Communard

Políticas, economias e ideologias

Archive for maio 2010

Em defesa da tributação

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Quantas bobagens somos submetidos cotidianamente para sermos convencidos de que somos assaltados por impostos. Quantas vezes você já não ouviu que se paga imposto demais? Que o Brasil tem tal carga tributária. E se apressam em afirmar que o Brasil tem uma carga tributária alta frente ao baixo nível de retorno nos serviços públicos, porque sabem que com a Internet fica fácil para qualquer constatar que nossa carga tributária é bem inferior do que a européia.

Mas os EUA tem sim uma carga tributária bem menor, mas não é difícil de entender. Se você considerar que ela tem o maior pib do mundo, uns US$ 14 trilhões, enquanto o Japão, a segunta economia do mundo, tem 4 trilhões. Aí é fácil entender que se a carga tributária estadunidense for de 5%, representaria mais recursos do que uma carga tributária brasileira de 50%, pois o pib brasileiro é de 1,6 trilhões. Mesmo sendo o Brasil uma das 10 maiores economias do mundo.

É curiosa também a lógica aplicada: quando usamos um serviço privado, geralmente pagamos mais para termos melhores serviços, mas segundo os ideólogos neoliberais, os serviços públicos insuficientes devem ser resolvidos com diminuição de impostos? Defendem a privatização como forma de combater o mal serviço público, para em seguida possam cobrar mais o quanto quiser para oferecer serviços melhores ou mesmo piores pela iniciativa privada.

Quando uma mercadoria ou serviço privado é ruim, simplesmente nos contentamos em nos lamentar em não ter dinheiro suficiente para pagar por algo de melhor qualidade, mas se for público, é sempre uma comprovação absoluta da ineficiência do Estado na economia. Mesmo sendo a BBC a maior tv do mundo, e a NASA o maior centro de pesquisa do mundo, o ITA brasileiro e as faculdades federais estão no topo da excelência na educação, a Petrobrás ser a maior empresa brasileira. Sem falar do fracasso neoliberal que está ainda agora arrastando as economias centrais dos EUA e UE.

E ainda quando afirmam que nossa carga tributária é tal, como 30%, é falso… porque sendo o imposto progressivo, a parcela maior desse imposto é pago pelos mais ricos. Se somos defensores da distribuição da renda, de uma sociedade mais igual, e no caso do Brasil é algo crônico porque estamos entre os países mais desiguais do mundo, somente através do imposto progressivo podemos garantir isso. Dessa forma, precisamos de muito imposto para realizar a distribuição da renda, arrancando de quem tem mais e redistribuindo para o resto da sociedade através de serviços públicos e assistência social.

Se alguém ainda assim se sente seduzido pela infabilidade da iniciativa privada, apesar dos recorrentes casos de recall, desastres ambientais, processos jurídicos, e etc. Pense seriamente em comparar o quanto você paga em uma faculdade privada e uma faculdade pública, a única razão de não termos hoje escolas públicas superiores as privadas, se deve a um longo descaso político, pois já tivemos uma escola pública muito superior a privada. Considere ainda pagar uma segurança privada ao invés do que você efetivamente paga pela pública. O estado, ao distribuir(progressivamente) o preço desses serviços por toda a sociedade, ele torna mais barato para cada um, e tanto mais barato quanto menos você ganha. Já o serviço privado ele cobra o mesmo para todos, milionários e miseráveis, é socialmente absurdo.

Nós não percebemos que cada fração de imposto sustenta toda a república, que vai do asfalto ao tribunal, do semáforo ao exército, do policial a todo aparato democrático(parlamento, eleições, direitos, etc). Se é verdade que a tributação é uma carga pesada, com certeza ela é ou devia ser para os mais ricos, a sobretaxação das maiores riquezas é a condição e o modo pelo qual a justiça social se aplica até na carga tributária.

Enquanto tudo ainda não estiver nas mãos dos próprios trabalhadores associados, o Estado é o melhor guardião do interesse comum dos trabalhadores, desde que esteja representando o trabalho, e não o capital.

