Communard

Políticas, economias e ideologias

China, socialismo de mercado e Karl Marx

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Motivado pela sugestão de Luiz Monteiro de Barros, que em dos comentários me pediu a análise desse texto, não resisti nem a leitura, nem a análise. Referência: ttp://www.odiario.info/?p=1706

Domenico Losurdo e a Socialismo de Mercado

A questão levantanda no texto de Domenico Losurdo, é um certo mal estar entre o “socialismo de mercado” aplicado pelo Partido Comunista Chinês e a ‘esquerda ocidental’ (mas correto seria chamar de esquerda européia). Ele acusa que essa ‘esquerda ocidental’ de levantar certos preconceitos ao afirmar que o ‘socialismo de mercado’ chinês é um retorno ao capitalismo, sobre a denúncia aos baixos salários, sobre o avanço do capitalismo ao permitir a entrada de empresas privadas, sobre o suposto stalinismo chinês, ou o regime fechado chinês, etc. É claro que a ‘esquerda ocidental’ está traumatizada com suas frustrações com o stalinismo e Gorbatchev, não quer mais errar.

Domenico Losurdo responde a isso afirmando que mesmo nas empresas privadas são reguladas publicamente, e que pelo menos 1/3 da economia é totalmente estatal. De que o chinês tem uma cultura de profunda auto-crítica, se afastando assim do culto a personalidade e auto-promoção do stalinismo. Fala ainda que foram extintos ocupações vitalícias de cargos políticos e com ações permanentes de combate a corrupção.

Um outra crítica “preconceituosa” identificada por Losurdo seria a crítica das “três representações” aonde até os empresários são aceitos no partido, os chineses respondem que são numericamente inexpressíveis, no entanto tomam posições e cargos importantes no Estado. Mas muito permanente é a queixa sobre os “ideáis socialistas” em contradição com o avanço do capitalismo, mesmo que regulado, e seus ideais acumulativos. Aqui termino o resumo sobre a dissertação de Losurdo. Losurdo enfatiza que para os chineses o socialismo de mercado é uma fase inicial.

Eu e o socialismo de mercado

Tentarei ser enxuto, já que a questão se relaciona desde a teoria de Karl Marx, passando por suas mutações na Social Democracia Operária Alemã, depois pelo bolchevismo, depois pelo próprio maioismo. Indo ao ponto, acho que todas as interpretações estão equivocadas do ponto de vista marxista. O grande barco furado do bolchevismo foi apostar que seria possível uma transição para o capitalismo em uma país pré-capitalista. O que foi o bolchevismo senão aquilo que Engels denominou de “capitalismo coletivo” em Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico? Uma doutrina com tal constraste com a realidade só podia ser mantida ditatorialmente, é por isso que o bolchevismo necessariamente culminaria no stalinismo ou em sua queda. E o stalinismo é a contra-revolução conservadora, de cúpula.

Do que estou falando? Para Marx, somente aonde no capitalismo avançado, aonde o avanço das forças produtivas alcançassem seu ponto de saturação, aonde as forças de produção entrarem em contradição com as relações de produção, isto é, uma crise de superprodução, uma abundância material que extrapole os meios de apropriação capitalista, só aí haveria as condições materiais para o capitalismo. Para Marx, em toda a obra O Capital, a transição para o comunismo (Marx diferencia socialismo de comunismo, vide Manifesto) se dá através do desenvolvimento das forças produtivas, e as contradições provocadas quando esse desenvolvimento alcançar seu ápice. Isto é, em um processo dialético.

Assim, mesmo se estivéssemos falando em uma China 100% capitalista governada pelo partido comunista, estaremos ainda tratando de um regime potencialmente coerente com o marxismo. Porque para Marx, a despeito do bolchevismo, jamais um país atrasado pode almejar pular a etapa do capitalismo para alcançar o comunismo. O único papel que cabe ao partido em um país atrasado é garantir altas taxas de desenvolvimento das forças produtivas para acelerar o processo social, o resto é expressão política autêntica e específica de cada povo.

Há aí uma contradição social imanente, como o fato de um partido comunista ter capitalistas em suas fileiras. Há, mas aí a contradição reside na contradição real, numa tensão real, sublimada pelas altas taxas de crescimento que garantem uma possibilidade de distribuir ganhos a todos. Outra contradição é que uma representação tipicamente nacional-capitalista não só não serve, como não serviu, como foi a experiência do Kuomitang. Um governo burguês desenvolvimentista não oferece condições progressistas a não ser através do velho receituário politicamente repressivo e economicamente recessivo (arroxo salarial).

