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Políticas, economias e ideologias

Democracia, Midiocracia e Internet

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# Genealogia dos Meios de Comunicação

Toda forma de expressão é um meio de comunicação, mas podemos falar de que o primeiro meio de comunicação social, diferente do natural-físico foi e continua sendo a palavra. Desta, a palavra falada foi o modo de transmissão cultural da chamada tradição oral. A palavra escrita, apesar de sua longa data, só se democratizaria com a invenção da imprensa de Gutenberg que viabilizara a universalização da alfabetização. Mas a grande invenção da imprensa foi o jornalismo(periódicos), só possível pelas condições da época: concentração urbana, desenvolvimento dos transportes e a própria produtividade da nova invenção.

Os primeiros jornais, representando a nova imprensa, foi engatinhando do século XVII até o XIX, aonde passou a ser protegida sua liberdade e ter aumentando sua influência. As transformações da sociedade, o Novo Mundo, a Reforma, a nova burguesia, todos estes geravam a nova demanda de notícias por toda Europa. Eram em seus primórdios armas políticas, sem nenhum apego aos valores da objetividade e imparcialidade, mas eram acessíveis a qualquer grupo que almejasse divulgar suas idéias. Tiveram um papel enorme nas transformações sociais.

No século XX inicia a segunda fase do jornalismo, sua fase propriamente industrial. Essa fase só vai encontrar seu ápice no fim do século XX, com a transformação em conglomerados transnacionais totalmente dedicados ao lucro. É no século XX que os meios de comunicação, agora uma “indústria cultural”, se tornam de orgãos progressistas em órgãos conservadores, socialmente ligados, econômica e politicamente, a sociedade capitalista. Essa nova “mídia massificada” se tornam a principal força do totalitarismo do início do século XX de um lado, e de outro difundindo os hábitos de consumo através de sua forma de financiamento, a propaganda comercial. A mídia eletrônica surge nesse período, com a TV e Rádio, que ajuda a se transformar em indústria, em grande capital. Surge o barão da mídia, o grande capitalista detentor dos meios de comunicação, o Cidadão Kane.

# Democracia vs Midiocracia

O grande capital concentrando os meios de comunicação espalhava o terror contra a ascensão da democracia social interna e a influência socialista externa(sobretudo, as revoluções); sustentaram e apoiaram a maioria dos golpes militares no contexto da Guerra Fria. Mas nesse cenário, ainda poderia se falar de alguma resistência profissional, a gota d’agua foi a degringolada soviética, a abertura econômica chinesa, Tatcher, Reagan, a queda do muro de Berlim, o neoliberalismo, o fim da história. Esses fatos desarticularam a esquerda e, paralelamente, o jornalismo progressista – mesmo sendo a maior parte da esquerda crítica as distorções do regime social-burocrático. Paradoxalmente, a força com que se foi aplicado o neoliberalismo na América Latina, seguido de seu fracaço monumental, provocara a maior ascensão da centro-esquerda latino-americana. Sem falar que fragilizara o próprio capitalismo central, que abdicara de suas conquistas sociais passadas para retornar ao capitalismo selvagem, o que em seguida os levariam a segunda maior crise do capitalismo em 2008 – cujo eles ainda sofrem os efeitos.

Não fora nem a ascensão nem a queda do bolchevismo que mais golpeara os trabalhadores, mais sua degeneração. Seu neojacobinismo necessário se contorcia em busca do socialismo europeu; a traição dos capitalistas russos impediam qualquer viabilidade de uma transição nacional-desenvolvimentista. Essas e outras confluências provocaram o bolchevismo, aonde a própria ascensão de Stalin era um diagnóstico trágico de suas limitações.

Hoje, uma mídia privada, num mundo nunca antes tão democrático, avança atento ao receituário neoliberal contra as democracias populares. Muitos deles são ex-esquerdistas, via de regra, o ultra direitista é sempre um ex-esquerdista,  que o diga Mussoline(fundador do totalitarismo do século XX), Lacerda(mentor intelectual do golpe de 64), FHC(porta voz do neoliberalismo brasileiro), etc. O verdadeiro embate é sobre a dominação da opinião pública, nas mídias os “formadores de opinião” serviam como ditadores de papel, enquanto nas democracias populares, a mobilização social passa a tormar um rumo autônomo, e a própria opinião pública difusa, através da internet, vai se descolando da influência da grande mídia capitalista.

