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Políticas, economias e ideologias

Archive for outubro 2009

A questão Ciro Gomes: implicações cruciais para 2010

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A questão Ciro Gomes está subestimada, não se calculou ainda as dimensões monumentais sobre a decisão de ele sair candidato ao governo paulista ou a presidência da república.

CIRO E O SEU ARGUMENTO
Ciro Gomes tem a sua frente pesquisas de opinião que legitimam indiscutivelmente sua pretensão, além de poder se apresentar como uma figura mais ideologicamente definida, já que foi base governista durante 8 anos (pois seu esquerdismo a 8 anos atrás parecia oportunismo, agora não mais). Sua alegação é afirmar que é arriscado apostar toda a sucessão em um único nome que todos sabem, não tem traquejo político e muitas vezes se mostrou facilmente abalável. É razoável, sem dúvida… mas a questão não estaria em ter uma dupla candidatura de base, um plano B, mas a de ter outra candidatura mais consistente. E obviamente ninguém aqui está questionando o valor de Dilma, apenas a sua viabilidade eleitoral. O melhor dos mundos seria a realização de prévias entre todos os partidos da base, até porque, do modo como está, a indicação de Dilma por Lula aparecerá como imposição.

CIRO E O JOGO POLÍTICO
Aí entra Ciro, e politicamente fez certo. Entrando como segundo candidato governista, toda a mídia conservadora desliga sua fábrica de difamações, pois é do seu interesse dividir a esquerda e levar a direita unida. Aliás, nada é tão comum a esquerda do que a divisão, assim como a derrota que ela provoca. Ciro não sabe disso? Sabe… assim, sua atitude em se manter candidato a presidência talvez vise esse arrefecimento da mídia conservadora contra seu nome e assim entrar em campanha sem o estoque de difamações da poderosa mídia conservadora do país. Talvez, com isso, ele esteja medindo forças para se consolidar como possibilidade mais viável de sucessão, ou se caso perca seu nível atual de intenção de votos, entrar com tudo na disputa paulista. Para a direita, interessa que ele permaneça com alta intenção de votos… por isso, não o atacará, por isso temos essa calmaria que não houve antes, por isso a campanha do “novo Collor” não ressuscitou.

CENÁRIOS
O que ocorreria se o Ciro de fato entrasse como segundo candidato governista à presidência? Primeiramente a divisão. E essa divisão não é somente de votos, é uma divisão política, pois quanto mais politicamente próximo estão os candidatos, mas acirrada é a disputa, pois disputam a mesma base eleitoral. E ataques da esquerda contra a centro-esquerda já existirão no campo da extrema esquerda nanica: PSOL, PSTU, PCO, etc.

A entrada de Ciro como segundo candidato atingiria diretamente três eleições. Primeiramente a mais importante, a presidencial, pois enfraqueceria a sucessão. Segundo atingiria o Ceará, pois a prefeita petista, legitimamente, afimou que o PT teria candidato próprio caso o PSB saia da aliança nacional(no Ceará o governador é o irmão de Ciro Gomes, Cid Gomes do PSB, aliado estadual do PT). E em São Paulo, porque Ciro é a ÚNICA chance de demolir a base reacionária mais forte no país, sendo ainda o candidato mais viável para dialogar com o PSDB, DEM e PPS, pois tem muitos companheiros desse campo que um dia atuou. Ciro é a única chance para acabar com o tucanato direitista. Fora isso, atingiria todas as alianças entre o PSB e o PT, seja diretamente aonde o PT tiver candidato próprio no caso do PSB sair da aliança nacional, seja indiretamente em razão das divergências entre a dupla candidatura governista.

O PSDB no RS praticamente se autodestruiu, em Minas Gerais o Fernando Pimentel(PT) tem alto índice de aprovação, e o PSB lá é aliado ao PSDB. Sem falar que é o PSDB mais progressista do país, justamente por essas alianças com os partidos progressistas. Assim, o PSDB de São Paulo é a jóia da coroa da direita, é ali que a vitória se consumaria. De lá Ciro poderia não só desconstruir o PSDB, como só ele tem condições de fazer – pois é um ex-tucano, porque tem uma crítica contundente do desmonte neoliberal, porque tem um discurso mais tecnocrático que muita agrada aos paulistanos – mais poderia ainda realizar uma sinergia entre a candidatura nacional e a estadual, reforçando e sendo reforçado pela candidatura nacional.

