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Jacobinismo: doença senil do esquerdismo

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Analisarei aqui a obra de Lênin “Esquerdismo: doença infantil do comunismo”, e apresentarei aqui o jacobinismo como degenerecência do esquerdismo tanto na revolução francesa quanto na revolução russa. A referência direta é o fichamento do livro apresentado no site Vermelho realizado por Augusto Buonicore, deixando claro o caráter não pretensioso desse ensaio. 

Na obra de Lênin temos as seguintes teses defendidas:
1) O esquerdismo no comunismo trata de uma estratégia de purismo ideológico extremado, pouco pragmático.
2) O esquerdismo defende a não participação ou isolamento dos sindicatos reacionários – Lênin defende que fazer isso é abandonar o proletariado nas mãos da influência da burguesia.
3) O esquerdismo é contra as formas parlamentares-eleitorais – Lênin defende que ao invés de atacar as formas eleitorais/parlamentares, deve aprender usá-las de modo revolucionário.
4) O esquerdismo é contra a “ditadura dos dirigentes”(de Lênin) e a favor da “ditadura do proletariado” – Lênin confirma sua visão dirigista. Diz o “fichador” que alguns esquerdistas chegaram a desconhecer a relevância do partido, Lênin compara isso ao desarmamento político do proletariado.
5) Para Lênin, o partido é uma evolução do sindicato, uma forma superior.
6) Os esquerdistas são contra qualquer compromisso com a burguesia, Lênin defende uma análise conjuntural caso a caso. 

ANÁLISE CRÍTICA DO FICHAMENTO DA OBRA DE LÊNIN 

Em geral podemos ver um certo anti-ideologismo de Lênin, um profundo pragmatismo(um ponto positivo de Lênin), mas caindo quase no oportunismo em alguns casos, sobretudo no que trata dos “compromissos”. Mas analisemos em detalhe. 

Ele defende o esquerdismo comunista(e por isso é bom ressaltar que trata de um certo comunismo e de um certo esquerdismo dentro desse comunismo, historicamente determinado), como algo ultra-ideológico e pouco prático, pouco realista, e sobretudo quase nada pragmático. Tem uma visão teleológica(finalista), mas sem tática muito menos estratégia. Nesse sentido o ítem 2 e 3 são incontestáveis. 

Da mesma forma, a crítica de 4 é sequer rebatida por Lênin. Para isso o autor cita o extremo para tentar inviabilizar a tese, dizendo que partes dessas tendências chegam a desconhecer o partido – respondendo com a resposta tautológica da desinstrumentalização do proletariado. Bem, de fato o partido proletário é um instrumento político do proletariado. Mas não é o único. 

O partido, e respondendo o item 5, entra dentro das sociedades burguesas, em dualismo ou dialética com os sindicatos. Não se trata de superior e inferior, o partido e o sindicato reproduz a separação entre Estado e sociedade civil. O partido é um orgão representativo enquanto o sindicato é auto-representativo, o partido é essencialmente estratégico e o sindicato é essencialmente tático. Mas reproduzem essa separação. Quem une e uniu essas instâncias foi o próprio conselho(soviete), que é desvalorizado por Lênin tanto por razões teóricas(teoria do partido de vanguarda) quanto por razões práticas(o partido bolchevique havia usurpado o poder dos sovietes). Nos sovietes o caráter sindical-econômico está aprofundado no comitê de fábrica e o caráter partidário-político nos conselhos operários, e ambos são momentos de uma mesma dialética(cindida com dos comitês de fábrica substituídos pelo sufrágio universal, realizado por Lênin). 

O 6, que no fichamento é a parte mais nebulosa e vaga, expressa inequivocamente os limites do pragmatismo, podendo cair no mais descarado oportunismo, ou na total desvinculação da luta pelo socialismo em nome da luta pelo poder, seja em sua conquista ou manutenção. 

