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Políticas, economias e ideologias

Archive for agosto 2011

Libia, o Vietnã da OTAN

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Materialmente, as chances da Líbia resistir de pé a agressão externa é muito maior do que a incrível vitória do Vietnã sobre os EUA. Não só a Líbia é muito mais rica e poderosa do que era o Vietnã, como a OTAN com os EUA e UE em crise oferece uma debilidade que os EUA não conhecia quando bateu em retirada do minúsculo país asiático. A questão vai se centrar no apoio popular ao regime, quanto mais coeso for esse apoio, mas certa e rápida será a derrota militar da OTAN e dos rebeldes.

A cada novo ataque aos civis líbios provocada pelos mísseis da OTAN, mais e mais os líbios se comovem a participar da luta, mas se convencem de que o lado agressor é a OTAN. Mas mesmo que o Conselho cheguasse ao poder, algo a cada dia mais improvável, as divisão entre secularistas e fundamentalistas é tão visível que já provocou uma baixa com o assassinato do próprio líder militar da ‘rebelião’.

A verdade é que o custo da vitória da OTAN será um novo Talibã, pois se Kadafi fosse tão tirano quanto casuisticamente agora a UE o pinta, antes era um aliado, seu regime é um dos mais laicos de todo o oriente médio.

É certo que a Líbia foi uma jogada de marketing de Sarkozy e depois Obama entrou a revelia, apostando que seria uma vitória fácil frente a onda de manifestações, somado ao fato de que entre os aliados árabes, a Líbia é a que despertava mais desconfiança pelo passado anti-imperialista de Kadafi. Um altíssimo lucro político com a imagem de ‘libertadores de tiranos’ e uma ainda maior vitória econômica com o petróleo líbio pilhado, a presença militar serveria na Líbia serviria ainda como um foco de intimidação para a orientação demasiada soberana da ‘Primavera Árabe’.

Mas Kadafi é um militar que preparou o seu país a décadas para uma invasão. Ainda que sua re-aproximação com a UE tenha baixado a guarda líbia, a capacidade incrível de resistência dos líbios a agressão extrangeira prova que muito foi preservado.

O tempo conta a favor de Kadafi, a cada dia a mais aumenta a conta da OTAN para países já hiper-individados e o medo de um atoleiro aumenta entre seus financiadores. A capacidade do saqueio europeu do petróleo Líbio a cada dia mais vai compensando menos os gastos. O dia do grande ajuste fiscal está cada vez mais próximo e a OTAN vai implorar por uma saída honrosa diplomática que tantas vezes ignorou de Kadafi.

As últimas notícias apresentam já uma tentativa diplomática por parte da OTAN, mas agora o governo Líbio já não admite essa possibilidade depois de tantas mortes e depois de reverter a situação a seu favor.

Se nos EUA o desemprego cair na próxima sondagem, que tudo indica que será mascarada, será inevitável a queda das bolsas e até, talvez, um outro rebaixamento (ainda que a pressão sobre a S&P seja descarada intimidação).

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Written by ocommunard

10 de agosto de 2011 at 22:21

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Elio Gaspari e a questão do declínio norte-americano

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Elio Gaspari escreveu um artigo que já virou uma unanimidade entre gregos e troianos, eu também gostei, mas na condição de Grego, de quem está tentando derrubar os muros neoliberais de Tróia, basicamente nesse artigo sintetiza uma série de eventos aonde o declínio norte-americano era tido como favas contadas, e então, no final das contas, os EUA dava a volta por cima. Sua análise tem qualidade ao identificar essas conturbações, que nossa imprensa chama de baderna quando ocorre em seu quintal, nada mais do que um saudável e autêntica demonstranção de virilidade democrática. E assim, conclui, essa crise como as outras será apenas mais um dos muitos desafios superados pela madura democracia americana.

Elio Gaspari, um colunista que gosto mesmo quando discordo, só desconsidera que muito das esperanças de declínio sobre o império norte-americano se deu no auge da polarizada Guerra Fria, que no Brasil os EUA representava as forças aliadas a nossa ditadura. É humanamente natural que houvesse uma torcida contra os amigos da ditadura. Mas o seu grande erro é assumir essa mesma perpectiva ‘sentimental’.