A entrada de Ciro em São Paulo forçaria a permanência de Serra na sucessão paulista, pois desestabilizaria o tucanato. Serra não arriscaria uma candidatura viável ao governo contra uma inviável a presidência. Com isso Ciro garantiria Aécio Neves como nome tucano a presidência.

MAIS UMA VEZ O CHILE NOS ENSINA
A hipótese de uma candidatura Ciro Gomes seria politicamente catastrófica, ainda que 80% de aprovação nos dê certa margem de confiança. Vejam o caso do Chile, nesse momento há dois candidatos governistas, pois um dos candidatos saiu do partido para se candidatar. Somando os dois, é maior que o candidato da direita, porém, é o candidato da direita que está na frente. Apesar de que Bachelet ter também uma alta aprovação popular. O que ocorre que os candidatos da centro-esquerda estão se desgastando ao se digladirarem pelos mesmos votos, e havendo segundo turno, o apoio de um a outro soaria hipócrita depois das acusações mútuas.

Written by ocommunard

28 de outubro de 2009 at 12:55

Publicado em Eleições

IOF cambial: o terror neoliberal

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Qual o temor do mercado contra o IOF? O temor subconsciente que todos sabemos é que ele seja a porta de entrada de novos mecanismos de regulação econômica que não os velhos modelos de autoendividamento estatal que sustenta a tendência privatista. Para eles é terrível duplamente porque rompe o ciclo vicioso da privatização(endividamento-privatização-endividamento), como ainda oferece êxito ao governo de esquerda, fortalecendo assim ainda mais o processo de dominação política gradual da classe trabalhador na América Latina.

Mas o IOF como meio de retenção da especulação é revolucionário e tem a dimensão apocaliptica para setores ideológicos da burguesia. Imagine aí um instrumento regulador que não só não endivida o Estado, como aumenta a arrecadação?(o inverso da política de juros). De modo que a regulação perde seu caráter duplamente amaldiçoado: o de ser oneroso por ser intervenção, reforçando a demonização da intervenção.

É claro que a lógica é simplória: endividar para privatizar (passar os meios de produção para o capital privado). Ainda que esta lógica tenha sido flagrantemente derrotada pela crise financeira de 2008. Pois é óbvio que a única via de diminuição sustentável da carga tributária é o próprio crescimento econômico, pois:
1 – a arrecadação absoluta cresce dando espaço para diminuir a arrecadação relativa sem prejudicar as políticas vigentes
2 – porque a geração de emprego desafoga a demanda pelos serviços públicos
3 – a geração de emprego, por meio de um excesso de demanda no mercado de trabalho, valoriza os salários, que gera aumento de consumo, que aumenta a arrecadação. Alimentando a lógica do ítem 1.

O governo tem que ter clareza numa coisa: não dar o passo atrás. Se a taxação atual não surte efeito suficiente, aumente a taxação (como defende Belluzzo)! O mercado está custeando uma quebra de braço com o governo, porque sabem o efeito que pode haver se caso essa política der certo. Mas capitalista não irá arriscar o seu dinheiro por muito tempo por causa de ideologia ou política. Então, é só uma questão de tempo, de resistência. Qual o ÚNICO argumento dos “mercadófilos”? Dizem que há meios do especulador se desviar da taxação. Reconhecem com isso que a taxação, se aplicada, é efetiva. Então o próprio mercado já deu o mote: sofisticar e generalizar o IOF.

O IOF como regulador é um novo horizonte aonde a lógica neoliberal terá sua maior derrota até então, aquilo que já venho estudando a muito tempo: a tributação orgânica. Significa uma reforma tributária que visa instrumentalizar os tributos para servirem como instrumentos de regulação. Ela quebra lógica neoliberal porque:
– arranca o paradoxo da regulação como autoendividamento, a regulação tributária preserva a mesma atuação da regulação atual, mas sem o efeito nocivo do autoendividamento. (tal como a dependência do dólar, aonde o Estado sempre compra e vende em situação de desvantagem para reverter uma tendência).
– representa uma grande provação experimental nacional do que poderá ser a taxa Tobin internacional.
– representa uma nova forma de regulação que não seja a fiscal(keynesiana) ou monetária(neoliberal). Porque ambas se sustentam em autoendividamente, ainda que por vias opostas. O primeiro tem um frágil equilíbrio, o segundo é autodestrutivo: já a regulação tributária é autosustentável, é consistente.

