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Políticas, economias e ideologias

Archive for setembro 2008

Carta aberta: contra o stalinismo no Portal Vermelho

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Olá camaradas,

Venho aqui para lamentar, denunciar e criticar aquilo que imaginei que representasse as brumas escatológicas do passado do PCdoB, o stalinismo. É totalmente e até cientificamente explicável(segundo a teoria da ideologia de Marx) a adesão a essa corrente, principalmente na vigência desse tirano no poder(que teve como um dos crimes tentar influenciar e manipular o movimento comunista internacional com um sucesso que é lamentável pelos resultados). Também ainda se consideraria desculpável que sob a vigência da URSS  por ignorância, ingenuidade e inércia se alimentasse o culto a Stalin, ainda que refutável. Mas hoje, stalinismo hoje é um ato deliberado de traição ao comunismo, ao marxismo e ao proletarido; é uma ofensa, é como pisar e cuspir nos corpos de muitos revolucionários que foram expurgados por Stalin. É pisar e cuspir nos milhões de russos que lutaram pelo socialismo mais foram deportados para os Gulags por criticarem Stalin. E pisar e cuspir em Maiakovisky, a alma da revolução, que tirou a própria vida para não se submeter a censura stalinista no início da fase “áurea”. 

Adianto que tentarei ser o máximo telegráfico possível. Mas que o assunto exige profundidade.

Vocês ressucitaram o velho corolário de sofismas stalinistas pseudo-comunistas e pseudo-marxistas no http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=43949, vou aqui responder criticamente todos os tópicos, e peço que esse texto seja publicado. Caso não, saberei que o que chamam de “democracia proletária” é do mesmo nível sofístico do que tratava Stalin. Primeiramente, tenta transformar toda crítica a Stalin em propaganda anti-comunista. O mesmo era acusado os trotskistas, que em tese também caíram com a ex-URSS. É a manipulação mais superficial e de tal forma estúpida que não vale a pena comentar. 

Depois trata de reavivar a moribunda tese de que um homem só, Gorbatchov, teria traído e derrubado o socialismo. É tão equivocada quanto a tese de Trotsky de que um homem só, Stalin, teria traído e derrotado a revolução. É irônico como os stalinistas sempre acabam se apropriando do trotskismo ao mesmo tempo em que o demoniza. Isso ocorreu com a tese de “acumulação primitiva socialista”, que em termos marxista é um sofisma, mas que por seu pragmatismo foi efetivo. Essa tese basicamente defendia uma relação “desigual” nas trocas entre a cidade e o campo, para dessa “diferença” acumular para financiar a industrialização da Rússia; e defendeu também a coletivização agrária. Stalin, enquanto o cabeça do reacionário campesino(vide 18 de Brumário de Luís Bonaparte) demagogicamente denunciou que Trotsky estava contra eles. Porém, como a crise persistia, e com Trotsky totalmente já desmoralizado, foi justamente praticando essa tese e de forma mais brutal do que o pretendido que o “período áureo” de Stalin(como gostam os stalinistas) gerou o grau acelerado de desenvolvimento – ou seja, industrialização. 

O repertório “marxista-leninista”(invenção de Stalin, que basicamente se tratava de divinizar Lênin e se colocar como seu herdeiro) é até desmascarado quando reconhecem que a tal da “segundo economia”, ou seja, o espaço para o capital privado, iniciou-se na NEP. Em suma, resumem tudo a decisões pessoais de comandantes, e aonde está o materialismo dialético histórico nisso? Das duas uma, ou os stalinistas estão certos ou Marx. Isso está submerso em toda a entrevista, mas como tabu. E os stalinistas sempre resolvem colocando essas “diferenças” como pequenas falhas do marxismo.

Mas qual a relação entre o bolchevismo em geral e o marxismo? A única vez que Marx tratou de uma possível revolução russa e sua conseqüência socialista, ele se referia a possibilidade de que a revolução russa libertasse a Europa do peso reacionário do czarismo, e por outro lado despertasse e estimulasse a revolução na Europa, só a partir dela a Rússia conheceria o socialismo tão cedo. Essa era a tese bolchevista até a derrota da revolução alemã. Uma vez que isso não ocorreu, por uma série de fatores históricos gerada pelas derrotas na luta de classe pelo proletariado, passaram a costurar o que hoje se entende por bolchevismo.