A questão dos EUA é tão somente a crise de um Estado altamente endividado emparadado entre excesso de gastos militares e escassez de tributação sobre a riqueza. Se ele tentasse nos convencer que há condições para mais impostos sobre os ricos e menos gastos militares, eu aceitaria que seria tão evidente a recuperação norte-americana. O grande argumento a favor da recuperação norte-americana não são as crises anteriores do próprio EUA, mas todas as outras crises de todos os outros países, a maioria do que depois se tornariam potências emergiram de graves crises econômicas: Alemanha, Coréia do Sul, Japão, China, Brasil e o próprio EUA (1929).

Não acredito em “eterno retorno”, acho que a história é muito mais discontínua do que cíclica, mas acho, tal como Elio Gaspari, muito revelador a prática das analogias históricas, essa prática não nos dá o poder da previsão, mas o poder da desilusão(no sentido saudável de retirar ilusões). Vejamos as similaridades, por exemplo, entre a França pré-revolucionária e os EUA atual. O absolutismo francês havia caído em uma grave crise fiscal(alto endividamento) por seus gastos militares (financiou a Independência Americana, além da Guerra dos 6 dias, etc), além de uma crise agrícola que espalhou miséria acentuado pela concentração da riqueza. Semelhanças? Coincidências?

A ‘representação legislativa’ francesa era dividida em três estamentos ou estados: clero(0,5%), nobreza(1,5%) e o resto (98%). Como o ministro da finanças não conseguiu conquistar o voto do clero e da nobreza para que pagassem mais impostos(alguma coincidência?), ele apelou para os Estados Gerais, este foi o elemento catalizador que provocou a Revolução Francesa. Se chamarmos nobreza a WallStreet e clero a mídia conservadora, e seus lobbys um poder legislativo próprio, a analogia se encaixa com perfeição, até mesmo na proporção social. A Revolução Francesa, que nos deu a Idade Contemporânea, jamais teria existido se o WallStreet do absolutismo francês tivesse admitido mais impostos sobre os ricos e o monarca não-eleito tivesse admitido menos gastos militares, alguma semelhança?

Enquanto Elio Gaspari não nos provar que há ou haverá em tempo hábil condições políticas para corte de gastos militares (sozinho os EUA detêm mais de 41% dos gastos militares no mundo) ou aumento de impostos sobre os ricos no cenário político dos EUA, ou mesmo vislumbrar se haverá algum tipo de ‘Estados Gerais’ que catalize o descontentamento da maioria dos norte-americanos que não tem como pagar lobbys, seu artigo permanecerá como uma pálida bajulação a um império em crise saudada por colonistas que frequentemente o ataca por não militar com mais empenho no Tea Party tupiniquim. É isso, ou troque de chapéu…

Written by ocommunard

5 de agosto de 2011 at 14:18

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A irresistível fé neoliberal de Kanitz

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Em solicitação de Luiz Monteiro, que me pediu para comentar dois artigos: “Culpem Keynes, Não a Ganância” e “Destruindo a Economia Americana“, buscarei fazer uma análise adiantando que se trata apenas de uma rápida resposta de uma breve leitura. Salvo engano, Kanitz se trata de um neoliberal (anti-keynesiano) que detém duas interpretações sobre a crise econômica norte-americana:

1) em “Destruindo a Economia Americana”, afirma que todos os problemas nasceram do subprime, que o problema deve se reduzir a sua análise, concluindo que o governo deveria aumentar o incentivo fiscais para a compra de casa para os ricos

2) em “Culpem Keynes, não a ganância”, afirma que o problema não é o ‘animal spirit’ da ganância, mas políticas mal pensadas de incentivos fiscais.

Esse resumo não faz jus ao volume de argumentos dos artigos, mas serve apenas para adiantar parte dos argumentos de Kanitz que criticarei em seguida. O sintoma mais visível da fé neoliberal, como toda religião, é que a incapacidade de respostas de sua igreja vem sempre acompanhada de uma condenação de insuficiente dosagem de fé.