Written by ocommunard

26 de outubro de 2009 at 12:22

Publicado em Economia

Salário, desenvolvimentismo e comunismo

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O que é o comunismo senão desenvolvimentismo? Ora, se a tese central de O Capital é a de que o desenvolvimento das forças produtivas: 1. realiza a transição para as formas comunistas (concentração, centralização, planificação, internacionalização, etc), 2. acentua a insustentabilidade social(antagonismos) que provoca socialmente a transformação.

Para Marx, o Estado só tem duas possibilidades: ou acelera ou desacelera esse processo. Isto é, ou é desenvolvimentista ou anti-desenvolvimentista. O neoliberalismo, última flor do fáscio, não esconde sua face anti-desenvolvimentista em suas póliticas anti-demanda, recessiva e pró-especulativas. Por outro lado, como é perceptível, cria o cenário de crise que o derruba cedo ou tarde. Portanto, o comunismo, enquanto proposta de governo, é apenas uma autoconsciente política econômica desenvolvimentista.

Em que ponto se diferencia do socialismo? O socialismo se opõe ao liberalismo, enquanto privilegia a igualdade social sobre o progresso. O ponto central está na dicotomia liberalismo econômico vs intervencionismo econômico, ou política economica vs política social. O liberalismo econômico tem, no princípio da auto-regulação prodigiosa do mercado, a privatização como lema, enquanto meio para o progresso. O intervencionismo econômico tem na estatização o meio para a igualdade(social). Ironicamente, somente o socialismo realiza o progresso, ao expandir o mercado interno através da distribuição de renda, e só o progresso(nesse segundo momento) realiza a justiça social, ao promover o emprego e a valorização salarial. E cabe ao liberalismo apenas o papel de promotor do socialismo, ao radicalizar politicamente as camadas baixas e médias da sociedade através de seu fracaço econômico, social e político. Apesar da grande mídia como sua turba de fanáticos visionários da mão invisível. Em suma o liberalismo é uma falácia e o socialismo é um equívoco…

De que modo o comunismo dialoga com ambos? O comunismo dirá que o desenvolvimentismo é, enquanto dinamizador do fortalecimento produtivo, a principal política econômica (progresso) e social (distribuição). Pois o desenvolvimentismo ao reduzir o desemprego, distribui renda enquanto salário, e ao aumentar a demanda acima da oferta no mercado de trabalho, valoriza os salários e pressiona o capital. Marx diz ainda que essa pressão sobre o capital o faz investir em tecnologia, que reduz a dependência da mão de obra reintroduzindo o desemprego, mas por outro lado, baratea o produto, e contribui para a marcha geral do desenvolvimento das forças produtivas: tese central da transição ao comunismo segundo o comunismo. Obviamente uma vez reintroduzida o desemprego por um lado, o Estado permanece aplicando o suas políticas desenvolvimentistas para contra-balancear.

E o salário? A regulação do salário está caduca, se seguido o princípio da justiça social(igualdade social), isto é, o socialismo; e também na perspectiva do desenvolvimentismo, isto é, de uma tendência ao emprego(ao invés do desemprego), e assim evitar uma inflação salarial(a China já tem tal dispositivo). Se deveria estipular um salário máximo fixo, de modo que ele fosse congelado até que representasse uma aceitável multiplicação do valor do salário mínimo que continuaria se valorizando (pois impor de imediato seria inviável), digamos que o salário máximo fosse 3x o saláro mínimo (ou no máximo 5x). Obviamente o salário máximo atingiria sobretudo o alto escalão do funcionalismo público e representantes políticos. Seu aumento dependeria do salário mínimo quando estivesse dentro das margens acima.

