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EUA: Reprivatistas vs Elitocratas

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Os EUA vivem um impasse depois que o dito ‘socialismo burguês’ keynesiano saiu do jogo. Essa crise não é nova nem pior, em 1929 os EUA sofreu uma versão pioneira e muito mais profunda da crise atual – mas naquele ambiente não havia os EUA incorporado o papel de representante do capital, o que ocorreria com a Guerra Fria, o que lhe permitia heresias como o New Deal. Mesmo o keynesianismo perde qualquer viabilidade quando sua primeira alternativa é o endividamento público para reativar a economia, e o principal problema americano é justamente o alto e progressivo endividamento.

Não é um impasse apenas estrutural, conjunturalmente há um impasse político. Com a efêmera vitória do neoliberalismo na Era Reagan (que criaria o terreno para a atual crise) e a falência do bloco do ‘socialismo real’, o regime bipartidarista americano se reduziu a dois partidos com a eufórica vitória do capital: reprivatistas e Elitocratas, isto é: direita e centro-direita. Enquanto republica significa ‘coisa pública’, os republicanos americanos defendem abertamente a ‘coisa privada’, acusando tudo que for público de ‘totalitário’, ‘ineficiênte’ e ‘ameaçador’. Enquanto democracia significa ‘poder do povo’, os democratas americanos se cercam de ‘especialistas do mercados’ que acusam de populista, demagógico e estúpido qualquer coisa que se legitime popularmente ou seja popular.

Quando Bill Clinton exterminou a ala social-democrata e Obama se afastou de todas suas promessas eleitorais progressistas, o neoliberalismo alcançara o totalitarismo na política americana. Nos EUA não há mais alternativas, são neoliberais com pequenas variações.

O impasse americano do endividamento têm somente 3 alternativas: 1) cortar gastos, 2) aumentar impostos, 3) calote. No primeiro caso o governo tem os míseros gastos sociais (taxas sindicais, etc, os Elitocratas são contra, os reprivatistas são a favor) que serão o primeira alvo na ótica neoliberal, os subsídios (que os Elitocratas são contra, mas os reprivatistas são favoráveis) e por fim os gastos militares (que abocanham pelo menos 25% do orçamento, mas a supremacia militar americana está em jogo). Assim, no corte de gasto, a única margem para Obama é justamente nos gastos sociais, que significaria um suicídio político, já que atinge diretamente sua base eleitoral mais orgânica. Em suma, o completo impasse, a grande margem de manobra são os cortes nos gastos militares, mas isso tem consequencias políticas poderosas na imagem interna e externa da supremacia militar americana, única supremacia que mantém com grande folga de vantagem. Além, de que os ex-soldados apenas engrossarão as fileiras de desempregados, com um perigoso ressentimento bem treinado para matar.

Se no corte de gastos há um completo impasse, no aumento de impostos (aumentar receita) há somente duas vias: imposto progressivo (impostos sobre os mais ricos, defendido pelos Elitocratas), imposto regressivo (imposto sobre os mais pobres, defendido pelos reprivatistas). Mas mesmo quando Obama detinha folgada maioria nas duas câmaras, a proposta não foi adiante. O poder financeiro-político que conseguiu enquadrar Obama contra suas próprias promessas eleitorais, terá força de sobra para impedir qualquer coisa parecida com tributação. O aumento de imposto pode ainda, para o país modelo do capital, se tornar um exemplo perigoso para uma América Latina esquerdizada.

Por fim resta o calote. Sem dúvida, essa é a mais fácil e com menos efeitos colaterais para o governo Americano. Os EUA detém uma hegemonia sobre o capital que com certeza não irá prejudicar o apoio a essa ‘eutanásia dos credores’, sobretudo, porque o maior credor da dívida pública americana é justamente a China. Há ainda uma grande motivação em prejudicar uma potência que emerge rapidamente para assumir a posição americana de força unipolar. Porém, os efeitos sobre o sistema capitalista são imprevisíveis. Desnorteamento das agência de riscos (americanas), o revide Chinês, o impacto internacional, o efeito em cadeia de outras economias européias, em seguida as outras economias que não aceitarão pagar uma dívida que as grandes pontências se negaram a pagar, etc.

Portanto, não há solução dentro dos marcos do neoliberalismo, até mesmo em outros modelos menos selvagens de capitalismo. Provavelmente, esse impasse será carregado até o fim do governo Obama, que com alguma energia para políticas anti-cíclicas, ao menos deterá uma progressão violenta da crise. Caso o fracasso social de Obama se reverta na eleição dos reprivatistas, a única proposta possível para a direita seria aprofundar as privatizações, as desregulações, os cortes de impostos, o fim dos subsídios, o corte nos gastos sociais… isto é, toda plataforma de ‘austeridade’ que está esmagando a Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e promete a cada novo dia contagiar toda união européia.

Isto é, um governo ultra-liberal do Tea Party poderia ser a única saída americana, porque seria o único governo que colocaria para todos os americanos, de modo cristalino, a responsabilidade do capitalismo frente a uma crise que se agravaria na mesma medida em que os clichês neoliberais de estado mínimo, livre mercado, superiridade capitalista forem sendo aplicadas com total empenho. Um outro governo Obama, apenas arrastaria mais 4 anos de fortelecimento das forças conservadoras americanas frente um governo que ou segue o programa da direita, ou é acusado de ‘socialista’ e sabotado abertamente por toda grande imprensa americana.

A não ser que ocorra o impensável, a direita chegue ao poder para estatizar, regular e tributar a economia, ao mesmo tempo em que enxuga a máquina militar americana. Algo não muito impensável já que partiu da própria direita americana a aproximação com a China. Parece um paradoxo, mas faz sentido. Mas lembrando do quanto fora insuportável a Era Bush, ainda devemos preferir o menos ruim: Obama. O quanto pior, pior.

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Written by ocommunard

9 de julho de 2011 às 14:56

Publicado em Sem categoria

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