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Portal O Vermelho: Comunismo ou Stalinismo?

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Sou mais um dos milhares que lêem o jornal eletrônico O Vermelho, não é segredo para ninguém de que se trata de um jornal do PCdoB, mas diferente de muitos outros jornais partidários, esse efetivamente circula notícias, informa. E no cenário midiático brasileiro, dominando pelo fígado pseudo-jornalistas de publicações como Veja, Estadão, Folha e Globo, a mera existência da informação é quase uma raridade.

Pois bem, como nem tudo são flores, O Vermelho é ocupado lamentavelmente por algumas viúvas de Stalin. Isso mesmo, com direito até a discuso anti-trotiskista , como se ainda estivéssemos no auge do enfrentamente entre a Revolução Permanente e o Socialismo de Um País Só. Para os arqui-stalinistas qualquer crítico comunista de Stalin é um mero “trotiskista”, e para derrotá-lo basta pinçar algumas contradições trotiskistas e pronto, o “pai da pátria” está a salvo de seus “capitalistas travestidos de comunistas”.

Sim, é óbvia verdade que a mídia controlada pelo imperialismo americano, tal como faz hoje descaradamente, fazia propaganda difamatória contra o comunismo, e isso incluia atingir qualquer “líder” do bloco vermelho. Mas aí chegar a englobar nessa “conspiração” Trotsky, Krushev, Gorbatchev, os milhares de mortos, expurgados, exilados, perseguidos por Stalin é algo absissalmente diferente. As ações claramente comprovadas de que Stalin apagou da história russa a participação de Trotsky seria propaganda imperialista?

Um stalinista é alguém tão degenerado intelectualmente que realmente acredita que os stalinistas é que devem serem salvos do comunismo que não seja stalinista. É incrível que eu tenha que dar essa resposta, mas darei, porque acho que temos pouquíssimas opções jornalísticas do campo progressista, e me decepciona muito saber que uma dessas poucas opções sofra com recaídas stalinistas de um partido que declarou em um de seus congressos haver abandonado essa seita torpe.

Não estou aqui também laureando o PCdoB. É um partido que tem um retrospecto não muito grandioso como seu apoio ao maoísmo, que sem dúvida foi o maior líder da China, mas foi um pior governante (não foi percebido ainda pela esquerda que um grande revolucionário não é necessariamente um grande governante, liderar é algo completamente diferente de governar). O que agrava é o fato de que seu maoísmo tenha nascido da crítica de Mao a desestalinização de Krushev. O PCdoB chegou a ridícula condição de reconhecer apenas na Albânia um exemplar vivo de seu ideal comuno-stalinista. Falo pelo PCdoB apenas como um simpatizante comunista-marxista ao maior partido comunista brasileiro, e isso trás responsabilidades grandes. Defender o stalinismo é um sectarismo doentio imperdoável para um partido comunista dessas dimensões.

Sem mais delongas, responderei ao artigo “Domenico Losurdo: Stalin e o pensamento primitivo”

Losurdo inicia a sua primeira resposta a crítica daquele que definiu como “trotiskista” respondendo as críticas do ex-stalinista Krushev. Ao tentar ironizar os relatórios sobre os crimes de Stalin ele afirma com uma puerilidade inacreditável:

“como fez para derrotar Hitler a URSS que era dirigida por um líder criminoso e imbecil ao mesmo tempo?”

Então, o Losurdo realmente acredita que foi a mão de Stalin que derrotou ‘heroicamente’ os nazistas? Primeiro, se assim é, todas as vitórias militares passarão a serem creditadas não aos que comandaram as operações de guerra e seus soldados(onde Krushev era um dos três responsáveis pela defesa de Stalingrado), mas aos chefes de estado de plantão? Segundo, o heroísmo de derrotar os nazistas já havia conseguido a Inglaterra liderado pelo direitista Churchil, será que devemos lançar loas a ele também por essa vitória militar que no caso dele teve muito mais participação do que Stalin?. Três, esquece um detalhe grotesco, a invasão dos nazistas foi precedida de um acordo de não-agressão criminoso entre Stalin e Hitler, mesmo sabendo que comunistas e socialistas eram fulminados sumariamente pelo regime. A suprema inteligência militar de Stalin (na visão de Losurdo) não foi suficiente para ao menos suspeitar desse acordo com uma defesa preventiva nas fronteira, mesmo se tratando de um regime que aos olhos do mundo não disfarçava seu estridente anti-comunismo, anti-marxismo e reacionarismo brutal.