O principal dispositivo anti-inflacionário dessa tendencia desenvolvimentista seria proibir um reajuste anual do salario acima da inflacao, mas isso é arbitrário se percebido que há muita desigualdade salarial. O reajuste anual deveria seguir o principio da progressividade como há no imposto (reajuste maior para quem ganha menos e menor para quem ganha mais). Para isso, o reajuste não poderia ser determinado por uma porcentagem, mas por um valor absoluto. Um reajuste de 5% para quem ganha 1 salário é bem menor em valores absolutos(poder de compra) do que para quem ganha 2 salários. Alguem que já ganha mais teria um reajuste maior. Assim, o reajuste deveria ser em valores absolutos, exemplo: aumento de R$ 100. Mas para ser realmente socialmente justo, o principio da progressividade no reajuste deveria se aplicado, de modo que a taxação conferisse valores absolutos maiores para quem ganha menos e menores para quem ganha mais.

Paulo Pain(PT) é exemplo de como a esquerda por desconhecimento pode ser desastrosa. Ele teve a insanidade de promover a desigualdade social ao querer preservar o valor relativo em salários mínimos da aposentadoria. Assim, se o salario mínimo é 500 e ele se aposenta com 1000(2x salarios minimos), se o salario minimo duplica(1000), ele passa a ganhar 2000. Assim, quem ganha a metade que ele ganha tem um reajuste de 500 reais, e este que já ganha o dobro do salário mínimo, já é privilegiado, terá um aumento de 1000. A diferença que era de 500 vai para 1500. Isto é, alta concentração de renda, desigualdade social, Paulo Pain. Será que é desconhecimento ou ele está pensando em sua bela aposentadoria acumulativa de Senador?

O comunismo se caso se quer científico, tem de se reinventar continuamente, isso significa apenas se aproximar dos problemas vigentes e rearticulá-los dentro da análise cientifica da sociedade atual, que podemos encontrar em O Capital de Karl Marx. Uma teoria que se prentende revolucionar permanentemente o mundo, tem de revolucionar permanentemente a si mesma. Ou como diria Sartre: mudar sempre para permanecer o mesmo…

Written by ocommunard

23 de outubro de 2009 at 11:50

Publicado em Economia, Reflexão

O dólar e o MST

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O dólar há muito tempo é hegemônico e parece passar por um declínio paralelo ao da própria nação que a produz. O dólar foi a forma como o império se financiou, pois com uma inflação controlada consegue impor uma taxação do mundo, pois o dólar é até bem pouco tempo a única divisa internacional. Os governos captavam dólar a um valor e quando retornava aos EUA, retornava mais barato(em razão da variação da inflação). O problema do dólar como reserva internacional é o problema de ser uma moeda nacional a esse serviço, ao invés da solução keynesiana de uma moeda mundial que foi abortada pelos próprios americanos.

Mas hoje o maior fiador do dólar é a China(os capitalistas dependendo dos comunistas, irônico não?), com a maior reserva do mundo. E porque a China, por política, concorrência econômica ou prevenção, não se livra dessa moeda putrefata? Porque se o fizer, de fato dispará uma hiperinflação, mas uma queda do dólar barateará os produtos americanos ao mesmo tempo em que freia suas importações, e os EUA são os maiores importadores do mundo tanto quanto da China. Assim, a China não tem outra opção a não ser uma transição suave como está tentando sugerir. Ninguém quer o dólar forte enquanto moeda mundial, mas ninguém quer o dólar fraco enquanto concorrente comercial.

Com o IOF o governo instaura uma nova política cambial que não é simplesmente comprar e vender dólares. Essa política tem o benefício de não endividar o país e de livrar o país dessa jogatina especulativa. Separa claramente investidores de especuladores, o dinheiro bom do dinheiro mal, e com isso lança uma nova forma de regulação econômica pós-neoliberal. A IOF é a forma como o governo evitou enfrentar a herança neoliberal sem ter que se prender a herança neoliberal. É o meio termo, é a essência desse governo… esse pavor da luta de classes que levou Jango a evitar a resistência por medo do derramemento de sangue e não só jogou o país numa sanguinária ditadura, como sequer foi capaz de salvar a própria pele.

E o MST? Aqui, a direita sem ter para onde ir, emplacou a CPI do MST gritando a tragédia apocalíptica do laranjal. Encontrará alguma coisa? Claro que não… o que importa é a fábrica de suspeições que tentará arranhar a sucessão esquerdista, ou pelo menos dividí-la, se não, pel menos, em último caso, tornar o governo mais conservador. Pois, ou irá ter que defender impetuosamente o MST ou irá cair na vala comum do conservadorismo como fez ao criticar o ‘vandalismo’ do caso.