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Written by ocommunard

27 de maio de 2010 at 3:08

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Neoliberalismo ou seria arqui-mercantilismo?

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O capitalismo não nasceu da “natureza humana”, como propaga o clero neoliberal, que se baseiam na sacro-santa ignorância histórica. O capitalismo surgira no renascimento comercial no fim do feudalismo que gerou um crescimento urbano(burgos). As cidades estados italianas inauguraram esse poder burguês emergente com a associação entre os burgos e o rei, isto é, o nascimento do Estado moderno. Essa associação desencadearia no absolutismo.

Todo o capitalismo nascente exigiu um Estado forte, grande e intervencionista. Esse fato deveria ser suficiente para demonstrar que o liberalismo em um país subdesenvolvido é um ato de colonização pura e simples, porque as potências que exigem o Estado mínimo dos subdesenvolvidos alcançaram o próprio desenvolvimento com o estado máximo.

Pois bem, daí temos duas contradições originais do discurso pró-capitalista neoliberal. O capitalismo nascera do Estado máximo e radicalmente anti-democrático(monarquia absoluta) e alcançara seu desenvolvimento através dele, e não apesar dele, ou muito menos contra ele. O paradoxo é que em países atrasados, a burguesia nativa é aliada da burguesia estrangeira, devendo os trabalhadores e classes médias se aliarem para realizar a “acumulação primitiva”(Marx) que a burguesia nativa, atrelada a burguesia internacional, é contra. Isso explica todo o desencadeamento do chamado socialismo real e a situação da China atual em seu capitalismo de Estado ou socialismo de mercado.

O problema é que o neoliberalismo é uma regressão. O liberalismo clássico surgira do conceito de “valor trabalho” e “mercado auto-regulante”. O socialismo, que é sua antítese herdeira, absorveu o conceito de “valor trabalho” como base da teoria da exploração, e refutou o “mercado auto-regulante” denunciando que o mercado é o contrário, autocontraditório, e sua prova são as crises. O chamado liberalismo neoclássico(economia marginalista ou economia vulgar), por um movimento puramente apologético, inverteram a herança, refutaram o “valor trabalho” e resgataram o “auto-equilíbrio capitalista”. O problema é que essas idéias jamais encontraram eco na realidade, e quando veio a Grande Depressão de 29 que varreu o mundo o político, ela caiu como um castelo de cartas.

Após a grande depressão veio toda forma de intervencionismo, o de direita(fascista), centro(keynesiano) e esquerda(socialista). Lenin chegou afirmar que na fase do “capitalismo monopolista de Estado” toda tarefa se concentrava na tomada do poder, já que a forma econômica do socialismo, segundo ele (o Estado na economia), estaria já realizada. Com a crise do petróleo, a hiperinflação, as crises fiscais, a seita neoliberal tomou espaço e dominou intocável até a crise de 2008.

O neoliberalismo é uma regressão vulgar, porque resgata o fetiche mercantilista do monetarismo, que a riqueza é uma expressão monetária, caindo na circularidade de ser a moeda a expressão da riqueza. O liberalismo clássico tem sua fundação no conceito de valor como advindo do trabalho, conceito esse que já na escola neoclássica, pai da escola neoliberal, já refutava (e falhara na crise de 1929). Toda ela é mercantilismo, com seu foco na balança comercial, no capital improdutivo/financeiro(mais uma vez o inverso do liberalismo clássico). Mesmo naquilo que defende ela é falha, ela defende o Estado mínimo, mas defente que a regulação da moeda permaneça com o Estado. Foi apenas nesse papel que a experiencia neoliberal teve êxito, isto é, no controle inflacionário. A única concessão a política econômica feita pelo neoliberalismo, todo o resto era mercado, e todo resta desencadeou a crise de 2008.