Kanitz: “Destruindo a Economia Americana”

Inicia sua tese afirmando que “Se o problema inicial foi o mercado imobiliário, todo médico iria se concentrar nele”, portanto, a ‘doença’ que gerou os sintomas de toda a crise econômica americana se reduziria e se resolveria apenas no “mercado imobiliário”, que segundo ele, está piorando.

Kanitz discorda de todos os diagnósticos do mundo (Google) de que a bactéria seja o SubPrime, pois segundo ele o SubPrime se dedica aos 20% mais pobres que deteriam 10% da renda (nacional?), e apenas metades desses compram casas. E conclui, 10% de 10% é 1% e 1% não derruba ninguém (isto é, não adoece a economia). Por outro lado, afirma ele, os ricos consumem casas que são 10x mais caras que os pobres, conclui ele: “ou seja 10% da população comprando casas que eram 1/10 do preço”.

Se bem entendi, se metade dos pobres compram casas, então não é 10% de 10%, mas 50% de 10% que seria 5%. E se os ricos consumem casas mais caras que os mais pobres é justamente porque tem mais dinheiro do que os pobres. Se ele quisesse realmente nos convencer um pouco mais que os ricos tem um peso maior no mercado imobiliário, ele devia comparar a massa absoluta de consumo entre os 10% mais pobres e os ricos (algo que talvez não iria além de 1% da população). Supõe-se que um rico, por ser rico, já tenha comprado ou herdado o seu ‘lar doce lar’, e que qualquer casa a mais que ele possa comprar não iria além de investimento, reserva de valor ou especulação imobiliária. Mas para não parar aqui, aceitemos que ele está certo e eu tenha falhado em minhas deduções.

Resumindo o percurso até aqui, para Kanitz não é a dívida dos pobres (1%, subprime), ao contrário, segundo ele “está na hora de olhar porque os ricos não estão comprando casas”.

Ele adianta que antes “80% de uma casa de rico acaba sendo pago pelo governo”, mas graças a má política de Bernanke, agora o governo ‘SÓ’ paga 50%. Como!? Demorei algum tempo para acreditar que isto era uma crítica, pois era algo tão fabuloso que até agora estou me questionando se entendi direito. Vocês entenderam? Conclui Kanitz: “dobrou o custo efetivo das casas para os ricos que consomem 40% das casas, e piorou o problema inicial”.

Comentando…

Ignorando a mágica dos 5% que virou 1% e da tautologia dos ricos comprarem casas mais caras que os mais pobres, vejamos. Se a economia americana está em flagrante endividamento, como justificar que o estado pague 80% das mansões dos mais ricos, que segundo o próprio Kanitz, “era considerado sem risco bancário, bastava pedir 20% de entrada”? O que ele quis dizer é que com 20% o resto era de graça… Mas retrucaria ele que os ricos são a peça mais relevante do mercado imobiliário que gerou a crise, e isso porque eles pagam casas 10x mais caras que os mais pobres? Ou porque pagam 42% de impostos para 80% ou 50% de subsídio?

O fato que ele abomina é que a causa foi gerado pelo o aumento de inadimplência nos créditos subprimes, que gerou um efeito em cadeia que jogou o mundo na crise atual. Kanitz foi ainda mais cretino do que aqueles que afirmam que a culpa foi dos pobres que pediram emprestados sem ter como pagar, ou de uma forma mais sutil, aos bancos que emprestarem para ‘essa gentalha’. Ele vai além, a culpa é o fato do governo deixar de bancar 80% das mansões, e passar a bancar apenas 50%.

Primeiro, porque alguém não paga? Na maioria dos casos eram pessoas desempregadas, e não esqueçam, perderam a sua casa por conta de sua inadimplência. A inadimplência supõe a incapacidade do pagamento, gerada por estagnação salarial ou desemprego, um problema além do mercado imobiliário. Supõe também uma expansão desregulada (estado mínimo) e excessivamente barata do crédito, laureado pela ideologia da auto-regulação dos mercados.