O MST é o Dólar do Lula, um governo delicadamente moderado que não quer um MST fraco nem um MST forte. Quer salvar o significado e enfraquecer o significante, quer simplesmente evitar a todo custo a luta de classes que representa. A direita jogou a cartada final, não contra ele, mas para o retirar da posição de medidador das classes. O Lula já traiu muito o seu passado para tentar permanecer nessa posição, mas essa traição não é apenas um caso, é um novo posicionamento, seja para o conservadorismo ou o radicalismo. Aqui, dificilmente haverá uma IOF para o MST. E isso definirá o futuro da esquerda nas próximas eleições, no país, na américa latina e no mundo dado o papel internacional que Lula alcançou. E a nossa esquerda morrerá no berço por anemia política.

Written by ocommunard

22 de outubro de 2009 at 15:05

Trabalho, educação e desenvolvimento

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Uma lei que diminui a jornada diária de trabalho para os trabalhadores que estudam. Diminuição de 1 hora. Em contrapartida, o Estado faria renúncia fiscal. Essa lei de um lado dá melhores condições para os que estudam, oferecendo tempo para um banho ou evitar onibus superlotado do horário de pico. Por outro lado, ela estimula os trabalhadores que não estudam a também estudarem. Numa perspectiva geral, essa lei contribuirá com as necessidades do desenvolvimento nacional que passa por uma profunda revolução na educação, sobre isso já há um ponto pacífico. Ela é ainda uma forma mais dinâmica que a mera melhoria da educação para os mais jovens (que claro, é ainda a mais relevante), porque qualifica o trabalho dos que já estão no trabalho – isto é, a qualificação do trabalho é sentida de imediato, revolucionando mais rapidamente a economia.

Written by ocommunard

11 de outubro de 2009 at 11:10

Publicado em Política

Cidadania socialista

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Uma profunda reforma socialista do Estado deve ter como ponto central um novo conceito de cidadania. A cidadania se rege por dois princípios jurídicos: jus soli e jus sanguini. O jus sanguini* é mais próximo da cidadania clássica, enquanto o jus soli* é mais uma instituição moderna. No entanto, o jus soli expressa muito mais a cultura territorialista feudal do que a cultura individualidade burguesa. Aliás, em geral, todo o arcabouço jurídico da sociedade burguesa expressa muitas vezes um arcaísmo feudal do que um reflexo ideológico burguês, pelo menos em certos pontos como o tratado aqui. O próprio Estado enquanto hierarquia e poder baseado na coerção, é uma expressão feudal. Porém, esse paradoxo não pode nos enganar quanto a necessidade dialética de que a burguesia talvez necessite de instituições semi-feudais para garantir suas intituições plenamente burguesas.

A cidadania é a condição jurídica pelo qual um indivíduo é reconhecido como membro politicamente legítimo de uma sociedade, e que portanto, pode participar, nos termos estabelecidos, do poder. Em tese, em um regime de democracia representativa, significa que ele é legamente aceito como eleitor, candidato, reinvindicante e postulador a cargos públicos. Na prática, a cidadania é um conceito menos definido, e se comporta mais como um princípio do que como uma condição jurídica. Qualquer um é cidadão, pois a cidadania exclusiva não existe na democracia moderna. Por outro lado, a nacionalidade, um conceito base da cidadania clássica e moderna, permanece um atributo exclusivo por seu próprio conceito, ainda que flexível. Na cidadania clássica, a cidadania era um título que poderia ser extendido a não nativos(pessoas de outras nacionalidades), na cidadania moderna, a cidadania é uma condição da nacionalidade.

Uma proposta de cidadania contemporânea separa totalmente nacionalidade de cidadania, e cria três graus de identidade jurídico-política: clandestino, nativo(nacionalidade) e cidadão. Cidadão é aquele nativo ou não que conquista seus direitos individuais através do compromisso a seus deveres coletivos, aqui se concentra o conceito de conquista e de equilíbrio entre direito e dever. O nativo é aquele que em qualquer momento não optou pela cidadania, permanecendo em uma condição de direito hibernante. O clandestino é aquele que está ilegalmente no país. Porém, essa condição deve ser descriminalizada visando a hipótese liberal de uma cidadania contemporânea.