O grande trunfo do neoliberalismo é permitir que com seus equívocos as grandes potências tenham suas economias drenadas para o terceiro mundo. O país que mais recebe capitais no mundo hoje é um dos países menos neoliberais do mundo, a China. Os governos de esquerda na América Latina, que se afastaram o quanto puderam do neoliberalismo, suportaram melhor a crise que a UE e o EUA. O capitalismo americano vende marcas e especulações, uma economia com um dos piores indicadores do mundo, o que provavelmente provocará também migração das matrizes para os países produtores. Nossa chance é continuar refutando esse neomercantilismo e deixar que as potências sangrem no altar do mercado, até um outro cenário emergente se firmar no hemisfério sul do planeta.

Written by ocommunard

21 de maio de 2010 at 13:38

Publicado em Cultura

O Serra e o BC

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Serra fez uma declaração corajosa numa entrevista com a Miriam Leitão, em que afirmava que se eleito não teria uma relação de intocabilidade em relação ao BC. A bem da verdade ele não foi além de criticar a pretensa infabilidade do BC e sugeriu que se este estivesse errado sobre os juros, haveria uma decisão contrária direta do presidente Serra, algo não pronunciado, apenas sugerido. Ele foi corajoso ao criticar que os que tomam a decisão não foram eleitos, colocando em destaque o cerne da questão: O BC tem um poder político ilegítimo e apresenta a contradição entre a democracia(eleitos) e o mercado. O fato é que o BC foi privatizado da forma que poderia ser, a autonomia.

O que é ela, a autonomia do BC? Você cria uma equipe(Copom) com pessoas “do mercado”, no período FHC, e coloca na presidência outra pessoa do mercado. A bolsa de valores é a “sociedade civil” desse “governo bancocrático”, a função da mídia é avalisar esse governo para o resto da “ralé” que não participa desse regime, conferindo uma aura técnica em seus erros e uma aura sagrada em sua intocabilidade.

Se o Serra fosse um pouco mais corajoso e defendesse a redemocratização do BC, a abolição total e irrestrita da autonomia do BC, ele teria o meu voto. Porque sei que não há nenhum outro na esquerda que ousaria tanto. A centro-esquerda brasileira precisa pisar em ovos para se manter no poder por conta do sitiamento midiático permanente. Já o Serra sabe, a Mídia está na mão dele, pois se não estiver, com quem a mídia elitista vai contar? Que candidato viável ela terá? Aí, a única esperança da mídia-elite seria correr atrás de um novo Collor.

Written by ocommunard

17 de maio de 2010 at 13:31

Publicado em Economia

Democracia, Midiocracia e Internet

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# Genealogia dos Meios de Comunicação

Toda forma de expressão é um meio de comunicação, mas podemos falar de que o primeiro meio de comunicação social, diferente do natural-físico foi e continua sendo a palavra. Desta, a palavra falada foi o modo de transmissão cultural da chamada tradição oral. A palavra escrita, apesar de sua longa data, só se democratizaria com a invenção da imprensa de Gutenberg que viabilizara a universalização da alfabetização. Mas a grande invenção da imprensa foi o jornalismo(periódicos), só possível pelas condições da época: concentração urbana, desenvolvimento dos transportes e a própria produtividade da nova invenção.

Os primeiros jornais, representando a nova imprensa, foi engatinhando do século XVII até o XIX, aonde passou a ser protegida sua liberdade e ter aumentando sua influência. As transformações da sociedade, o Novo Mundo, a Reforma, a nova burguesia, todos estes geravam a nova demanda de notícias por toda Europa. Eram em seus primórdios armas políticas, sem nenhum apego aos valores da objetividade e imparcialidade, mas eram acessíveis a qualquer grupo que almejasse divulgar suas idéias. Tiveram um papel enorme nas transformações sociais.