Marx já apresenta toda a crítica possível ao bolchevismo e ao stalinismo em especial:

1) a teoria do partido de Lênin é criticada por Marx na sua crítica ao blanquismo que defendia exatamente a mesma concepção de elite revolucionária messiânica(ou dirigista, ou substituísta, etc).

2) a crítica a teoria de socialismo de Estado Marx e Engels realizam na crítica a Lassalle e em várias obras. Destacaria aqui a Guerra Civil em França, 18 de Brumário de Luís Bonaparte e Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico.

3) a teoria voluntarista revolucionária defendida pelos bolchevista, em oposição a teoria determinista reformista(inercial) defendida pela social-democracia, já havia sido um dos principais focos de crítica de Marx. Para ele a revolução era um epifenômeno objetivo e econômico, era a contradição entre forças de produção e relações de produção. Dessa forma, une-se aí claramente a concepção objetiva e subjetiva que essas duas alas fundaram a cisão.

4) a análise marxista contemporâneo afirma a experiência russa e as revoluções do século XX em geral foram nada mais e nada menos do que um neojacobinismo ou um jacobinismo anacrônico(capitalismo retadatário). Realizaram uma acumulação primitiva(revolução capitalista, ou transição do feudalismo ao capitalismo). A grande intervenção do Estado não segue nenhuma originalidade, porque sempre foi assim em todas “acumulações primitivas”, e a apropriação da ideologia socialista, que justifica o “neo” na frente de “jacobino”, também representou parte da ideologia dos capitalismos retardatário. Como o prova o período de Bismarck que flertou com o socialismo ou vice-versa.

5) essas experiências se diferenciam não pela estatização da economia, o que muda apenas na proporção(pois em toda economia capitalista tem capital público e capital privado, e o capital público é o que assegura o aventurismo do capital privado, como prova os fatos recentes). Se assim for, devemos admitir a ótica americana de tratar como socialismo qualquer forma de estatização, regulação e intervenção na economia – tese dos republicanos reacionários. 

6) Marx apresenta várias versões de socialismos em o Manifesto Comunista, e defende um pluralismo político – o que se opõe a velha defesa jacobina de ditadura do partido único.

7) A social-democracia tem muito mais proximidade com o movimento proletário do que o bolchevismo, a social-democracia é possível em razão da incorporação de alguma planificação/regulação via Estado democrático sobre a economia – o que absorveria algumas questões socialistas. Não se esqueçamos que Marx e Engels eram integrantes ativos do Partido Social-Democrata Alemão, ainda que críticos. Já o bolchevismo segue apenas na retórica o socialismo científico. O método de hermenêutica históica é tratado sempre como resultado de voluntarismo político dos dirigentes que detém o poder – o velho individualismo/subjetivismo/bonapartismo burguês.

9) Os bolcheviques usurparam os sovietes, primeiramente quando Lênin acaba com os comitês de fábrica(que era a própria essência de uma democracia direta proletária) impondo o burguesíssimo sufrágio universal que acabou por se tornar um mero parlamento impotente. Depois com Trotsky estatizando a guarda vermelha como exército vermelho – o povo em armas retroagiu a assalariados públicos do Estado. Depois acumulando todo o poder de governo nas mãos do secretário geral do partido, ao invés dos sovietes – essa proeza Stalin levou até as últimas conseqüências, apesar de seu pioneirismo ser leninista.

10) Socialismo com mercado, capital, moeda e assalariamento? Como é possível? Sabemos que foi na tese do nacional-socialismo(socialismo de um país só) de Stalin que se difundiu por todas as partes a idéia de que a Rússia era socialista, pois primeiramente a tese era de que passavam uma fase de transição(ditadura do proletariado, na verdade, uma ditadura de partido). Para Marx a fase socialista se realiza no fim da sociedade classes e paralelamente o fim do Estado.