JACOBINISMO 

O fenômeno do jacobinismo se reproduz sempre em sociedades feudais(agrárias) em transição para sociedades capitalistas. Representam um aprofundamento de esquerda. Reproduzem e acentuam a dicotomia entre Estado e sociedade civil, mas defendendo o total controle da sociedade civil pelo Estado(Marx realiza minuciosamente essa análise na obra 18 Brumário de Luís Bonaparte). Ele se inicia em três momentos: 1) a fase revolucionária – imediatamente anterior; 2) a fase jacobina – aonde a sociedade se desmobiliza e finalmente um partido se instrumentaliza para tentar dominar o processo através do terror; 3) uma fase bonapartista, aonde a instrumentalização entre sociedade e partido atinge internamente o partido na relação cúpula e base, e por fim na autocracia. Acho que esse esquema é genericamente válido. 

Na Rússia poderíamos dividi-la em Revolução de Outubro, Período Bolchevista, Período Stalinista. A crítica a Stalin não desarticulou a estrutura stalinista, apenas se tentou aliviá-la. O exemplo disso foi a invasão da Hungria feita pelo primeiro crítico do stalinismo, Krushev(Khrushchov). Uma ação ultra-stalinista. 

Também é importante deixar claro que o jacobinismo é um processo histórico, representa um estágio crítico das forças produtivas frente a determinadas relações de produção. Assim, uma crítica subjetivista do tipo “traidores da revolução”(trotskistas atacando stalinistas, stalinistas atacando Khrushchov e Gorbatchev) não tem fundamento no socialismo científico. Porém, o que embaralha a análise é que em capitalismos retardatário como na Rússia, se cruzou tendências supra-feudais com supra-capitalistas(explicado na análise do desenvolvimento desigual e combinado). Dessa forma, o regime do partido único ditatorial, revolucionário e terrorista, ou seja, o jacobinismo. 

Se por um lado há aspectos que devem ser considerados como contribuições importantes do ponto de vista teórico no bolchevismo, sobretudo de Lênin e Trotsky, por outro lado essas contribuições se definem no campo do jacobinismo, não tanto no campo do socialismo científico. Ainda assim, há algumas contribuições que podem ser dúvida serem interessantes para o científico do socialismo como a tese de “desenvolvimento desigual e combinado”. 

O jacobinismo é a doença senil da esquerda porque ele representa a fase de degeneração da experiência revolucionária, representa o amortecimento da revolução e é sua transição para o bonapartismo(stalinismo, maoismo, etc). A esquerda como designação ideológica-política surgiu na revolução francesa, representava as forças políticas aliadas do processo revolucionário, as camadas mais radicais. No entanto, por sua vez, reprimiam e buscavam anular qualquer tentativa de auto-condução dessas camadas populares como demonstra a Lei de Le Chapelier. 

Se observarmos tanto a experiência russa quanto a francesa, vemos claramente o protagonismo social “indomável” da primeira fase da revolução, e na fase da jacobinação haver um trabalho inequívoco de manipulação, desmobilização e controle social, que culmina com a própria derrocada do jacobinismo(tal como Stalin destruiu o jacobinismo russo).  Esses mecanismos de manipulação se aprofundam culminando em um bonapartismo, ou seja, autocracia, culto a personalidade, a contra-revolução endógena que a distorce a tal ponto que o que sobra é meramente um vestígio. A mesma semelhança de ambigüidade que a figura de Napoleão tem em relação a revolução francesa, há em Stalin. A mesma manobra ideológica e manipuladora em a mesma concentração de poder e aniquilamento da oposição. 

Assim, o jacobinismo como um apodrecimento do esquerdismo (aqui no sentido clássico, representante das camadas sociais baixas), ele é autofágico e sua ânsia por “liderar” a revolução acaba por asfixiá-la. A revolução é um processo social, espontâneo e indomável… pensar uma revolução “dirigida” é imaginar algo que jamais existiu, é uma contradição em termos.

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Written by ocommunard

7 de outubro de 2008 às 17:43

Publicado em Ideologia

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