Kanitz: Culpem Keynes, Não a Ganância

Nesse artigo, tratarei apenas dos argumentos chaves do anti-keynesiano. A chave desse artigo é a crítica ao keynesianismo. Ele argumenta que em todo o mundo, menos nos EUA, os pobres se endividam mais do que os ricos, e que isso não ocorre nos EUA por conta do MID Mortgage Interest Deduction, idealizado por keynesianos e neokeynesianos que “permitem deduzir do IR os juros NOMINAIS das hipotecas imobiliárias”. Por essa razão, conclui Kanitz:

“Não é à toa que a classe média americana é a família mais endividada do mundo. Eles não são dirigidos por ganância, mas por deduções fiscais generosas. Não são os espíritos animais que os regem, são mal pensadas políticas de incentivos fiscais”.

Adianto que não sou keynesiano, sou marxista, portanto, renego qualquer moralização do debate do tipo que os conservadores e liberais norte-americanos reduzem como a batalha moral entre a ‘austeridade’ vs ‘generosidade’.

Qual a explicação dele para que o Canadá e o Brasil se saíssem bem? Segundo ele, “subsidiamos a construção tornando-a mais barata, não empurrando todos para obter o maior empréstimo possível”. Isto me parece bem mais generoso do que “quanto maior a faixa de imposto, maior o incentivo do governo”, nao? Mas o que ele está admirando tacitamente é que tais políticas incentivam o endividamento dos mais pobres, ao invés dos mais ricos.

Suponto que tudo se resume ao ‘mercado imobiliário’, ele conclui: “Ou seja, graças à politica monetária americana o subsídio despencou, e as casas hoje estão entre 100% a 400% MAIS CARAS”. O que é falso, as casas diminuíram de preço por conta da maciça queda na demanda, ficou menos subsidiadas, isso sim. Isto é, a sociedade americana está pagando menos aos ricos para eles comprarem suas mansões.

Comentando…

Será que eu entendi bem? Ele está dizendo que o problema dessa política é que nos momentos de crise ela é reduzida? Ora, se ela é tão má assim, sua redução deveria ser comemorada, não!? Mas aceitemos que ele quis fazer uma crítica dialética, ora, o endividamento da maior parcela social de qualquer países (mais pobres) com certeza provocaria com maior capilaridade a crise do que o endividamento da parcela minoritária de qualquer país (mais ricos), ou não? O problema é que Kanitz critica todas as políticas declaradamente favoráveis aos mais ricos (como essa que ele critica), como se fossem desfavoráveis aos mais ricos, sob a hipótese de que a solução deve ser sempre favorável aos mais ricos.

O keynesianismo, ou socialismo burguês, está completamente esgotado em um país cuja principal mazela é o endividamento excessivo, e o gasto público é a única ferramenta do keynesianismo. A não ser que os EUA façam uma eutanásia de seu imperialismo, cortando fortemente seus gastos militares excessivos, pois todas as outras fontes de gastos públicos já estão a muito na penúria do Estado mínimo.

Nos EUA a esquerda são os generosos, a direita são os severos. A esquerda lá é liberal, isto é, eles são generosos justamente porque reconhecem que o que fazem é uma ‘generosidade’ excêntrica a inquestionáveis leis do livre mercado, uma concessão. A direita é severa porque não admite nenhuma concessão. Antes de Bill Clinton e Obama poderia se dizer que nos EUA havia um centro e uma direita, hoje com a rendição de Obama não vai além de uma centro-direita tímida e uma direita raivosa.

A culpa não é da ganância ou da generosidade, a meu ver, é que a crise do semi-capitalismo keynesianismo (ou socialismo burguês) foi respondida como um retorno ao capitalismo pleno do neoliberalismo, ludibriado com a suposta vitória do capitalismo na queda da ex-URSS. A questão é que não há mais espaço para um ‘socialismo burguês’, nem economicamente por conta do alto endividamento euro-americano, nem politicamente por conta da endireitização de todos os partidos, tão pouco ideologicamente como prova os artigos de Kanitz.

referências:
http://blog.kanitz.com.br/2011/07/destruindo-a-economia-americana.html
http://blog.kanitz.com.br/2011/02/a-crise-de-2008-culpem-keynes-e-generosidade-e-n%C3%A3o-a-gan%C3%A2ncia.html

Written by ocommunard

2 de agosto de 2011 at 14:32

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