No século XX inicia a segunda fase do jornalismo, sua fase propriamente industrial. Essa fase só vai encontrar seu ápice no fim do século XX, com a transformação em conglomerados transnacionais totalmente dedicados ao lucro. É no século XX que os meios de comunicação, agora uma “indústria cultural”, se tornam de orgãos progressistas em órgãos conservadores, socialmente ligados, econômica e politicamente, a sociedade capitalista. Essa nova “mídia massificada” se tornam a principal força do totalitarismo do início do século XX de um lado, e de outro difundindo os hábitos de consumo através de sua forma de financiamento, a propaganda comercial. A mídia eletrônica surge nesse período, com a TV e Rádio, que ajuda a se transformar em indústria, em grande capital. Surge o barão da mídia, o grande capitalista detentor dos meios de comunicação, o Cidadão Kane.

# Democracia vs Midiocracia

O grande capital concentrando os meios de comunicação espalhava o terror contra a ascensão da democracia social interna e a influência socialista externa(sobretudo, as revoluções); sustentaram e apoiaram a maioria dos golpes militares no contexto da Guerra Fria. Mas nesse cenário, ainda poderia se falar de alguma resistência profissional, a gota d’agua foi a degringolada soviética, a abertura econômica chinesa, Tatcher, Reagan, a queda do muro de Berlim, o neoliberalismo, o fim da história. Esses fatos desarticularam a esquerda e, paralelamente, o jornalismo progressista – mesmo sendo a maior parte da esquerda crítica as distorções do regime social-burocrático. Paradoxalmente, a força com que se foi aplicado o neoliberalismo na América Latina, seguido de seu fracaço monumental, provocara a maior ascensão da centro-esquerda latino-americana. Sem falar que fragilizara o próprio capitalismo central, que abdicara de suas conquistas sociais passadas para retornar ao capitalismo selvagem, o que em seguida os levariam a segunda maior crise do capitalismo em 2008 – cujo eles ainda sofrem os efeitos.

Não fora nem a ascensão nem a queda do bolchevismo que mais golpeara os trabalhadores, mais sua degeneração. Seu neojacobinismo necessário se contorcia em busca do socialismo europeu; a traição dos capitalistas russos impediam qualquer viabilidade de uma transição nacional-desenvolvimentista. Essas e outras confluências provocaram o bolchevismo, aonde a própria ascensão de Stalin era um diagnóstico trágico de suas limitações.

Hoje, uma mídia privada, num mundo nunca antes tão democrático, avança atento ao receituário neoliberal contra as democracias populares. Muitos deles são ex-esquerdistas, via de regra, o ultra direitista é sempre um ex-esquerdista,  que o diga Mussoline(fundador do totalitarismo do século XX), Lacerda(mentor intelectual do golpe de 64), FHC(porta voz do neoliberalismo brasileiro), etc. O verdadeiro embate é sobre a dominação da opinião pública, nas mídias os “formadores de opinião” serviam como ditadores de papel, enquanto nas democracias populares, a mobilização social passa a tormar um rumo autônomo, e a própria opinião pública difusa, através da internet, vai se descolando da influência da grande mídia capitalista.

O embate, nos limites da centro-esquerda, é entre populismo e elitismo, é a autoridade pessoal ou a soberania popular. A mídia capitalista sempre caminha até perceber que a democracia conspira contra ela, os ideólogos da direita já proclamam abertamente que é melhor uma autocracia liberal* do que uma democracia “iliberal”(isto é, social). A mídia é, politicamente, uma “arma da crítica”, um contra-poder, arma de pressão (e não um quarto poder) progressista ou conservadora. A negação da negação é a internet, ela rompe permanentemente com a escalada golpista, ao mesmo tempo desmoralizando politicamente(como no Brasil) e demolindo economicamente a mídia(como nos EUA). A internet é a nova fase da mídia, retorna a pluralidade da imprensa pré-capitalista, avançando e muito sobre o alcance planetário da mídia atual, suas redes sociais e sua organização demonstram seu caráter autenticamente social. Também retorna a verdadeira objetividade original, que não se trata de uma objetividade imparcial utilizada para camuflar suas tendências políticas, mas uma objetividade resultando da pluralidade autêntica e manifesta de todas as tendências políticas.

