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A mensalomania: a genealogia dos mensalões

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Com a ultrapassagem de Dilma nas pesquisas tudo leva a crer que a guerra já antes anunciada se tornou agora apocalíptica para as forças de direita. Se a estratégia do morde e assopra, cuja mídia pró-Serra mordia o Lula para enfraquecer sua aprovação popular e o Serra assoprava para se apropriar dessa mesma popularidade, chegou ao um estágio crítico para os demotucanos. O que fazer? Aparentemente, não há outra estratégia melhor para a oposição, a estratégia que se apropria das duas alternativas: atacar e se aproximar. Mas o problema não é estratégico, é essencial – ele É o lado errado.

O setor ofensivo da campanha, isto é, o conglomerado midiático conservador pró-Serra, só lhe resta ressuscitar um fantasma, que mesmo que não tenha impedido a vitória de Lula, é a difamação que melhor se enraizou dentro da sociedade: o mensalão. Mas como recordar é viver, vejamos efetivamente o que sejam esses mensalões desde a redemocratização.

Mensalão Tucano: a emenda da reeleição (tese).

Conceitualmente, mensalão é uma mesada paga para legisladores pelo executivo para que votem a favor do governo. Em outras palavras: compra de votos. O primeiro a aplicar esta peculiar forma de gestão desde a redemocratização, nada menos que o príncipe dos sociólogos: FHC. Veja o que dizia uma reportagem da Folha de 14/05/97:

“Na terça, a Folha havia revelado um esquema de compra de votos de deputados na época da votação da emenda constitucional da reeleição, em janeiro passado. Participaram do negócio, pelo menos, cinco deputados federais do Acre e dois governadores – tudo isso segundo os deputados João Maia e Ronivon Santiago (PFL), este último o que protagonizou as revelações de terça.”

“Os diálogos foram gravados sem que os deputados soubessem. Algumas das conversas gravadas com João Maia são posteriores às de Ronivon Santiago.”

Vejam, se trata de áudios gravados que nunca saíram dos domínios da Folha de São Paulo, isto é, a única praticamente que recebeu as fitas e fez a denúncia, e que não teve nenhuma repercussão nas TVs ou rádios, aonde essas fitas poderiam ser ouvidas. Infelizmente, na época a internet ainda engatinhava. Vejam, quantas vezes vemos grande parte da imprensa (conservadora e dominante) recozinhando o “Mensalão do PT”. Lembra-se de recozinharem o mensalão da reeleição, o mensalão tucano? A mídia aplicou a lei do silêncio para as denúncias de seus compadres políticos.

É o mensalão-tese, é a “certeza-sensível”, intuitivo, concreto simples. Apenas real, mas totamente inexistente no consciente coletivo da mídia. É a neurose, a normalidade midiática, uma confusão entre realidade e ficção. É o ser.

Mensalão do PT: o factóide (antítese)

O que poderíamos chamar de uma esquizofrenia ideológica de método nazista é uma forma de explicar o dito “escândalo do mensalão” do PT. Sabemos que surgira de uma denúncia de Roberto Jefferson que naquele momento estava envolvido em outro escândalo (escândalo dos correios) filmado e repercutido em rede nacional. Vingando-se claramente do que acreditava ser uma traição do governo por não defendê-lo, criou essa denúncia pronunciada sem provas, razão pelo qual foi caçado.

Como pode existir um escândalo cujo denunciante é caçado justamente por não ter oferecido provas? É pela mesma razão que fez o mensalão tucano serem esquecidos pela mesma mídia, razões políticas, interesses, partidarismo. O valerioduto, o esquema pelo qual foi realizado, não um mensalão, mas um caixa-2, cujo único responsável foi devidamente processado e condenado (Delúbio), tinha ramificações no PSDB mineiro, encontrado na mesma CPI que concluíra que caixa-2 é mensalão. Claro, só se o PT estava relacionado, pois o valerioduto mineiro recebeu uma denominação diferente, “dinheiro não contabilizado de campanha”.

