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Políticas, economias e ideologias

Reinaldo Azevedo e o sermão da cratera

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Reinaldo Azevedo não é como a Dora Kramer, que se contenta em ser uma espécie de Rasputim do consórcio DEM-PSDB depois que fora incluída na campanha televisiva de José Serra nas eleições presidenciais de 2010, a cada novo artigo a Dora Kramer se contenta em fazer preleções públicas sobre a incompetência opositiva da direita. Já o “Tio Rei”, como se intitula, não se rebaixa a um mero papel de mestre catedrático da direita brasileira. Ele se considera a própria encarnação do conservadorismo, ele é o “verbo neoliberal” que se fez carne, o imperativo categórico da oposição. Céus e terras passarão, inclusive, a lógica, mas sua palavra lavrará este país de verdades absolutas insondáveis a intelectos menores.

Ele termina o seu artigo fulminando a si mesmo: “A lâmina começou a descer sobre o pescoço de Robespierre quando ele mandou cortar a cabeça do primeiro “reacionário”.”(Tio Rei, o monarca da reação). Simples assim. Logo, basta então deixar o Robespierre brasileiro (Lula) guilhotinar “moralmente” os reacionários, para que então a “revolução” se desfaça com a força de uma lei da natureza. Pronto, pode ir dormir Aloysio Nunes Ferreira.

Mas o seu texto não se reduz a esse cômico gran finale, é incrivelmente desconcertante em suas tolices. São tantas confusões mentais que me alongaria muito me detendo em cada uma delas. Mas vamos lá, quero deixar registrado essa peça de humor, não me perdoaria se deixasse passar esse testemunho eloquente de nossos decadentes neoliberais.

Ele inicia seu texto citando Robespierre, algo como: “Em nosso país, queremos substituir o egoísmo pela moral..”. Ele acusa os professores de citarem Robespierre, você já ouviu algum professor citá-lo? O Tio Rei quer provar como algum bem intencionado pode ser ruim, pois, diz o Tio Reio: “Robespierre perdeu a cabeça na guilhotina”. Que dialética! Então, segundo Tio Rei, não podemos ser contra o egoísmo, pois Robespierre foi contra e terminou na guilhotina? Eis uma aula de causalidade mecânica e superficial!

Ele afirma que quem contesta Lula odeia o país, aonde se disse isso? Vocês leram em algum lugar isso? Ou será o subconsciente do Tio Rei? Diz que é acusado injustamente de invejoso por questionar um prêmio literário de um artista já premiado diversas vezes pelo mesmo prêmio. Mas ninguém se preocupou em definí-lo invejoso, apenas teve sua megalomania ignorada.

Aí vem uma de suas lapidares formulações sobre a democracia: “A pergunta óbvia é com que discurso articular o dissenso, sem o qual a democracia se transforma na ditadura do consentimento?”(Tio Rei). Então, seguindo a mesma lógica, uma ditadura sem consentimento é uma democracia do dissenso? Realmente, uma lógica para idiotas.

E claro, ele vai ensinar a oposição, mesmo sem nunca ter participado de um assembléia partidária, mesmo tendo a experiência política de um monge. Repete exatamente a mesma retórica das eleições que imagina ser novidade: mostrar “os feitos” da oposição que “se tornaram realidade apesar da mobilização contrária” do PT. Moral da história, tudo que é de bom vem da oposição, mesmo o PT não conseguindo malevolamente destruir esse paraíso do desemprego, juros escorchantes e pífio crescimento em 8 anos de governo.

E por fim, a heresia neoliberal: “Entre esses, encontram-se milhões de trabalhadores, todos pagadores de impostos, muitos deles também pobres!”. Vejam só, um neoliberal falando pelos trabalhadores! Mesmo sendo um conservador absoluto, não perdeu a oportunidade de citar esses trabalhadores que votaram no Partido dos Trabalhadores, pois, além do mais, sem os votos deles não se elege nem veriador. E ele lembrou o que ele considera algo fascinante! eles pagam impostos! Ohhh! Não só eles pagam impostos, como o IPEA já provou que são os mais pobres que mais pagam impostos no país. Vejam como a malandragem do Tio Rei se volta contra ele.

E claro, ele não podia deixar de passar seu elogio ao obscurantismo da campanha de José Serra, que segundo ele foi um mero “cultivo” do conservadorismo. O mesmo deveria valer para o fundamentalismo islâmico que ele tanto critica em nome da civilização? Mas o cômico é ele sempre se espantar com o fato de que “oportunistas caricatos os vocalizam, prestando um desserviço ao conservadorismo”. Então, que exemplo de conservadorismo sério nós temos no mundo: Bush Jr? Arnold Schwarzenegger? Berlusconi? Sarah Palim? Talvez ele próprio, o Tio Rei?

