que os pobres, conclui ele: “ou seja 10% da população comprando casas que eram 1/10 do preço”.

Se bem entendi, se metade dos pobres compram casas, então não é 10% de 10%, mas 50% de 10% que seria 5%. E se os ricos consumem casas mais caras que os mais pobres é justamente porque tem mais dinheiro do que os pobres. Se ele quisesse realmente nos convencer um pouco mais que os ricos tem um peso maior no mercado imobiliário, ele devia comparar a massa absoluta de consumo entre os 10% mais pobres e os ricos (algo que talvez não iria além de 1% da população). Supõe-se que um rico, por ser rico, já tenha comprado ou herdado o seu ‘lar doce lar’, e que qualquer casa a mais que ele possa comprar não iria além de investimento, reserva de valor ou especulação imobiliária. Mas para não parar aqui, aceitemos que ele está certo e eu tenha falhado em minhas deduções.

Resumindo o percurso até aqui, para Kanitz não é a dívida dos pobres (1%, subprime), ao contrário, segundo ele “está na hora de olhar porque os ricos não estão comprando casas”.

Ele adianta que antes “80% de uma casa de rico acaba sendo pago pelo governo”, mas graças a má política de Bernanke, agora o governo ‘SÓ’ paga 50%. Como!? Demorei algum tempo para acreditar que isto era uma crítica, pois era algo tão fabuloso que até agora estou me questionando se entendi direito. Vocês entenderam? Conclui Kanitz: “dobrou o custo efetivo das casas para os ricos que consomem 40% das casas, e piorou o problema inicial”.

Comentando…

Ignorando a mágica dos 5% que virou 1% e da tautologia dos ricos comprarem casas mais caras que os mais pobres, vejamos. Se a economia americana está em flagrante endividamento, como justificar que o estado pague 80% das mansões dos mais ricos, que segundo o próprio Kanitz, “era considerado sem risco bancário, bastava pedir 20% de entrada”? O que ele quis dizer é que com 20% o resto era de graça… Mas retrucaria ele que os ricos são a peça mais relevante do mercado imobiliário que gerou a crise, e isso porque eles pagam casas 10x mais caras que os mais pobres? Ou porque pagam 42% de impostos para 80% ou 50% de subsídio?

O fato que ele abomina é que a causa foi gerado pelo o aumento de inadimplência nos créditos subprimes, que gerou um efeito em cadeia que jogou o mundo na crise atual. Kanitz foi ainda mais cretino do que aqueles que afirmam que a culpa foi dos pobres que pediram emprestados sem ter como pagar, ou de uma forma mais sutil, aos bancos que emprestarem para ‘essa gentalha’. Ele vai além, a culpa é o fato do governo deixar de bancar 80% das mansões, e passar a bancar apenas 50%.

Primeiro, porque alguém não paga? Na maioria dos casos eram pessoas desempregadas, e não esqueçam, perderam a sua casa por conta de sua inadimplência. A inadimplência supõe a incapacidade do pagamento, gerada por estagnação salarial ou desemprego, um problema além do mercado imobiliário. Supõe também uma expansão desregulada (estado mínimo) e excessivamente barata do crédito, laureado pela ideologia da auto-regulação dos mercados.

Kanitz: Culpem Keynes, Não a Ganância

Nesse artigo, tratarei apenas dos argumentos chaves do anti-keynesiano. A chave desse artigo é a crítica ao keynesianismo. Ele argumenta que em todo o mundo, menos nos EUA, os pobres se endividam mais do que os ricos, e que isso não ocorre nos EUA por conta do MID Mortgage Interest Deduction, idealizado por keynesianos e neokeynesianos que “permitem deduzir do IR os juros NOMINAIS das hipotecas imobiliárias”. Por essa razão, conclui Kanitz:

“Não é à toa que a classe média americana é a família mais endividada do mundo. Eles não são dirigidos por ganância, mas por deduções fiscais generosas. Não são os espíritos animais que os regem, são mal pensadas políticas de incentivos fiscais”.

Adianto que não sou keynesiano, sou marxista, portanto, renego qualquer moralização do debate do tipo que os conservadores e liberais norte-americanos reduzem como a batalha moral entre a ‘austeridade’ vs ‘generosidade’.

