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Políticas, economias e ideologias

Archive for janeiro 2011

Obama e Mubarak: entre o ideal democrata e o império real

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Ser ou não ser democrata, eis a questão hamletiana do Obama frente a possível revolução egípcia. E os princípios democráticos? O interesse é o princípio dos princípios de um império. Obama se indaga se é melhor pagar o preço de apoiar a democracia islâmica ameaçando não só perder o egito para a oposição anti-americana, mas estremecer com todos os aliados não-democráticos da região (todos são ditadores); ou destruir a imagem americana de defensor da democracia e criar uma inimizade política indissociável ao regime pós-Mubarak em um país tão importante quanto Egito. Ficou claro que o jogo americano é apostar no cara e na coroa, mas torcendo indisfarçavelmente para a repressão ditatorial vencer as reinvindicações democráticas.

Mas a Revolução de Jasmin da Tunísia é o canto de esperança que fará os egícios só adimitirem um resultado, a queda de Mubarak, e através deste fato, uma democracia egípcia.

Egito não é apenas uma aliado qualquer, é a maior e mais poderosa nação árabe e o mais colonizado de todos os regimes da região. Como bem expôs Paulo Henrique Amorim em seu famoso site Conversa Afiada,  “um sistema que formava oficiais superiores das Forças Armadas no Pentágono, em Washington. Um sistema que podia montar no Egito, com exclusividade, tanques americanos M1A1 Abrams com licença especial”. Egito é a peça fundamental e indispensável do controle americano na região, nessa perspectiva os EUA não só precisam de Mubarak como devem estar em tempo real acessorando e ajudando em tudo que puder para mantê-lo no poder, e não podem atacá-lo ou criticá-lo sob o risco dele vazar a sujeira do império que conhece com tanta intimidade.

Mas há um custo político ainda maior. A história do Irã surge como uma sombra no horizonte americano, porque o regime de Mubarak tem semelhanças com o Xá da Pérsia. Assim, um EUA hostil a revolução pode recriar um novo Irã, que até agora foi o único governo árabe que abertamente defendeu a revolução política no Egito. Assim, a postura americana que não seja de declarado e eufórico apoio a democracia egípcia lhe terá um custo político muito maior do que desagradar a teocracia absolutista da Arábia Saudita ou se constranger com um ex-ditador enfurecido lavando roupa suja em público, pode transformar a revolução egípcia em revolução iraniana.

No final das contas será apenas isso, perder reputação ou aliados? influência ou colônias? poder político ou militar? O que mais prejudicaria um império em crise? Tudos os caminhos levarão a um prejuízo, mas com certeza os EUA estão subestimando a força da política e superestimando a política da força, nada mais coerente para um fanático neoliberal. Um governo egípcio jamais seria islâmico no estilo iraniano, quem conhece a história egípcia moderna sabe disso, é mais uma razão para o imperio temer tanto uma democracia anti-americana laica no Egito, eles perderiam a legitimação. El Baradei soa mais ameaçador do que Ahmadinejad.

No final das contas é apenas mais uma face de um declínio que está bem assegurado pela autofagia neoliberal e bem policiada pelos facistas americanos do Tea Party. Obama, entre escolher o ideal democrático e o império real, não hesitou em pisotear mais uma vez sua utopia pre-eleitoral por sua distopia pós-eleitoral.

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31 de janeiro de 2011 at 13:31

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Reinaldo Azevedo e o sermão da cratera

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Reinaldo Azevedo não é como a Dora Kramer, que se contenta em ser uma espécie de Rasputim do consórcio DEM-PSDB depois que fora incluída na campanha televisiva de José Serra nas eleições presidenciais de 2010, a cada novo artigo a Dora Kramer se contenta em fazer preleções públicas sobre a incompetência opositiva da direita. Já o “Tio Rei”, como se intitula, não se rebaixa a um mero papel de mestre catedrático da direita brasileira. Ele se considera a própria encarnação do conservadorismo, ele é o “verbo neoliberal” que se fez carne, o imperativo categórico da oposição. Céus e terras passarão, inclusive, a lógica, mas sua palavra lavrará este país de verdades absolutas insondáveis a intelectos menores.

Ele termina o seu artigo fulminando a si mesmo: “A lâmina começou a descer sobre o pescoço de Robespierre quando ele mandou cortar a cabeça do primeiro “reacionário”.”(Tio Rei, o monarca da reação). Simples assim. Logo, basta então deixar o Robespierre brasileiro (Lula) guilhotinar “moralmente” os reacionários, para que então a “revolução” se desfaça com a força de uma lei da natureza. Pronto, pode ir dormir Aloysio Nunes Ferreira.

Mas o seu texto não se reduz a esse cômico gran finale, é incrivelmente desconcertante em suas tolices. São tantas confusões mentais que me alongaria muito me detendo em cada uma delas. Mas vamos lá, quero deixar registrado essa peça de humor, não me perdoaria se deixasse passar esse testemunho eloquente de nossos decadentes neoliberais.

Ele inicia seu texto citando Robespierre, algo como: “Em nosso país, queremos substituir o egoísmo pela moral..”. Ele acusa os professores de citarem Robespierre, você já ouviu algum professor citá-lo? O Tio Rei quer provar como algum bem intencionado pode ser ruim, pois, diz o Tio Reio: “Robespierre perdeu a cabeça na guilhotina”. Que dialética! Então, segundo Tio Rei, não podemos ser contra o egoísmo, pois Robespierre foi contra e terminou na guilhotina? Eis uma aula de causalidade mecânica e superficial!

Ele afirma que quem contesta Lula odeia o país, aonde se disse isso? Vocês leram em algum lugar isso? Ou será o subconsciente do Tio Rei? Diz que é acusado injustamente de invejoso por questionar um prêmio literário de um artista já premiado diversas vezes pelo mesmo prêmio. Mas ninguém se preocupou em definí-lo invejoso, apenas teve sua megalomania ignorada.

Aí vem uma de suas lapidares formulações sobre a democracia: “A pergunta óbvia é com que discurso articular o dissenso, sem o qual a democracia se transforma na ditadura do consentimento?”(Tio Rei). Então, seguindo a mesma lógica, uma ditadura sem consentimento é uma democracia do dissenso? Realmente, uma lógica para idiotas.

E claro, ele vai ensinar a oposição, mesmo sem nunca ter participado de um assembléia partidária, mesmo tendo a experiência política de um monge. Repete exatamente a mesma retórica das eleições que imagina ser novidade: mostrar “os feitos” da oposição que “se tornaram realidade apesar da mobilização contrária” do PT. Moral da história, tudo que é de bom vem da oposição, mesmo o PT não conseguindo malevolamente destruir esse paraíso do desemprego, juros escorchantes e pífio crescimento em 8 anos de governo.

E por fim, a heresia neoliberal: “Entre esses, encontram-se milhões de trabalhadores, todos pagadores de impostos, muitos deles também pobres!”. Vejam só, um neoliberal falando pelos trabalhadores! Mesmo sendo um conservador absoluto, não perdeu a oportunidade de citar esses trabalhadores que votaram no Partido dos Trabalhadores, pois, além do mais, sem os votos deles não se elege nem veriador. E ele lembrou o que ele considera algo fascinante! eles pagam impostos! Ohhh! Não só eles pagam impostos, como o IPEA já provou que são os mais pobres que mais pagam impostos no país. Vejam como a malandragem do Tio Rei se volta contra ele.

E claro, ele não podia deixar de passar seu elogio ao obscurantismo da campanha de José Serra, que segundo ele foi um mero “cultivo” do conservadorismo. O mesmo deveria valer para o fundamentalismo islâmico que ele tanto critica em nome da civilização? Mas o cômico é ele sempre se espantar com o fato de que “oportunistas caricatos os vocalizam, prestando um desserviço ao conservadorismo”. Então, que exemplo de conservadorismo sério nós temos no mundo: Bush Jr? Arnold Schwarzenegger? Berlusconi? Sarah Palim? Talvez ele próprio, o Tio Rei?

