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Políticas, economias e ideologias

Inside Job: a plutocracia por trás da máscara democrática.

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O excelente documentário que ganhou o Oscar: Inside Job (trabalho interno) desnuda com avidez o regime plutocrático americano, a despeito de sua fachada democrática. É interessante ressaltar que mesmo em uma tão tradicional premiação vemos ganhar um Oscar a um documentário crítico ao capital financeiro, enquanto aqui tal ousadia seria tratada como “esquerdismo terceiro-mundista contra as leis racionais do livre-mercado”.

Mas como uma democracia representativa (representantes do povo) com suas instituições plenamente funcionais* pode se transformar em uma plutocracia de fato (representantes dos ricos)? É essa questão que o documentário responde com impressionante eloqüência.

O documentário acaba demonstrando como o capital (ou como alguns preferem, o poder econômico) abole a democracia através de três meios: financiamento de campanha eleitoral, lobbys e mídia. As mega-doações criam um laço clientelista entre grandes doadores (ricos) e candidatos, além de praticamente abolir as chances dos candidatos não apadrinhados pelo grande capital dentro do regime eleitoral americano.

Enquanto através do financiamento privado de pessoas jurídicas o capital abocanha a eleição, é no lobby que capturam o mandato, isto é, o processo político de fato, a presenção do lobby é uma ameaçadora lembrança a cada representante de que haverá novas eleições com renovadas necessidades de financiamento.

Enquanto os lobbys aliciam os representantes, e os mega-doadores eleitorais aliciam as propostas, quem alicia o povo? Quem é o lobista do eleitor. Quem cotidianamente tenta tapar os buracos da farsa? Goebels já nos deu a dica, é a mídia, a mídia comercial.

A mídia comercial, como qualquer empresa capitalista, carrega consigo seu antagonista, o trabalhador, aqui no papel de jornalista. Mas esse antagonista está encurralado entre o assédio patronal e a necessidade do emprego. A cúpula está amarrada entre os interesses de seus anunciantes (grande capital) e o puro e simples suborno, compra de matérias pseudo-jornalísticas (apresentada diversas vezes no documentário). A informação é assim quase uma gota em um oceano de desinformação, de promíscua, corrupta e farisaica propaganda política do grande capital.

Nem mesmo uma ditadura elitista aos moldes de Mubarak seria tão estável quanto uma plutocracia eleita pelo povo, que reforça a ilusão de que o poder é deles. Mas mesmo a desilução gerada opera a favor da plutocracia, pois ela apenas reforça a sabotagem do próprio Estado democrático, culpado como ineficiente, burocrático e desnecessário reforçando ainda mais o seu mantra de Estado mínimo, isto é, a incorporação plena do estado democrático pelo capital, a privatização.

Assim, observando uma democracia sabotada em uma propaganda em larga escala para diminuir o estado, seu última e única trincheira contra a exploração irrestrita pelo capital, o americano sucumbe. E o resultado é aquilo o que o documentário apresenta: crise, desigualdade e decadência.

* diferente da nossa que de vez em quando surge um Gilmar Mendes para sabotar o judiciário, ou um Azeredo querendo instituir um AI-5 digital, ou um José Serra tentando acabar com a seperação entre o Estado e a Igreja.

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Written by ocommunard

8 de março de 2011 às 15:27

Publicado em Reflexão

2 Respostas

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  1. Ótima síntese. Os adversários são três meios: financiamento de campanha eleitoral, lobbys e mídia.

    Financio, cobro porem como vender que está certo a classe prejudicada; A midia. O F.K. Comparato explicou isso muito bem. Veja os links
    http://www.youtube.com/watch?v=4Py7aO2ovrI Esse contem as palavras iniciais
    http://www.youtube.com/watch?v=KRMiCL3du58&feature=related esse completa o de cima.
    http://www.youtube.com/watch?v=uOgpU9fcjgA esse é a parte II

    Tem as parábolas da Caverna e do Lobo x cordeiro. Até quando vou dar forças ao “velho ciclo” que inexorável está sendo fulminado, reconheço-o alegremente; Não posso entretanto, como naquele outro da “Historia sem fim” da figura negra explicando que “sou eu” que o alimento o velho ciclo com o meu medo. É ele que alimenta o imaginário de que a midia é imutável.
    Reconheço, na calma, que poderia já sair saltitando de alegria, pois é verdade sim que Anunciação (A. Valença) se aplica ao novo ciclo.
    Germinado no ponto vernal do velho com o novo. No velho pela evidencia de que um Serra o representa perfeitamente no novo pela eleição de Dilma.

    Se eu não comemorasse a existência, entre tantos outros, a fortaleza emblemática do estimulo de um Johan, Miguel do Rosário, Eduardo Guimarães, estaria dando força a essa mídia pingenta. Então como vc disse algures. Está havendo um sincronismo avassalador que fulmina o velho ciclo para que o novo prevaleça. São os “Inside job”, Wiskonsin, “Ao Sul da fronteira”. A TV estatal argentina entrevistando Lula ainda presidente. Eta inexorabilidade……
    Vc vai participar do encontro dos blogueiros em maio ai em Fortaleza?

    Luiz Monteiro de Barros

    10 de março de 2011 at 15:03

  2. “Financio, cobro porem como vender que está certo para a classe prejudicada”

    Luiz Monteiro de Barros

    10 de março de 2011 at 15:06


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