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Políticas, economias e ideologias

O embate Obama x Mccain (7-10-08)

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Alguns dirão que Obama venceu porque assim dizem as pesquisas, sem dúvida que quem dirá quem venceu será o povo americano, mas o americano tem um contexto fortemente pró-obama, a grave crise econômica e as contradições dogmáticas da política econômica de Mccain(os anti-intervencionistas defendendo intervenções através do pacote de 700 bilhões). Quem assistiu, mesmo com simpatia a Obama, sentiu apenas um debate morno com um meio pontinho a favor de Obama. Um meio pontinho meio sem graça. Uma coisa me chamou a atenção, ele se dirigiam sempre ao “trabalhador americano”. Algo que nem os comunistas daqui ousam fazer.

O americano não tem um partido de esquerda eleitoralmente viável. Lá tem sim um partido socialista, mas é uma quimera frente ao regime político-eleitoral americano. Nos EUA há um partido de direita e um partido de centro que tende para a direita. Por vezes no debate sentimos em alguns momentos que os republicanos estão a esquerda. Em verdade vemos duas posições, um dogmatismo ufanista dos republicanos e um oportunismo ideológico. O republicano tem caráter, identidade, postura, posições e objetivos, tem receitas de bolo que eles mesmos contradizem, mas tem. Obama é um democrata, um vacilante, sempre olhando no ibope. Essa é a impressão decisiva.

A derrapada mais fenomenal de Obama nessa sua sinuosidade oportunista está quando afirmou que “mataremos Bin Ladem e esmagaremos a Al Quaeda”. O debate até aquele momento prosseguia com um discurso fortemente ufanista de Mccain “o grande trabalhador americano”, “o grande EUA”, “o defensor da paz no mundo”. Obama era um técnico com respostas vagas e postura esnobe. Mccain era um ufanista com duas ou três propostas vagabundas, mas bem objetivas e postura de amigão. Obama dizia que os republicanos cometeram uma falha técnica, Mccain afirmando que os EUA tudo podem, os americanos sempre se superam, que são os libertadores do mundo. Claramente estava transformando as falhas do governo em adversidades da contingência, e o que deveria ser uma resposta política do governo, transformou em desafio que o povo americano está destinado a vencer. Em muitos momentos o nível do debate caiu a ofensas pessoais sobre o que cada um teria apoiado ou não, e o democrata caiu no esquemão. Poderia simplesmente afirmar compromissos práticos  e rejeitar esse tipo de debate rasteiro desqualificador.

Enquanto Obama respondia detidamente nos termos bem objetivo, era quase um técnico. O discurso de Mccain era excessivamente retórico, com pequenas doses de propostas pontuais objetivas. O discurso de Obama era uma mistura de intenções e propostas gerais, apenas tentando responsabilizar o atual governo e ligá-lo ao Mccain. Digamos que Mccain foi propositivo, foi persuasivo e tomou posição. Já Obama era sempre defensivo, dissuasivo e oscilante. Quando entrou no tema da “segurança nacional”, aparentemente essa aflição com relação a enxurrada de retórica(tentativas de sedução pela oratória) do oponente se debandou nessa afirmação que foi flagrantemente deslocada: “mataremos Bin Laden e esmagaremos a Al Quaeda”. Nessa hora Mccain não vacilou, saiu da postura militar e assumiu a postura de sensatez. Praticamente disse, esse destemperado/despreparado não tem condições de governar.

Para mim havia claramente um ofensiva psicológica de Mccain contra Obama para desistabilizá-lo. Apesar de Obama sempre afirmar o contrário, Mccain insistia que Obama iria aumentar os impostos, iria gastar mais, queria atacar o Paquistão, etc. Foi visível que atingiu a Obama. No entanto, Obama agiu de modo realmente inteligente uma única vez quando saiu da defensiva, quando mais uma vez Mccain afirmou que ele “não entendia” sobre questões militares(segurança nacional), ele disse, “é, realmente eu não entendo, eu não entendo como…” aí ele foi listando todos os erros do governo sobre as invasões. Esse foi o único lance genial do que poderia ser o Partido Democrata americano.