Qual a explicação dele para que o Canadá e o Brasil se saíssem bem? Segundo ele, “subsidiamos a construção tornando-a mais barata, não empurrando todos para obter o maior empréstimo possível”. Isto me parece bem mais generoso do que “quanto maior a faixa de imposto, maior o incentivo do governo”, nao? Mas o que ele está admirando tacitamente é que tais políticas incentivam o endividamento dos mais pobres, ao invés dos mais ricos.

Suponto que tudo se resume ao ‘mercado imobiliário’, ele conclui: “Ou seja, graças à politica monetária americana o subsídio despencou, e as casas hoje estão entre 100% a 400% MAIS CARAS”. O que é falso, as casas diminuíram de preço por conta da maciça queda na demanda, ficou menos subsidiadas, isso sim. Isto é, a sociedade americana está pagando menos aos ricos para eles comprarem suas mansões.

Comentando…

Será que eu entendi bem? Ele está dizendo que o problema dessa política é que nos momentos de crise ela é reduzida? Ora, se ela é tão má assim, sua redução deveria ser comemorada, não!? Mas aceitemos que ele quis fazer uma crítica dialética, ora, o endividamento da maior parcela social de qualquer países (mais pobres) com certeza provocaria com maior capilaridade a crise do que o endividamento da parcela minoritária de qualquer país (mais ricos), ou não? O problema é que Kanitz critica todas as políticas declaradamente favoráveis aos mais ricos (como essa que ele critica), como se fossem desfavoráveis aos mais ricos, sob a hipótese de que a solução deve ser sempre favorável aos mais ricos.

O keynesianismo, ou socialismo burguês, está completamente esgotado em um país cuja principal mazela é o endividamento excessivo, e o gasto público é a única ferramenta do keynesianismo. A não ser que os EUA façam uma eutanásia de seu imperialismo, cortando fortemente seus gastos militares excessivos, pois todas as outras fontes de gastos públicos já estão a muito na penúria do Estado mínimo.

Nos EUA a esquerda são os generosos, a direita são os severos. A esquerda lá é liberal, isto é, eles são generosos justamente porque reconhecem que o que fazem é uma ‘generosidade’ excêntrica a inquestionáveis leis do livre mercado, uma concessão. A direita é severa porque não admite nenhuma concessão. Antes de Bill Clinton e Obama poderia se dizer que nos EUA havia um centro e uma direita, hoje com a rendição de Obama não vai além de uma centro-direita tímida e uma direita raivosa.

A culpa não é da ganância ou da generosidade, a meu ver, é que a crise do semi-capitalismo keynesianismo (ou socialismo burguês) foi respondida como um retorno ao capitalismo pleno do neoliberalismo, ludibriado com a suposta vitória do capitalismo na queda da ex-URSS. A questão é que não há mais espaço para um ‘socialismo burguês’, nem economicamente por conta do alto endividamento euro-americano, nem politicamente por conta da endireitização de todos os partidos, tão pouco ideologicamente como prova os artigos de Kanitz.

referências:
http://blog.kanitz.com.br/2011/07/destruindo-a-economia-americana.html
http://blog.kanitz.com.br/2011/02/a-crise-de-2008-culpem-keynes-e-generosidade-e-n%C3%A3o-a-gan%C3%A2ncia.html

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Written by ocommunard

2 de agosto de 2011 às 14:32

Publicado em Sem categoria

3 Respostas

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  1. Muito obrigado por destrinchar esse aparente enigma que é;
    “O sintoma mais visível da fé neoliberal, como toda religião, é que a incapacidade de respostas de sua igreja vem sempre acompanhada de uma condenação de insuficiente dosagem de fé” Sempre as mesmas desculpas para não se equilibrar. A pregação de um tal de que a culpa do pobre é dele mesmo.
    Como é o nome disso mesmo? O tal de fazer a lição de casa completa de um Mailson da Nóbrega e acho do Joelmir Betting.

    Quanto ainda falta para entender que o ponto vernal dos fins do socialismo primeiro fosse qual fosse e como conseqüência o desbragado capitalismo de agora sem a polaridade entre o dois para que houvesse algum contraponto.

    Parece um paradoxo que para que os defeitos do capitalismo aparecessem fosse preciso fulminar o socialismo.
    Veja o que acontece em Cuba. Estão a corrigir as falhas do socialismo. O que lá agora for implantado será como uma semente de um real equilíbrio entre a cooperação e a competição..