A nova cidadania tem seu fundamento enraizado no equilíbrio entre direitos e deveres. É descartada totalmente a falida noção de direito natural, arrancando a sua última expressão, a naturalidade da cidadania. A cidadania retorna como um título da sociedade concedida a seu indivíduo. Assim, vários direitos perdem seu caráter geonatural, para se tornarem ideo-práticos. Isto é, para se tornar um cidadão é necessário estar consciente da constituição que está jurando, assumir os deveres que ela prescreve, e assim, com isso, conquistar todos os direitos que ela prescreve. A perda de cidadania, como na condenação por crimes ou inassiduidade de deveres cidadãos, é um passo fundamental para a dignidade da condição cidadão, assim como sua reconquista.

Assim, os direitos políticos só podem ser conquistados se assumidos os deveres de defesa (aqui, fundamentalmente, não um exército permanente profissional, mas uma guarda civil voluntária rotativa) entre outros. São contrapartidas sem oneração social (não pagas), como o de participar do juri, de ser mesário, etc – como forma de sustentar seu título de cidadania. Esse ‘custo prático’ é o preço da cidadania pragmática conceituada aqui.

Porém, clandestinos e nativos que não possuírem cidadania devem ter o direito de fazê-los. A diferenciação entre cidadão e não-cidadão significa um nível de acesso ao conjunto de direitos, proporcional a sua livre recusa aos deveres. Os não-cidadãos se dividem ainda em nativos e clandestinos. Os nativos devem ter acesso a praticamente a todos os direitos, exceto os políticos(eleitor,candidato,protestante e cargo público). Já os clandestinos devem ter acesso a nenhum direito, exceto os básicos (como o direito a vida, ao trabalho, etc).

A cidadania contemporânea, formatada em seu traço pragmático e ideológico, deve ser o centro de concepção da reforma constituicional socialista. Não que esta cidadania tenha em si um traço transformador além do fato de ser ainda em geral pouco aplicada, mas apenas por ser um produto jurídico mais próximo da realidade vigente, portanto, um instrumento político mais eficás para todas a luta de classes de um sociedade contemporânea – esse ponto não expressa seu caráter socialista, mas seu caráter atual, mas por extensão, serve a transformação socialista por dinamizar melhor a juridicidade do Estado hodierno.

* jus sanguini: a nacionalidade é definida pela filiação a pais com a nacionalidade referida

* jus soli: a nacionalidade é definida pelo local de nascimento

Written by ocommunard

10 de outubro de 2009 at 3:29

Publicado em Cultura, Ideologia

Uma outra mídia é possível?

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Não é preciso dizer muita coisa sobre nossa flagrante situação de sitiamento midiático e de como é supreendente a resistência dos trabalhadores brasileiros. Mas aqui busco apelar a toda sociedade organizada, a todos órgãos de esquerda, para unirmos forças em favor de uma alternativa midiática vinculada ao trabalho, ao invés do capital. O poder cada vez mais escandalosamente abusivo dos grandes meios de comunicação, eles mesmos um grande capital, nos impõe a urgência de uma alternativa comunicativa que sirva aos trabalhadores, como defesa e ataque, como luta ideológica(crítico) e isenção jornalística(desalienador).

Uma grande mídia pública é sem dúvida importante, mas tal órgão está fadado a uma obrigatória neutralidade enquanto entidade pública, escrúpulo que a mídia capitalista está longe de ter e amordaça a crítica necessária contra os abusos da mídia privada. Por outro lado, poderia ainda sofrer interferências de um futuro governo conservador, que unido a mídia privada, se transformaria em um puro totalitarismo (os regimes fascistas, principalmente o nazista, se baseava maciçamente em propaganda, isto é,  no cerco midiático).

Uma mídia social não só é absolutamente possível como é urgentemente necessária. Como!? Eis minha tese:

1. Financiamento:

1.1 Financiado pela esquerda:Primeiro, seu financiamento deve vir de uma taxação primeiramente de todos os órgãos de esquerda: movimentos sociais, partidos de esquerda, faculdades, ongs, comunidades, etc. Nesse modo ela se define como mídia de esquerda.

