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Políticas, economias e ideologias

Uma outra mídia é possível?

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Não é preciso dizer muita coisa sobre nossa flagrante situação de sitiamento midiático e de como é supreendente a resistência dos trabalhadores brasileiros. Mas aqui busco apelar a toda sociedade organizada, a todos órgãos de esquerda, para unirmos forças em favor de uma alternativa midiática vinculada ao trabalho, ao invés do capital. O poder cada vez mais escandalosamente abusivo dos grandes meios de comunicação, eles mesmos um grande capital, nos impõe a urgência de uma alternativa comunicativa que sirva aos trabalhadores, como defesa e ataque, como luta ideológica(crítico) e isenção jornalística(desalienador).

Uma grande mídia pública é sem dúvida importante, mas tal órgão está fadado a uma obrigatória neutralidade enquanto entidade pública, escrúpulo que a mídia capitalista está longe de ter e amordaça a crítica necessária contra os abusos da mídia privada. Por outro lado, poderia ainda sofrer interferências de um futuro governo conservador, que unido a mídia privada, se transformaria em um puro totalitarismo (os regimes fascistas, principalmente o nazista, se baseava maciçamente em propaganda, isto é,  no cerco midiático).

Uma mídia social não só é absolutamente possível como é urgentemente necessária. Como!? Eis minha tese:

1. Financiamento:

1.1 Financiado pela esquerda:Primeiro, seu financiamento deve vir de uma taxação primeiramente de todos os órgãos de esquerda: movimentos sociais, partidos de esquerda, faculdades, ongs, comunidades, etc. Nesse modo ela se define como mídia de esquerda.

1.2 Financiado por trabalhadores: Depois, quando essa mídia já tiver o que mostrar aos trabalhadores, seu financiamento passará  a vir de uma mensalidade voluntária cobrada em folha, assim, necessariamente vinculada ao trabalhador. Correspondendo apenas 1% do valor do salário mínimo atual, dessa forma, caminhando com o salário mínimo do país. Em escala esse valor é fenomenal. O mérito desse financiamento é criar com os trabalhadores os mesmos vínculos existentes entre a mídia capitalista e a classe capitalista, esse conceito é o que chamo de mídia proletária. Todos os associados teriam poder de votar na grade de programação da tv. A esse conceito revolucionário chamo de mídia democrática, isto é, participativa. Esse segundo conceito é o argumento mais forte em favor da mídia social, e a que mais radicalmente irá destacar a sua originalidade. Ainda que a verdadeira revolução esteja no conceito de mídia social, vinculada ao trabalhador. Futuramente, se o poder econômico dessa mídia tornar viável, se poderá criar uma contribuição alternativa que taxe 1% do salário do trabalhador(ao invés do salário mínimo). Esse outro pagamento financiaria a estrutura de acesso de televisão por cabo ou satélite.

1.3 Retrofinanciamento cooperativo:  economicamente se organizará como uma cooperativa aberta. Como o trabalhador aqui é na prática um acionista, de onde o desenvolvimento da empresa o beneficia, o fazendo se envolver nesse desenvolvimento, parte de suas reservas de renda se reverteriam no fundo de investimento da cooperativa midiática – ao invés de aplicar em poupança ou outra forma financeira. Sobre a divisão entre custo, renda e investimento, caberia a uma assembléia tripartite: esquerda, trabalhadores e cooperados (já que como cooperativa aberta, ela receberia o financiamento externo da esquerda e dos trabalhadores). Assim, essa grande mídia teria três fontes: a esquerda(representação dos trabalhadores), os trabalhadores e os cooperados(trabalhadores da própria mídia, ao mesmo tempo, representantes ideológicos dos trabalhadores).

2. Estrutura

2.1 Fase 1: internet. Primeiramente deve se partir da internet, como sendo uma das plataformas mais acessíveis e menos custosas. Essa fase deve priorizar a experimentação, para consolidar um modelo que seguirá na fase posterior. Se resumirá a um website.

2.2 Fase 2: produção multimídia. Aqui o site deverá começa a produzir em audio e vídeo, mas seu meio ainda será a internet. Nesse ponto, se ensaiará a passagem para a estrutura fora da internet.

2.3 Fase 3: transição. Aqui a mídia já teria condições de comprar faixas de horários das tvs abertas.  Essas compras de faixa de horário devem ter já a proposta inovadora e por outro lado, propagar o futuro complexo de mídia social, isto é, anunciar a criação da futura tv – apresentando seu caráter enraizado socialmente com os trabalhadores.

2.4 Tv. Formação da tv, meta máxima e mais complexa em termos de financiamento.

3. Conteúdo

3.1 Multiplicidade ideológica. A formação da mídia através de uma representação heterogênea dos trabalhadores,  isto é, toda a esquerda, serviria para garantir um livre transito de idéias de esquerda, e através de seu livre debate, promover seu desenvolvimento. A importância desse embate de idéias não é apenas estratégico, isto é, contribuir intelectualmente com as lutas políticas dos trabalhadores, mas servirá também para enraizar um perfil polisemântico a esquerda, oferecendo aos trabalhadores uma melhore representatividade em suas nuances, sem perder a unidade fundamental de ser uma mídia da esquerda.

