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As eleições de 2010 no Brasil : avançar ou recuar

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A democracia e a luta de classes

Marx afirmava, para surpressa dos leninistas, que o sufrágio universal(democracia), colocava em marcha a luta de classes. E o que seria a democracia senão a luta de classes e facções de classes, através de partidos, pelo poder? Alguns criticam a fragilidade partidária brasileira desconhecendo a nossa inexperiência democrática, que poucas vezes, como agora, saboreamos. Essa inexperiência democrática de nossa história, como talvez também da América Latina, consolidou meios de comunicação conservadores e um insignificante expressão comunicativa dos setores ligados aos trabalhadores. Aliás, é realmente revoltante que os mesmos meios de comunicação que apoiaram abertamente o golpe de 64 – cujo proclamaram de ‘revolução democrática’, venham hoje acusar os governos esquerdistas eleitos democraticamente de não serem democráticos.

Para elite restou o seu absolutismo midiático onde ataca agressivamente com a leviandade mais torpe e permanente o governo de esquerda. Se de um lado mostra a debilidade do governo de esquerda em criar meios de comunicação que representem os trabalhadores, por outro lado os abusos da mídia reacionária nos serve como suicídio de sua própria credibilidade. Imprensa é partidária, nasceu dos partidos, mas no Brasil o monopólio da elite se reveste de uma falsa neutralidade para retirar qualquer limites a seus abusos ideológicos, ao seu antijornalismo, que vai desde ignorar a versao da outra parte(jornalismo elementar), até chegando a injúria pura e simples. Basta lembrarmos que a principal arma do fascismo não era a repressão, era a imprensa, era Goebels.

O último lamaçal da mídia conservadora foi repercutir que Lula seria um estuprador, veja a que nível chegou a injúria!  A denúncia vinha de um ex-petista e ex-psol(partido de oposição ao PT), colunista de um jornal conservador, que com certeza ficou rico por publicar a injúria. O caluniador só lembrou agora da estória que teria ocorrido na década de 70. É coincidência que estamos um ano antes da eleição? E os jornais publicaram mesmo tendo todas as outras testemunhas desmintido o ‘caluniaísta’.

A grande batalha em 2010

Tudo isso dito é apenas para frisarmos o fundamental: 2010 é a inflexão máxima de nossa crescente luta de classes. Infelizmente mais uma vez a esquerda subestima a elite, suas permanentes investidas de desmoralização do governo, ignora sua total articulação em prol do candidato opositor, ignora que toda a grande mídia brasileira é um partido de oposição e que não tem mais nenhum escrúpulo em se apresentar assim. Responder uma articulação dessa magnitude apenas com: aliança com PMDB, fé na transferência de votos de Lula e comparação de mandatos, é brincar com o futuro do país. Será que é o PT que precisa do PMDB ou o contrário? Será que um tempo maior, que por exemplo o PMDB tinha em 89, garantiria alguma coisa? Aprender com a história!

Lula sem dúvida foi uma transição, ele desconstruiu a fábula tucana, tanto no preconceito tecnocrata, pois fez um governo mil vezes mais eficiente provando que política se faz com decisão política, e não com decisão técnica; quanto no preconceito neoliberal, porque provou que o “intervencionismo econômico”, e não o “liberalismo econômico”, que é a estratégia fundamental de desenvolvimento social e econômico – apesar de que China já seria exemplo suficiente. E provou também que assistencialismo social(bolsa família) provoca desenvolvimento econômico(mercado interno).

A candidatura Dilma será uma reedição da polarização de 1989, essa é a perspectiva fundamental, com o envolvimento social que só víamos naquela ocasião. Do lado da direita isso ocorre descaradamente, mas a esquerda permanece se neutralizando. É urgente a reaproximação com os movimentos sociais, os artistas, os desportistas, a extrema-esquerda, as universidades, intelectuais, lideranças, etc. Não aceitemos em nenhuma hipótese subestimar esse grande momento de aprofundamento ou retrocesso de um grande projeto social efetivo. Pois a batalha não é eleger Dilma, é eleger um projeto, e isso depende de um parlamento hegemonicamente de esquerda. Todos os desgastes e frustrações do governo Lula adveio da falta de base parlamentar e a necessidade de se compor com setores de centro e direita. Essa campanha tem de assumir um viés político-ideológico, e não um viés pessoal. Só assim, se garantirá não só que o projeto continue, mas sobretudo, que se aprofunde.

A direita sabe que se Dilma vencer não pesará mais sobre ela o preconceito social que estavam sempre a se aproveitar contra o Lula. Sabe que ela governará agora com recursos do pré-sal, com os programas sociais e desenvolvimentistas todos avançandos, com uma possível grande base parlamentar que dizimará o neoliberalismo do país. Isso significa que Dilma é ao menos 8 anos de governo de esquerda, que se o Lula conseguiu um êxito admirável herdando um país em crise econômica e social, e entregando um dos países mais admirados e bem sucedidos do mundo. Quanto mais a Dilma! E mais, a Dilma tem um diferencial com relação ao Lula, o que o próprio Lula reconheceu, ela tem mais firmeza ideológica que ele. Isso significa que ela não hesitará, como Lula fez várias vezes, nas transformações sociais e em enfrentar os grandes desafios do país.