Questiona ele: “Terão as oposições a coragem de defender seu próprio legado”? Isto é, desemprego, crise, juros altos, concentração de renda, privatizações, etc. E qual o grande argumento dele em nome de que as oposições derrotadas com em seu discurso mais radicalmente conservador, obscurantista, devem continuar nessa trilha? “Apontem-me uma só democracia moderna que não conte com um partido conservador forte, e eu me desminto”. Claro, que bom para a democracia americana que haja um Tea Party que incentive tragédias como a de Tucson! Que bom para a democracia moderna que a direita européia defenda a xenofobia, ou talvez seja muito interessante a contribuição dos neofascistas italianos para a democracia moderna. Será mesmo obra do azar que só haja “oportunistas caricatos” na direita, caro caricato Tio Rei?

Ele, como bom “caricato” que é, tem de inverter os fatos. Afirma que “Essa oposição tem, em suma, de enfrentar uma esquerda que, se morreu há muito tempo na economia, exerce inquestionável hegemonia na cultura e na política”. A esquerda que morreu na economia? A China cresce a 10% e os EUA neoliberal está em crise, quem morreu? Agora, sim, culturalmente e ideologicamente, mesmo a China repercute o discurso da “teologia de mercado”, aí sim… exatamente o contrário que afirmou.

Como para o Tio Rei uma ditadura é aquela aonde não existe a oposição, logo a ditadura militar jamais existiu, é provavelmente uma invenção de professores esquerdistas. Depois repete as velhas associações entre Lula e Ahmadinejad em nome dos direitos humanos, os mesmos direitos humanos que no PNDH-3 ele foi contra.

Mas uma lapidar definição de democracia do Tio Rei: “O que caracteriza a democracia é a possibilidade de dizer ‘não’.”. E não dissemos não ao privatismo? E não dissemos não ao retorno dos tucanos ao poder? E não dissemos ‘não’ toda vez que tentaram derrubar o governo? Claro, o ‘não’ que o Tio Rei defende é todo aquele ‘não’ que signifique derrubar o PT e recolocar a direita no poder.

Segundo ele, claro, o aumento da privatização frente a estatização na era FHC é algo “que tirou um pouco de estado da sociedade e pôs um pouco mais de sociedade no estado”, isto é, o Estado democrático aonde elegemos nossos representantes e onde toda a nação é proprietária (propriedade pública) não tem nada de sociedade, mas uma empresa privada com meia dúzia de proprietários, essa é a sociedade. A sociedade dele, a sociedade do capital.

Depois levanta ilações sobre a ‘luta contra a mídia’ que teria função de fazer critica a qualquer poder, segundo ele. Primeiro, a luta contra a mídia se realiza na própria mídia, ou ele não conhece a blogsfera progressisa, as revistas e jornais de esquerda? Segundo, ele fala em “criticar qualquer poder”, qual foi a última crítica dele a algum político da oposição que não seja para pedir mais oposição? Uma imprensa tendenciosa, caluniosa e partidária nunca será sinônimo de democracia, mas é realmente estranho que ele defina como ameaça a liberdade de expressão a aplicação das mesmas regras de regulação midiática dos países que ele considera modelo de democracia. Seria isso um exemplo de uma caricatura de crítica?

Depois termina seu texto com uma série de lugares comuns, tentando misturar a violência de processos revolucionários com ditaduras, e essa por sua vez, com as esquerdas. Esqueceu ele que todas as ditaduras latino-americanos eram anti-comunistas? Esqueceu ele todos os crimes de guerra recentes dos EUA reveleados pelo WiIkileaks? Ou mesmo o financiamento e apoio dos EUA as ditadura latino-americanas? Esqueceu ele das torturas de Guantânamo? Ele não esquece, ele escamoteia, típico recurso de uma ideologia caricatural.

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/uma-oposicao-que-se-deixou-massacrar-ha-saida-respondo-num-longo-artigo/

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22 de janeiro de 2011 at 14:02

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A ditadura judicialesca, as sombras de Honduras

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Nos dias atuais, o poder judiciário brasileiro, sobretudo o STF, avança de tal forma sobre os outros poderes da República que já praticamente age como poder absoluto. Freqüêntemente ataca, constrange, censura e desautoriza o poder executivo federal, como no caso do Batistti, a despeito do que diz as leis e a Constituição.

No poder legislativo absorveu tal poder de legislar sobre as brechas da lei e tão amplidão de interpretação, que na prática, as leis se transformaram em apenas um totem místico cujo o único significado possível é definido arbitrariamente no STF.

Gilma Mendes, entre todos, é o que mais grotescamente comete abusos abomináveis contra a República. É reconhecido por todo o país ao ter lançando mão em menos de 24h de dois hábeas corpos em favor de um banqueiro já condenado sob o pretexto de que não havia dado novo no processo. Aquilo que ele diz não haver apareceu em horário nobre no jornal televisivo mais assistido do país (JN) na forma de tentativa de corromper um juiz a favor do banqueiro condenado.

O poder judiciário é o único poder que não tem nenhuma representatividade, isso não seria um problema caso ele não detesse tanto poder quanto tem. Um poder cujo princípio da soberania popular simplesmente não existe. Esse poder, dia a dia, está solapando o Estado de direito, cujo deveria ter o dever fundamental de defender, abrindo os horizontes para um golpe ao estilo hondurenho.

O poder judiciário deveria apenas se ater a “dizer o direito”, cabendo aos legisladores o dever de definir o significado da lei, e não a estes protótipos de ditadores de República de bananas. Quando, enfim, o STF se reservar a competência de julgar conforme as leis, ao invés de dar a ela o sentido que bem entender ou preencher a seu bel prazer o que considerar lacunas? Em um poder que a sociedade não tem nenhum modo institucionalizado de questionar, afastar ou eleger.

Enquanto isso, alguns pseudo-jornalistas de direita, em completa cooptação partidária pró-tucana, busca atingir de qualquer forma a centro-esquerda jogando lenha nessa ditadura judicialesca. Parecem que se esqueceram o que acontece com aqueles que brincam com fogo.

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17 de janeiro de 2011 at 21:19

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As incompreensões de Hannah Arendt

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Hannah Arendt foi uma intelectual muito combativa cujo seu pensamento teve como herança as inquietações existencialistas da filosofia de Heiddegger. No entanto, ficou famosa algumas de suas críticas ao marxismo que aqui irei debater. Adianto que aqui se trata de um ensaio sem pretensões acadêmicas.

Em seu livro “As origens do totalitarismo”, em que ela une os opostos como ideologias totalitárias: comunismo e nazismo ou entre Hitler e Stalin, como “faces da mesma moeda” afirma que: “a dominação totalitária como um fato estabelecido que, em seu ineditismo, não pode ser compreendida mediante as categorias usuais do pensamento político, e cujos ‘crimes’ não podem ser julgados por padrões morais tradicionais ou punidos dentro do quadro de referência legal de nossa civilização, quebrou a continuidade da História Ocidental. A ruptura em nossa tradição é agora um fato acabado” (ARENDT, 1988, p. 54).

Essa é a base de todo seu equívoco, a modernidade nasceu com o absolutismo (que foi produto da união entre reis e burguesias) que praticou todo o tipo de violência que o “totalitarismo” conheceu, por sua vez, a própria idade média e idade antiga (sobretudo o imperialismo romano com sua perseguição aos cristãos) é prodigiosa de violências da mesma forma abomináveis.

A causa de seu equívoco, desconsiderando seu método em si, está em confundir o Stalin, por extensão o stalinismo, ao comunismo. E por sua vez, confundir história e ideologia indiscriminadamente. O stalinismo foi um processo contra-revolucionário perfeito, perfeito porque mesmo tendo aniquilado todos os personagens e instituições da revolução de Outubro, conseguiu manter suas insígnias intactas apenas como modo de manter a influência e domínio geopolítico sob um processo que parecia se expandir indefinidamente, o avanço do comunismo.