Mas porque então insistir no factóide do mensalão ao invés de apenas lançar bravatas sobre a imoralidade do caixa-2? Porque caixa-2 é um ilícito, não um crime de responsabilidade. O mensalão cria condições legais para o impeachment, isto é, nada mais era do que uma tentativa de golpe orquestrada entre a mídia e a oposição. Porque não vingou? Porque a cúpula tucana acreditara, e na época havia realmente indícios para tal, que era melhor deixar o governando ir sangrando até as eleições e abatê-lo nas urnas. Um impeachment retiraria a áurea democrática da vitória da oposição. Realmente, acreditaram que seria uma vitória eleitoral fácil…

É o mensalão da antítese, porque só existe como propaganda política, como “abstrato”, como “idéia”, a psicose em seu estado mais puro, a total separação entre realidade e imaginação. É a essência.

Mensalão do DEM: o absoluto (síntese)

DEM, ex-PFL, mais conhecido no nordeste como “partido dos coronéis”; foi base da ditadura militar, representa os ruralistas, setores mais retrógrados da sociedade e fiéis depositários do neoliberalismo mais fanático. Apesar de que neoliberais fosse talvez, para eles, um elogio dado o grau de reacionarismo que encarnam.

Enquanto o PSDB alcança à centro-direita, não porque supostamente seriam de centro e se aliam à direita, o que seria o normal – mas porque esquizofrenicamente defendem políticas de direita e se definem de esquerda, noves fora: centro-direita. Já o DEM é a direita absoluta e sem meios termos, não tem escrúpulos com os que ainda restam (em doses homeopáticas) no PSDB. Assim, eles partiriam para cima do PT com o recozimento de sua difamação mais bem sucedida, o factóide do Mensalão. Mas havia uma câmera no meio do caminho, e o Mensalão do DEM foi, meio a contragosto, revelado nacionalmente pela mídia em sua essência: corruptos.

Alguns levantam a hipótese de que este só teve repercussão porque interessava a Serra enquadrar as pretensões do DEM – quem se lembra do caso da Roseana Sarney verá semelhanças nisso. Outros afirmam que só teve tal repercussão porque havia registros de áudio e vídeo, portanto, uma materialidade impossível de ignorar ou conter, numa época em que a internet já está indomável e sólida.

Enquanto o suposto Mensalão Petista só existia na cabeça de um único homem: um político corrupto, inexpressivo e acuado por outro escândalo, Roberto Jefferson. Obviamente, o escândalo do correios foi imediametamente esquecido pela mídia como uma forma de agradecimento aos serviços prestados por Roberto Jefferson à direita. Por outro lado, um mensalão real, ao vivo e a cores, não mancha, segundo a imprensa, o DEM. Moral da história, se alguém da esquerda (Delúbio) comete um ato ilícito todo o partido é culpado, e culpado de um ato mais gravoso sem provas (mensalão). Mas se vários integrantes da direita (Mensalão do DEM) se envolvem num ato criminoso, materialmente registrado, a culpa não é do partido, mas apenas de alguns elementos que se desviaram do rebanho. E coloca a pá de cal em cima… Sem falar dos escândalos envolvendo tucanos, como Cássio Cunha Lima, Yeda Crusius, o próprio Serra (quem se lembra do escândalo das ambulâncias?). Mas hoje temos a internet, é só pesquisar…

Será que a mídia realmente acredita que somos ludibriáveis tão facilmente? Será que realmente pensa que somos idiotas, como o que disse o William Bonner ao dizer que tem o Homer Simpson como modelo de seus telespectadores? A resposta a esse insulto nós já demos nas urnas e na alta popularidade do governo. Nessas eleições verão nossa resposta mais uma vez.

Aqui alcançamos a síntese, o real e o ideal, o cumprimento pleno do ser e da essência. A enteléquia, como diria Aristóteles. O saber absoluto do mensalão. Aqui, em nível psicanalítico, é conceituado por “perversão”. É o conceito.

Fontes:
http://www1.folha.uol.com.br/fol/pol/po14051.htm
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u55781.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u347147.shtml
http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u444276.shtml

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Written by ocommunard

25 de junho de 2010 às 12:50

Publicado em Contra-Informação

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