Em o Manifesto do Partido Comunista(que Lênin diz resumir uma biblioteca inteira, talvez diga isso porque tem um receituário estatizante que nos próprios prefácios é colocado como anacrônico frente aos acontecimentos da Comuna de Paris; e não é só isso que Lênin ignora), diz Marx que mesmo se as revoluções não tiverem um conteúdo socialista, os comunistas o apoiarão, o que é coerente com a concepção dialética da história. Sei que mais uma vez os stalinistas acusaram os proletários não-stalinistas de anti-comunistas, contra-revolucionários, e coisas do tipo. Hoje essa máquina de propaganda chamada URSS não existe mais. A própria China só tem por comunista o nome, e a cada vez mais deixa revelar que o materialismo dialético histórico de fato, interpreta corretamente aqueles fenômenos, enquanto neojacobinismo, acumulação primitiva, e uma certa hibridez. Mas os jacobinos também se achavam defensores do povo.

A revolução russa foi produto do povo russo, não foi o partido bolchevique que a realizou, mas se houve uma organização social que o liderou foi o soviete. Será que a palavra de ordem “todo poder aos sovietes” de Lênin não revela nada? Será que ela já não incriminaria o regime burocrático que a usurpou centrado na acumulação de poder do secrétario geral do partido? Será que hoje, com todos os documentos em aberto, o stalinismo não seria mais do que um equívoco, mais uma traição inequívoca da luta comunista?

Em resumo se poderia colocar como elemento essencial de oposição entre a teoria do socialismo científico e a teoria bolchevista em duas concepções: para Marx a emancipação do proletariado é tarefa do proletariado, para Lênin a emancipação do proletariado é tarefa do partido de vanguarda. 

P.s.: Hoje vocês sofrem na pele a tática monopolizadora de um partido proletário em Rio Grande do Sul, sofrem com o PT. É ironico, e há sempre ironias nesse caso, que a ala anti-stalinista DS(trotskista) ataque de modo stalinista os stalinistas(PCdoB). Como ficará o PCdoB nessa situação? Critica a teoria do partido único ou defenderá o pluralismo político no proletarido? Ou vai ter que rever em nome do pluralismo partidário proletário que Marx defende em o Manifesto? Ou fará isso sem fazer a crítica do stalinismo… é, como Marx já dizia, uma coisa é o que a pessoa é, outra coisa é o que ela pensa sobre si mesma – alguns partidos não sabem fazer essa separação.

É isso, os jacobinos preferem bonaparte. Ainda sou grato pelo grande serviço de informação que fazem, quando não se deixam levar pelas ilusões sanguinárias que defendem. Talvez seja uma auto-crítica demasiado forte, talvez não seja capaz de existir um PCdoB sem sua catequese stalinista. Como proletário combatente, espero que se torne algo mais do que stalinistas, o que conseguem muitas vezes. E assim, realizar uma grande contribuição para a causa.

Saudações comunistas.

Written by ocommunard

26 de setembro de 2008 at 16:02

Publicado em Ideologia

Privatizar, estatizar ou socializar

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Hoje talvez seja um consenso de uma certeza inigualável que privatizar é coisa de direita e estatizar é coisa de esquerda. De fato, não há o que negar nessa afirmativa que é mera constatação, pois a estatização para a esquerda tem duas origens condicionantes: o legado neojacobino das revoluções dos séculos XX e a reação política dos danos sociais da privataria neoliberal. O debate então se resume a uma apologia do capital privado de um lado e uma apologia do capital público do outro, e cada um se limita a identificar as falhas do outro, que em parte corresponde à verdade. Enquanto que a crítica ao capital fica apenas na boca dos sectários ou no silêncio. O pragmatismo bem sucessido chinês, é o paradigma em que privatizar e estatizar deve sair do campo ideológico e entrar no campo científico.

O DUELO: CAPITAL PRIVADO X CAPITAL PÚBLICO

No lado privacionista, atacam o Estado por ser burocrático, moroso, ineficiente, corrupto ou corruptível e também apresentam como uma ameaça controladora sobre a sociedade. Sim, é verdade que o Estado é burocrático, porque obviamente sua organização deve seguir o rigor da lei e não se pode se dar ao luxo de ações arbitrárias ainda que as justifiquem, ou seja, fundamentadas pela “eficiência econômica”. Um funcionário público é responsabilizado para seguir as atribuições que a lei determina, nem mais nem menos. Um funcionário privado, claro, toda a ação que gerar retorno lucrativo, mesmo que saia de suas atribuições ou quebre as “regras” da empresa será bem vinda. Se um funcionário público tiver uma sugestão terá que seguir para seu representante, acreditando ainda que ele o ouça e que o ouvindo sua idéia(supondo que seja muito boa), seja votada e sancionada. Esse “rito republicano” sempre existiu e é parte inexorável da democracia representativa.