Não irei gastar uma única palavra para desqualificar a completa desqualificação marxista do stalinismo, ou como se auto-proclamou, o “marxismo-leninismo”. Basta citar uma obra do século XIX escrita por ninguém menos do que um “trotiskista” chamado Karl Marx em que se encontra a crítica mais profunda e completa do stalinismo, o livro é 18 de Brumário de Luís Bonaparte, e a crítica se encontra no último capítulo do livro. Lá ele vai analisar todo o expediente do “bonapartismo”, porque em termos marxista, a revolução russa não era e nem poderia ser algo além de uma revolução “burguesa” típica, com sua fase jacobina seguida de sua fase bonapartista. A dominiação do patriotismo sobre o internacionalismo na ideologia stalinista, demonstra fatalmente esse caráter. E a definição da experiência russa como neojacobina é hoje hegemônica entre os marxistas europeus.

Se os stalinistas tivessem um nível de conhecimento apenas razoável do marxismo que dizem conhecer, perceberiam que um teórico do “fim do estado”, crítico do “socialismo de estado” de Lassalle, que deixava claro que somente o proletário poderia emancipar a seimesmo, muito diferente dos guias (ou se preferir, partidos de vanguaradas) que assumiam tal papel que acusam o proletariado de não conseguir expontaneamente ir além do sindicalismo (e olha que na Rússia esses limitados construíram expontaneamente os sovietes). Enfim, perceberiam que ou não são marxistas, ou o Marx não é comunista, ou admitiriam o óbvio, o stalinismo nada tem a ver com o comunismo, como acabou admitindo o Khmeh Vermelho – mas não poderiam minimamente adentrar com sua visão blanquista-bonapartista a um tão ferrenho crítico do bonaparismo e do blanquismo (o blanquismo era um protótipo da tese do partido de vanguarda).

E se as dúvidas permanecesse sobre a tese da ditadura do proletariado, a Comuna de Paris não permitiria nenhuma confusão entre o auto-governo das comunas (que Engels definiu como realização da ditadura do proletariado) com a ditadura do partido comunista (definição de Lenin para o mesmo conceito).

Losurdo insiste em tratar o debate sempre na dialética de Trotsky e Stalin. O mero fato trivial de que todos, não apenas alguns, ou apenas os mais críticos, mas TODOS os revolucionários de 1917 foram mortos, expurgados, exilados, presos, perseguidos e difamados pela máquina stalinista não é suficiente para ele para enxergar o contra-revolucionarismo de Stalin. Esse fato singelo não lhe afeta a fé imorredoura de seu irretocável tirano e a sua crença inabalável de que qualquer fato negativo não pode ser outra coisa do que uma mera propaganda capitalista, que existe, mas não da forma como quer a viuva de Stalin.

Ele chega a criar uma nova essencialidade que tenta invernizar o provincianismo de Stalin, afirmando que “para a luta de classe; a necessidade de coordenar patriotismo e internacionalismo”. Desde quando o patriotismo é um valor comunista? Quantas vezes Marx não criticara o patriotismo, dando no máximo boas referências ao nacionalismo. E mais, não entender a essência nacionalista imanente do internacionalismo é segue compreender a etmologia mais superficial da palavra, é “entre-nações”, não é “globalismos”, se preferir, o entendimento básico da expressão é uma federalismo global de nações. Em essência o internacionalismo é apenas o nacionalismo anti-chauvinista, um nacionalismo solidário, não concorrente (e concorrencia entre nações significa guerra militar ou comercial, ou ambas).

Losurdo, em um ato de histrionismo hegeliano afirma que a ascensão de Stalin se deveu apenas ao fato de que “Stalin, porém, era a encarnação do poder legal-tradicional que procurava penosamente tomar forma”. Isto é, Stalin não chegou ao poder porque ao assumir o papel de secretário geral do partido (em um país de partido único), o aparelhou, em seguida se associaou com dois arcanos (Kamenev e Zinoviev) para enfraquecer Trotsky (que era naturalmente o sucessor de Lenin), e uma vez conquistado a derrocada de Trotsky, fez o mesmo com seus antigos “Tovarichs” Kameneve e Zinoviev, instalando um poder absoluto de fato. Em outras palavras, instalando o bonapartismo russo com traços tradicionais sim, a tradição tzarista.