Questiona ele: “Terão as oposições a coragem de defender seu próprio legado”? Isto é, desemprego, crise, juros altos, concentração de renda, privatizações, etc. E qual o grande argumento dele em nome de que as oposições derrotadas com em seu discurso mais radicalmente conservador, obscurantista, devem continuar nessa trilha? “Apontem-me uma só democracia moderna que não conte com um partido conservador forte, e eu me desminto”. Claro, que bom para a democracia americana que haja um Tea Party que incentive tragédias como a de Tucson! Que bom para a democracia moderna que a direita européia defenda a xenofobia, ou talvez seja muito interessante a contribuição dos neofascistas italianos para a democracia moderna. Será mesmo obra do azar que só haja “oportunistas caricatos” na direita, caro caricato Tio Rei?

Ele, como bom “caricato” que é, tem de inverter os fatos. Afirma que “Essa oposição tem, em suma, de enfrentar uma esquerda que, se morreu há muito tempo na economia, exerce inquestionável hegemonia na cultura e na política”. A esquerda que morreu na economia? A China cresce a 10% e os EUA neoliberal está em crise, quem morreu? Agora, sim, culturalmente e ideologicamente, mesmo a China repercute o discurso da “teologia de mercado”, aí sim… exatamente o contrário que afirmou.

Como para o Tio Rei uma ditadura é aquela aonde não existe a oposição, logo a ditadura militar jamais existiu, é provavelmente uma invenção de professores esquerdistas. Depois repete as velhas associações entre Lula e Ahmadinejad em nome dos direitos humanos, os mesmos direitos humanos que no PNDH-3 ele foi contra.

Mas uma lapidar definição de democracia do Tio Rei: “O que caracteriza a democracia é a possibilidade de dizer ‘não’.”. E não dissemos não ao privatismo? E não dissemos não ao retorno dos tucanos ao poder? E não dissemos ‘não’ toda vez que tentaram derrubar o governo? Claro, o ‘não’ que o Tio Rei defende é todo aquele ‘não’ que signifique derrubar o PT e recolocar a direita no poder.

Segundo ele, claro, o aumento da privatização frente a estatização na era FHC é algo “que tirou um pouco de estado da sociedade e pôs um pouco mais de sociedade no estado”, isto é, o Estado democrático aonde elegemos nossos representantes e onde toda a nação é proprietária (propriedade pública) não tem nada de sociedade, mas uma empresa privada com meia dúzia de proprietários, essa é a sociedade. A sociedade dele, a sociedade do capital.

Depois levanta ilações sobre a ‘luta contra a mídia’ que teria função de fazer critica a qualquer poder, segundo ele. Primeiro, a luta contra a mídia se realiza na própria mídia, ou ele não conhece a blogsfera progressisa, as revistas e jornais de esquerda? Segundo, ele fala em “criticar qualquer poder”, qual foi a última crítica dele a algum político da oposição que não seja para pedir mais oposição? Uma imprensa tendenciosa, caluniosa e partidária nunca será sinônimo de democracia, mas é realmente estranho que ele defina como ameaça a liberdade de expressão a aplicação das mesmas regras de regulação midiática dos países que ele considera modelo de democracia. Seria isso um exemplo de uma caricatura de crítica?

Depois termina seu texto com uma série de lugares comuns, tentando misturar a violência de processos revolucionários com ditaduras, e essa por sua vez, com as esquerdas. Esqueceu ele que todas as ditaduras latino-americanos eram anti-comunistas? Esqueceu ele todos os crimes de guerra recentes dos EUA reveleados pelo WiIkileaks? Ou mesmo o financiamento e apoio dos EUA as ditadura latino-americanas? Esqueceu ele das torturas de Guantânamo? Ele não esquece, ele escamoteia, típico recurso de uma ideologia caricatural.

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/uma-oposicao-que-se-deixou-massacrar-ha-saida-respondo-num-longo-artigo/

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Written by ocommunard

22 de janeiro de 2011 às 14:02

Publicado em Reflexão

Uma resposta

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  1. Perfeito, esse elemento do pig ñ passa de um hipócrita, mentiroso, caluniador um verdadeiro facínora da mídia. Parábens.

    Sergio Ruiz

    31 de janeiro de 2011 at 14:09


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