Sobre a ineficiência é falso em parte. É claro que em alguns casos há empresas estatais mais eficientes que empresas privadas, e também o contrário. As grandes organizações do mundo são estatais, como por exemplo, a NASA, considerada uma das mais avançadas do mundo. A superioridade do capital privado está relacionada especificamente em alguns casos aonde ele é mais dinâmico, mais maleável, mais arriscável, mais transformador. Mas esses casos não são cabíveis com o Estado que tem o dever de assegurar a responsabilidade social que representa. Além de que as principais revoluções tecnológicas vêm dos centros de pesquisa dos exércitos: entidades públicas. Mas o capital só representa esse dinamismo quando submetido a uma acirrada concorrência permanente que, justamente através dela, produz seu oposto: a concentração, e mais modernamente a centralização(holding é a forma mais avançada disso). Leis anti-monopolistas são hoje quase que tão comuns quanto o direito a propriedade, percebido o caráter pernicioso para a sobrevivência do capital quando ele se realiza ao máximo eliminando todos seus concorrentes e assim literalmente acabando com o mercado: os preços de monopólios não são de mercado, mas preços planejados. Essa fase do capital aonde a própria burguesia se volta para conter as tendências do capitalismo eu chamo de capitalismo reacionário e tratarei sobre isso em outro artigo.

Empresas privadas são também demasiadas ineficientes, como os serviços privados de saúde americana que foi desmascarado no excelente documentário Sicko: SOS Saúde. Ou nos nossos bancos que anualmente batem recordes de lucro mais não contrata atendentes suficientes para eliminar ou pelo menos amenizar as demoradas filas, mesmo contando com internet e caixa-eletrônico.

O SOCIALISMO CIENTÍFICO NA QUESTÃO

O socialismo científico é bem pragmático nisso, quando e unicamente quando a regulação, intervenção e estatização gerar aumento de poder do proletariado ou aumento da participação do proletariado no poder, ele é bem vindo. Considerando e não deixando esquecer que para a teoria jurídica burguesa, os partidos, os movimentos, os sindicatos, as cooperativas; todas são entidades privadas, portanto, a “propriedade privada” em sentido jurídico não pode ser condenada como capitalista ou burguesa. Claro que conceitualmente se trata de propriedades sociais, uma categoria que o direito burguês não reconhece – para ele ou é público(estatal) ou é privado. Mesmo o Estado oferecendo benesses socioeconômicas é ainda um arriscado elemento de submissão.  Assim, a questão se concentra nos meios de que entre um e outro, capital público ou privado, pode oferecer no processo de acumulação de forças para emancipação proletária.

A questão para o socialismo não está no capital público ou no capital privado, mas no processo de socialização e planificação que se encontra dentro do processo de desenvolvimento das forças produtivas. As formas que Marx apresenta, considerando ele que há muitas mediações na forma de propriedade, é a forma da cooperativa e da sociedade de capitais. A cooperativa porque supera a exploração já que os trabalhadores se tornam proprietários de seus meios de produção, a sociedade de capitais porque o capitalista se aliena totalmente da produção se tornando meramente proprietário. No primeiro caso o trabalhador afasta o capitalista do processo de produção, no segundo caso o capitalista se afasta. 

Explicado isso, o duelo entre capitalismo público e capitalismo privado é nada menos do que um duelo entre esquerda e direita, uma tensão que surge com a modernidade, revela uma dicotomia insuperável pois o Estado e a sociedade civil moderna nasceram juntos, são dois momentos de uma mesma realidade. O socialismo aí passa por fora dessa dicotomia, se consideramos o socialismo como uma questão de crítica ao capitalismo, e não apenas de crítica a propriedade privada. Não por acaso todos os socialistas pré-bolcheviques lutavam pelo fim do Estado. Aliás, alguns bolcheviques polemizavam contra os anti-estatistas os acusando de anarquismo. Ora, Marx e Engels deixa claro que um dos objetivos é o fim do Estado, eles diferem dos anarquistas por: 1) considerarem o Estado como efeito(de uma sociedade de classes), e não como causa. 2) considerarem o fim do Estado como parte de um processo de superação das condições de existência do Estado, e não meramente abolir por decreto o Estado como querem os anarquistas. Marx por muitas vezes criticava essa visão “superticiosa” do Estado feita pela esquerda de sua época.