3.2 Representatividade pragmática. A possibilidade dos trabalhadores associados de eleger a grade de programação tem caráter duplo: primeiro oferecer uma característica totalmente inovadora, portanto, atrante, mostrando na prática a sua essência totalmente diferente de qualquer outra mídia. Segundo, ofereceria um mecanismo mais inteligente de audiência aonde não se mobiliza pela imediação(ibope), mas a mediação. A eleição do conteúdo da tv oferece uma escolha refletida e debatida ao invés do simples mudar de canal em que se registra o Ibope, cabendo a mídia social viabilizar a qualidade e atratividade do conteúdo demandado. Assim, os trabalhadores da mídia se deterão apenas em dar forma e qualidade ao conteúdo eleito. Sabendo que a audiência será apenas o resultado da eficácia da mídia em apresentar formalmente a demanda do conteúdo. O conteúdo é de responsabilidade social, a forma seria de responsabilidade midiática.

4 Forma

4.1 Tipos. É importante que uma mídia voltada para a conscientização deva ter um tipo de conteúdo que seja coerente com tal objetivo. Tal tipo seria o: jornalismo, entrevistas e documentários. Por mais tentador que possa ser investir em ficções ou entretenimento, a mídia social perderá seu foco conscientizador se caso se afastar dessa tipologia. Os músicos e artistas em gerais, podem ter espaço, desde que dentro do enfoque jornalístico, documental ou dialógico(entrevistas).

4.2 Enfoques. A mídia social também não pode perder certos enfoques que a dará sua identidade através de suas diferenças. A primeira é a contra-informação, denunciar permanentemente o trabalho de desinformação da mídia burguesa. A segunda é a contra-ideologia, apresentar a perspectiva positiva das greves, movimentos sociais, políticas, sempre do ponto de vista proletário. A terceira é a contra-alienação, buscando formar uma mentalidade crítica e formentar a cultura. Esses três pontos formarão uma identidade forte e inalcançável pela mídia privada.

5 Organização

5.1 Confederação. A primeira forma da união dos trabalhadores por uma mídia social será a de uma confederação. Essa forma apenas reunirá as forças midiáticas da esquerda que já existem, de modo a criar uma representação alternativa a SIP(conservadora e dominanda pelo grande capital). O papel dessa confederação é apenas fortalecer as mídias de esquerda de modo a acumular forças através de uma melhor articulação.

5.2 Centralização. O segundo momento seria a criação de uma estrutura centralizada, que represente uma grande mídia, que por sua vez ao invés de ser fortalecida por suas filiais, passaria a fortalecer suas filiais através de ser fortalecimento. Assim, se criaria uma grande mídia de esquerda, que representaria uma central aonde as outras mídias de esquerda menores poderia se relacionar jornalisticamente ou comercialmente.

5.3 Federação. O último passo é a federação, aonde a divisão entre união e federados, pela própria prática, já estará bem institucionalizado.

Observações
A atratividade dessa proposta tem muitos pontos. O primeiro e mais destacado é a sua democracia, que permitiria um debate sazonal do conteúdo da tv, onde os trabalhadores associados votariam em seu conteúdo(ou propostas de conteúdo). Essa característica seria a mais impressionante de todas.

Do ponto de vista da esquerda, seria uma grande oportunidade de poder apresentar suas teses em pé de igualdade contra os órgãos da direita. Se a esquerda sem ter a propriedade dos grandes meios de comunicação já conquistou tanto espaço, através das próprias contradições da direita e do êxito dos governos de esquerda, imagine se ela finamente conseguir não só romper o cerco midiático (que já realiza através da internet), mas de competir em pé de igualdade.

Do ponto de vista do trabalhador, seria uma tv de qualidade que estaria financiando, pagando barato(1% do salário mínimo é hoje 4,15). E com a comodidade do pagamento em folha. Uma mídia que se define como sua e em um momento em que a esquerda latino-americana está em alta. Não pode perder essa oportunidade de se comunicar de modo mais direto com os trabalhadores. Os trabalhadores com certeza irão querer conhecer melhor aqueles que estão elegendo e que dão um apoio maciço.

O mais atrativo seria para o trabalhador de mídia. Do ponto de vista econômico, ele seria um co-proprietário dos meios de comunicação. Do ponto de vista jornalístico, não teria mais que se submeter a nenhuma hierarquia escusa ou temores de afetar interesses de seu patrão em suas matérias, pelo contrário, estaria não só em tese, mas de fato, representando sua função social, delegada pela própria sociedadade. Seria a oportunidade do jornalista de se engajar em uma mídia totalmente original, com um perfil transformador, aonde o jornalista se liberta do papel de lacaio alienante e se transforma em um conscientizador efetivamente isento. Aonde a fidelidade a verdade não só seria possível, mas seria encorajada como uma necessidade do próprio meio.

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Written by ocommunard

9 de outubro de 2009 às 0:09

Publicado em Reflexão

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