    O mesmo agora com as comunicações deve acontecer no planeta. O pensamento único fulminou a livre expressão.
    Johran está acontecendo todos os fatos para que o mundo venha a focar em começar a
    construir um equilíbrio.
    Minha intuição aceita como natural que o principio socialista vá se impondo gradualmente (uns dizem que não vai dar tempo) “De cada um de acordo com a sua possibilidade (doação, visão do grupo) para cada um de acordo com sua necessidade (solidariedade)

    Os valores do Mercado digamos se realmente fossem empregados, como o das oportunidades iguais, através da educação (publica ou subsidiada por ora) e de informações (meios democráticos de midia) levaria a uma competição mais saudável e democrática.

    Mais uma vez, agradeço a analise. Ele, o SK é digamos as vezes imprevisível devido a sua fé na riqueza. Ele as vezes a qualifica. Estou escrevendo agora após visitar o site dele e ver esse outro que exprime o nome de outro blog que ele mantinha “O Brasil que dá certo”. É o “Os truques usados para esconder a divida de 90 US trilhões, não US 14”

    Luiz Monteiro de Barros

    4 de agosto de 2011 at 14:43

    • Caro Luiz, eu acredito que a questão do socialismo é aplicar socialização com planificação, se você ler a Guerra Civil em França, verá que o principal desafio ‘comunista’ da Comuna de Paris era coordenar as cooperativas para que ela se livrassem do ‘mercado’ e partissem para a planificação, no século XX a questão da planificação através da estatizar resolveu esse problema, mas caiu na falácia do que Engels chama de ‘capitalismo coletivo’ ou o Marx chama de ‘socialismo de Estado’.

      Na minha humilde opinião, para ser mais direto, o grande desafio do comunismo hoje em economia é unir a socialização (fim da exploração) oferecido pelas cooperativas com a planificação oferecida pelas estatizações (nacionalizações). Acho que a solução de Marx seria melhor, uma confederação de cooperativas que regularia a produção. Fortalecer o Estado é sempre uma armadilha perigosa, pois ele pode voltar a cair nas mãos da direita – esse risco não ocorreria com a proposta de Marx.

      Mas toda forma que regule o capital, é uma contribuição socialista, mas não necessariamente comunista, já que o socialismo conservador keynesiano existiu para preservar a propriedade ameaçada pela crise, e não para abolí-la, como defende o comunismo (ainda que o comunismo de Marx deixe claro que a única propriedade privada a se abolir, isto é, a abolição essencial é a abolição da propriedade privada dos meios de produção).

      O livre-mercado nunca funcionou a não ser quando o mercado era formado por milhares pequenos negociantes, e mesmo aí as crises eram inevitáveis como parte dos ciclos econômicos de expansão e contração, e de fato não vivemos em um puro livre-mercado por conta das marcas do keynesianismo, isso explica porque a crise não chegou ao peso da crise de 1929 e nem chegará, hoje os EUA tem uma seguridade social e algumas regulações econômicas que amortecem social e economicamente o efeito espiral da crise, mas hoje faltam aos EUA algum poder fiscal para reaquecer a economia através dos gastos públicos, como gastar mais tendo que se endividar menos? Esse nem é o grande desafio

      ocommunard

      5 de agosto de 2011 at 14:38

      • Há uns dias atrás tentei envolver o Tsavkko do blog The “angry brasilian” pois sei que sendo basco poderíamos falar da experiência da cooperativa Mondragon. Em fins de 2008 por conta do primeiro round da queda do capitalismo havia escrito sobre o que eles tinham a dizer e como reage a cooperativa sobre essas crises.
        Cooperativismo é um tema contagiante. Eles responderam (puxando minha orelha!) Nada tinham a falar e que no Brasil existem boas experiências cooperativistas. Cada povo com as suas circunstâncias. O mesmo sobre a questão das comunicações, que avançam mais na Argentina, Equador, Bolívia, Venezuela.

        Assim se eu, você, o Raphael Tsavkko não estivermos envolvidos com algo cooperativo, dá uma sensação de estacionar somente no viajar na internet.

        Sites como da Antroposofia que tem experiências concretas no Brasil e uma mentalidade de educar para a solidariedade e do psicanalista Norberto Kepp; Stop a destruição do mundo; http://www.stop.org.br que aborda a questão de “inversão” quando o mercado prioriza, por exemplo a “especulação” capitalista.
        Vamos continuar a dialogar.
        Envie um email caso você responda pois se acesso o Communard todo dia, o post pode já ter saído da pagina inicial.

        Luiz Monteiro de Barros

        11 de agosto de 2011 at 15:23


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