Mais uma vez é fundamental frisar, Dilma tem todos os méritos para a candidatura, mas a candidatura da esquerda tem de ser conquistada mediante prévias internas, onde ela pode ou não ser confirmada. Se a própria Dilma exigir isso, não só já entrará na disputa com grande apoio em razão de suas atitude, somado ao já relevante apoio de Lula, como ainda agregará ainda mais a sua imagem a sua fidelidade a democracia – o que seria uma arma poderosa nos debates contra a oposição com seu cinismo pseudo-democrático. Indiretamente desmoralizando as outras candidaturas não-democráticas que não tiveram prévias. Sobretudo a do PSDB que provavelmente será determinada na tapetão e no tratoramento, através dos caciques tucanos.

A questão crucial é que temos que testar a candidatura em palanque, em debates, em situações reais de campanha, antes de lançá-la candidata do projeto. Cada partido com sua prévia, e por fim, uma prévia entre interpartidária da coligação. As prévias, além de oferecer uma candidatura mais consistente – pois foi testada, garantiria ainda a unidade do bloco. Dessa forma, a “questão Ciro” se resolveria, daria ele uma “saída à francesa”, e poderia se acalmar setores afoitos do PMDB que querem candidaturas próprias. A grande questão não é qual o candidato da coligação, mas a vitória da coligação. É assim que deve se mover o debate caso a coligação de centro-esquerda tiver de fato algum compromisso com a nação, e não meros interesses eleitorais.

A varíavel Ciro?

Ciro é a variável pessoal com maior impacto nesse jogo político. Vejamos… Se Ciro se candidatar ao governo de Estado de São Paulo, forçará Serra a abandonar o pleito federal, pois não trocaria o certo pelo duvidoso. Pois Ciro é a única pessoa do país que conseguiria derrotar a hegemonia paulista do PSDB. Tanto porque tem um excelente trânsito no tucanato por ser um ex-tucano e ter também bom trânsito com o DEM, quanto por ter o discurso mais bem articulado para desconstruir a farsa tucana de bom gestor. Além disso, ele teria do seu lado setores tucanos federais, pois o Aécio não seria seu opositor, dessa forma enfraquecendo a oposição tucana em São Paulo. Por outro lado, condensaria ainda o apoio de toda a esquerda unida no plano federal. Sem falar que o PSB apoiaria o PDSB caso Ciro não saísse eleito. Poderia aínda se articular com o PPS por ser também um ex-PPS. Em suma, Ciro em São Paulo seria uma real chance de derrota do ninho tucano, além de um fortalecimento dele próprio com a articulação de sua candidatura com o pleito federal. Ele fortaleceria a esquerda, enfraqueceria a direita e ainda governaria o maior Estado do país no melhor momento do país.

Vejamos o cenário oposto. Ele sai candidato a presidência, o que levaria Serra ao pleito federal. Com certeza quando começasse a crescer renasceria a espectro do “novo Collor”, que sempre o derrotou. Não conseguiria atrair os setores esquerdistas, pois esse prefeririam a Dilma por seu histórico de ex-guerrilheira, quanto também não atrairia os setores conservadores, que já elegeram Serra. Assim, permaneceria dentro de setores desarticulados que só veriam nele a oratória. O máximo que ele poderia oferecer é um consistente ataque a candidatura tucana, em favor da candidatura petista, que não se revestiria em seu favor. Mas no entanto, veria, mais cedo ou mais tarde, que teria que concorrer com a candidatura de Dilma pois estaria disputando os mesmos votos. Assim, acabaria por enfraquecer o próprio campo de que faz parte. Sua candidatura federal racharia a esquerda em todos os estados, até mesmo no Ceará onde o PT  se desligaria da sucessão do PSB  com uma ditadura própria.

Mas cada dia parece fica mais claro que Ciro está caindo na infantil provocação de Serra de que ele “só faz o que o Lula quer”. Mas o que quer o Lula? Que ele saia candidato a governado de São Paulo. Com isso Serra quer constranger ao Ciro a assumir sua candidatura presidencial, já dando a mensagem que o chamará de “pau mandado” caso aceite ser governador de São Paulo. Ou será que Serra está realmente interessado que Ciro seja independente e saia candidato à presidência, para que Ciro ganhe dele? Toda a direita está temerosa de Ciro sair em São Paulo, porque seja qual for o resultado, irá desarticular a direita. Mais uma vez repito, porque Serra faz questão de que Ciro seja candidato à presidente? Cabe ao Ciro pensar se fazendo o que seu adversário quer, estaria em verdade ajudando a sucessão da esquerda e a sua própria candidatura.

Como disse Dirceu, o principal argumento que sustentava legitimamente a candidatura presidencial de Ciro, era ele estar a frente de Dilma. No último CNT/Sensus, esse argumento caiu. A prova de que ele cedo ou tarde passaria a desestabilizar a candidatura de Dilma está no próprio comentário dessa pesquisa, que fez questão de desqualificar – mesmo sabendo que a desqualificação dessa pesquisa apenas beneficiaria Serra, que havia caído substancialmente na pesquisa. Se Ciro for realmente um político inteligente e engajado na luta política do campo da esquerda, um efetivo representante das transformações que vivemos, não poderá tomar outra decisão senão a candidatura paulista. Mas se for apenas um oportunista irresponsável e ególatra, persistirá na sua campanha presidencial.

Em 2010 perceberemos de que material é feito o sr. Ciro Gomes, de grandeza ou de baixeza. Infelizmente os fatos recentes, como nas eleições para prefeitura em Fortaleza, depõem contra ele. Mas ele agora tem mais uma vez a chance de se redimir… veremos como se sairá.

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Written by ocommunard

29 de novembro de 2009 às 16:13

Publicado em Ideologia, Política

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