Seria exagero definir “contra-revolucionário” um regime onde todos os revolucionários de Outubro foram mortos, deportados, perseguidos, exilados ou caluniados pelas campanhas stalinistas, taticamente como modo de inviabilizar qualquer constestação ao poder absoluto de Stalin? Os Soviets, instituição central da revolução, ainda que tenham mantido o nome, tal como se manteve o nome “comunismo”, foram completamente esvaziados de poder sob a figura do secretário geral do partido, posição que justamente com Stalin se transforma em sinônimo de poder, e não só de poder, mas poder absoluto.

Em analogia histórica nada está mais próximo de Stalin do que a do fenômeno do bonapartismo seja pela sua base camponesa, seu autoritarismo, seu caráter civil e seu arcabouço militarista. Claro, que, o stalinismo foi um processo histórico resultado dos próprios antagonismos e limites de uma revolução ideologicamente pós-capitalista em uma economia pré-capitalista, mas outros elementos, como os focos de grande desenvolvimento industrial em alguns centros urbanos, contrastando com as vastas regiões semi-feudais, transforma todo o processo em um paradoxo problemático politicamente insolúvel.

Mas será que as colaborações com as ditaduras latino americana, os crimes de guerra revelados pelo Wikileaks, as torturas fotografadas em Guântanamo, os golpes militares patrocinados, os genocidas financiados, sobretudo a assistência aos métodos de tortura, um país que só com presidentes assassinados tiveram 4, fora outros políticos como no caso recente da tragédia de Tucson. Em um rigime político cujo o lema de parte da oposição é: “não recue, recarregue”. E cujo o presidente é eleito indiretamente por um colégio eleitoral. Caso o repúdio as violências stalinistas tivessem o mesmo grau de repúdio a qualquer violência política, então, os EUA estariam igualmente condenados. Claro que estou ainda ignorando vários fatos particulares, como Panamá, o “muro de Berlim” aonde milhares de mexicanos são assassinados compulsoriamente ao tentar atravessar, o maior executor mundial de pena de morte, o apartheid americano só conquistado com muito martírio dos negros, etc. Os EUA são tudo, menos um modelo. Nem de regime social(racismo, desigualdade, etc), nem de regime político (como visto acima), muito menos de regime econômico (como prova a recente crise).

É claro que nos dois lados há/houve, por incrível que pareça, virtudes, ainda que diferentes. Enquanto a Rússia oferecia espetáculos de igualdade, os EUA oferciam espetáculos de liberdade, mas ambos regidos sob uma coluna vertebral militarista, condensada pelo medo. Difícil de admitir depois de tanta barbárie. A Rússia depois de 70 anos era algo muito melhor do que o regime absolutista feudal que ela recebeu, isso vale para qualquer processo revolucionário, inclusive, a dita Revolução Americana que deu a independência aos EUA.

Como uma vez disse Fidel, “a revolução não é um mar de rosas, é uma batalha fatal entre o passado e o futuro”. Cuba pode ter muitas falhas, sobretudo, por conta do preço de sangue de sua independência imposta pelo bloqueio unilateral dos EUA. Mas aquela Cuba de Fulgêncio Batista não existe mais, é hoje uma Cuba muito melhor. Isso tudo não nega o fato, nem mesmo para as autoridades cubanas, que o regime envelheceu, o que também não nega o fato de suas conquistas como um sistema de saúde, segurança e educação cujo mesmo os EUA podem apenas invejar. Que o diga o documentário Sicko, para quem ainda não assistiu. Mesmo apesar da pobreza e do bloqueio econômico 18 vezes condenado pela ONU.

Mas será os EUA um modelo, até mesmo para si mesmo? Se acha isso, convença antes aos norte-americanos que votaram na mudança. Com certeza não é culpa dos norte-americanos esse vergonhoso estelionato eleitoral chamado Obama. Seu voto foi pela mudança, mas talvez, como dito por Trotsky com relação ao regime stalinista russo, ele não é capaz de se auto-reformar; talvez o mesmo valha ou valha ainda mais para os EUA.

Written by ocommunard

14 de janeiro de 2011 at 13:05

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Dilma sucumbirá ao capital financeiro?