Losurdo afirma ainda que para Stalin os adversários com seus aventureirismos (isto é, a revolução permanente) “colocavam em perigo” a nação russa. Ipsis literis o mesmo conjunto de argumentos que se usavam contra os soviéticos e bolchevistas que defendiam o fim da guerra (de que isso colocava em perigo a posição da Rússia).

Aliás, que se faça jus a história. A revolução de 17 não foi bolchevista, foi soviética (os sovietes foram os protagonistas e foram o objetivo do poder: todo poder aos sovietes). Mas o regime que se instalou logo depois, não foi soviético, mas bolchevista (neojacobino), depois desalojado pelo bonapartismo stalinista. Em outros termos, seguindo quase literalmente o roteiro da maior revolução burguesa, a Revolução Francesa.

Não entendo o que mais Stalin precisaria fazer para provar ao Losurdo que todos os seus “atos de governo” foram desde o começo atos contra-revolucionários em qualquer acepção que queira dar: política (tzarismo, burocracia, etc), econômica(ruralização), social(repressão, estamento burocrático, etc) ou cultural (será que a bala no peito de Maiakovsky também foi uma conspiração trotskista ou hagiografia capitalista?).

Losurdo, em seu cúmulo de desonestidade intelectual tenta citar Marx para legitimar a matança stalinista, além de tenta misturar alhos com bugalhos ao tentar transformar toda as calúnias contra o comunismo no mesmo patamar de qualquer crítica aos crimes de fato de Stalin, ele sequer problematiza se seria fácil distinguir o que é propaganda e o que é fato, para ele, se é anti-stalinista é propaganda. Será que Losurdo é tão diferente dos difamadores do comunistas que afirmam que se é anti-capitalismo é mera ideologia?

Marx não defendia a violência pela violência, a violência em Marx pelo contrário, é um argumento continuamente combatido contra aqueles que defendem a história como resultado da violência (Losurdo nunca lera Anti-During, Ideologia Alemã, etc ?). Marx define a economia (ou sociedade civil) como o verdadeiro feitor da história, e como para um comunista a economia nada mais é do que o sistema de trabalho (alienado ou não), com isso declara várias vezes que quem muda o mundo é o trabalho e não a luta de classes, ou a violência, ou a revolução, essas são manifestações do nível das contradições sociais; o que Marx afirma, isso sim, é que a luta de classes é o motor(=aceleração) da história (com menos lutas há obviamente menos mudança, portanto, a historia move-se mais lentamente).

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Written by ocommunard

9 de abril de 2011 às 16:56

Publicado em Reflexão

2 Respostas

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  1. Eu Leio diariamente o “Portal Vermelho” e o que constato é que verdadeiramente ele é o unico site ligado a causa Comunista que cumpre bem o seu Papel no intuito de informar o leitor no ponto de vista socialista sobre o que acontece no Brasil e no Mundo. E Recomendo a todos os companheiros de luta pela causa Socialista que leiam o Portal Vermelho pois do que nos adianta um Comunista sem argumentos para um debate, a nossa revolução é de idéias, leiam e se informem precisamos estar atentos!

    Vitor Araújo

    9 de abril de 2013 at 20:34

    • Vitor Araújo, não tenho nenhum tipo de rejeição ao portal vermelho, se tivesse não leria. Apenas fiquei decepcionado por ter essas recaídas stalinistas. E óbvio que houve méritos no governo Stalin, mas houve truculência, perseguição, opressão, traições e equívocos. A questão de fato é que ele foi contra-revolucionário, no sentido estrito (porque contrário que a revolução permanecesse, e no sentido amplo pelos expurgos dos revolucionários de outubro). Negar a realidade não é lutar pela causa, é levar a causa ao fracasso. Minha crítica busca apenas defender o comunismo do stalinismo, , a própria ex-URSS rejeitou o stalinismo (e não apenas o Trotsky ou Kroushev como alguns dizem).

      ocommunard

      12 de abril de 2013 at 21:23


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