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Políticas, economias e ideologias

Quando o Tea Party elegeu Obama

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Para entender como a situação atual poderia provocar esse desfecho é necessário um esforço um pouco além da cínica auto-entitulada ‘lógica primária’ da direita, que afirma que pouco importa a culpa da escalada do endividamento do governo americano tenha se dado no governo da direita americana (Bush), mesmo este tendo herdado um país com um confortável superávit da era Clinton. Para eles, ora, se Obama foi eleito é para resolver, pouco importa o culpado, e mesmo ainda pouco importa se Obama fez quase tudo que a direita quis em política econômica – como já alertou diversos democratas.

O professor Stempniewski, das Faculdades Integradas do Rio Branco, resume: “O histórico republicano de acumular déficits em cima da máquina de guerra é o grande responsável por esta situação que está aí hoje, é a origem do problema”. Mas para a direita, pouco importa.

Segundo Paul Krugman, economista Nobel liberal, a proposta de Obama se fosse aprovada seria uma grande derrota progressista, pois além de admitir corte de gastos sociais, seu aumento de imposto é completamente insuficiente (se reduz a não prolongar a anistia tributária as grandes furtunas da era Bush). Obama cede a toda e qualquer pressão republicana como se fosse um ato a-político, ainda que não podemos ignorar a força do fundamentalismo de mercado sobre o eleitorado norte-americano, mas os republicanos agora querem algo tão absurdo que ele não tem como ceder, os republicanos criaram uma trincheira que levará ao calote, pavimentando o caminho para o retorno dos republicanos. Para os republicanos cada desempregado a mais no governo Obama se converte em milhares de votos nas urnas, as consequencias do calote seriam, portanto, uma vitória retumbante.

O impasse é simples, os republicanos são contra qualquer aumento de impostos e os democratas são contra jogar tudo no corte de gastos, pois todo economista, mesmo conservador, previria mais recessão com corte de gastos públicos, sobretudo, na área social. Mas a alternativa de Obama é apenas um pouco menos a direita, para sermos otimistas.

Obama só não cedeu mais uma vez aos republicanos, com aquela cada vez mais caricata pose triunfal supra-partidária, por conta do ocorrido nas últimas eleições legislativas, aonde os republicanos se opuseram e desfiguraram a reforma do sistema de saúde (acusando de ‘socialista’) e cinicamente usaram a desfiguração que impuseram contra os democratas, e assim conquistaram a maioria da Casa dos Representantes.

Um ponto eu concordo completamente com a direita, Obama é um fiasco. Cedeu toda a sua retórica, compromissos eleitorais e princípios apenas para manter uma pose de superioridade ‘bipartidária’ e faz isso promovendo a conservadora demonização da política, acusam os impasses criados pelos republicanos não culpa dos republicanos, mas da ‘politicagem’. Algo muito parecido com a nossa sonhática Bla-bla-rina Silva.

Com a aprovação do plano de Obama, na melhor das hipóteses para todos os economistas, acentuaria moderadamente a recessão – o que no cálculo político seria interpretado como um fracasso da proposta de Obama e a comprovação das teses conservadoras (o aumento de impostos seria vilanizado), portanto, empurrando milhões de moderados para as fileiras fascistas do Tea Party. O calote seria o único cenário aonde os republicanos seriam ou poderiam ser responsabilizados, o que ainda demandaria um epopéico debate. Vencido o debate, a desmoralização da direita conjuntamente com o próprio agravamento da crise, lhe daria mais força e espaço contra o embargo ideológico neoliberal para ir além em suas políticas sociais anti-cíclicas.

Mas mesmo ocorrendo um cenário altamente favorável a Obama, não temos mais como nos enganar, Obama venderia toda essa conjuntura para partilhar ‘democraticamente’ com a direita desmoralizada e continuar posando de supra-partidário apolítico, pois foi justamente o que ele fez nos 2 primeiros anos em que ele detinha folgada aprovação popular, maioria legislativa nas duas casas e uma conjuntura favorável a mudanças.

Agora é esperar e ver, e que a América Latina se prepare para o pior. É claro que dar calote doi muito mais nos credores do que nos devedores. Mas a unanimidade dos economistas, que está cada vez mais lacônica, se reduz a afirmar que um calote norte-americano terá consequencias imprevisíveis.

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Written by ocommunard

30 de julho de 2011 às 13:51

Publicado em Sem categoria

4 Respostas

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  1. Johan, eu estou sempre por aqui. Estamos preparados então para o que está por vir? Até quando a humanidade vai aceitar que a industria belica possa significar progresso.
    Com o termino da polaridade URSS x EUA socialismo x mercado, este hegemonico perdeu as estribeiras e nos aproxima da mudança do ponto vernal de um fim de ciclo que convive com a anunciação de um novo.
    São do meu ponto de vista uma questão inexoravel. Com o derrota da moeda não tenho como explicar porem intuo como ser inexoravel para o esplendor de uma America Latitna, berço de uma nova civilização. E aqui a cada post vou sentido que mais uma pá de cal é jogada naquele velho mundo.
    O pendulo tende para o socialismo.

    Luiz Monteiro de Barros

    31 de julho de 2011 at 22:07

  2. Johan entre meus favoritos alem do Communard tenho o Blog do Kanitz em http://blog.kanitz.com.br/ .

    Sei lá estou sempre conferindo se minha intuição socialista está certa com um contraponto que a põe em cheque.

    Sou de uma grande família de irmãos, e garanto diante de minha consciência que sempre sim procurei compartilhar. Talvez possa ter cansado um pouco na minha idade (73 anos).Contribuo com o que posso, financeiramente para aqueles que militam na democratização das comunicações, pois isto é de suma estratégia. Para mim nos aspectos de um mito da Caverna de Platão.
    Também contribuo teclando comentários na internet sobre a sustentação de um pensamento coletivo que foque em uma America Latina, seja o berço de uma nova civilização.

    Agora o detalhe. Peço que me envie por email ou poste aqui mesmo, como você encara naquele blog essa discussão do calote americano. Real ou enrustido.

    Veja esse http://blog.kanitz.com.br/2011/07/destruindo-a-economia-americana.html. e nele a gente vai para um outro http://blog.kanitz.com.br/2011/02/a-crise-de-2008-culpem-keynes-e-generosidade-e-n%C3%A3o-a-gan%C3%A2ncia.html e os comentários que tentam refutar como um tal de Shim

    Interessante que no link está culpem – Keynes e generosidade…… E no titulo do post está “Culpem Keynes, Não ganância.

    Então você percebe que a polaridade é entre generosidade e ganância. Sim eu sei que é preciso equilibrar porem na minha intuição o problema atual tem sido a ganância desenfreada pois o ser humano sem o freio da consciência de solidariedade responde mais pelo instinto de nutrição e reprodução e do interesse próprio do eu sou livre para predar.
    Boa noite.

    Luiz Monteiro de Barros

    31 de julho de 2011 at 23:20

    • Luiz, fico feliz por ter um leitor e comentador de tanta qualidade, buscarei ler e comentar sua sugestão o mais rápido possível. Grato pelo preferência. Abraços, camarada.

      ocommunard

      2 de agosto de 2011 at 12:23


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