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Quando um jornal de circulação nacional, que se notabilizou por sua oposição fanática ao governo PT, publica uma matéria entitulada “Mais um argumento para o BC elevar o juro na semana que vem”, mostra o quanto de política está essa decisão. O que a próxima decisão trará é uma linha, é uma postura, mais 8 anos de submissão ao mercado financeiro, ou se realmente os desenvolvimentistas venceram.

Se Dilma e sua nova equipe econômica indicar reduzir a Selic, algo provável já que está fazendo um esforço hercúlio para cortar gastos, teremos uma excelente boa notícia para os próximos 8 anos. Caso contrário, a agonia permanecerá. E a nós só restara a lúgubre resignação de que não há alternativas políticas viáveis contra a força do capital financeiro.

Saberemos, enfim, se realmente Henrique Meirelles saiu do BC ou apenas mudou de nome. Essa é a hora da Dilma mostrar aquela coragem que ela saudou tanto em seu discurso de posse!

Written by ocommunard

12 de janeiro de 2011 at 17:06

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Revista Veja e a lógica do absurdo

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Reinaldo Azevedo, um histriônico pseudo-jornalista da Veja que se intitula “Tio Rei”, culpou a imprensa de ser petista ao não culpar o PT pelas enchentes de São Paulo, apesar do PT não governar nem a capital nem o Estado. Ultimamente seus artigos correm sob um clamor desesperado para ressucitar a Santa Inquisição dentro das mídias do Instituto Millenium, restaurar o clima de terror e golpismo, apesar de que o saldo das campanhas histéricas deixaram como legado ao governo Lula a marca de governo mais popular da história. Mas ele não se intimida com isso, ele é um jornalista com um papel bem definido e é esse papel que ele quer manter juntamente com seu emprego.

Ele criou uma nova categoria: a chanchada jornalística. O artigo trata das calamitosas enchentes da capital de São Paulo que o incomodou por estar prejudicando politicamente a Kassab, isto, segundo ele, porque a imprensa não está fazendo malabarismos para proteger politicamente Kassab. Ele já inicia com a própria condenação de seu artigo: “não há meios de um administrador público aparecer bem quando há enchente”(Tio Rei), para logo em seguida realizar a tentaiva mais “jocosa” de desmintir essa obviedade.

Diz o Tio Rei: “Está em todos os sites noticiosos, tratada em tom jocoso, uma fala de Kassab atribuindo as enchentes de São Paulo ao excesso de chuvas”. Que tipo de ‘canalha’ é esse capaz de não levar a sério um prefeito de uma capital castigada por enchentes que se repetem anualmente sem nenhum conjunto de obras que as combata ou alivie, e sobretudo ridicularizar uma resposta tão ‘científica’ e ‘técnica’ como essa!

Mas para o Tio Rei da Veja não basta que a culpa das enchentes seja da chuva, elas tem de ser da chuva e do PT. E assim ele faz ao citar uma prefeitura petista: “Ou Guarulhos, a segunda maior cidade do estado, não merece o rigor que merece a capital?”.  Mas qual a responsabilidade da prefeitura de Guarulho pelas enchentes da cidade de São Paulo? Será mesmo tão difícil de entender como a capital mais rica, populosa e importante do país tenha mais destaque que Guarulhos? Ou será mais jocoso que a abordagem dos “sites noticiosos” alguém se supreender com o fato de que uma capital ter mais destaque que um município qualquer, sobretudo, quando essa capital é São Paulo?

O mais irônico de toda essa chanchada são as ilações de que jornais historicamente conservadores como Globo, Folha de S. Paulo e Estadão seriam pró-petistas. Será que estariam mais propícios a darem credibilidade a isso, os jornalistas tucanos ou seus leitores conservadores de tais jornais? Recentemente, a Folha de S. Paulo conseguiu judicialmente o fechamento da Falha de S. Paulo, cujo satiriza exatamente o modo como esse jornal distorce as notícias para atingir o PT e defender o PSDB. Ou talvez os petistas queriam homenagear a Globo por terem apoiado seus candidatos ao manifestarem na posse: “o povo não é bobo, abaixo a rede Globo”. Mas com certeza petista mesmo é o Estadão, que fez um editorial entitulado “Mal a evitar” cujo a agora presidenta só não é chamada de “santa”.