Essa organização social de frente única de várias classes em busca do desenvolvimento, se representa melhor no trabalhismo do que no comunismo propriamente dito. Marx, ao levantar sua tese, não imaginava que o liberalismo clássico esgotaria sua força progressista, por outro lado, o liberalismo clássico já havia sido renegado pela burguesia através do esfacelamento financeirista do liberalismo neoclássico, e depois pelo neoliberalismo. Um outro ponto de distenção do pensamento de Marx, foi a sublimação da grande crise paradigmática para Marx, a crise de sobreprodução, que havia sido superada com políticas keynesianas (que se esgotaram na sua fragilidade fiscal).

Assim, o paradigma do “capitalismo coletivo”, esse que já em Bismarck é o motor de desenvolvimento da Alemanha do II Reich, assim como o Japão e todos os outros capitalismos retardatários, ainda que em última análise o capitalismo nascente, através do mercantilismo absolutista, dependendiam profundamente do Estado, ou como Marx denomina: a fase de Acumulação Primitiva Capitalista.

Em suma, China está no caminho do comunismo, porque está no caminho da acelaração crescente do desenvolvimento das forças produtivas. Esse é o fundamento central de Marx para a garantia científica da transição ao comunismo. A questão que se coloca é saber quando esse capitalismo se plenificar, se o partido comunista vai se dissolver em um partido do capital, ou se irá se reorganizar para assumir o segundo passo. O socialismo de mercado tem o mérito de ser uma experiência anti-dogmática, totalmente empírica. O governo experimenta várias formas de propriedade, e na medida que elas alcancem os resultados produtivos, elas se estabelecem. É fundamentalmente uma economia mista, uma herdeira de um certo keynesianismo deixado órfão no ocidente com a ascenção do neoliberalismo.

Seu comunismo é garantir que em nenhum momento deixe estancar o acelerado desenvolvimento das forças produtivas, são elas que operarão as transformações sociais imanentes para uma sociedade comunista. O regime político, mesmo reconhecendo seus atrasos, ao garantir mover sob seus pés essa vertigionosa transformação, se transformará por dentro, mesmo que mantenha a aparência, isso porque as novas gerações de filiados serão fruto de uma nova sociedade provocada pelas grandes transformações socio-econômicas.

Estatizar e “ideais de igualdade”, podem até ser socialistas, mas nada tem a ver com o comunismo de Marx. Quando se fala em igualdade em Marx, se fala em sociedade sem classes, e não em distribuição de renda. Quando se fala em comunismo em Marx se fala em desenvolvimento das forças produtivas, não em estatização. Aliás, a crítica a essa visão de “socialismo de Estado” Marx e Engels fizeram em Crítica ao Programa de Gotha e Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico, entre outros.

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Written by ocommunard

7 de setembro de 2010 às 6:24

Publicado em Ideologia

3 Respostas

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  1. Ontem dizia que ainda emitiria uma resposta a essa consideração de vc ter me atendido. Ainda não o farei, porem veja essa noticia na BBC sobre Cuba http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/09/100913_cuba_demissoes_mdb.shtml
    Penso que o equilibrio entre Estado e Mercado, tambem utópico no Brasil dominado pelo Mercado caotico e em Cuba pelo Estado caotico. do texto “suprimir os enfoques paternalistas que desestimulam a necessidade de trabalhar para viver”.

    Luiz Monteiro de Barros

    14 de setembro de 2010 at 10:01

  2. […] China, socialismo de mercado e Karl Marx […]

    A Reforma em Cuba « O Communard

    14 de setembro de 2010 at 12:59

  3. muito bom seu texto. Acho realmente que Losurdo levanta importantes reflexões. Socialismo de mercado é socialismo ou capitalismo? Capitalismo desenvolvendo suas forças produtivas com a direção do Partido Comunista? Arrighi também traz alguns elementos cruciais. Minha opinião é que a estratégia da China é de impor uma superprodução mundial pela via da deflação dos preços aumentando seu valor. Acredito que é necessário desconfiar profundamente daqueles que insinuam que os comunistas chineses são bobos, meros fantoches do Capital, irmão siames do imperialismo norte-americano. Eles estão conseguindo enganar o capital e ainda não disseram porque vieram. Somente com uma análise militante séria, um reexame crítico constante desse socialismo realmente existente é que parece que a “esquerda ocidental” – agora tão preocupada com os “levantes democráticos” – pode nos dar saídas para o impasse histórico rumo ao socialismo.

    Fernando Marcelino

    29 de dezembro de 2011 at 1:14


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