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EUA vs China: revoluções geopolíticas

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Os EUA, fabricantes da moeda internacional, enquanto inundam o mundo com dólares em franca guerra cambial, pressionam a China com seu parceiro também decadente, UE, pela valorização do Yuan. Mas a desvalorização do Yuan por si não salvaria os empregos nos EUA, apesar da propaganda, pois:
1) diminuiria competitividade da China, mas não aumentaria a dos EUA, pois há muitos outros países que tomariam o espaço deixado pela China, como Coreia do Sul, Japão, etc.

2) a economia americana tem predominância do setor de serviços e não o setor produtivo. No setor primário, inclusive, é totalmente dependente de subsídios.

3) a balança comercial negativa não seria resolvida já que sendo um país “pós-industrial”, depende de importação de muito de seu consumo. O neoliberalismo provocou a dita “transferência de capital” para países de mão de obra mais barata.

A desvalorização do Yuan, aí sim, significa um ataque direto a economia chinesa, que sofreria um grande baque comercial, que vêem como uma ameaça ao perceberem a vertiginosa ascenção que os preocupa porque:

1) seu desempenho econômico está dragando todos os capitais europeus e americanos para a China.

2) está ocupando vazios geopolíticas se aliando a Rússia, Irã e Cuba, Brics, América Latina, Ásia e África. Recentemente, está realizando uma cooperação econômica com a Grécia, que foi abandonada a própria sorte pela UE em crise.

3) o avanço da China começa a servir de modelo e exemplo ideológico-econômico na mesma proporção em que o “capitalismo ocidental” não consegue reagir ao atoleiro da crise.

Os EUA precisam desvalorizar suas moedas, mas não podem fazer isso sem sofrer muita pressão externa de todos os países do mundo, que usam a moeda americana como reserva internacional; e internamente, com os setores mais a direita atacando qualquer ameaça inflacionária, que no cenário atual é o mal menor.

Nas últimas semanas os EUA estão fazendo um colossal ataque diplomático permanente pressionando sobre a valorização do Yuan (onde não poderia ser questionado, já que a política cambial é soberana de cada país), sobre os direitos humanos (deram o prêmio Nobel a um dissidente chinês), e inclusive no campo cultural-psicológico: no fim desse ano sairá o primeiro filme americano francamente anti-chinês, uma nova versão de Red Dawn, um filme de declarada propaganda anti-comunista. Na versão original os EUA eram invandidos pela ex-URSS e Cuba, agora “serão” invadidos pela China. É o ato de guerra ideológico que pode precipitar uma nova guerra fria.

Mas mais do que pressionar a China, o que os EUA querem é jogá-la direto em uma armadilha. Como as margens políticas do governo dos EUA de desvalorizar a moeda são limitados, querem provocar um contragimento político tal que provoque a China a substituir todas as suas reservas em dólar por provavelmente ouro, como forma de represália ou rompimento diplomático. Recentemente, os EUA descobriam uma grande reserva em ouro que pode chegar a 3 trilhões no Afeganistão (território ocupado)*. Assim, ao provocarem isso, conseguem vários objetivos:

1) uma hiper-desvalorização do dólar, sem assumir a responsabilidade política interna e para o mundo, dando uma incrível vantagem comercial. A hiper-inflação seria contornada graças ao aumento da exportação com o dólar super-barato para todo o mundo.

2) recriam um “inimigo externo” que é realmente muito mais ameaçador de seus interesses do que qualquer que Bin Laden. Com essa velha tática, consegue desviar o descontentamento social contra seus governos e exportar a responsabilidade para um “bode expiatório” (tática muito comum nos EUA).

3) atingem frontalmente a economia chinesa ao literalmente expulsá-las com seu dolar hiper-competitivo do maior mercado de consumo do mundo. Esse golpe é importante para interromper a ascensão chinesa que os ameaça, mas terá outros efeitos, que adiante tratarei.

O que parece está claro, não só para os EUA e a UE, mas para todos. É que no andar da carruagem a hegemonia está quase que completa em poucos anos. O hiper-moderantismo diplomático da China buscava acalmar os americanos e europeus para afirmar que a hegemonia chinesa seria um “soft power” e que acentuariam o multilateralismo. Mas também essa estratégia ameaça os EUA que sempre dependeram do “hard power” e do unilateralismo(imperialismo) em sua geopolítica.

Para complicar a equação há as eleições legislativas onde se vislumbra o crescimento da ultra-direita (Tea Party) conjuntamente com a impopularidade do governo Obama. O avanço do Tea Party significa:

1) para a direita moderada mais inteligente, o Tea Party desconhece o lema fundamental do capitalismo: “privatizar o lucro e socializar o prejuízo”. O Tea Party com seu neoliberalismo radical quer “privatizar o prejuízo”.

2) a adoção de uma política ultra neoliberal em plena crise provocada por políticas neoliberais, terá um efeito ideológico devastador para a direita do mundo. Pois unirá colapso do império americano com fracasso retumbante do receituário neoliberal. Quem ficará será o presidente vítima de neoliberais fanáticos: Obama.

3) O medo deles não é que o radicalismo do Tea Party impeçam a vitória, como dize. Tak ilação é ilógica frente a própria ascensão do Tea Party e impopularidade crescente de Obama. O medo da direita frente a ultra-direita é que uma vez vencendo levem o país, o partido e o capitalismo a ruína.

A única saída da China é se manter firme porém amistosa como está fazendo, enquanto tenta acelerar as parcerias geopolíticas em todo o mundo para driblar a campanha americana: Rússia, Irã, Cuba, Grécia, América do Sul, África, etc. É o que ela está fazendo. Será que a China conseguirá evitar essa armadilha, tudo indica que sim, mas as pressões parecem estar apenas começando. Veremos o quanto hábil será a diplomacia chinesa para desarmar essa armadilha.

Mas se a China cair na armadilha? Não seria muito ruim na verdade. Pois:

1) as exportações chinesas cairiam, mas isso forçaria a China investir na expansão do mercado interno, que tem um potencial muito maior que os EUA. Tal estratégia é a base do desenvolvimentismo brasileiro atual, altamente exitoso.

2) a China como mega-mercado teria muito mais influência internacional do que como mega-exportador, provocando a ganância de todo o mundo, inclusive dos EUA e UE. Aliás, grande parte da influência americana se deve a atração de seu grande mercado para o resto do mundo.

3) Um dólar hiper-desvalorizado, perderia seu status de moeda internacional. Devastaria toda a economia mundial, pois todas tem reservas em dolar, dessa forma neutralizando todo e qualquer ganho que os EUA teriam.

Aparentemente, o único ganho viável que os EUA teriam dentro dessa estratégia é se parmencerem apenas no âmbito da pressão sem consequências, e dessa forma, pelo menos, enfraqueceriam politicamente a China perante o resto do mundo. Somente nesse caso, mas nem mesmo aí estaria garantido o sucesso dessa aventura geopolítica.

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Written by ocommunard

23 de outubro de 2010 às 13:47

Publicado em Reflexão

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