# Mídia, Internet e Democracia

Todas os arcanos da questão midiática se resolveria em um único ato, teoricamente, se instituída a democracia direta. É a divisão entre Estado e sociedade civil que cria suas “condições de possibilidades”, ela “medeia” efetivamente as relações entre a sociedade civil e o Estado, e o único “canal de comunicação” entre o poder e o povo. Esse pedágio da informação é resultado da alienação inerente a democracia indireta, ao voto. O voto não é mais do que a alienação de seu poder a outro, o que chamamos de representação. Obviamente, esse paradoxo não é solúvel antes de superada a barreira da jornada de trabalho, possibilitando a convivência possível entre vida política e econômica do trabalhador, ou melhor, em três momentos: o estudo, o trabalho e a mobilização.

A internet, como organismo civil contra-midiático, tem um vigor tecnológico muito mais sofisticado, permite toda e qualquer forma de comunicação. Enquanto, os aparelhos atuais dividem rádio, tv, celular e jornal. Além disso, o seu suporte, que é o computador, congrega uma multiplicidade de funcionalidades, oferecendo ainda uma flexibilidade tal que torna toda a tecnologia da nova tv digital obsoleta antes de nascer, não indo esta além da alta resolução e do tamanho em polegadas. A internet é essa mediação mais próxima possível, extrapolando o próprio conteito, isto é, o que é estar presente? Pois, alguem com que me comunico no Japão não estaria mais próximo de mim do que a pessoa que está na sala e nem sei se está lá?

Nunca houve tantas democracias espalhadas pelo mundo, no entanto, nunca se tornou tão visível os que a combatem, são os mesmos que acusam os governos democraticamente eleitos de não serem democráticos. A classe dominante e o império haviam se convencidos por seus ideólogos que a democracia e o capitalismo eram invencíveis e indissociáveis, não bastou 10 anos para vermos o fracasso na crise de 2008 e o avanço do socialismo através do voto. Quem se alçou como inimigo número um de todo esse processo já está deixando cair a máscara: os meios de comunicação privados. Sua crescente impotência política apenas acelera sua radicalização, que, por sua vez, a expõe a cada vez mais pessoas seus preconceito social e interesses de classe. Sua decadência impôe a eles a solução entre recuar ou avançar, muitas vezes recuam para desconstruir a imprensão de tendenciosidade, mas cada vez que recuam gera um estadalhaço nos fiéis seguidores, tendo que em seguida se exporem ainda mais. Seu objetivo final é construir algo que denominam democracia mais que só se rege por uma lei, o poder absoluto da mídia.

A midiocracia define seu poder como a sua própria arbitrariedade de acusar, condenar e julgar. Se atribuem o poder fiscalizador que cabe aos tribunais e demais órgãos públicos. Usurpam o papel do partido ao se assumirem como oposição. Se atribuem inclusive ao poder de condenar sem nenhum processo judicial, subtraindo de suas vítimas o direito a defesa, ao contraditório, e ao Estado de direito. O que querem é o poder que perdem a cada dia. Querem tudo e não fazem o que de fato deveriam fazer, informar a sociedade. Se atribuem um papel social que não permite o controle social, se atribuiem uma importância democrática cujo desmoralizam cotidianamente. E tudo que sua democracia oferece é a liberdade entre os diversas alternativas de se imbecilizar, alienar e se desinformar.

A democracia real, forjada no voto, no apoio popular, nas conquistas sociais, nos partidos, na militância, na participação cidadã, na mobilização social, em outras palavras, no povo, a essa democracia real chamam populista, mal disfarçando sua predileção por uma democracia elitista. O que nos conforta é saber que enquanto houver democracia haverá essa permanente pedagogia política, e através dela os trabalhadores caminharão solidamente em direção a sua emancipação. O grau de emancipação que alcançamos frente a libertação da tutelagem midiática de nos manipular bovinamente, já é, talvez, a maior vitória da Era Lula, ainda que o mérito seja totalmente dos trabalhadores, pois o governo agiu tímido e tardiamente na plataforma de democratização da mídia. Mas, como dizem, antes tarde do que nunca.