No entanto, em todas as questões o democrata não é uma alternativa, sendo repulsivos no seu oportunismo, se mostram como republicanos aguados e vacilantes. Na guerra não assume uma postura ofensiva criticando toda prática e discurso que a sustenta. Apenas fez uma crítica “técnica” de que invés de invadir o Iraque deveriam eles estar no Paquistão para “caçar” o Bin Laden. Quando Mccain fala da grandeza americana, ele poderia dizer como as práticas bélicas mancharam a imagem internacional dos EUA e como elas aumentam a insegurança na medida em que aumenta a hostilidade dos outros países contra os EUA. Não questionou a pretensão de inibir a construção de bombas atômicas, sendo os EUA a maior reserva atômica do mundo. Não assumiu decisivamente uma postura diplomática acuado pelo discurso republicano que diz que estariam querendo conversar com inimigos dos EUA. Ele poderia lembrar como foi o herói de Mccain, Reagan, que abriu conversações com a China. Poderia atacar que a invasão do Iraque foi pelo petróleo e que se querem espalhar democracias pelo mundo(justificando a invasão do Iraque), porque apoiaram o ditador paquistanês e todos os ditadores latino-americanos, e porque financiaram a derrubada de um presidente latino-americano(Chávez) aonde os EUA foram o único país do mundo a apoiar o breve regime golpista venezuelano que logo caiu. É, os americanos sofrem por não ter um partido de esquerda.

Hoje sei como foi possível um idiota ganhar por duas vezes a presidência do maior país do mundo. De um lado por representar a degenerescência das elites americanas, por outro para demonstrar a falta de alternativa política para o trabalhador americano. Quando haverá um partido eleitoral de esquerda, trabalhista, socialista ou social-democrata nos EUA? Isso lembra como eram os partidos na Inglaterra do século XIX, que se dividiam entre liberais e conservadores disputando o apoio dos trabalhadores britânicos e ânsia de Karl Marx para que os trabalhadores ingleses formassem seu próprio partido.

Não sei se seria interessante para a América Latina a vitória de Obama, se ele realmente conseguir o que quer, reerguer a economia americana. Com um partido como o democrata, o máximo que conseguirão é sanarem economicamente o império para logo depois entregar para os imperialistas profissionais, os republicanos, fazerem a lambança mais uma vez. Se Mccain realmente seguisse ao pé da letra o ideário republicano seria melhor para nós e para o mundo que ele ganhasse, para que os EUA agravassem a sua crise a ponto de não conseguirem sustentar mais a máquina bélica, as bases militares em todo o mundo, as intervenções golpistas através da CIA – seria um alívio para o mundo. Mas os republicanos são neoliberais, mas não são bobos, não hesitaram em nenhum segundo em intervir na economia quando isso significou evitar uma depressão econômica que poderia ameaçá-los inclusive eleitoralmente. Os democratas mais uma vez entraram no jogo republicano e sequer criaram um projeto próprio alternativo que focasse na ajudar ao trabalhador e não aos bancos. O máximo que realizaram foram emendas, mas era politicamente fundamental que o projeto fosse outro e oposto.

Mas esperem… Há sim um partido eleitoral socialista nos EUA, é o partido socialista de direita republicano. Ao invés de socializar a propriedade privada, seu ideário é de socializar o prejuízo da propriedade privada, e sempre privatizando os lucros. Isso pelo menos é coerente, algo que o Partido Democrata oportunista não entende e por isso será eternamente um fracasso ou uma vitória frágil.

Claro que a depressão americana teria más conseqüências para o resto do mundo, mas foi nas crises das grandes potências que as economias periféricas conseguiram se desenvolverem, graças ao afrouxamento da concorrência com o centro. Vide era Vargas e JK. A crise no centro é problemática, mas já é quase hegemônico para os analistas brasileiros de que se trata também de uma grande oportunidade. Não torcemos para que o trabalhador americano, mesmo ideologicamente conservador, sofra essa crise… mas sabemos que somente através dela o trabalhador americano poderá tomar consciência da insustentabilidade dessa ditadura bipartidária e de que pelo menos devem formar um partido próprio que represente o trabalhador americano com suas necessidades e seus interesses. Se o americano decidir em qualquer momento destruir a estrutura imperialista que sustenta, terá mais uma vez excedentes vultosos para resolver seus problemas socioeconômicos internos.

Não vote nos bombeiros dos republicanos. Vote pela falência do império, vote em Mccain.

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Written by ocommunard

8 de outubro de 2008 às 12:22

Publicado em Eleições, Reflexão

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