1.2 Financiado por trabalhadores: Depois, quando essa mídia já tiver o que mostrar aos trabalhadores, seu financiamento passará  a vir de uma mensalidade voluntária cobrada em folha, assim, necessariamente vinculada ao trabalhador. Correspondendo apenas 1% do valor do salário mínimo atual, dessa forma, caminhando com o salário mínimo do país. Em escala esse valor é fenomenal. O mérito desse financiamento é criar com os trabalhadores os mesmos vínculos existentes entre a mídia capitalista e a classe capitalista, esse conceito é o que chamo de mídia proletária. Todos os associados teriam poder de votar na grade de programação da tv. A esse conceito revolucionário chamo de mídia democrática, isto é, participativa. Esse segundo conceito é o argumento mais forte em favor da mídia social, e a que mais radicalmente irá destacar a sua originalidade. Ainda que a verdadeira revolução esteja no conceito de mídia social, vinculada ao trabalhador. Futuramente, se o poder econômico dessa mídia tornar viável, se poderá criar uma contribuição alternativa que taxe 1% do salário do trabalhador(ao invés do salário mínimo). Esse outro pagamento financiaria a estrutura de acesso de televisão por cabo ou satélite.

1.3 Retrofinanciamento cooperativo:  economicamente se organizará como uma cooperativa aberta. Como o trabalhador aqui é na prática um acionista, de onde o desenvolvimento da empresa o beneficia, o fazendo se envolver nesse desenvolvimento, parte de suas reservas de renda se reverteriam no fundo de investimento da cooperativa midiática – ao invés de aplicar em poupança ou outra forma financeira. Sobre a divisão entre custo, renda e investimento, caberia a uma assembléia tripartite: esquerda, trabalhadores e cooperados (já que como cooperativa aberta, ela receberia o financiamento externo da esquerda e dos trabalhadores). Assim, essa grande mídia teria três fontes: a esquerda(representação dos trabalhadores), os trabalhadores e os cooperados(trabalhadores da própria mídia, ao mesmo tempo, representantes ideológicos dos trabalhadores).

2. Estrutura

2.1 Fase 1: internet. Primeiramente deve se partir da internet, como sendo uma das plataformas mais acessíveis e menos custosas. Essa fase deve priorizar a experimentação, para consolidar um modelo que seguirá na fase posterior. Se resumirá a um website.

2.2 Fase 2: produção multimídia. Aqui o site deverá começa a produzir em audio e vídeo, mas seu meio ainda será a internet. Nesse ponto, se ensaiará a passagem para a estrutura fora da internet.

2.3 Fase 3: transição. Aqui a mídia já teria condições de comprar faixas de horários das tvs abertas.  Essas compras de faixa de horário devem ter já a proposta inovadora e por outro lado, propagar o futuro complexo de mídia social, isto é, anunciar a criação da futura tv – apresentando seu caráter enraizado socialmente com os trabalhadores.

2.4 Tv. Formação da tv, meta máxima e mais complexa em termos de financiamento.

3. Conteúdo

3.1 Multiplicidade ideológica. A formação da mídia através de uma representação heterogênea dos trabalhadores,  isto é, toda a esquerda, serviria para garantir um livre transito de idéias de esquerda, e através de seu livre debate, promover seu desenvolvimento. A importância desse embate de idéias não é apenas estratégico, isto é, contribuir intelectualmente com as lutas políticas dos trabalhadores, mas servirá também para enraizar um perfil polisemântico a esquerda, oferecendo aos trabalhadores uma melhore representatividade em suas nuances, sem perder a unidade fundamental de ser uma mídia da esquerda.

3.2 Representatividade pragmática. A possibilidade dos trabalhadores associados de eleger a grade de programação tem caráter duplo: primeiro oferecer uma característica totalmente inovadora, portanto, atrante, mostrando na prática a sua essência totalmente diferente de qualquer outra mídia. Segundo, ofereceria um mecanismo mais inteligente de audiência aonde não se mobiliza pela imediação(ibope), mas a mediação. A eleição do conteúdo da tv oferece uma escolha refletida e debatida ao invés do simples mudar de canal em que se registra o Ibope, cabendo a mídia social viabilizar a qualidade e atratividade do conteúdo demandado. Assim, os trabalhadores da mídia se deterão apenas em dar forma e qualidade ao conteúdo eleito. Sabendo que a audiência será apenas o resultado da eficácia da mídia em apresentar formalmente a demanda do conteúdo. O conteúdo é de responsabilidade social, a forma seria de responsabilidade midiática.