* BBC: Para especialista, ‘melhor democracia não significa melhor sociedade’ (título alternativo:  sobre o conceito de democracia burguesa)

Written by ocommunard

10 de maio de 2010 at 22:45

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O novo século XXI

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O seculo XX foi grandioso e terrível, revoluções, golpes, etc. Mas pareceu como nascimento e morte da utopia socialista, 1917-1989. A queda do socialismo burocrático empurrou todos um passo a direita. Comunistas se tornaram socialistas, socialistas se tornaram social-democratas, social-democratas se tornaram liberais, liberais se tornaram conservadores, e os conservadores se tornaram reacionários. Pois entre 1929(grande depressão) e 1989(queda da URSS), mesmo nas economias capitalistas vigorava o keynesianismo(semi-socialismo), já dizia Lenin que o “capitalismo monopolista de Estado” já reduzia o socialismo a luta pelo poder, pois a forma econômica já estava estabelecida. Muitos regimes socialistas(China e Vietnã, por exemplo), quando não cairam pura e simplesmente, passaram a se abrir mais para o mercado, dando a impressão que rumavam para o mesmo caminho, ainda que lentamente, para o capitalismo.

A soberba da vitória capitalista foi total e brutal, iniciara-se o período obscuro da contra-reforma neoliberal com a desestatização, desregulação, destributação, etc. A ação agora era atacar sindicatos, greves, seguridade social, movimento sociais, leis trabalhisas, etc. A esquerda se desorienta totalmente, e só permanece firme as que tem bases éticas ou religiosas. Na América Latina, a queda da URSS ocorre quase que paralelamente a redemocratização, enfraquecendo qualquer possibilidade de vitória real. Era então o “fim a história” de Fukuyama, todos caminhariam em direção a uma política democrática e uma economia capitalista, uma democracia liberal.

A crise que golpeou o socialismo do leste europeu e também o mundo foi responsabilizado pela mitigação do capital, agora, diziam os neoliberais, deve se destruir tudo que fora construído no século XX, mercantilizar tudo sob uma pretensa maior eficiência. No primeiro mundo isso fora realizado por Tatcher e Reagan, no entanto, o neoliberalismo nasce na América Latina na ditadura de Pinochet, apesar de suas loas sobre a associação intrínseca entre democracia e capitalismo.

Essa farra capitalista sangrou socialmente o proletariado, apesar de alcançar a promessa de estabilidade monetária(fim da inflação), não conseguira provocar a retomada do crescimento e muito menos diminuir a dívida pública, duas mazelas crônicas cujo qualquer forma de politica econômica fora responsabilizada. Segundo os neoliberais, o único papel político na economia era na manutenção monetária(anti-inflação), e foi apenas aí que o neoliberalismo teve êxito, todos os setores que passaram a depender apenas do mercado provocaram uma grave erosão social e por fim, a segunda maior crise do capitalismo em 2008. Se o século XX para o socialismo nascera em 1917 e morrera em 1989, o capitalismo recebia seu segundo maior golpe de toda sua história em apenas 80 anos. E o que é pior, fora atingido justamente o núcleo do capitalismo, e a ação política na economia, o intervencionismo econômico, foi quem conseguiu entancar ou mitigar ou mesmo apenas combater a crise.

O neoliberalismo apenas havia remedendado um dos mais requentados mandamentos capitalistas: privatizai os lucros e socializai os prejuízos. Países como o Brasil, onde havia sobrevivido a contra-reforma dois grandes bancos públicos, conseguira não só resistir melhor a crise, mais gerando 1 milhão de empregos no momento em que nos EUA e UE há uma crise social profunda por conta do desemprego. Com todo o processo de liberalização econômica, não foram os países mais captialistas quem mais cresceram, mas justamente o contrário, foram países como China e Vietnã, mesmo como Coréia do Sul aonde o Estado teve um papel marcante no desenvolmento. Japão, Europa e EUA, antes representantes do exitoso livre capitalismo, oscilavam entre a recessão e o baixo crescimento. No Brasil, onde coube a um partido social-democrata, traindo sua ideologia, aplicar o neoliberalismo, só alcaçara uma frágil estabilidade monetária, sem gerar o desenvolvimento prometido e muito menos a diminuição da dívida através das privatizaçãos, pelo contrário, a dívida pública se multiplicara e o país quebrara nada menos do que 3 vezes.