Mas  a realidade, a verdade, o jornalismo… nada o intimida. Ele tem um emprego que diz claramente que ele deve falar mal do PT, e isso ele fará, custe o que custar, nem que lhe custe o último resquício de credibilidade, nem que lhe custe o próprio emprego. Porque, além do mais, o que mais ele sabe fazer a não  ser isso?

Para o Tio Rei da Veja, a culpa da enchente é da chuva, é óbvio! e nada pode o prefeito da capital fazer a não ser culpá-la todos os anos. Aliás, lembra ele, Serra não fez o mesmo? E qual o primor de exemplo que ele nos oferece nesse seu ‘raciocíonio’? Se preparem, essa é de doer: “Não se pode acusar o governo da Austrália de não cuidar direito dos seus cidadãos. E, no entanto, uma área do país entrou em colapso”. Não acreditaram? Volte para o início das aspas quantas vezes poderem. Seria essa passagem uma espécie de licença poética dadaísta?

Mas e ele continua em sua campanha para honrar o bom nome da injustiçada e vitimada prefeitura de São Paulo contra esse mundo infestado de petistas, a família Marinho, Frias e outras oligarquias midiáticas nunca enganaram ao auto-intitulado ex-trotiskysta – são todos comunistas marxistas revolucionários travestidos de grande capitalistas inescrupulosos.

E ele continua na sua surpressa pelo destaque de São Paulo: “e isso inclui o número de mortos em decorrência das chuvas: por 100 mil habitantes, São Paulo esteve longe de liderar a lista. Mas liderou o noticiário com sobra. E sempre com um viés negativo para o governo local”. Meu deus, vejam só como é essa imprensa comunista! Eles ousam dar relevância a capital de São Paulo! Como podem praticar critério tão absurdo, é óbvio que qualquer municipiozinho de 3 mil habitantes deveria ter muito mais destaque que a capital mais rica do país. E como ousam, ainda mais, dar um “viés negativo” a uma enchente e ao fato do prefeito ter culpado as chuvas pela enchente? Meu deus, será o apocalipse fiscal que a Miriam Leitão a tanto tempo vem nos pregando?

Depois de tanta ‘objetividade’, ‘isenção’ e ‘imparcialidade’, ele ainda nos brinda com essa: “Falo sobre o que vejo e leio. As reportagens estão por aí, aos montes”. Estão aos montes, mas parece que não muito ao gosto dele e de seu tipo muito ‘excêntrico’ de liberdade de expressão censurável. Mas ele, inteligente que é, não perderia a oportunidade para, antes de terminar o artigo, indicar o verdadeiro culpado, vejam vocês com seus próprios olhos:

“Não há o que dizer a familiares de pessoas soterradas, por exemplo. A maioria não poderia estar morando onde está morando. Mas a constatação mais objetiva é tratada apenas como expressão de crueldade”.

Vejam só, para o Reinaldo Azevedo a culpa não é da chuva, muito menos da falta de política pública contra enchentes, a culpa é das vítimas que se alojam em áreas de risco apenas para ao morrerem prejudicarem a boa reputação dos governantes da direita – que obviamente, nada podem fazer pois como dizia Reagan, o governo não é solução, é problema. E se o mercado não está lá para resolver, a culpa, claro, ou é da própria natureza ou é das próprias vítimas. Meu deus, e tal constatação “mais objetiva” é tão injustamente acusada de “cruel”, porque será, oh meu deus!

Por fim concluímos no texto do Tio Reio que na verdade todos os anti-petistas são petistas, e o PT na verdade foi o culpado por tramar com São Pedro para trazer as chuvas e convencer os pobres a morarem em áreas de riscos só para morrerem e assim prejudicarem injustamente a prefeitura do DEM que nada podia fazer, pois tudo está nas mãos do mercado, amém.

Written by ocommunard

11 de janeiro de 2011 at 22:50

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