O que vemos hoje é que no neoliberalismo há uma tendência recessiva até mesmo uma preocupação reacionária dos capitalistas contra o progresso, contra o desenvolvimento econômico, como se o capitalismo estivesse no seu limiar, como se o seu desenvolvimento estivesse já a quase ultrapassar a linha que o faz assumir a roupagem capitalista. É aí que a esquerda hoje se resume a desenvolvimentistas, e sabendo do papel fundamental e imanente da socialização e planificação realizada pelo avanço das forças produtivas, um desenvolvimentista hoje é o comunista mais conseqüente.

Alguns, acostumados com as velhas fábulas estranharão essas afirmações por não poder deduzir se é reformista ou revolucionário, isso não é relevante para o socialismo científico. A reforma e a revolução representam apenas momentos de um processo da luta de classes, no primeiro caso de luta eleitoral; no segundo caso de luta armada. Mas a revolução social propriamente dita só ocorre quando as relações de produção são rompidas, ou seja, quando há transição entre dois modos de produção, uma revolução econômica. Quando chega a hora da revolução política, ela ocorre apenas para estabelecer as novas relações de força que já se estabeleceram na sociedade.

O PRAGMA DA TRANSMUTAÇÃO DA PROPRIEDADE

A questão central é portanto o desenvolvimento das forças produtivas contras as pressões recessivas da política burguesa. Assim, o critério se deve privatizar, estatizar ou mesmo cooperativar é o da capacidade produtiva da forma em questão aplicada em cada circunstância.

Assim, a questão por privatizar deve seguir alguns critérios considerando algumas condições aonde a forma privada revela ainda alguma energia produtiva. São elas: pluralidade, magnitude e relevância. Enquanto pluralidade ela deve ser o máximo plural possível para garantir a concorrência e seus efeitos positivos. Sua magnitude deve ser pequena, pois grandes capitais tendem a usar seu poder para corromper a ordem jurídico-política e a deteriorar, em razão de seu peso na economia, as condições macro-econômicas. E como relevância ela deve ser um valor de uso descartável, pouco relevante. Se representar um valor de uso essencial ou de base, o movimento de mercado pressionará sempre a favor da demanda, dessa forma complicando a inflação, mesmo tendo um aumento estratosférico no preço da mercadoria em questão, o consumo não se cessará para criar o refluxo, pois ele é um consumo necessário, indispensável. Por exemplo, agua, luz, alimentação, metalurgia, minérios, petróleo, etc.  Assim, na medida do possível, essas são as condições em que privatizar é importante para contribuir com a aceleração do desenvolvimento das forças produtivas.

Estatizar deve estar relacionado com o inverso: baixa pluralidade(ou monopólio), grande magnitude e alta relevância. Monopólios são danosos para as leis de mercado, pois dominando todo o mercado poderá realizar preços planificados porém, a serviço do lucro. Assim, sem o refreio da concorrência, os preços sobem permanentemente prejudicando macroeconomicamente o país, e dessa forma abafando o desenvolvimento. Por isso que os monopólios devem ser estatizados. A grande magnitude(ou o peso econômico) é espelho da argumentação do parágrafo alterior, sendo uma grande empresa com um poder econômico capaz de desequilibrar politicamente as instituições(mediante suborno, intimidação, corrupção, etc); ela estará bem guardada se estiver como propriedade pública. O caso da alta relevância é em razão de que produtos da produção de base ou mesmo de consumo necessário, tem reflexos diretos nos índices macroeconômicos; dessa forma justificando a estatização.