Com a ascensão das democracias populares na América Latina, esse subcontinente passa a atacar a contra-reforma neoliberal e graças a isso começa a se expandir economicamente acima dos níveis do centro capitalista, conseguem inclusive resistir melhor a crise. O que vemos hoje é uma sufocante e incontestável hegemonia capitalista-neoliberal, sob uma realidade totalmente contrastante a essa distopia. A globalização só beneficiara os países com maior socialização econômica, a ponto de ser, justamente nos EUA, o maior contingente do movimento anti-globalização. A vitória do capitalismo precipitou as economias mais capitalistas a uma autofagia que estão politicamente desarmados para resolver, pois a esquerda européia e americana está longe de assumir um papel vigoroso contra o neoliberalismo. No entanto, a crise de 1929 só caíra nas mãos do totalitarismo graças as derrotas da esquerda, naquela época fora as vacilações da esquerda no poder que permitira o avanço do reacionarismo fascista, com o componente étnico sendo alimentado pelo desemprego que gerava concorrência no mercado de trabalho entre imigrantes e nativos, acusando os primeiros de roubarem o seu trabalho. A história provou que se os socialistas hesitarem em um momento como este, quem avança sobre o poder são os facistas, a extrema-direita.

No entanto, nasce na América Latina uma primavera política cujo parece delinear no horizonte um novo socialismo, intrinsicamente democrático, popular e original. A China, com seu desenvolvimento vultoso, assinala para a esquerda o caminho: o socialismo de mercado. Se para uns o socialismo de mercado foi um golpe contra o socialismo, hoje vemos que não. Sem dúvida esse “misto” é o norte. O que na verdade era como se encontrava o “ocidente” antes da queda da URSS que provocaria fanaticamente a precipitação no capitalismo selvagem. Marx já dizia que seria através do desenvolvimento das forças produtivas que se realizaria a transição ao novo modo de produção capitalista, é nessa perspectiva que se baseia a estratégia dos comunistas chineses, e é com o socialismo de mercado, aonde há espaço para o capital, a cooperativa e o Estado serem aplicados aonde melhor retornem desenvolvimento, que podemos vislumbrar o caminho da reorganização ideológica das esquerdas. Sustentado ainda pela transformação da China em superpotência.

Mas é importante que todo esse processo, ainda que beneficie diretamente o capital produtivo, e indiretamente a toda classe capitalistas através do crescimento econômico, seja liderada pela classe trabalhadora. A manutenção desse poder sob a classe trabalhadora, o que significa sem meias palavras, a classe trabalhadora armada, em condições permanentes de resistir a um golpe, é fundamental. Lembremos que o trabalhismo no Brasil era justamente um processo parecido, mas os trabalhadores estavam desarmados, nas mãos de um exército elitizado. Esse armamento da classe trabalhadora pode ter muitas alternativas, desde a próprio achatamento hierárquico no exército, aproximando do comando aqueles provenientes da classe trabalhadora, até mesmo, no outro extremo, o armamento ostensivo dos sindicatos. Pois foram apenas os sindicatos armados pelo governo que conseguiram resistir e derrotar as tropas de Franco na guerra civil espanhola. Enquanto a classe trabalhadora permanecer desarmada, seja pela “crítica das armas” ou pela “arma da crítica”(aqui a internet é a saída, o que exige do governo intensa socialização e/ou barateamento da banda larga e dos computadores), estaremos permanentemente sob o fio da navalha e impossibilitados de alcançar maiores avanços.

Written by ocommunard

8 de maio de 2010 at 15:30

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