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Políticas, economias e ideologias

Considerações sobre a esquerda do porvir: eleições 2010

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Algumas questões são inquietantes sobre a esquerda e que vejo que se não considerada pode impedir sua permanência e fortalecimento no poder após a era Lula. A primeira consideração e acho mais taticamente importante no debate e que vejo o PT escorregando constantemente, é sobre a nova configuração social brasileira gerada pela própria era petista. Ou seja, estou me referindo a nova classe média e o fato de termos uma maioria social na classe média.

É importante perceber que essa classe média ao mesmo tempo em que não se identifica com a velha classe média, principalmente o seu topo, que está culturalmente ligada a classe alta. Por outro lado, ela não vai conseguir se sentir representada com esse pauperismo ideológico, não conseguirá ver suas conquistas materiais gerada pela própria governança petista e se dizer pobre como o eleitorado petista. Esse equívoco em um discurso que se centraliza no pobre e não no trabalhador, se enfraquece duplamente por ajudar a camuflar a natureza das classes enquanto relações de produção, e por outro lado, por expulsar as parcelas de seu discurso que mais estariam interessadas na aliança.

É importante reparar nessa contradição, o governo que mais retira parcelas da pobreza não pode ter ela como eleitorado focado, pois isso é um evidente suicídio político-eleitoral. Essa é a primeira consideração e a mais importante.

O segundo ponto é o elemento Lula. Acho que não há dúvidas que a união entre resultados socioeconômicos e simbologia da figura do Lula blindou o governo petista contra a campanha mais radicalmente golpista desde a redemocratização: o escândalo forjado do mensalão(nada mais do que Caixa-2, prática comum ainda que espúria). Só não tomou ares claramente golpista porque os próprios envolvidos pregavam que iam deixar Lula sangrar até as eleições e abatê-lo nas urnas.

Para mim, Lula venceu porque tinha o que mostrar, e mostrou… e os trabalhadores se convenceram que aquele governo não era tão infernal como dizia a mídia, e que apesar de tudo era bem melhor do que o do partido opositor: PSDB. Outro elemento foi a total falta de carisma do opositor Alckimin somando ao total vazio de seus argumentos nos debates. Em todos os debates Lula ganhou sem espaço para dúvidas. Hoje, no segundo governo Lula, temos agora sim resultados concretos de seu compromisso, ainda que na sua exagerada moderação e com um ritmo as vezes frustrante, apesar de que a campanha midiática da direita contra o governo PT jamais tenha cessado.

A questão é que o elemento “simbologia” não vai mais pesar nessa balança. É muito importante ressaltar isso. Seja quem for o candidato presidencial da esquerda não mais vai contar com esse fator. Ninguém tem o peso simbólico de Lula para representar as classes dominadas no Brasil. Ou seja, Lula é diferente de uma Marta ou Dilma, porque ele encarna suas idéias em sua biografia. E não ter esse peso simbólico significa que será menos resistente a essa campanha midiática sem fim da mídia dominante, que não podemos nos iludir que acabará.

Assim, há de se compensar esse ponto, e a compensação é radicalizar nos resultados. Lula se deu ao luxo de ter posições moderadas porque tinha sua biografia como recurso moral. Mesmo assim sua superficialidade em alguns pontos gerou estragos, principalmente na militância que nessa eleição se mostrou apática em alguns casos quase que extinta. É como se tivesse apenas restado o cinismo do realismo político, algo que arrancou toda passionalidade da política na esquerda que tínhamos a pouco tempo atrás, principalmente representado pelos grandes partidos de esquerda, na frente deles, o PT.

A mídia já deixou claro que se amarra a hipótese que a solidez da esquerda no poder está garantida apenas pela pessoa do Lula, talvez em seu personalismo burguês não perceba que o que se passa no Brasil vai além do carisma de um presidente, que o trabalhador brasileiro não é um idiota facilmente manipulado por marketeiros como querem mostrar. Mas talvez seja cedo para alguns debater sobre isso, mas a direita não parou desde o dia em que o Lula foi eleito em planejar a sua derrubada e a sua volta ao poder. É importante que a esquerda esteja sempre a um passo a frente.

Não sejamos ingênuos, a sombra de Allende sempre estará no horizonte. É inadmissível que a esquerda cometa os mesmos erros e falhas como a hesitação, a desarticulação e a desunião. Mas acredito que somente os movimentos sociais poderão sustentar um passo a frente para a esquerda no país, terá de vir de baixo como sempre e mais uma vez. Seja quem for, Dilma ou não, terá que radicalizar e acelerar as transformações para recriar os laços com os movimentos sociais. São eles que garantem a dinâmica e o ritmo das transformações, além de ser a força que sustenta o poder político vigente.

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Written by ocommunard

20 de outubro de 2008 às 16:43

Publicado em Reflexão

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