Communard

Políticas, economias e ideologias

Digressões sobre a dialética do debate

leave a comment »

O socialismo do século XX muito se inspirou no ideal republicano de “público e gratuito” que conserva todas as ilusões deste. Coube aos liberais burgueses a acusação de que o “público não é gratuito”, pois a sociedade paga através de tributos. O comunismo de Marx e Engels já desvelava essa ilusão, bastava saber que aonde há trabalho há valor, portanto, não há gratuidade. E Marx sempre foi partidário de tributação direta(tarifação) do que indireta(impostos), pois isso tornava mais transparente aos trabalhadores quanto pagavam. Nesse blog venho a muito tempo defendendo essa solução.

Os neoliberais inveteradamente propagam o terrorismo anti-tributário, tentando alertar a população cada centavo a mais que ela paga por cada tributo anexo ao consumo. Coloquemos então, de lado a lado, quanto se pagaria se o serviço fosse privado e quanto se paga pelo serviço público. Porque quando temos um escola “pública e gratuita”, estamos pagando através de impostos. Isso vale para todas as instituições e obras públicas: faculdades, estradas, praças, governos, tribunais, hospitais, etc. A questão é que quando é público, sempre é demasiado caro porque serve por leis da política, e quando é privado, não – porque o preço é sempre resultado das leis da economia.

Coloquemos então quanto custa um universitário público custeado pela sociedade, e quanto custa um universitário privado, custeado pelo próprio. O fato é o princípio do pagamento pessoal e do pagamento social, por princípio, é sempre mais barato a forma coletiva de pagamento, como qualquer forma não intermediária ou “de atacado”, ou mesmo confirmada pelas cooperativas de consumo. O fato é que o caro, o imposto, se apresentado a sociedade com pesquisas concretas, se mostrará o contrário da propaganda.

A contra-propaganda

A esquerda deve perceber essa resposta como método. Todas as aspirações burguesas são contraditórias, pois são expressões de uma sociedade contraditória, se baseiam em argumentações não-científicas, ideológicas e dependem do silêncio absoluto da réplica. É nesse ponto que deve se aprofundar o discurso da esquerda, o de se apropriar do argumento provando com os fatos que o argumento confirma o inveso que quer provar. A direita frequentemente acusa a esquerda de “sentimentalismo engênuo” em nome do “tecnicismo realista”, mas nada é mais falso e facilmente refutado, bastando apenas uma breve pesquisa histórica para desconstruir essa discriminação ideológica.

O candidato e o discurso

Assim, o candidato da esquerda tem de ter em seu discurso duas linhas argumentativas: positiva e opositiva. A linha positiva é a pragmática-ideológica. Como ideológica destaca os princípios que os rege, de uma sociedade socialmente justa, dos elementos ético-estéticos de sua política, a ousadia, o confronto, a libertação, a luta, a igualdade, a modernização, etc. Em suma, a inspiração. Como pragmática estão as linhas do programa que devem concretizar as inspirações ideológicas, como testificação política dos compromissos da candidatura. Este é o método da confrontação, pois avança sobre o candidato opositor.

Na linha opositiva estaria propriamente o método da expropriação ideológica, que é o método da subversão. Isto é, se apropria e inverte o significado apropriado, e joga contra o emissor. Nesse ponto o que vale é empírico-racional, ou mesmo o chamado materialismo dialético histórico. Se trata de tem um domínio profundo da história como conteúdo argumentativo realista. Toda a argumentação conservadora se constrói sobre um pretenso cinismo realista em que acusa as reinvindicações esquerdistas como fantasiosas. O método aqui é justamente de, no geral, desconstruir essa ilusão provando que a história comprova não que as reinvindicações são fantasiosas, mas que são os motores das transformações… pois a história é no geral o resultado das transformações geradas pelas reinvindicações passadas.

A pressuposição de todo esse texto é simples: a história está do nosso lado. Assim, a direita não lhe resta outra saída a não ser apelar para a ignorância e o preconceito em meio de uma sociedade com tanto acesso a informação e a formação. É totalmente temerário que um candidato de esquerda não saiba responder a provocações como a “queda do muro de Berlim”, a suposta falta de democracia em Cuba, a suposta vitória inconteste do capitalismo após o fim da URSS. Todos esses argumentos que primam pelo “efeito” e ignoram a história real, são facilmente desconstruídos por um candidato que saiba o que efetivamete ocorreu nessas ocasiões e do resultado trágico que a privatização generalizada gerou aonde ela foi aplicada – inclusive na América Latina.

A confrontação e subversão, quando bem trabalhadas pela esquerda, são táticas fundamentais no debate, mas se resumem apenas em um candidato com profundo conhecimento histórico. Nesse ponto, a confrontação e a subversão apenas momentos de um discurso profundamente histórico, com perspectiva e dimensão histórica. Em oposição a mesquinhez tacanha, ignorante e preconceituosa da apelação ao egoísmo esnobe que representa o discurso da direita quando são plenamente desmascarados.

Anúncios

Written by ocommunard

29 de novembro de 2009 às 22:32

Publicado em Cultura, Reflexão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: