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Políticas, economias e ideologias

Haiti e o julgamento da história

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A alguns dias um religioso americano declarou, frente a catastrofe humana que ocorreu no Haiti, que os haitianos haviam feito um pacto com o demônio para se libertarem da França, e por isso o país é sacodido por tragédias e mais tragédias: pobreza, ditaduras, instabilidades, guerra civil, etc. A esse infame e calhorda homem de deus, só podemos lamentar o grau de estupidez a que esse império americano alcançou a ponto de dar voz a essa cretinice revoltante frente a uma tragédia humana que talvez não tenha pararelo na história. Mas a história, em seu juízo implacável, mostra bem a face de que demônio pairou sobre esse pobre país.

Revisitando a história

Haiti foi o primeiro país do mundo moderno a abolir a escravidão negra através de uma insurgência de negros contra a dominação francesa em 1803. Esse grande feito lhe custou um grande preço de sangue pelos que não queriam que o exemplo se expandisse. Já em 1804 os escravagistas europeus e americanos impuseram um bloqueio comercial por 60 anos, iniciando assim o longo processo de asfixiamento econômico do haiti. Em seguida, cercado pelas tropas francesas, aceitou pagar uma indenização de 150 milhões de francos, depois reduzida para 90 milhões, o suficiente para arrasar ainda mais a já pobre economia haitiana. Em 1814 a espanha reocupa a parte oriental(República Dominicana) dividindo assim o país. Houve ainda uma reunificação efêmera entre 1822 a 1844, que terminou com a independêncida da República Dominicana.

Do fim do século XIX ao começo do século XX nesse clima de esgotamento economico houve muita instabilidade politica, com 16 governantes depostos. EUA ocupa o Haiti entre 1915 a 1934, alegando proteger interesses próprios! Em 1957 a 1971, o famigerado Papa Doc, apoiado pelos americanos no contexto da Guerra Fria, impõe uma das mais hediondas e sanguinolentas ditaduras da história recente. Em 1986 morre, sendo sucedido pelo filho, o Baby Doc, que sob crescentes protestos populares foge para França.

O país mais uma vez se contorce em instabilidades políticas, golpes, fraudes, até quem em 1990 é eleito democraticamente um padre ligado a Teologia da Libertação, Jean Bertrand Aristide. Parecia naquele momento a redenção do país. Mas um ano depois sofre um golpe militar, se exilando nos EUA. ONU e OEA impõe sansões econômicas para pressionar o retorno de Aristide, mas sob um país já economicamente arrasado A pressão internacional só tem efeito em 1994(no governo Clinton) com uma força militar multinacional para reempossar Aristide.

Aristide se reelege em 2000, há acusações de fradues por parte da oposição, em 2004 setores afastados do exercito, ligado ao ditador Papa Doc(tontons macoutes), organizam um levante que vai dominando o norte do país. Começa se organizar uma resistência armada na capital do país. Mas antes, os EUA, do governo Bush, intervêem tranferindo Jean Bertrande Aristide, contra a própria vontade, para um exílio na Afríca do Sul. Fato pouquíssimo divulgado pela imprensa. O presidente do Supremo Tribunal é empossado, e uma força multinacional militar liderada pelo Brasil (governo Lula), passa a trabalhar pela estabilização do país.

Tribunal da História

E é nesse contexto, que ocorre a calamidade natural do terremoto que destruiu o país. Não nos enganemos, a grande calamidade pelo qual sofre o país não é natural, pois nos lembremos bem da devastação que provocou nos EUA o furacão katrina, e mesmo assim tudo já foi construído. Há na diferença desses dois contexto o grande abismo entre um país imensamente rico e um imensamente pobre. E é chocante as imagens em que vemos as pessoas comendo barro para matar a fome. Mas sobretudo, nos lembremos quem foram aqueles que em toda a história do Haiti independente, vem asfixiando, destruíndo e massacrando a economia do país. E quem foi que apoiou o período mais sangrento da história do país governado pelo Papa Doc, cujo seus asseclas foram responsáveis pela tentativa de golpe em 2004 pelo qual mergulhou o país em mais uma onda de conturbação política.

A dívida de sangue pelo qual mergulhou o país só tem como devedor toda a Europa e EUA. No século XX, sem dúvida, foi o estado americano que teve suas mãos sujas do sangue haitiano, com suas invasões, intervenções e o apoio ao sanguinário Papa Doc. E o que esses criminosos fazem é desmoralizar um país mergulhado numa calamidade cujo são totalmente responsáveis. Se houve um “demônio” na história haitiana foi o imperialismo europeu e americano, sobretudo o último. Esse “demônio” não precisou de um pacto para transformar esse país em uma calamidade permanente.

Hoje, no governo americano, temos um presidente negro, que por sua formação sugeriria um certo conhecimento histórico. Ou talvez não, tudo que leia não vá além do que a velha ideologia de dominação americana: “o destino manifesto”, ou simplesmente tenha se curvado pela conveniência. Esse presidente negro nada tem a ver com os presidentes negros do Haiti, o primeiro lançaram na história a certeza de que a liberdade não tem preço, o segundo a vende por qualquer oportunismo. Obama já traiu, e mesmo que amanhã defenda a revolução socialista internacional, não terá mais como resgatar tudo destruiu por sua traição, sobretudo no que concerne com o compromisso de paz e com a relação respeitosa com os governos de esquerda latinoamericanos.

A culpa com certeza não é do demônio, nem de deus, nem dos haitianos… se os meios de comunicação vendidos acobertam os culpados com uma nuvem de fraudes, o culpado se desnuda na história. Mas ainda que o culpado esteja ao norte, a responsabilidade, meus caros, é de todos. Ajudemos os nossos camaradas haitianos, para demonstrarmos aos asseclas da política imperialista e a nós mesmos que a solidariedade internacional é mais forte do que a exploração entre países.

Um pequeno esforço para uma grande ajuda

No mundo hoje há algo em torno de 3 bilhões de trabalhadores assalariados, se todos nós aceitássemos descontar em folha apenas 1 euro, não mais que isso… pelo tempo necessário para reconstrução do Haiti, teríamos uma ajuda mensal de 3 bilhões de euro para aquele povo. O que seria uma ajuda maior do que qualquer governo ofereceu, e maior do que a soma de todos os governos podem oferecer. Ou se aceitássemos mais do que 1 euro, pagar 1% do que ganhamos em folha. Poderíamos arrecadar muito mais, talvez chegar aos 10 bilhões. Faríamos história com a solidariedade dos trabalhadores a um país consumido por um calamidade natural e por um passado de agressões sofridas por potências estrangeiras. Esses valores são ínfimos para cada um de nós, não nos fariam falta absolutamente, mas pelo conjunto de seu volume, seria uma ajuda monumental. Os recursos seriam remanejados diretamente para uma conta bancária da ONU. O desconto em folha de pagamento garantiria a constância que as doações ocasionais não ofereceriam.
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Written by ocommunard

18 de janeiro de 2010 às 13:38

Publicado em Política

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