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Políticas, economias e ideologias

As incompreensões de Hannah Arendt

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Hannah Arendt foi uma intelectual muito combativa cujo seu pensamento teve como herança as inquietações existencialistas da filosofia de Heiddegger. No entanto, ficou famosa algumas de suas críticas ao marxismo que aqui irei debater. Adianto que aqui se trata de um ensaio sem pretensões acadêmicas.

Em seu livro “As origens do totalitarismo”, em que ela une os opostos como ideologias totalitárias: comunismo e nazismo ou entre Hitler e Stalin, como “faces da mesma moeda” afirma que: “a dominação totalitária como um fato estabelecido que, em seu ineditismo, não pode ser compreendida mediante as categorias usuais do pensamento político, e cujos ‘crimes’ não podem ser julgados por padrões morais tradicionais ou punidos dentro do quadro de referência legal de nossa civilização, quebrou a continuidade da História Ocidental. A ruptura em nossa tradição é agora um fato acabado” (ARENDT, 1988, p. 54).

Essa é a base de todo seu equívoco, a modernidade nasceu com o absolutismo (que foi produto da união entre reis e burguesias) que praticou todo o tipo de violência que o “totalitarismo” conheceu, por sua vez, a própria idade média e idade antiga (sobretudo o imperialismo romano com sua perseguição aos cristãos) é prodigiosa de violências da mesma forma abomináveis.

A causa de seu equívoco, desconsiderando seu método em si, está em confundir o Stalin, por extensão o stalinismo, ao comunismo. E por sua vez, confundir história e ideologia indiscriminadamente. O stalinismo foi um processo contra-revolucionário perfeito, perfeito porque mesmo tendo aniquilado todos os personagens e instituições da revolução de Outubro, conseguiu manter suas insígnias intactas apenas como modo de manter a influência e domínio geopolítico sob um processo que parecia se expandir indefinidamente, o avanço do comunismo.

Seria exagero definir “contra-revolucionário” um regime onde todos os revolucionários de Outubro foram mortos, deportados, perseguidos, exilados ou caluniados pelas campanhas stalinistas, taticamente como modo de inviabilizar qualquer constestação ao poder absoluto de Stalin? Os Soviets, instituição central da revolução, ainda que tenham mantido o nome, tal como se manteve o nome “comunismo”, foram completamente esvaziados de poder sob a figura do secretário geral do partido, posição que justamente com Stalin se transforma em sinônimo de poder, e não só de poder, mas poder absoluto.

Em analogia histórica nada está mais próximo de Stalin do que a do fenômeno do bonapartismo seja pela sua base camponesa, seu autoritarismo, seu caráter civil e seu arcabouço militarista. Claro, que, o stalinismo foi um processo histórico resultado dos próprios antagonismos e limites de uma revolução ideologicamente pós-capitalista em uma economia pré-capitalista, mas outros elementos, como os focos de grande desenvolvimento industrial em alguns centros urbanos, contrastando com as vastas regiões semi-feudais, transforma todo o processo em um paradoxo problemático politicamente insolúvel.

Mas será que as colaborações com as ditaduras latino americana, os crimes de guerra revelados pelo Wikileaks, as torturas fotografadas em Guântanamo, os golpes militares patrocinados, os genocidas financiados, sobretudo a assistência aos métodos de tortura, um país que só com presidentes assassinados tiveram 4, fora outros políticos como no caso recente da tragédia de Tucson. Em um rigime político cujo o lema de parte da oposição é: “não recue, recarregue”. E cujo o presidente é eleito indiretamente por um colégio eleitoral. Caso o repúdio as violências stalinistas tivessem o mesmo grau de repúdio a qualquer violência política, então, os EUA estariam igualmente condenados. Claro que estou ainda ignorando vários fatos particulares, como Panamá, o “muro de Berlim” aonde milhares de mexicanos são assassinados compulsoriamente ao tentar atravessar, o maior executor mundial de pena de morte, o apartheid americano só conquistado com muito martírio dos negros, etc. Os EUA são tudo, menos um modelo. Nem de regime social(racismo, desigualdade, etc), nem de regime político (como visto acima), muito menos de regime econômico (como prova a recente crise).

É claro que nos dois lados há/houve, por incrível que pareça, virtudes, ainda que diferentes. Enquanto a Rússia oferecia espetáculos de igualdade, os EUA oferciam espetáculos de liberdade, mas ambos regidos sob uma coluna vertebral militarista, condensada pelo medo. Difícil de admitir depois de tanta barbárie. A Rússia depois de 70 anos era algo muito melhor do que o regime absolutista feudal que ela recebeu, isso vale para qualquer processo revolucionário, inclusive, a dita Revolução Americana que deu a independência aos EUA.

Como uma vez disse Fidel, “a revolução não é um mar de rosas, é uma batalha fatal entre o passado e o futuro”. Cuba pode ter muitas falhas, sobretudo, por conta do preço de sangue de sua independência imposta pelo bloqueio unilateral dos EUA. Mas aquela Cuba de Fulgêncio Batista não existe mais, é hoje uma Cuba muito melhor. Isso tudo não nega o fato, nem mesmo para as autoridades cubanas, que o regime envelheceu, o que também não nega o fato de suas conquistas como um sistema de saúde, segurança e educação cujo mesmo os EUA podem apenas invejar. Que o diga o documentário Sicko, para quem ainda não assistiu. Mesmo apesar da pobreza e do bloqueio econômico 18 vezes condenado pela ONU.

Mas será os EUA um modelo, até mesmo para si mesmo? Se acha isso, convença antes aos norte-americanos que votaram na mudança. Com certeza não é culpa dos norte-americanos esse vergonhoso estelionato eleitoral chamado Obama. Seu voto foi pela mudança, mas talvez, como dito por Trotsky com relação ao regime stalinista russo, ele não é capaz de se auto-reformar; talvez o mesmo valha ou valha ainda mais para os EUA.

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Written by ocommunard

14 de janeiro de 2011 às 13:05

Publicado em Reflexão

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