4 Forma

4.1 Tipos. É importante que uma mídia voltada para a conscientização deva ter um tipo de conteúdo que seja coerente com tal objetivo. Tal tipo seria o: jornalismo, entrevistas e documentários. Por mais tentador que possa ser investir em ficções ou entretenimento, a mídia social perderá seu foco conscientizador se caso se afastar dessa tipologia. Os músicos e artistas em gerais, podem ter espaço, desde que dentro do enfoque jornalístico, documental ou dialógico(entrevistas).

4.2 Enfoques. A mídia social também não pode perder certos enfoques que a dará sua identidade através de suas diferenças. A primeira é a contra-informação, denunciar permanentemente o trabalho de desinformação da mídia burguesa. A segunda é a contra-ideologia, apresentar a perspectiva positiva das greves, movimentos sociais, políticas, sempre do ponto de vista proletário. A terceira é a contra-alienação, buscando formar uma mentalidade crítica e formentar a cultura. Esses três pontos formarão uma identidade forte e inalcançável pela mídia privada.

5 Organização

5.1 Confederação. A primeira forma da união dos trabalhadores por uma mídia social será a de uma confederação. Essa forma apenas reunirá as forças midiáticas da esquerda que já existem, de modo a criar uma representação alternativa a SIP(conservadora e dominanda pelo grande capital). O papel dessa confederação é apenas fortalecer as mídias de esquerda de modo a acumular forças através de uma melhor articulação.

5.2 Centralização. O segundo momento seria a criação de uma estrutura centralizada, que represente uma grande mídia, que por sua vez ao invés de ser fortalecida por suas filiais, passaria a fortalecer suas filiais através de ser fortalecimento. Assim, se criaria uma grande mídia de esquerda, que representaria uma central aonde as outras mídias de esquerda menores poderia se relacionar jornalisticamente ou comercialmente.

5.3 Federação. O último passo é a federação, aonde a divisão entre união e federados, pela própria prática, já estará bem institucionalizado.

Observações
A atratividade dessa proposta tem muitos pontos. O primeiro e mais destacado é a sua democracia, que permitiria um debate sazonal do conteúdo da tv, onde os trabalhadores associados votariam em seu conteúdo(ou propostas de conteúdo). Essa característica seria a mais impressionante de todas.

Do ponto de vista da esquerda, seria uma grande oportunidade de poder apresentar suas teses em pé de igualdade contra os órgãos da direita. Se a esquerda sem ter a propriedade dos grandes meios de comunicação já conquistou tanto espaço, através das próprias contradições da direita e do êxito dos governos de esquerda, imagine se ela finamente conseguir não só romper o cerco midiático (que já realiza através da internet), mas de competir em pé de igualdade.

Do ponto de vista do trabalhador, seria uma tv de qualidade que estaria financiando, pagando barato(1% do salário mínimo é hoje 4,15). E com a comodidade do pagamento em folha. Uma mídia que se define como sua e em um momento em que a esquerda latino-americana está em alta. Não pode perder essa oportunidade de se comunicar de modo mais direto com os trabalhadores. Os trabalhadores com certeza irão querer conhecer melhor aqueles que estão elegendo e que dão um apoio maciço.

O mais atrativo seria para o trabalhador de mídia. Do ponto de vista econômico, ele seria um co-proprietário dos meios de comunicação. Do ponto de vista jornalístico, não teria mais que se submeter a nenhuma hierarquia escusa ou temores de afetar interesses de seu patrão em suas matérias, pelo contrário, estaria não só em tese, mas de fato, representando sua função social, delegada pela própria sociedadade. Seria a oportunidade do jornalista de se engajar em uma mídia totalmente original, com um perfil transformador, aonde o jornalista se liberta do papel de lacaio alienante e se transforma em um conscientizador efetivamente isento. Aonde a fidelidade a verdade não só seria possível, mas seria encorajada como uma necessidade do próprio meio.

Written by ocommunard

9 de outubro de 2009 at 0:09

Publicado em Reflexão