O embate, nos limites da centro-esquerda, é entre populismo e elitismo, é a autoridade pessoal ou a soberania popular. A mídia capitalista sempre caminha até perceber que a democracia conspira contra ela, os ideólogos da direita já proclamam abertamente que é melhor uma autocracia liberal* do que uma democracia “iliberal”(isto é, social). A mídia é, politicamente, uma “arma da crítica”, um contra-poder, arma de pressão (e não um quarto poder) progressista ou conservadora. A negação da negação é a internet, ela rompe permanentemente com a escalada golpista, ao mesmo tempo desmoralizando politicamente(como no Brasil) e demolindo economicamente a mídia(como nos EUA). A internet é a nova fase da mídia, retorna a pluralidade da imprensa pré-capitalista, avançando e muito sobre o alcance planetário da mídia atual, suas redes sociais e sua organização demonstram seu caráter autenticamente social. Também retorna a verdadeira objetividade original, que não se trata de uma objetividade imparcial utilizada para camuflar suas tendências políticas, mas uma objetividade resultando da pluralidade autêntica e manifesta de todas as tendências políticas.

# Mídia, Internet e Democracia

Todas os arcanos da questão midiática se resolveria em um único ato, teoricamente, se instituída a democracia direta. É a divisão entre Estado e sociedade civil que cria suas “condições de possibilidades”, ela “medeia” efetivamente as relações entre a sociedade civil e o Estado, e o único “canal de comunicação” entre o poder e o povo. Esse pedágio da informação é resultado da alienação inerente a democracia indireta, ao voto. O voto não é mais do que a alienação de seu poder a outro, o que chamamos de representação. Obviamente, esse paradoxo não é solúvel antes de superada a barreira da jornada de trabalho, possibilitando a convivência possível entre vida política e econômica do trabalhador, ou melhor, em três momentos: o estudo, o trabalho e a mobilização.

A internet, como organismo civil contra-midiático, tem um vigor tecnológico muito mais sofisticado, permite toda e qualquer forma de comunicação. Enquanto, os aparelhos atuais dividem rádio, tv, celular e jornal. Além disso, o seu suporte, que é o computador, congrega uma multiplicidade de funcionalidades, oferecendo ainda uma flexibilidade tal que torna toda a tecnologia da nova tv digital obsoleta antes de nascer, não indo esta além da alta resolução e do tamanho em polegadas. A internet é essa mediação mais próxima possível, extrapolando o próprio conteito, isto é, o que é estar presente? Pois, alguem com que me comunico no Japão não estaria mais próximo de mim do que a pessoa que está na sala e nem sei se está lá?

Nunca houve tantas democracias espalhadas pelo mundo, no entanto, nunca se tornou tão visível os que a combatem, são os mesmos que acusam os governos democraticamente eleitos de não serem democráticos. A classe dominante e o império haviam se convencidos por seus ideólogos que a democracia e o capitalismo eram invencíveis e indissociáveis, não bastou 10 anos para vermos o fracasso na crise de 2008 e o avanço do socialismo através do voto. Quem se alçou como inimigo número um de todo esse processo já está deixando cair a máscara: os meios de comunicação privados. Sua crescente impotência política apenas acelera sua radicalização, que, por sua vez, a expõe a cada vez mais pessoas seus preconceito social e interesses de classe. Sua decadência impôe a eles a solução entre recuar ou avançar, muitas vezes recuam para desconstruir a imprensão de tendenciosidade, mas cada vez que recuam gera um estadalhaço nos fiéis seguidores, tendo que em seguida se exporem ainda mais. Seu objetivo final é construir algo que denominam democracia mais que só se rege por uma lei, o poder absoluto da mídia.

A midiocracia define seu poder como a sua própria arbitrariedade de acusar, condenar e julgar. Se atribuem o poder fiscalizador que cabe aos tribunais e demais órgãos públicos. Usurpam o papel do partido ao se assumirem como oposição. Se atribuem inclusive ao poder de condenar sem nenhum processo judicial, subtraindo de suas vítimas o direito a defesa, ao contraditório, e ao Estado de direito. O que querem é o poder que perdem a cada dia. Querem tudo e não fazem o que de fato deveriam fazer, informar a sociedade. Se atribuem um papel social que não permite o controle social, se atribuiem uma importância democrática cujo desmoralizam cotidianamente. E tudo que sua democracia oferece é a liberdade entre os diversas alternativas de se imbecilizar, alienar e se desinformar.

A democracia real, forjada no voto, no apoio popular, nas conquistas sociais, nos partidos, na militância, na participação cidadã, na mobilização social, em outras palavras, no povo, a essa democracia real chamam populista, mal disfarçando sua predileção por uma democracia elitista. O que nos conforta é saber que enquanto houver democracia haverá essa permanente pedagogia política, e através dela os trabalhadores caminharão solidamente em direção a sua emancipação. O grau de emancipação que alcançamos frente a libertação da tutelagem midiática de nos manipular bovinamente, já é, talvez, a maior vitória da Era Lula, ainda que o mérito seja totalmente dos trabalhadores, pois o governo agiu tímido e tardiamente na plataforma de democratização da mídia. Mas, como dizem, antes tarde do que nunca.

* BBC: Para especialista, ‘melhor democracia não significa melhor sociedade’ (título alternativo:  sobre o conceito de democracia burguesa)

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Written by ocommunard

10 de maio de 2010 às 22:45

Publicado em Cultura

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