A cooperativação, enquanto ação de socialização direta, pode ocorrer em vários casos específicos. O caso mais comum são empresas endividadas que pedem falência, o governo nesse caso as vezes injeta dinheiro público para salvar a empresa, ou podem passar a propriedade para seus funcionários cooperativando-as, aonde renegociarão da dívida e reorganizarão da gestão são seus efeitos. A cooperativação pode ainda ser uma solução intermediária aonde a privatização e a estatização não oferecem alternativas. A cooperativação pode ainda ser uma solução superior, quando o salário mínimo em crescimento atingir um ápice que fará as pequenas e médias empresas realizarem uma espécie de arrendamento da empresas. Além da alternativa de estímulo a progressão paulatina cooperativista que vai desde a participação dos lucros, passando para a apropriação, até a auto-gestão.

Written by ocommunard

15 de setembro de 2008 at 16:28

Publicado em Cultura

Sovietes versus bolcheviques: revisão conceitual historiográfica

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Algumas questões que tratarei aqui, já desenvolvi algumas no ensaio Neojacobinismo: a autocrítica comunista. Há hoje um interessante material historiográfico e documental aberto da ex-URSS, graças a sua queda. E ele é com certeza o ponto de partida para o debate comunista atual, que não queira permanecer nas obscuras teias do stalinismo. Ele permite uma questão já realizada por muitos marxistas contemporâneos sobre a revisão conceitual da historiografia, muito influenciada seja pelas ideologias anti-bolchevistas da direita ou das pró-bolchevistas das ex-esquerdas e de algumas ainda. Quero adiantar que aqui fundamentalmente faço difusão do que muitos teóricos já realizaram(principalmente na coleção História do Marxismo), apenas em detalhes contribuo.

I – A TEORIA E A PRÁTICA : DESCONSTRUINDO LÊNIN

Diferente do que reza a cartilha stalinista, os sovietes entraram em profundo confronto com os bolcheviques, em reação as estratégias de acumulação de poder iniciada pelo partido bolchevique. A conhecida palavra de ordem de Lênin “todo poder aos sovietes” foi na prática um embuste em nome da onipotência bolchevista, respaldada por sua teoria de partido. Sua teoria de partido de vanguarda é o seguinte: 1. o expontaneísmo proletário levará no máximo a um sindicalismo. 2. cabe então ao partido de vanguarda(o bolchevique) conscientizar para o socialismo/comunismo por fora, isso quer dizer segundo ele, deve “dirigir” o proletariado. 3. Tautologicamente afirma que o partido de vanguarda são as camadas mais avançadas do proletariado, apesar de ele mesmo jamais ter sido um.

Os fatos da própria revolução russa descartaram essa tese. O proletariado russo organizou espontaneamente os sovietes, a maior contribuição teórico-prática legada pela revolução russa. Espontaneamente o proletariado russo criou os sovietes, nem sindicalismo nem partidarismo.

II – REVISÃO CONCEITUAL DA HISTORIOGRAFIA

1. Revolução bolchevique -> Revolução Soviética
A expressão “revolução bolchevique” é geralmente designada para diferenciar em essência a Revolução de Fevereiro(1917) e da Revolução Branca(1905). Também é conhecida como Revolução de Outubro, que nesse caso não apresenta nenhum equívoco conceitual. O paradoxo é que se a intenção é apresentar a organização que protagonizou a revolução, sem dúvida, o termo correto deveria ser “revolução soviética”, pois foram os “conselhos de operários e soldados” que de fato realizaram a revolução, ainda que de praxe o termo devesse ser definido como “revolução russa”, pois são os povos que fazem revoluções. Por isso, a neutralidade do termo “Revolução de Outubro” não compromete o sentido.

É importante frisar que os mencheviques já havia muito antes apoiados os sovietes, enquanto que os bolcheviques hesitaram em razão de se auto-reconhecerem como “a vanguarda” plena e última. No entanto, com o descontentamento permanente com o regime parlamentarista instituído na Revolução de Fevereiro, havia uma pressão dos sovietes para assumirem o poder(exigia que o exército os obedecesse ao invés do Estado). Primeiramente, todos os partidos foram contra, e a tese era na versão menchevique a de que a fase era da “revolução burguesa”, pois a Rússia não realizara ainda a fase capitalista, e que caberia aos sovietes agirem como oposição tática sem jamais almejar o poder. Porém, em um dado momento, com o acirramento dos ânimos, os bolcheviques apóiam a pretensão lançando a palavra de ordem: “todo poder aos sovietes”. Depois disso, os sovietes se organizaram para a insurreição e depuseram o governo vigente, seguida pela guerra civil. 

2. Regime Soviético(URSS)  -> Regime Bolchevique/Neojacobino

A expressão “regime soviético”, coadunada com a autodenominação União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, é bem mais estabelecido que o último conceito, porém, é bem mais equivocado. Sabendo que o partido bolchevique operou nada menos do que um golpe dentro dos sovietes, no abandono do que se mostrou seu maior embuste: “todo poder aos sovietes” era na verdade “todo poder aos bolcheviques”. Ou, se quiser uma conceituação mais extensa e com pretensões científicas, seria: regime neojacobino. Pelas peculiaridades comuns as revoluções do século XX(maioria camponesa, capitalismo retardatário, capitalismo de ideologia socialista, economias periféricas, etc.), e pelas transparentes identidades com o regime jacobino francês ou com todos os regimes políticos pós-revolucionários da burguesia(como o regime de Cromwell). 

3. Socialismo -> Capitalismo de Estado / acumulação primitiva.

Esse debate creio estar mais definido, porque já está muito difundido de que o socialismo da ex-URSS era somente um capitalismo de Estado, e para isso é importante relembrar a condição feudal da Rússia(ou predominantemente feudal) para perceber o caráter necessário desse Estado. Reconhecendo que o que a Rússia realizou foi uma transição para o capitalismo, portanto, uma acumulação primitiva; essa fase histórica sempre se desempenhou com um Estado forte, intenso, intervencionista, e sempre com forte teor sanguinário. Não há justificação para os extremos do stalinismo, mas a acumulação primitiva(ou em outros termos, as dores de parto do capitalismo) sempre foi banhada de sangue. O caráter neojacobino desse processo se deu com as peculiaridades dessa acumulação primitiva, ou seja, a predominância da ideologia socialista(importada da Europa) e o caráter retardatário desse processo.

Polemicamente podemos retratar que, não há economia socialista com mercado, moeda, assalariamento e, sobretudo, capital; seria uma contradição em termo. Segundo, a tese de que a URSS era socialista partiu do desmascarado ideólogo Stalin, pois Lênin e Trotsky defendiam que a URSS estaria em transição ao socialismo, mas não era socialista (a fase socialista segundo Marx se inicia com o fim do Estado). Em suma, a Guerra Fria que era reportada como socialismo x capitalismo, era apenas o conflito de duas potências imperiais querendo garantir seus interesses em zonas de influência militar e econômica, com forte teor ideológico.

4. Revolução = Regime -> Revolução e Regime

As revoluções se confundem com os regimes pós-revolucionários, o processo da revolução que é realizada como protagonismo social e sem nenhuma forma representativa, entra em decadência na fase em que se estabelece um regime que se baseia justamente no “amortecimento” social estabelecido pelo “esgotamento físico e psíquico” gerada pelas perdas materiais e humanas na guerra civil e também através de forte terrorismo, genocídio e propaganda do novo regime ascendente. A ascendência do regime(jacobino) é a prova do esgotamento e os limites históricos da revolução que é em essência capitalista. 

III – CONCLUSÃO

Concluindo, a URSS era um regime ditatorial, o lema jacobino de “despotismo da liberdade” define bem o caráter real e ideológico dessa fase. Claro que sua sustentação estava na acumulação primitiva que realizou que gerou uma prosperidade socialmente sustentável e que colocou para a posterioridade um capitalismo avançado, que em termos científicos, estaria só aí maduro para as transformações socialistas de fato.  Quando a prosperidade cai, o frágil equilíbrio políticos desses regimes evapora no ar, os levando a uma queda inevitável. A Rússia é um exemplo disso, na China quando passou por dificuldades econômicas viu nascer oposições como no protesto da Praça da Paz Celestial, e que hoje em seu pragmatismo econômico busca se manter no poder. Muitas águas rolarão no debate sobre essas transformações conceitual-historiográficas, muito teóricos já a realiza dentro do marxismo, essa “desideologização” é parte fundamental para a retomada consciente do processo de emancipação proletária e do resgate e desenvolvimento do socialismo científico.

Written by ocommunard

15 de setembro de 2008 at 13:59

Publicado em Cultura